quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Os Frutos Podres do Novo Egoísmo


   Alguns de nós que não perderam totalmente um sentimento de pavor diante da escalada descendente dos rumos do nosso mundo ficam chocados com a constante barbarização das relações humanas e da degradação evidente dos afetos. Mas poucos se põem a investigar as causas de tão grande barbarização que dominam as relações em nosso querido mundo. E não é meu interesse esgotar aqui o assunto, mas gostaria de refletir um pouco sobre as causas do egoísmo moderno, o que vejo plenamente estabelecido naquele pensamento progressista que afirma que o presente é o ponto mais avançado na história, sugerindo com isso que toda mudança, porque mudança, é boa em si mesma. Sendo um convite para a atomização do indivíduo, essa doutrina é, também, um convite aberto à violência.

Começando no caso das igrejas, tal vez deveríamos nos perguntar se a ideia de uma Igreja fundada em dogmas proclamados de modo infalível não seria algo que permitiria mais estabilidade e mais amizade entre gerações distintas - proporcionando o desenvolvimento de uma verdadeira "comunidade de almas" - do que uma ecclesia reformata et semprer reformanda est. Mal interpretada essa ideia é, na verdade, fora de uma tradição com valore fixos, um convite à revolução permanente no campo doutrinal e, por isso, na mente daqueles submetidos à esfera de ação deste tipo de "ecclesia". Como concordaria Aristóteles, a ideia de que se somente existisse um movimento infinito de reforma sem uma forma eterna fixa padrão a dirigi-la, o bem seria impossível. E podemos saber o porquê de tudo isso analisando um fato óbvio sobre a constituição de uma comunidade de almas, cuja unidade é metafísica. Se me entrego ávidamente à implosão dos padrões e enxergo nisso um "bem-em-si", então, para mim, toda destruição, independentemente das feridas, das divisões, das rixas e das dores será sempre algo criativo. O eu reina e o universo o serve, algo digno de uma molecagem irresponsável.

Se uma reforma é legítima ela deve, como dizia G. K. Chesterton, conservar valores eternos tal como um homem que deve pintar sempre um poste que ele deseja ver permanentemente branco. Na área da moral e das relações humanas, as mudanças abruptas de valores só servem para espalhar a confusão, discórdia e angústias generalizadas, pois os apóstolos bem intencionados da reforma radical são egoístas o bastante para impor seus padrões de pensamento de forma abrupta a uma comunidade gerada no interior de uma determinada tradição. Não negamos uma revolução metafísica, mas entre ela e o egoísmo há uma distância de pequenez infinita - e somente um homem vil ou um Deus poderá realiza-la.

A inflação do eu parte do pressuposto do "ponto mais avançado na história". É o novo egoísmo. Nesse sentido, se tudo já estivesse tão determinado assim, não seria mais necessário aprender, mas somente viver. E é aqui que temos a raiz do desentendimento conflituoso entre pais e filhos, já que sua origem se dá na deturpação e no desencontro de interesses. Esse é o triste fruto da emancipação juvenil que, se crendo na possa plena das luzes, mandam às favas todos os conselhos de experiência afim de obedecerem à voz dos seus próprios corações. Mas como o mundo é apinhado de corações que pensam de forma distinta, não precisamos ser demasiado imaginativos para ver o que seria de um mundo onde cada coração se pusesse a ser o seu próprio órgão legislativo. Temos aqui um universo degradado, fragmentado e egoísta tal como sugerido pela física de Epicuro, onde cada átomo, sem maiores compromissos, persegue apenas o seu clinâmen.

Não por outro motivo, cada indivíduo autocentrado tende a ser egoísta, e não é estranho percebe o porquê da maneira violenta a massa dos jovens modernos desejam se sobrepor a todo custo os seus desejos e o seu "modo de ser" sobre o mundo. A questão passa por uma falsa percepção de emancipação e luta por uma liberdade da qual, sem perceber, eles estão fartos. Mas essa é uma consciência falsa de liberdade porque embasada em um nada de referências. Na longa desqualificação por parte da intelligentsia progressista moderna dos pais e dos mais velhos como intrinsecamente portadores de um pensamento retrógrado, exilando-os para as terras da insignificância, os jovens perderam o pré-requisito fundamental para a liberdade que é a experiência acumulada, já que é somente daí que podemos evocar comparações e, por isso, atingir o verdadeiro conhecimento do que é liberdade. Ao sugerir de maneira implícita que o reino da ignorância é o mais livre os intelectuais formados no seio de uma vasta tradição suprimiram os referenciais nos quais foram formados e aquilo que Edmund Burke chamava de "O Guarda Roupa da Imaginação Moral".

