quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Razão, Reação e Moderniadade

    Uma das coisas que uma visão mais existencialista sobre a relação entre razão e cultura enfatiza é o peso maior dado à autoridade. O contexto cultural e as tradições possuem um maior peso sobre a orientação do homem no mundo, fornecendo, por assim dizer, o material básico da compreensão; as lentes pelas quais nos relacionamos com a realidade. A consequência prática é que a plurivalência das razões é a norma e também a prática. Por assim dizer, esse é o caminho inverso da filosofia e a sua tentativa de aquisição de um logos universal do ser. Contudo é inequívoco que o tradicional,ou o legado, é o primeiro dado bruto de uma razão em sua diferenciação, que fazendo pressão sobre nós serve de ocasião para adquirirmos uma consciência do mundo.

    Obviamente os filósofos eram homens do seu tempo, e como se percebe pelos escritos de Platão, os costumes, a religião e o ethos grego constituíam o material básico da reflexão e o ponto de partida da consciência e do juízo. Mas esse material básico era como que um princípio da sabedoria, era doxa (opinião), não episteme (ciência); era o 'imediato', como diziam os idealistas, pois partindo disso a reflexão filosófica caminhava à busca de liberar desse material básico a razão universal, fazendo avançar a inteligência, substanciando o juízo que, então, podia com essa elevação atingir um ponto de vista privilegiado pelo qual é possível realmente visualizar e refutar esse mesmo dado bruto da cultura, do ethos e da religião grega. E isso foi feito.

    O interesse moderno dos existencialistas, por assim dizer, ao negar o universal para a razão conduzia, necessariamente, o homem novamente para dentro da caverna, rebaixando a episteme ao simples dogma (doxa) e a razão ao arbítrio. Mas essa não foi uma 'volta ao primeiro estado', pois destruir a razão, forçando a episteme ao mundo da doxa é algo que se faz com dobrada violência: pois se a vida no imediato é também, em parte, inconsciência, o retorno a esse estado se faz negando a consciência adquirida; numa a ignorância permanecia no seu mundo de sonhos, na outra é deliberado o desejo de se afundar nas trevas. Uma era bruta por não conhecer a luz; já a outra é má por deliberação.

    Muitos movimentos tradicionalistas, os tribalistas modernos, os movimentos de 'gueto', ao buscarem refúgio em seu nicho existencial, ao reagirem, como que lutam consigo mesmos para manter a estabilidade frente a uma nova luz. Mas é ilusão buscar se pensar e se querer como já não mediatizada pelo novo evento, pelo dado e pelo fato. O mundo já não é mais o mesmo, e nem seria possível o retorno à inocência sonhadora, inabalada. Qualquer levantamento das fortalezas contra o novo tempo se faz, inevitamente, a partir desse novo tempo - e o resultado da luta, mesmo que vitoriosa, é a emergência do novo. O novo é o destruidor eterno do tempo, como também é a própria realização do tempo e daqueles que nele estão; e o esforço para se negar este juízo é impotente contra fato - o que nos leva para a conclusão inescapável que o mundo não é meramentre ser, mas sobretudo devir.

    Portanto o apego à autoridade em seu estado bruto é estético, não lógico; é algo que nem mesmo cabe na marcha existencial daqueles que produziam o que mais tarde se chamaria de tradição. O reacionarismo moderno é algo paradoxalmente mais contemporâneo do que o comum movimento daqueles que, na busca pela libertação do logos do ser, de uma mais assertiva compreensão do mundo, se queriam com poder de espírito o suficiente para a aquisição da própria liberdade. O tradicional autênco é aquilo que se impõe pela sua própria 'ratio', porque conduz o homem à razão, ao poder do espírito, à humanidade realizada e à superação. A cadáver revivido pelos 'buscadores de sentido', ao contrário, é o estandarde do próprio fracasso. É o viver com o constante medo do morrer; e o homem de verdadeiro espírito não é aquele que nega a morte, mas é aquele que a assume e assim a supera, luzindo no mundo com a sua ressurreição.

    Não foi coincidência que o existencialista no século XX que abandonou o universal e foi atrás da luz originária, do sentido e do destino acabou de baixo do peso de uma bota, como Heidegger, pois ao aniquilar o dever ser, confundindo a posse da descrição da existência com a própria posse da essência, ficou aprisionado ao 'é' do mundo atual, privado da visão do Sumo Bem, de cujo desejo livrou o homem de Platão, ou mesmo o cristão com a fé no Advento, das amarras próprias de um homem atado à caverna.

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