O conceito de teonomia, intoxicado atualmente pelo reconstrucionismo cristão, possui um significado mais amplo do que a estreita noção de aplicação das leis mosaicas à esfera civil - como apregoado por Rushdoony. Um outro uso do termo está ligado à noção de teonomia mística de Paul Tillich, muito associado ao movimento idealista alemão e às reflexões sobre a relação entre liberdade e razão presentes nas obras de Kant, Fichte, Shelling e Hegel. Basicamente a teonomia mística de Tillich trabalha com os conceitos de estrutura e profundidade da razão, conceitos que, antes de tudo, são entrelaçãdos a outros conceitos ontológicos (ou seja,que dizem respeito à estrutura do ser, tanto em seus elementos realista quanto idealista), já que cada conceito aqui funciona como um elemento estrutural dentro de um círculo concêntrico, onde as partes mais exteriores do sistema conversam com as partes mais interiores, havendo não apenas uma simples relação de informação entre as partes (como elementos que se 'conversam entre si' dentro de um sistema), mas sim de semelhança estrutural (no sentido dos antigos que diziam que o universo só é compreensível porque possui 'razão em si', e o homem só o compreende porque é um micro-universo onde a razão chegou à diferenciação ao tornar-se razão reflete sobre si - ou seja, que atinge a consciência).
Essa apresentação parcial do conceito de teonomia em Tillich parece tão exótica à compreensão do Rushdoony de teonomia que, antes de mais nada, é necessário considerar esses dois pontos de vistas como mutuamente excludentes. Tillich, aliás, consideraria o conceito de teonomia dos reconstrucionistas como, na verdade, aquilo que ele chamou de heteronomia, pois, por ser unilateralizante e por pôr o acento na autoridade legal da lei mosaica, essa lei se forçaria de forma exterior ao indivíduo (heteros = outro; nomos = lei), e assim, por princípio, como qualquer lei de estado, ela seria indiferente à conformação subjetiva do indivíduo à lei, sendo um conceito eminentemente político e não um conceito 'místico' - que une em um os polos idealista e realista, subjetivo e objetivo do ser (ou do mundo).
O conceito de teonomia, antes dos reconstrucionistas, era pensado como refletindo uma realidade escatológica, não um modelo político. É um conceito que diz respeito à realidade última, crítica, por tanto, e que aponta para a superação dos aspectos autônomos e heterônomos da razão - aspectos unilaterais que se refletem na história, como, por exemplo, em movimentos anarquistas de autonomia extrema, e movimentos totalitários de heteronomia extrema. Os polos dos movimentos históricos refletem conflitos no âmago do homem e as feridas da sua razão e vontade. O estado de teonomia seria, por tanto, o de superação dos aspectos unilateriais da autonomia e da heteronomia, e resultaria em formas culturais (e políticas também - já que a política é um dado da cultura humana) transparentes ao fundamento do ser, assim como, analogamente, na encarnação Jesus é transparente à substância absoluta da realidade, que é Deus.
A importância do conceito de teonomia em Tillich é que a teoria que ele embasa se preocupa de forma global com o homem em sua unidade humana com Deus, e isso de pronto exclui a violência heterônoma que lança, por assim dizer, Deus como uma pedra aos outros, mas que também exclui a destruição fantasiosa, até iconoclasta, daqueles que pensam poder moldar a realidade segundo sua subjetividade atrofiada. Em um caso como outro a destruição, o abuso contra a realidade são prevenidos, pois cada elemento polar dessa relação (da subjetividade e da objetividade, da autonomia e da heteronomia) não são tratados como realidades completas e acabadas em si mesmas, mas como fragmentos destacados de mundo, destacados do mundo, que assim são por causa da fratura no ser que nós cristãos nomeamos como pecado (que é esse desacerto compulsivo entre os elementos não reconciliados e conflitantes da realidade).
Para todo esse estado de fragmentação, visível nas formas culturais, políticas, religiosas etc., a única resposta não pode surgir de mais ações que partem desse mesmo estado de fragmentação, mas deve ser dado de fora, vindo alto como que descendo dos céus eternos e se encarnando na realidade, ou mesmo emergindo do abismo do ser ressuscitando dos cacos da história, ou invadindo nossas casas pelas janelas da realidade como um vento impetuoso; deve ser por como uma cura dada a nós por um salvador que não é nenhum de nós, mas que é o mais íntimo do mais íntimo de nós, expulsando as trevas com as quais, por culpa nossa, damos voluntariamente de mãos, criando por isso uma prisão intransponível. Não é uma resposta que vem de um arranjo político forçado goela abaixo, e nem mesmo da atuação isolada daqueles que, à semelhança de um homem em um buraco, buscam sair daí puxando a si mesmos pelos cabelos. Para Tillich a resposta é um dom, um dom que se dá a si mesmo e que, como Agostinho dizia, faz com que aquilo que seja dado a nós como vontade de Deus surja no coração do homem como vontade que quer e ama a Deus, amando também o homem a si mesmo em Deus.
A resposta contra a fragmentação violenta da realidade, contra a mão de todos contra todos, e a mão de todos contra si mesmos, é é teonomia: é a humanidade, no seu ser e existir no mundo, se tornando transparente para o seu próprio fundamento - é ser, de fato, imagem de Deus - e com Deus - no mundo.
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