Por fim, o que resulta disso é óbvio: provincianismo de pensamento, a intolerância, egoísmo, a insegurança típica do auto-centrado cuja referência são seus sentimentos imediatos, a irritação constante, o poder de reflexão prolongada debilitado, incapacidade de abstração, o repertório de ação severamente tolhido e a redução da comunidade de interesses. A elevação dos modos do gueto ao nível de cultura é o resultado da provincianização e caipirização do mundo. Toda cultura complexa, possível pela cooperação entre inúmeras gerações foi tachada como elitista, repressora, exclusivista, racista, sem os intelectuais perceberem - ou percebendo até demais, segundo a estratégia leninista de "dividir para dominar" - que a única forma possível de formação da cultura, assim como dos padrões linguísticos é justamente esse - e os padrões linguísticos longe de serem uma artimanha repressora é a ferramenta mais eficaz para a transmissão do conhecimento e do depósito acumulado da alta cultura. Mas o contrário disso, os intelectuais louvam os pseudo-hieroglifos das pichações como manifestações dos modos comuns de comunicação entre as tribos bárbaras do asfalto. É o fim do mundo.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Intimidade Vulgar; Ou: A Privacidade e a Valorização dos Afetos

   A vulgarização parece ser o modo atual de ação daqueles (e daquelas) que, no fundo, buscam suprir por meio da auto-exposição as suas carências. Isso vem a calhar com a insegurança disseminada em nosso mundo. A privacidade e o segredo perderam o seu encanto original que a firmava a noção de que o íntimo era um meio de reservar aquilo que se possuía de precioso a quem fosse realmente digno da mais alta confiança.

   É nesse sentido que podemos compreender a impaciência dominando os corações, algo impossível de não perceber quando vemos a quantidade de meninas, mulheres, senhoras (!) e mesmo homens pondo a mostra seus próprios corpos - como se houvesse como uma realidade psicológica de fundo um medo de perder o valor no campo dos afetos para aqueles que fazem também da exibição uma forma de adquirir olhares e admiração.

   A vulgaridade é um monstro que se auto-alimenta.

   Não é atoa que a fidelidade - que anda de mãos dadas com a intimidade privada - ande tão fora de moda frente à dissolução dos afetos. Isso gera insegurança e um apelo mais forte ao vulgar como um meio de obter afetos. E temos aqui diante dos olhos uma realidade paradoxal: quanto mais se busca afeto mais as pessoas se distanciam dele. E para sintetizarmos isso trago como analogia uma máxima da economia, que é: a tendência de tudo aquilo que está em abundante oferta é a desvalorização.

   Por tanto, para o nosso bem, cuidemos da nossa própria intimidade e tenhamos fé que a busca pela pureza é, no fundo, a única parede de proteção que realmente protege e fomenta o verdadeiro amor.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Instituições: Um Mal?

