Um dos grandes presentes para a história do pensamento deixados pelo idealismo foi a reflexão sobre a relação entre as formas de consciência, as formas de conhecimento e a filosofia da história. O desdobramento consequente que associou ontologia e gnoseologia/epistemologia não demorou muito a aparecer. Uma obra que explicitamente faz essa associação em tempos mais recentes é a 'Ontologia do Ser Social' de György Lukács, muito embora esse tipo de reflexão seja possível de ser rastreada desde Platão, que na República, p.ex., diferenciava o filósofo da ralé que seguia o tirano justamente pelo tipo de objeto que a razão atingia ou era mais afeita, já que o nous, ao atingir a forma do bem, revelava o quão desprezível eram os interesses pequenos daqueles agrilhoados à caverna; e o populacho vil, ao ser afeito meramente ao sensível, era direcionado pelo desejo caótico aos objetos distanciados da razão. A colisão dos mundos, distinguidos pelos objetos de atenção, revelou-se aqui inevitável.
Embora a escola marxista tenha se valido desse tipo de reflexão, desenvolvendo a teoria da consciência de classes, a verdade é que a distinção de grupos com base na distinção dos tipos de consciência é algo muito mais antigo na filosofia, e independe dessa teoria. A despeito dos protestos dos liberais contra o 'polilogismo', mesmo na teologia a distinção entre 'homem natural' (ανθρωπος ψυχικος) e 'homem espiritual' (ανθρωπος πνευματικως) traçada apor Paulo destaca grupos distintos, marcados por distintos tipos de consciência, um dos quais julga que 'as coisas do espírito são loucura' (1Co 2.14). Ora, comunidades distintas são formadas por comunidades de fins distintos, e fins imprimem formas às vontades e é a forma da vontade que determina a um certo tipo de ação no mundo - o que nos permite visualizar os conflitos entre grupos como, eminentemente, conflito entre fins.
A filosofia idealista, ao distinguir os níveis de realidade como níveis de consciência, também lançou muita luz sobre essa questão. Ao descrever a distinção entre a natureza e o eu, Schelling, inspirado em Ficht (e sua Wissenschaftslehre, ou 'Doutrina da Ciência') destaca, corretamente, que a mera natureza não é capaz de auto-intuição, e que mesmo que possua razão (pois contém leis, sendo capaz de ser logicizada pela ciência), a possui em um modo cristalizado. A distinção entre natureza e o eu não é, por tanto, a posse ou não da razão, mas sim a capacidade de auto-intuição. Só aquele que é também espírito pode dizer 'eu', e eu é reflexão, é não meramente saber, mas saber sobre o saber. Assim, aquilo que é razão na natureza se torna consciência no homem adulto - pois aqui a razão sabe sobre seu saber.
Hegel, avançando nas distinções já desenvolvidas por Schelling, sistematizou os níveis de consciência como derivados dos níveis do desenvolvimento lógico da Ideia. Ele distingue as coisas como coisas 'em-si', 'para-outro' e 'em-si-e-para-si', que analogicamente podem corresponder à distinção entre ser, natureza e consciência. Não cabe nos limites deste texto fazer a descrição exaustiva da doutrina hegeliana sobre o desenvolvimento lógico da ideia (o que seria impossível), bastando que a elucidação parcial desta doutrina lance luz sobre o tema da alienação e da consciência, tornando possível visualizar uma chave de interpretação a respeito de certos movimentos no mundo.
Se formos remontar à filosofia da natureza de Schelling, a natureza é a potência universal indivisível da realidade. Dessa potência única se desdobram outras tantas potências, que no fundo não seriam distintas, mas modos de manifestação do único absoluto. Nada há na natureza que não esteja também no espírito, mas os modos de efetivação no mundo são outros. Como dizemos mais acima, a natureza também possui razão, e mesmo a potência da consciência. Servindo de analogia, a criança, como refletiu Aristóteles, também é 'homem-em-si', mas só o adulto é 'em-si-e-para-si' - e nesse sentido a criança está mais próxima da natureza crua (por ser um mero mundo de intuições naturais e potências) do que um adulto que já possui sua natureza desenvolvida e, por assim dizer, desdobrada. Mas o espírito se distingue da natureza efetiva (não a universal) não por ser algo meramente desenvolvido, mas sim por ser a 'natureza idealizada'. A natureza efetiva, a pedra, não é capaz de consciência, mas é capaz de ser negada (idealizada) e trazida à idealidade pelo espírito que reflete sobre si. A pedra, por assim dizer, se torna um 'eu' na mente reflexiva e assim, a natureza é, como diria Hegel, 'espírito alienado', ou seja, 'espírito que é para-o-outro'. Desse modo a criança está mais próxima da natureza efetiva por ser um mundo de intuições e potências', e não um mundo da liberdade efetiva, estando, assim, sujeita a outro e a um outro que pode tutela-la porque dotado de razão.
