terça-feira, 17 de janeiro de 2017
Instituições: Um Mal?
terça-feira, 3 de janeiro de 2017
Sentimentos Demais e Juízo de Menos
O nosso mundo presente é extremamente guiado pelo afeto, pela sensação visual e por tudo aquilo que se pode perceber de forma mais direta possível - à semelhança dos animais que são débeis na utilização do intelecto. O mundo da razão e o conhecimento dos valores que julgam nossas sensações, com isso, é deixado de lado. Não é difícil ligar esse estado de coisas à situação absurda na qual vivemos. A destruição da inteligência, a redução de todo o mundo ao prazeroso - a plena floração da existência "estética", como dizia Kierkegaard -, a moda sentimental do multiculturalismo que afirma a inexistência de coisas superiores e inferiores no mundo (um pensamento para não deixar ninguém ofendido com as suas misérias), é, ao mesmo tempo, a destruição de toda a capacidade de juízo das ações mínimas na nossa vida concreta.
Uma mente humana comum sabe que diante de escolhas é necessário que optemos pelo mais urgente quando necessário, e pelo lúdico quando possível. A possibilidade mesma de julgar o "bom para o momento" é uma das coisas que caracterizam a inteligência humana e que impedem que caiamos em uma existência amorfa, o que seria algo simplesmente anti-humano - pois aqui, em sentido radical, a vida não vale mais do que a morte. O senso de hierarquia de prioridades é aquilo que possibilita que eu opte gastar o meu salário com a minha família ao invés de gastá-lo com jogos de azar. Toda escolha moral é uma escolha que envolve coisas com as quais estou envolvido de forma irredutível. É justamente isso também que me faz irresponsável quando não cumpro com o meu dever, distribuindo os custos de minhas irresponsabilidades com outros que acabam arcando com as consequências dos meus atos, não obstante não serem responsáveis por isso. É nesse sentido que a vida é inteligível; e é isso mesmo que forma a base de juízo para qualquer espécie de conduta humana, pois nenhuma ação humana está isenta de juízo.
Para a nossa própria orientação o universo moral deve ser evidente, e a política de terra rasada de todo universo moral só tende a beneficiar, em último caso, o imoral. Mesmo o antropólogo que observa uma cultura estranha com "isenção" faz isso em nome de um certo "respeito" e uma "superioridade científica". Mas devemos nos perguntar se até aí a própria atitude de isenção por parte do antropólogo não é algo que parte de um juízo de valor sobre a melhor atitude diante do seu ofício. Nesse sentido a sua imparcialidade é um posicionamento que ele crê ser superior ou adequada ao ofício, se servindo, por tanto, de uma hierarquia de valores e de um tipo de juízo moral que considera "inadequada" a parcialidade ou inferior a atitude de julgamento moral sobre as culturas, algo que não se deveria esperar de um antropólogo. Também é aqui que o multiculturalismo - que apela para uma indiferenciação valorativa de todas as culturas - se coloca como uma espécie de filosofia superior àquelas que julgam que um juízo de valor sobre as culturas - que define o inferior e o superior - não seja apenas adequado, mas imprescindível para conduta humana normal. Por tanto o sistema moral do multiculturalismo - que é sentimentalista e politicamente correto - é destruído em sua própria base.
Mas o que viria a ser a decadência da inteligência com base na orientação meramente sentimentalista das decisões? Muito se ouve falar de que devemos buscar ser "felizes"; contudo só um louco ou Deus podem ser felizes o tempo todo. A vida é mesclada com a infelicidade que nos caracteriza e que também nos humaniza. Não há bem verdadeiro no contexto desta vida que não esteja marcado pela realidade do sofrimento. Esperar ser "feliz o tempo todo" só pode ser um objetivo de vida de uma pessoa mimada. Não é sem razão que hoje, nesta busca desenfreada pelo prazer da felicidade, essa ideia tenha colocado em xeque instituições tão veneráveis com o casamento, e prostituído coisas tão importantes como a Igreja. Tal vez levada também pelo sentimento democrático, a verdadeira literatura e a verdadeira religião que tendiam a confrontar radicalmente o homem de maneira viril, acabou por ser rebaixada em sua verdadeira missão de servirem como o aguilhão da consciência ao nível das propagandas. O menor custo e o maior lucro parecem ser a tábua de juízo em um mundo onde a popularidade é o maior índice de valor que as coisas possuem.