As instituições não existem para destruir pessoas, na verdade as instituições são produtos humanos, produtos de reflexão humana e do logo e sofrido confronto humano com a própria realidade. O processo de formação das instituições se assemelha ao processo formador da cultura: resultam de um longo acúmulo de experiências e de razões que as pessoas não podem, sob hipótese nenhuma, adquirir sozinhas. Elas estão aí, por tanto, em princípio, para ajudar o homem - até mesmo contra o homem.
Há uma ficção em voga que diz sobre a maldade nata das instituições, algo como se elas fossem, no mínimo, o produto direto da corrupção humana. Na verdade há um tom de desprezo e ignorância profunda nesse argumento, ou um desejo pela destruição daquelas saudáveis travas que funcionam como freios às paixões humanas e à soberba humana que impendem que o homem corrupto desfralde a sua maldade ao mundo com o poder de um rei.
O desprezo às instituições não é algo humano, mas é, ao contrário do que se diz, anti-humano. Ele apoia-se em naquela vontade destrutiva onde a liberdade fundada em um ódio às convenções, aos acordos e ao respeito ao labor de terceiros - e um amor desmensurado a si mesmo - só pode degenerar em anarquia, um estado de coisas onde a vida torna-se basicamente impossível: a guerra de todos contra todos.
Todas as relações sérias se tornam institucionalizáveis, vindo a ser: Igreja, Estado, casamento, empresas, escolas, hospitais, partidos, fundações, grupos de estudo, agências financeiras etc. Todos fogem de um determinado estado primitivo para vir a ser potencializado pela razão e pelas descobertas do funcionamento das leis que guiam as relações e realizações humanas nos mais diversos campos da vida. Elas se tornam instituições em favor do bem e não do mal humano - e findam-se aqui as tolices de Jean Jacques-Rousseau.
A unidade entre os homens só pode resultar de um acordo formal e de um pacto que leve em conta a unidade da natureza humana descoberta ao longo da história. Quem possui um desprezo pelas instituições como princípio ama a desintegração das relações - e, por tanto, a desintegração dos homens -, e geralmente não sabe o que está falando, ou possui, no fundo, um desejo resoluto por destruir e de se auto-destruir.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Sentimentos Demais e Juízo de Menos


O nosso mundo presente é extremamente guiado pelo afeto, pela sensação visual e por tudo aquilo que se pode perceber de forma mais direta possível - à semelhança dos animais que são débeis na utilização do intelecto. O mundo da razão e o conhecimento dos valores que julgam nossas sensações, com isso, é deixado de lado. Não é difícil ligar esse estado de coisas à situação absurda na qual vivemos. A destruição da inteligência, a redução de todo o mundo ao prazeroso - a plena floração da existência "estética", como dizia Kierkegaard -, a moda sentimental do multiculturalismo que afirma a inexistência de coisas superiores e inferiores no mundo (um pensamento para não deixar ninguém ofendido com as suas misérias), é, ao mesmo tempo, a destruição de toda a capacidade de juízo das ações mínimas na nossa vida concreta.

Uma mente humana comum sabe que diante de escolhas é necessário que optemos pelo mais urgente quando necessário, e pelo lúdico quando possível. A possibilidade mesma de julgar o "bom para o momento" é uma das coisas que caracterizam a inteligência humana e que impedem que caiamos em uma existência amorfa, o que seria algo simplesmente anti-humano - pois aqui, em sentido radical, a vida não vale mais do que a morte. O senso de hierarquia de prioridades é aquilo que possibilita que eu opte gastar o meu salário com a minha família ao invés de gastá-lo com jogos de azar. Toda escolha moral é uma escolha que envolve coisas com as quais estou envolvido de forma irredutível. É justamente isso também que me faz irresponsável quando não cumpro com o meu dever, distribuindo os custos de minhas irresponsabilidades com outros que acabam arcando com as consequências dos meus atos, não obstante não serem responsáveis por isso. É nesse sentido que a vida é inteligível; e é isso mesmo que forma a base de juízo para qualquer espécie de conduta humana, pois nenhuma ação humana está isenta de juízo.

Para a nossa própria orientação o universo moral deve ser evidente, e a política de terra rasada de todo universo moral só tende a beneficiar, em último caso, o imoral. Mesmo o antropólogo que observa uma cultura estranha com "isenção" faz isso em nome de um certo "respeito" e uma "superioridade científica". Mas devemos nos perguntar se até aí a própria atitude de isenção por parte do antropólogo não é algo que parte de um juízo de valor sobre a melhor atitude diante do seu ofício. Nesse sentido a sua imparcialidade é um posicionamento que ele crê ser superior ou adequada ao ofício, se servindo, por tanto, de uma hierarquia de valores e de um tipo de juízo moral que considera "inadequada" a parcialidade ou inferior a atitude de julgamento moral sobre as culturas, algo que não se deveria esperar de um antropólogo. Também é aqui que o multiculturalismo - que apela para uma indiferenciação valorativa de todas as culturas - se coloca como uma espécie de filosofia superior àquelas que julgam que um juízo de valor sobre as culturas - que define o inferior e o superior - não seja apenas adequado, mas imprescindível para conduta humana normal. Por tanto o sistema moral do multiculturalismo - que é sentimentalista e politicamente correto - é destruído em sua própria base.

