Quando Jesus disse a respeito do Príncipe deste Mundo que ele nada tinha de Cristo (Jo 14.30), devemos entender que o 'modo de ser' deste 'príncipe'. modo de ser que conforma o 'mundo', o cosmo atual, está totalmente em desordem em relação ao fim último de toda criatura, que é Deus. É nessa via de consideração que devemos também ler 1Jo 2.15-16, pois a repreensão apostólica ao amor ao mundo também indica os distintivos desse amor, pois amar este mundo (que não é o mundo criado, mas o modo de ser insubmisso a Deus) implica aliança, estreitamento de coração com a consupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, todas essas deformações do espírito, anomia, desordem e agressão à lei divina. É a forma do existir desordenado que qualifica aquele no qual o amor do Pai não está presente.
A compreensão do estado atual da humanidade como formada (ou deformada) pela concupiscência (ἐπιθυμία - epithūmía) indica uma das razões pelas quais ela também permanece sob a ira divina - já que o mundo não tem o amor do Pai. O apóstolo diz: Não ameis o mundo, pois há flagrande abismo entre o mundo e o Deus Criador de todas as coisas. Não há dialética nessa oposição, não há um medium, não há dissolução dos polos em um terceiro momento, um ponto de intersecção: aqui ou prevalece o mundo, ou prevalece Deus. Entre Deus, o homem e o pecado, o pecado é o terceiro excluído para Deus.
É justamente aqui que concentramos o nosso ponto de vista, e é aqui que triunfa o pensamento da Reforma. Pois ao tratar a concupiscência não meramente como o 'material do pecado' (fomes), mas como pecado ele mesmo, fazemos justiça, por exemplo, ao texto Paulino, que citando o Mandamento Não cobiçarás (Οὐκ ἐπιθυμήσεις - Oūk epitūmēseis) afirma que o pecado (αμαρτία - amartía), tomando ocasião pelo mandamento (não cobiçarás), despertou toda a concupiscência latente e matou aquele que reconheceu o pecado pelo conhecimento do mandamento. Toda a involuntariedade está na reflexão Paulina, e a só vida da concupiscência, sua presença no homem, é visualizada em toda a sua problemática carreira. Ora, o fazer o mal que não se quer está no apóstolo (como em nós), não o operar o bem que se quer. O clamor pela salvação e a o lamento pela posse do corpo da morte não teria sentido em Rm 7.24 se a prisão quanto ao pecado só fosse considerada em seu aspecto voluntário.
Como bem observou a teologia reformada e luterana, é um equívoco considerar o voluntário como o constitutivo formal do pecado. A recente querela em torno da questão, de que se o simples desejo é pecaminoso (o que atinge aqui homossexuais e heterossexuais), e a minimização de sua seriedade é mais um dos sintomas do abandono de toda a consideração bíblica, apostólica e reformadora a respeito da condição problemática do homem frente a Deus, e de sua insubmissão antes anti-natual, agora tornada natural, e que inere ao homem como sua condição atávica. Que o texto da escritura prova isso, basta ver Lv 5.3,5-6, que afirma que a contaminação involuntária traz não meramente a impureza cultural, mas a própria culpa do pecado (השם), vindo aquele que se contamina involuntariamente (καὶ αὐτὸς οὐκ ᾔδει - sem o saber) a incorrer em pecado (πλημμελήσῃ - no texto da LXX). O texto é tão assertivo quanto a esse juízo que a forma de se livrar da contaminação é, em Lv 5.5, a confissão da culpa (ἐξαγορεύσει τὴν ἁμαρτίαν - ele confessará o pecado, ou וְהִתְוַדָּה אֲשֶׁר חָטָא - se confessará pelo que transgrediu), e em Lv 5.6 o oferecimento de um sacrifício pelo pecado (ἁμαρτίας ou חַטָּאת - no hebraico hatta' significa transgressão assim como sacrifício para a transgressão).
Dado esse contexto, resta inútil a especulação a respeito dos pecado veniais, desculpáveis por natureza, já que tal consideração é muito afeita a um tipo que é próprio para uma reta compreensão a respeito de justiça civil, cujo juízo não alcança os corações, mas apenas os atos. Ao contrário disso, falamos de justiça teológica, aquela que se compreende à luz da absoluta santidade de Deus, aquela que foi grandemente compreendida pelo gênio religioso de Lutero, pois entendia que a desordem dos afetos era a Deus plenamente ofensiva. Com consciência, junto com Paulo, Lutero poderia dizer: "Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo dessa morte?!", um clamor que certamente poderia pender bambo na boca de um Pelágio, de um Juliano (Pelagiano), de um Guilherme de Ockam, de um Gabriel Biel ou de um renascentista cultor da beleza física, cuja mente foi vitrificada na unilateralidade do mundo exterior.
Dessa consideração antropológica flui todo o juízo de Lutero a respeito da 'justificação forense', de que somos justificados epenas pela Obra de Cristo, aquele que levou sobre seu corpo o castigo dos nossos pecado, e nós aqueles que fruem as bençãos da Sua própria justiça (e se somos o Corpo de Cristo, temos sobre nós toda honra e justiça de Cristo). Não é estranho que os mesmíssimos que abandonam essa concepção profunda de justiça e de pecado, logo na próxima linha estejam defendendo uma justificação pelas obras. Não que isso esteja longe da potência de Deus - de nos fazer justos -, mas que a nossa justificação consista nisso, eis um erro categorial que não considera em toda sua extensão e significado a experiência cristã pós-regeneração, pois quem assim afirma se faz de cego, não na teoria, mas na prática, ignorando que as feridas do pecado, a concupiscência e a desordem do espírito permanece juntamente conosco enquanto estamos nesta vida. Isso até mesmo faz Deus pelo nosso bem, pois do mal da desordem da nossa natureza Ele saca de nós o bem da confissão, ou seja, de que sem Ele nós nada podemos fazer (Jo 15.5).