sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Estar Junto a Si em Seu Outro; Ou: A Universalidade da Razão e a Comunidade Política

    Uma das experiências que eu tive ao ler o livro How to Be a Consevative (Como Ser um Conservador) do Roger Scruton foi justamente a sua capacidade de encontrar uma razão comum em vários pontos de vista costumeiramente considerados antagônicos e irreconciliáveis. Mais tarde eu entendi que esse tipo de abordagem vinha de suas leituras de Hegel, que é um autor necessário se você quiser ter o mínimo de capacidade para análise dos movimentos políticos modernos.

Hegel é conhecido mais pelo seu método dialético, que nem é o mais importante da sua teoria, embora constitua um momento essencial dela. O ponto mais alto, na verdade, tem a ver com o seu conceito de positivo racional, onde, segundo suas palavras, você como que está junto-a-si em seu Outro. Esse conceito, no livro do Scruton, forma como que a ossatura de todo seu ensaio. Isso é fácil de identificar pelos títulos dos capítulos - coisa difícil de engolir para o fanatizado médio em assuntos sobre política que só consegue julgar o mundo a partir de combos ideológicos fechados, os quais servem como linguagem de tipo tribal, já que garante a comunicação apenas entre indivíduos de uma determinada bolha.
O livro conta com desconcertantes capítulos como: A Verdade do Nacionalismo junto com outros capítulos como A Verdade do Socialismo, A Verdade do Capitalismo e A Verdade do Ambientalismo etc. Esse amontoado de ideias díspares, no sabedor médio, poderia ser acusado como a marca de isentismo característico, ou de uma tentativa de indiferenciação, de um 'obscurecimento da razão', levando àquele ambiente escuro onde, pela ausência da luz pela qual notamos as diferenças nas coisas, todos os gatos são pardos - coisa que Hegel chama de sofistaria ou má-dialética.
Mas o que Scruton retira exatamende de Hegel, e por que ele está correto quando faz isso? A noção, que em um primeiro momento parece complexa, de que a posse da razão é como estar junto a si em seu Outro, nada mais quer dizer que o compartilhamente universal de uma mesma razão por entes distintos - o que, de resto, reduz a nada a distinção entre sujeito e objeto. Ora, a característa da verdade é ser justamente isso, universal, ou seja, uma verdade que é aqui deve ser, também, em todos os lugares, e sob o mesmo aspecto, a mesma. A ênfase de que, por exemplo, o ambientalismo, considerado esquerdista, serve a uma posição quando a conservação da dignidade humana, pode ser uma verdade universal compartilhada entre diferentes, e um direitista que encherga um esquerdista como um Outro, pode, pelo compartilhamento dessa razão comum, estar junto a si mesmo, porque reconhece no outro a razão que lhe é própria. Aliás, é justamente neste reconhecimento (palavra essencial para a Filosofia do Espírito de Hegel) que tem início a sociedade civil, e a impenetrabilidade entre diferentes (que impede o reconhecimento), onde só existe a diferença que caracteriza o modo de ser da pedra, é onde se inicia a desagregação da sociedade.
Talvez a tarefa do filósofo inglês neste livro tenha sido a tentativa de resgate da razão e das categorias universais para o debate político diante de uma escalada de oposicionismo na política inglesa. Essa razão é como que o fundamento de possibilidade do reconhecimento e, por tanto, é a possibilidade de sustentação da sociedade civil e a garantia de uma não recrudecimento em um tribalismo - hoje algoritmicamente criado - hostil que reduz o homem, enquanto 'Outro de mim', à brutalização, a um mero dado da natureza, um particular e, como as pedras, constituído como uma coisa ao lado de coisas. Ao contrário disso, a boa comunidade humana somente é possível quando o homem vence seu estado bruto e se põe acima da mera naturalidade, do mero 'um-ao-lado-do-outro', e vem a ser como espiritual, como um ser de razão, que pode encontrar na substância universal da Razão a possibilidade de comunhão, reconhecimento, possibilitando o estar junto-a-si em seu Outro. Sem isso tudo é absoluta diferença, e com isso todas as coisas são apenas contradição, absoluta oposição e violência.

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