Mas o que viria a ser a decadência da inteligência com base na orientação meramente sentimentalista das decisões? Muito se ouve falar de que devemos buscar ser "felizes"; contudo só um louco ou Deus podem ser felizes o tempo todo. A vida é mesclada com a infelicidade que nos caracteriza e que também nos humaniza. Não há bem verdadeiro no contexto desta vida que não esteja marcado pela realidade do sofrimento. Esperar ser "feliz o tempo todo" só pode ser um objetivo de vida de uma pessoa mimada. Não é sem razão que hoje, nesta busca desenfreada pelo prazer da felicidade, essa ideia tenha colocado em xeque instituições tão veneráveis com o casamento, e prostituído coisas tão importantes como a Igreja. Tal vez levada também pelo sentimento democrático, a verdadeira literatura e a verdadeira religião que tendiam a confrontar radicalmente o homem de maneira viril, acabou por ser rebaixada em sua verdadeira missão de servirem como o aguilhão da consciência ao nível das propagandas. O menor custo e o maior lucro parecem ser a tábua de juízo em um mundo onde a popularidade é o maior índice de valor que as coisas possuem.

Ao contrário disso, muitos esforços foram empreendidos para a descoberta do verdadeiro Bem para o homem. Sócrates inaugurou uma tradição de reflexão sobre a justiça que até hoje não cumpriu o seu papel de esgotar o assunto. Já o seu pupilo Platão remeteu a solução para o mundo das ideias eternas, cuja reflexão exata sobre essa realidade só poderia alcançar o ponto máximo quando atingisse o infinito, quando o pensamento e o espírito humano se elevassem à identidade absoluta com a Ideia Eterna. Mas os filósofos sabiam - ao contrário dos utópicos e radicais políticos de hoje - que vivemos no mundo da finitude, por isso o filósofo só poderia vislumbrar a totalidade da Ideia Eterna após a morte, quando desobrigados e desembalados da finitude que nos cerca. Da mesma forma o cristianismo prometia a bem-aventurança da Visão de essência eterna de Deus quando nossa alma estivesse em eterno matrimônio com o Eterno após a morte e o Juízo Final. Nessa escola filosófica espiritualista ficava clara a mensagem de que o mundo das paixões atrapalhavam a nossa Visão, ou contemplação da Realidade Absoluta. Por isso forças descomunais foram empregadas pelos intelectuais místicos para a compreensão da realidade, pois eles sabiam que no campo dos sentidos e das paixões - sejam eles afetos sentimentalistas ou o ódio brutal - não existe entendimento.

Falávamos dos afetos. E esses são, porque corrompidos, uma das partes do problema, e não a solução. Com isso não quero afirmar que nossos afetos não possuam um lugar especial na vida humana, pois é deles que nascem os nossos sentidos mas básicos de pertença e compromisso sem os quais nada importaria em nosso mundo. Contudo eles podem, quando deixados a si mesmos, nos transformar em piegas de um sentimentalismo barato ou em monstros ressentidos. A operação da inteligência nesse campo se torna necessária pelo simples fato de que é o intelecto humano que realiza juízos de valor e que estabelece hierarquias por meio dos quais julgamos nossas ações práticas e os nossos sentimentos como bons ou maus no contexto da realidade das nossas relações com o mundo. É por isso que em um país tão entregue aos sentimentos de euforia e de tristezas inexplicáveis - como se as sensações fossem tudo - como o Brasil, algo de sombrio se anuncia no horizonte. Somos muito habituados e ter grandes sentimentos; o problema é que ainda não sabemos explicar o que isso significa.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Os Revolucionários: Nada de Novo Sob o Sol



   Os hereges da idade média abriram o capítulo da especulação sobre o Terceiro Reino, a iniciar por Joaquim de Fiore. Acreditavam eles que, após o reino do Pai (a Lei Mosaica), do Filho (o reino dos sacerdotes descendentes dos apóstolos), viria o Reino da Liberdade do Espírito Santo - onde todas as instituições corruptas, desde a Igreja aos reinos, seriam derrubadas pelo advento do povo de Deus, o povo sábio guiado unicamente pelo Espírito, o povo santo que possuía o "futuro nas mãos".

