quarta-feira, 11 de março de 2026

É o Desejo Desordenado Um Pecado, Além do Próprio Ato do Pecado?

    Quando Jesus disse a respeito do Príncipe deste Mundo que esse nada tinha de si (Jo 14.30), devemos entender que o modo de ser deste príncipe, modo de ser que conforma o mundo, o nosso cosmo atual, está totalmente em desordem em relação ao fim último de toda criatura, que é Deus. É nessa via de consideração que devemos também ler 1Jo 2.15-16, pois a repreensão apostólica ao amor ao mundo também indica os distintivos desse amor, pois amar este mundo (que não é o mundo criado, mas o modo de ser insubmisso a Deus) implica aliança, estreitamento de coração com a consupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, todas essas deformações do espírito, anomia, desordem e agressão à lei divina. É a forma do existir desordenado que qualifica aquele no qual o amor do Pai não está presente.

    A compreensão do estado atual da humanidade como formada (ou deformada) pela concupiscência (ἐπιθυμία - epithūmía) indica uma das razões pelas quais ela também permanece sob a ira divina - já que o mundo não tem o amor do Pai. O apóstolo diz: Não ameis o mundo, pois há flagrande abismo entre o mundo e o Deus Criador de todas as coisas. Não há dialética nessa oposição, não há um medium, não há dissolução dos polos em um terceiro momento ideal, um ponto de intersecção: aqui ou prevalece o mundo, ou prevalece Deus. Entre Deus, o homem e o pecado, o pecado é o terceiro excluído para Deus.

    É justamente aqui que concentramos o nosso ponto de vista, e é aqui que triunfa o pensamento da Reforma. Pois ao tratar a concupiscência não meramente como o 'material do pecado' (fomes), mas como pecado ele mesmo, fazemos justiça, por exemplo, ao texto Paulino, que citando o Mandamento Não cobiçarás (Οὐκ ἐπιθυμήσεις - Oūk epitūmēseis) afirma que o pecado (αμαρτία - amartía), tomando ocasião pelo mandamento (não cobiçarás), despertou toda a concupiscência latente e matou aquele que reconheceu o pecado pelo conhecimento do mandamento. Toda a involuntariedade está na reflexão Paulina, e a só vida da concupiscência, sua presença no homem, é visualizada em toda a sua problemática carreira. Ora, o fazer o mal que não se quer está no apóstolo (como em nós), não o operar o bem que se quer. O clamor pela salvação e a o lamento pela posse do corpo da morte não teria sentido em Rm 7.24 se a prisão quanto ao pecado só fosse considerada em seu aspecto voluntário.

    Como bem observou a teologia reformada e luterana, é um equívoco considerar o voluntário como o constitutivo formal do pecado. A recente querela em torno da questão, de que se o simples desejo é pecaminoso (o que atinge aqui homossexuais e heterossexuais), e a minimização de sua seriedade é mais um dos sintomas do abandono de toda a consideração bíblica, apostólica e reformadora a respeito da condição problemática do homem frente a Deus, e de sua insubmissão antes anti-natual, agora tornada natural, e que inere ao homem como sua condição atávica. Que o texto da escritura prova isso, basta ver Lv 5.3,5-6, que afirma que a contaminação involuntária traz não meramente a impureza cultural, mas a própria culpa do pecado (השם), vindo aquele que se contamina involuntariamente (καὶ αὐτὸς οὐκ ᾔδει - sem o saber) a incorrer em pecado (πλημμελήσῃ - no texto da LXX). O texto é tão assertivo quanto a esse juízo que a forma de se livrar da contaminação é, em Lv 5.5, a confissão da culpa (ἐξαγορεύσει τὴν ἁμαρτίαν - ele confessará o pecado, ou וְהִתְוַדָּה אֲשֶׁר חָטָא - se confessará pelo que transgrediu), e em Lv 5.6 o oferecimento de um sacrifício pelo pecado (ἁμαρτίας ou חַטָּא - no hebraico hatta' significa transgressão assim como sacrifício para a transgressão).