Ao contrário disso, muitos esforços foram empreendidos para a descoberta do verdadeiro Bem para o homem. Sócrates inaugurou uma tradição de reflexão sobre a justiça que até hoje não cumpriu o seu papel de esgotar o assunto. Já o seu pupilo Platão remeteu a solução para o mundo das ideias eternas, cuja reflexão exata sobre essa realidade só poderia alcançar o ponto máximo quando atingisse o infinito, quando o pensamento e o espírito humano se elevassem à identidade absoluta com a Ideia Eterna. Mas os filósofos sabiam - ao contrário dos utópicos e radicais políticos de hoje - que vivemos no mundo da finitude, por isso o filósofo só poderia vislumbrar a totalidade da Ideia Eterna após a morte, quando desobrigados e desembalados da finitude que nos cerca. Da mesma forma o cristianismo prometia a bem-aventurança da Visão de essência eterna de Deus quando nossa alma estivesse em eterno matrimônio com o Eterno após a morte e o Juízo Final. Nessa escola filosófica espiritualista ficava clara a mensagem de que o mundo das paixões atrapalhavam a nossa Visão, ou contemplação da Realidade Absoluta. Por isso forças descomunais foram empregadas pelos intelectuais místicos para a compreensão da realidade, pois eles sabiam que no campo dos sentidos e das paixões - sejam eles afetos sentimentalistas ou o ódio brutal - não existe entendimento.
Falávamos dos afetos. E esses são, porque corrompidos, uma das partes do problema, e não a solução. Com isso não quero afirmar que nossos afetos não possuam um lugar especial na vida humana, pois é deles que nascem os nossos sentidos mas básicos de pertença e compromisso sem os quais nada importaria em nosso mundo. Contudo eles podem, quando deixados a si mesmos, nos transformar em piegas de um sentimentalismo barato ou em monstros ressentidos. A operação da inteligência nesse campo se torna necessária pelo simples fato de que é o intelecto humano que realiza juízos de valor e que estabelece hierarquias por meio dos quais julgamos nossas ações práticas e os nossos sentimentos como bons ou maus no contexto da realidade das nossas relações com o mundo. É por isso que em um país tão entregue aos sentimentos de euforia e de tristezas inexplicáveis - como se as sensações fossem tudo - como o Brasil, algo de sombrio se anuncia no horizonte. Somos muito habituados e ter grandes sentimentos; o problema é que ainda não sabemos explicar o que isso significa.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2016
Os Revolucionários: Nada de Novo Sob o Sol
Os hereges da idade média abriram o capítulo da especulação sobre o Terceiro Reino, a iniciar por Joaquim de Fiore. Acreditavam eles que, após o reino do Pai (a Lei Mosaica), do Filho (o reino dos sacerdotes descendentes dos apóstolos), viria o Reino da Liberdade do Espírito Santo - onde todas as instituições corruptas, desde a Igreja aos reinos, seriam derrubadas pelo advento do povo de Deus, o povo sábio guiado unicamente pelo Espírito, o povo santo que possuía o "futuro nas mãos".
quarta-feira, 30 de novembro de 2016
Notas Sobre a "Fome de Justiça"
quinta-feira, 17 de novembro de 2016
Racismo
sexta-feira, 11 de novembro de 2016
A Conquista de Si
quinta-feira, 10 de novembro de 2016
Burguês de Esquerda; Ou: O Radical Chique
quarta-feira, 9 de novembro de 2016
Capitalistas de Esquerda
A Eleição dos EUA e a Segunda Realidade
Quem quiser se informar com os canais de informação tradicionais, ainda vai ter muita vergonha e errar o resto da vida - e mesmo que todo mundo te ache lindo, esperto ou simpático, a sua opinião não valerá uma rolha, e ainda fará que as pessoas que você tem por queridas errem.
Na semana passada, quando contestei um amigo meu sobre a credibilidade da Globo News ele, meio consternado, me perguntou: mas em quem você confia? - ao que eu disse: Fox News. É óbvio: ela não é um deus ou um demiurgo, mas quase ninguém que conheço em lugar algum conhece alguma interpretação de fatos fora daquilo que os nossos canais tradicionais de informação apresentam (com uma unanimidade vergonhosa), mas vivem sendo alimentadas por uma segunda realidade plantada pelos ativistas (que não pretendem entender a realidade, mas transformá-la) e pelo beautiful people "bem-pensante".
Esses mesmos são os que não entenderão a eleição americana, mas ficarão surpresos porque os nossos canais tradicionais de mídia ainda tratarão justificar que o monstro que pintaram do Trump foi eleito por causa da degeneração brutal da mente americana com relação à realidade, ao desprezarem um indivíduo angélico chamado Hillary (a monstra do ISIS, das drogas, da cultura libertina e do aborto até os nove meses de gestação) - se o Trump não é um anjo (e não é sob hipótese nenhuma), a Hillary é reprovável, não sendo melhor sob aspecto nenhum (excetuando a retórica).
Mas o sinistro é que esse fenômeno é idêntico àquilo que Karl Kraus, jornalista germânico que presenciou a ascensão de Hitler ao poder, disse sobre o papel de degeneração mental dos alemães causada pela imprensa, que, literalmente, empurrou quase que a Alemanha inteira para a segunda realidade contra os judeus - já que o novo judeu será o americano branco sem ensino superior.
O que ocorrerá será o seguinte: vai ser difícil a camada "bem-pensante" reconhecer seus erros, já que não tendo consciência moral, a tarefa mais fácil será justificá-los - não importa que monstruosidade seja plantada na realidade a partir daí. É óbvio que isso não pode acabar bem, já que o pior convicto é o mal-informado.