   Tais especulações, de certa forma, ficaram tão grudadas ao imaginário do ocidente que não é estranho ver tais ideias inundarem movimentos de massa, como a tentativa por parte dos franciscanos de implantar um comunismo na Idade Média; dos puritanos de reduzir a Inglaterra a pó, aniquilando com a impiedade inglesa e com os os "ímpios" - o que culminou da ditadura de Oliver Crowell -; dos iluministas franceses que crendo ter atingido a iluminação, aniquilaram o "Ancien Régime" decepando a cabeça dos padres e dos "inimigos do povo"; dos marxistas que, afirmando o proletariado como a classe possuidora do "futuro nas mãos", iriam derrubar na bala os governos e os burgueses, inaugurando o "novo mundo" e o "novo homem"; e dos nazistas, que crendo estar no cume da evolução humana, buscaram solapar todas as bases do antigo regime alemão inaugurando o Terceiro Reich (sim, o Terceiro Reino) - todos foram incendiários, e os três últimos foram realmente destrutivos.

   Esse desejo brutal pelo "novo", por varrer a "iniquidade do mundo" é algo tão velho quanto a tentação adâmica de superar o "antigo regime" no Jardim do Éden. É por isso que um pessimismo saudável derivado da teologia do pecado original, juntamente com a reverência pelas experiências dos antigos, poderiam aplacar esse otimismo que pensa poder construir um novo futuro, sumindo com as ruínas do presente - pois, como dizia o sábio e pessimista Salomão: nada há de novo debaixo do Sol.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Notas Sobre a "Fome de Justiça"

   Quem não desconfia que muito do "senso de justiça" reinante não seja apenas um manto para disfarçar o desejo de desrespeitar, ofender, destruir, subjugar e dominar? Não me admira que muitos dos que defendem de forma terrível a sua "causa" façam isso porque a militância disfarça sob o manto da virtude aquele desejo patológico que se visto em si mesmo só enxergaríamos como o fruto de um caráter deformado e o desejo puro de destruir. No século XVI e XVII foram os puritanos dizendo que queriam obedecer a Bíblia, se afirmando como "sacerdotes da humanidade", causaram desordens não experimentadas no curso de um milênio na Europa; no século XX os defensores dos pobres promoveram um morticínio em escala nunca antes vista na história humana; no Brasil, há trinta anos, os defensores da ética estão desfigurando com ódio as afeições mais humanas e o senso de realidade mais apurado.

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   Tem quem defenda, em nome da justiça, algo que na prática só pode ser feito por um golpe militar. Quando o ódio ferve e temos o desejo de "chutar todos os políticos" devemos pensar que isso só pode ser possível por um poder altamente organizado. A única instituição capaz disso é o Exército (que, hoje, 2016, não está afim disso)... Mas por outro lado isso é um discurso oportuno apenas para extremistas. Por tanto, vamos com menos ardor e mais cautela. As paixões tendem a emburrecer e causar confusão sobre a questão do debate, pois não proporcionam aquela visão de longo alcance que nos mostra a consequência dos nossos atos -- Todo apaixonado inveterado é um desastre em um mundo que funciona movido também por ideias. 

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   A "fome de justiça" como virtude isolada de outras virtudes é um desastre. É semelhante a uma fé sem amor, pois uma fé sem amor se transforma em fanatismo, ou degenera em vontade demoníaca de poder. De que adianta exercer poder quando isso se faz de forma irracional ou quando achamos que devemos impor a nossa "ideia de bem" ao mundo, não analisando nossos pensamentos para ver se eles, de fato, farão bem ao mundo? O idealista acrítico que pensa que o seu desejo por justiça pode contribuir com o mundo, quando a sua ideia de justiça está errada, só faz com que se alargue ainda mais a ruída de um mundo que ele prometeu curar. Não deveríamos parar de agir para refletir sobre que tipo de bem queremos para o nosso mundo? Se falar sem pensar é vergonhoso, por que aqueles que não entendem do que falam deveriam nos mostrar as saídas de uma situação com relação a qual eles nunca pensaram direito? E por fim: será que não estamos caindo em um misticismo que crê que "desejar o bem" é, por isso mesmo, materializá-lo? Quem foi que ensinou, por tanto, que a "fome de justiça" isolada em si mesma seria boa e não má ao nosso pobre e debilitado mundo?