    Dado esse contexto, resta inútil a especulação a respeito dos pecado veniais, desculpáveis por natureza, já que tal consideração é muito afeita a um tipo que é próprio para uma reta compreensão a respeito de justiça civil, cujo juízo não alcança os corações, mas apenas os atos. Ao contrário disso, falamos de justiça teológica, aquela que se compreende à luz da absoluta santidade de Deus, aquela que foi grandemente compreendida pelo gênio religioso de Lutero, pois entendia que a desordem dos afetos era a Deus plenamente ofensiva. Com consciência, junto com Paulo, Lutero poderia dizer: "Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo dessa morte?!", um clamor que certamente poderia pender bambo na boca de um Pelágio, de um Juliano (Pelagiano), de um Guilherme de Ockam, de um Gabriel Biel ou de um renascentista cultor da beleza física, cuja mente foi vitrificada na unilateralidade do mundo exterior.

    Dessa consideração antropológica flui todo o juízo de Lutero a respeito da 'justificação forense', de que somos justificados apenas pela Obra de Cristo, aquele que levou sobre seu corpo o castigo do nosso pecado, sendo nós aqueles que fruem as bençãos da Sua justiça (e se somos o Corpo de Cristo, temos sobre nós toda honra e justiça de Cristo). Não é estranho que os mesmíssimos que abandonam essa concepção profunda de justiça e de pecado, logo na próxima linha estejam defendendo uma justificação pelas obras. Não que isso esteja longe da potência de Deus - de nos fazer justos -, mas que a nossa justificação consista nisso, eis um erro categorial que não considera em toda sua extensão e significado a experiência cristã pós-regeneração, pois quem assim afirma se faz de cego, não na teoria, mas na prática, ignorando que as feridas do pecado, a concupiscência e a desordem do espírito permanecem juntamente conosco enquanto estamos nesta vida. Isso até mesmo faz Deus pelo nosso bem, pois do mal da desordem da nossa natureza Ele saca de nós o bem da confissão, ou seja, de que sem Ele nós nada podemos fazer (Jo 15.5).

quarta-feira, 4 de março de 2026

A Impostura da Doutrina da Intercessão dos Santos

    Um dos primeiros cristãos a realizar uma especulação mais abrangente sobre a comunhão dos Santos e a relação deles com a oração foi Orígenes de Alexandria (Sec. III d.C.). Em certas passagens, como no Contra Celso, Orígenes afirma até uma comunhão de oração com os anjos, excluindo, no entanto, qualquer possibilidade de oração dirigida a eles, mesmo na qualidade de simples intercessores.

    Orígenes assim destaca:

    "Pois invocar os anjos sem ter recebido a seu respeito uma ciência que ultrapassa o homem não é razoável [e Orígenes não diz aqui que há uma ciência a ser recebida para invocá-los, mas sim que é tolice fazer essa invocação, pois se recebêssemos a ciência celeste, não cometeríamos tal ato ilícito. É essa a razão da explicação que se segue]. Mas suponhamos, por hipótese, que tenhamos recebido esta ciência maravilhosa e misteriosa: esta ciência em si mesma leva ao conhecimento da natureza dos anjos e dos ofícios confiados a cada um deles e não permitirá que ousemos orar a qualquer pessoa a não ser ao próprio Deus supremo, que a tudo pode satisfazer perfeitamente, por meio de nosso salvador, o Filho de Deus, que é logos, sabedoria, verdade e tudo o que dele afirmam as escrituras dos profetas de Deus e dos apóstolos de Jesus" (Contra Celso. Livro V, § 4 e 5)".

    Orígenes também trata, em seu Tratado Sobre a Oração, da comunhão de oração que universalmente une a igreja, para ele composta dos vivos, mortos e anjos. Contudo, não se segue que da comunhão universal de oração se conclua que devemos orar uns aos outros - coisa que o Pe. Paulo Ricardo, por exemplo, confunde com o orar uns pelos outros preceituado pela Escritura (Tg 5.16). Orar pelos outros - que é interceder por eles - está a uma eternidade de distância de orar aos outros.