Todo o modo de reflexão de Aristóteles a respeito do polêmico conceito de 'escravo por natureza' pode ser aqui esclarecido, pois na Ética a Nicômaco o 'escravo por natureza' é descrito como o homem que não pode guiar a si mesmo, possui mera consciência natural como o homem que tem potência para a razão, mas que não tem o ato da razão - e como para governar é necessário a razão em ato, logo o 'escravo por natureza' é aquele que precisa da tutela de outro, não sendo capaz de autonomia, já que desprovido de razão. Assim, o 'escravo por natureza' é espírito alienado, é 'para-outro' (ad alliud), não sendo alguém que se servirá para o 'seu próprio fim', mas para 'o fim de outro' - já que seus fins o conduzirão para a própria destruição, ou, se submetido aos fins de outro logrará maior êxito para a sua própria vida. O modo de consciência do escravo por natureza é de um 'ser-para-outro'.
Se engana quem entende que por escravo estamos nos referindo ao escravo legal, pois mesmo o homem livre de direito, desde que atado aos objetos inferiores da realidade, não é ainda homem livre de fato. O homem orientado apenas ao sensível, espicaçado pelas paixões baixas, ou meramente voltado para a auto-satisfação, ainda é um 'homem alienado' - e é homem alienado porque desviado do universal, porque preso apenas ao particular. E mesmo que estivesse no topo do mundo, com poder sobre ele, seria ele um tirano, não um rei - seu governo seria despótico, movido pela particularidade do arbítrio, não um governo político, submetido à universalidade da lei e da razão. Como diria Aristóteles: grande calamidade é o poder com a injustiça - e a justiça é o dever-ser do mundo (mundo idealizado); não é acessada pela consciência afogada no sensível, mas apenas à consciência que atinge o universal e o inteligível.
Diante dessa consideração não é difícil chegar à conclusão que o caótico se dá na esfera humana pois o homem é capaz de idealizar e universalizar o particular, ou de se perder no particular, ou por não concluir a justa relação entre o real e ideal. Por isso a maldade que vemos no homem de fato só por analogia podemos atribuir aos animais, pois só pelo juízo é que o homem pode alcançar a maldade. Também só no homem é repreesível a ocupação constante com a efemeridade e o abandono do permanente. Só o homem é capaz da 'demência', quer seja ela a mania (quando eleva persistentemente uma impressão particular e errada da realidade à universalidade), apatia (quando despreza o sensível e se perde no inteligível de maneira a desprezar toda relação com o mundo) ou tagarelice (quando passa de uma impressão à outra sem se ancorar em nada). Em todos esses casos o homem não é só natureza, mas doença do espírito, pois não atinge a justa relação, pela razão, com o esfera do real.
Se dermos uma olhada na busca constante por satisfação em redes sociais, em storyes ou reels de 5 min., no vício universal com entretenimento e dopamina, no afastamento da consciência sobre o próprio lugar no mundo, nos feiticeiros que com informações falsas afastam mais e mais consciência e realidade do que a aproxima (que é a doença política dos nossos dias), vemos aqui o avanço da selvageria dos bem-vestidos e alimentados do nosso mundo. As redes sociais que deveriam universalizar a informação, hoje universalizam o erro em uma escala nunca antes vista, decidindo o destino de nações e continentes inteiros. Obviamente que o meio físico das redes sociais não é algo bom ou mal em si mesmo - mas obviamente potencializam o alcance das distorções da natureza humana, por assim dizer. Universalizam mais rápido a alienação, e eclipsando a razão eclipsam o órgão do conhecimento da realidade. E como cada alienação, como diria Hegel, é superada pela compreensão completa do seu sistema, então os baixos interesses potencializados hoje em dia com o aumento da técnica, mais empurram o homem, paradoxalmente, para a não realização da sua liberdade. Assim diferenciamos a forma da consciência do sábio, do homem capaz de autonomia, do homem que é para-si daquela forma de consciência do escravo, que jamais é para si, para seu próprio auto-governo, mas é sempre para-o-outro.
Toda vez que você estiver há meia-hora travado em uma sequência de storyes ou reels, excitado por um tipo de satisfação imediata, lembre-se que você está executando exatamente a operação que pertence a um escravo por natureza.