    Não é errado dizer que os santos que já se foram oram e adoram, mas seria uma presução de milagre, e um erro de categorias, achar que infalivelmente às almas seja atribuído o ofício de acolher orações a elas destinadas. Ora, aquele que foi prometido estar conosco, o Espírito Santo, para que o santo ouça, já deve ter antes ouvido a nossa oração para remete-la aos santos. Ou seja: para que o santo nos ouça, é necessário Deus já ter atendido a nossa oração antes intervindo milagrosamente (por questão de conceito, uma alma não pode nem ouvir, nem ver, pois lhe falta os sentidos que a liguem ao mundo exterior - e se 'ouve' e 'vê', é como se Deus olhe infundisse espécies diretamente na alma). Para doutrina a católica romana ser consequente, só a repristinação da velha doutrina gnóstica dos níveis de honra para a ascesnão às esferas superiores poderia vir em socorro, além de um tipo de sobrenaturalismo desnecessário que é contrário à Escritura e à plenipotência do sacrifício de Cristo, acrescentando uma camada de complexidade na nossa relação com Deus que antes de auxliar na comunhão com o Senhor, nos repele dela - como se a relação com Deus se fizesse em uma cadeia de nós que liga o inferior terreste, passando por camadas intermediárias, até a Deus.

    Aqueles que antepõe a essa objeção a necessidade de comunhão, que seria fortalecida pela doutrina da intercessão dos santos (e esse nome que designa a doutrina diz menos do que ela realmente é), a isso objetamos que existe apelo apostólico na Escritura mais do que o suficiente que nos conduz à comunhão - que é desejo do Espírito Santo -, à comunhão pública e congregação para a oração, adoração, e celebração dos sacramentos. Uma das justificativas de Moisés para a libertação dos filhos de Jacó do Egito foi que eles fossem libertos para sacrificar no deserto (Êx 2.18); também a escritura exorta: não deixem de congregar (Hb 10.25). Existe um sentido para o culto comum, para a congregatio fidelis, pra a união universal para a oração e adoração, que em nada depende desta doutrina que pede para orarmos aos santos falecidos e aos anjos, doutrina que também parece ignorar o sentido da própria oração que, em ato, não pode ser diferenciada de um ato de adoração à qual se presta exclusivamente a Deus e que se faz únicamente em Deus (que só tem efetividade e realidade por participação n'Ele).

    E para finalizar, mesmo relevando a estranheza da doutrina de Orígenes quanto a consideração dos astros como seres de razão, essa passagem esclarece muito o sentimento do culto cristão da sua época:

    "Sem dúvida, não desacreditamos estas imensas criaturas de Deus, nem dizemos com Anexágoras que o sol, a lua e as estrelas são apenas 'massas inflamadas', se professamos nossa doutrina sobre o sol, a lua e as estrelas. É apenas compreender a divindade de Deus que tudo ultrapassa com indizível superioridade, e a do Filho de Deus único que ultrapassa tudo mais. E quando estamos persuadidos de que o sol, a lua e as estrelas oram ao Deus supremo por meio do seu Filho único, julgamos que não devemos orar aos seres que oram: eles mesmos preferem nos remeter ao Deus a quem eles oram, e não nos abaixar até eles ou partilhar de nosso poder de oração entre Deus e eles mesmos" (Contra Celso V, § 11).

domingo, 1 de março de 2026

Matando e Prestando Culto a Deus

    Há uma tentação que circula entre os cristãos cuja consumação resulta na aceitação pública daquilo que Jesus negou no deserto. Quando Satã prometeu a Cristo o domínio sobre todos os reinos deste mundo, sob o preço de prostrado adora-lo, foi por amor a nós que Jesus resistiu e destroçou a tentação com a Espada do Espírito, ou seja, opondo à tentação a declaração do mandamento: "Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a ele darás culto" (Lc 4.8 ).

    Satanás pode modificar os meios, diversificar os símbolos, mas o sentido da sua ação é sempre o mesmo. De um modo um tanto quanto distinto, a prostração a Satanás ganha outros contornos, mas exige sempre o mesmo sacrifício: a rendição da alma, dos princípios, da decência; mas a oferta, o 'ganhar o mundo', continua ser ainda a grande recompensa, o que não é meramente circunscrito à satifação de prazeres sexuais, como está cristalizado no imaginário comum de um cristianismo neurótico, pois o fundamento do pecado, e mesmo o principal deles, tem uma forma e um gozo exclusivamente espirituais.

    O desejo de exercer potência, gozar de grandeza, ou mesmo a ambição por honra, reconhecimento e prestígio imortais, é a característica da vida meramente performática e exterior que conduziu os farizeus (talvez sexualmente abstêmicos - ou francamente adúlteros - Deus o sabe) ao pecado do espírito. Posso aqui até me permitir uma abstração, dizendo que a relação entre Jesus e os farizeus pode nos servir de símbolo, o símbolo que expressa até onde vai uma corrupção do espírito contra a verdade, humildade e decência, nem que para o livre desenvolvimento da corrupção seja necessário matar o Verbo da Vida, o Logos, a Palavra de Deus viva e encarnada em nossos corações.

    Muitos pecados são cometidos em nome de Deus, e o fariseu é a simples concentração do orgulho em sua efetividade mais sombria, a figura sensível do que seria o pecado do espírito. E é difícil - talvez seja uma das operações mais difíceis - discernir o pecado daqueles que, mesmo matando, dizem prestar culto a Deus (Jo 16.12) - e isso porque muitas pessoas querem um fim, e poucas estão dispostas a julgar os meios que qualificam a aquisição desse fim. A tentação, para lembrar os dias de hoje, de matar para libertar um povo para a fé, nem que para isso se transgridam leis, se destrocem a confiabilidade das nações, se viole a leis do próprio país (sim, estou falando dos Estados Unidos), se produza ressentimento, e tudo contando com endosso incondicional de cristãos, é uma desses episódios tristes onde muita destruição é feita, mas pouco escrúpulo é observado. E a cada dia um limite a mais é atravessado, e um consentimento a mais é pedido, e a cada ato a alma vai sendo migrada para um espectro mais tenebroso da realidade.

    Há um detalhe importante em tudo isso: existe a real sensação de que os cristãos, como o Franklin Graham deixa bem claro em seu agir no mínimo polêmico, de que eles estão piedosamente avançado sobre a história, e o método consiste em que a cada bombardeio uma oração é elevada aos céus, a cada muçulmano morto um pouco do reinado celeste ganha concreção terreste, que a cada minuto, como dizia Lutero, o grande sacedote assume mais um pouco a função da espada, e o governante assume a função de anunciador do evangelho, onde cada vez mais a cruz assume, na boca desses, a forma de uma espada e a espada ganha os contornos sagrados de uma cruz. A cruz romana que foi cristianizada por Cristo agora é romanizada por cristãos. Com tudo isso, um pouco mais do mundo vai sendo ganho e nem sabemos ao certo quem é o princípio espiritual que põe tudo isso em marcha. Talvez ele esteja apontando para o ganho do mundo e sussurrando aos ouvidos: 'se prostrado me adorares'.

    A tentação aqui ganha um pouco mais de complexidade - que é a forma preferida da armadilha contra incautos -, quando o tirano lava sua honra no sangue do tirano. Se o regime iraniano nos causa estranhamento, e mesmo indignação, nem por isso estamos na obrigação de abraçar necessariamente aqueles que dizem atuar, 'per fas et per nefas' (por meio lícitos e ilícitos), para combate-lo - e estejam certos que não fazem isso, em absoluto, por nenhum de nós. Você que espera seu espólio, certamente se verá de mãos abanando.

    Ainda não inventaram bombas com juízo moral, que atingem somente criminosos dignos de morte e julgados por Deus. A bomba é um ente desinteligente, não livre como os entes da natureza, e que só muda seu curso natural por aquele que é mais livre do que ela. Se deixa-la parada, atuará com inércia. É por isso que cada ato de violência, que mesmo potencializada pela tecnologia dificilmente pode ser controlada, deveria bater de frente contra nossos escrúpulos e não encontrar em nós um sorriso, aberto ou de canto, cujo significado nos concede alegria e satisfação.

    Os cristãos estão muito bem preparados para se opor àqueles que os tentam através de ameaças e violência. Mas estão pouquíssimos preparados para aqueles que os desviam com lisonjas.

Que seja Deus, e não os senhores deste mundo, Aquele que nos conceda o nosso galardão.
Amém!