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   A obstinação em não estudar, em não entender a realidade, mas transformá-la (como apregoava o velho Marx), é um dos empreendimentos mais suicidas que existe. Hoje sofremos uma infestação de palpiteiros que não entendendo do que falam propõem fórmulas mágicas para a salvação do mundo, como se o simples querer o bem fosse o suficiente para realizá-lo.

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   Maldita hora em que no Brasil se decidiu - como pontificava Paulo Freire -, não ter mais aquele tipo de educação "conteudista", onde o professor ensinava regras de gramática, matemática, e não fazia da pedagogia um meio de levantar uma geração de ativistas, "educando-os para a libertação". Mas hoje se estigmatiza o ensino em favor da educação, e temos como recompensa uma geração de burros que optando por não mais entender a realidade, buscam apenas "transformá-la" segundo um modelo preconcebido, agindo de forma a tornar o mundo em algo brutal e irracional à semelhança de suas próprias inteligências. A UNE, esse apoio a um tirano como o Fidel por parte da maior parte da imprensa, são evidências concretas desse emburrecimento maciço e dessa perda de realidade e humanidade que os moldes do ensino de Paulo Freire proporciona.

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   A política é um bem, mas quão mal vai um mundo onde tudo é política e onde tudo está preso aos chavões que tomados por princípios nunca são pensados, mas inculcados como verdades evidentes. Isso é fato quando vemos que a luta total pelos pobres gerou a pobreza total; a luta pela liberdade total a escravização total; a luta pela igualdade total a tirania total; a luta pelo sexo total a esterilidade total; a luta pela politização total a guerra total. Quando é que vamos parar de buscar transformar o mundo e nos perguntarmos que tipo de mundo teremos das ações que, em nome de uma justiça desejada (mas não pensada), pretensiosamente julgamos inquestionavelmente boas por si mesmas?

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Racismo


   Você pode até reconhecer que o povo alemão foi, outrora, chamado de bárbaro, inculto e portador de uma língua extremamente confusa que servia - como dizia Bismark, um alemão - para conversar com cavalos. Mas ninguém sensato há de negar que Mozart, Bach e Wagner foram um dos maiores músicos de todos os tempos, e que Leibniz e Schelling foram um dos maiores filósofos da humanidade.

   Mas vamos nos perguntar algo: Será que o insucesso ou o sucesso do povo alemão se deve ao DNA germânico? Isso é um absurdo grotesco - e, na verdade, racismo, ainda que positivo. E por que há, então, toda essa luta feroz na defesa de uma cultura negra contra uma cultura branca - como se houvesse uma unanimidade de pensamento entre os negros? Afirmar isso não seria uma mentira? Seria, pois a cultura nasce de indivíduos ou de grupos que aceitam ou rejeitam valores.

   O assunto como posto hoje em dia evidencia uma clara perda de realidade, sendo que essa confusão chegou a tal ponto que se um negro rejeitar como valores seus aquilo que o pensamento politicamente correto pensa ser "valores negros" e passa a usar terno, gravata e sapatos, ao invés usar roupas que realcem a sua "africanidade" (e nada contra alguém realçar a sua africanidade), o próprio negro é tido - como disse o jornalista Paulo Henrique Amorim, processado e sentenciado por isso - como alguém tendo "alma branca" - o que é, evidentemente, absurdo, racismo e desumano, pois nega um fator característico que distingue a humanidade: a liberdade para aceitar e rejeitar valores.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

A Conquista de Si

   Há uma dificuldade imensa em manifestar-se ao mundo a partir da totalidade de nossa realidade interior e da forma como percebemos cada evento, sentimento, pessoa, ideia etc. Como dizia Nietzsche: "todo espírito profundo possui uma máscara."

   Algumas razões se impõe sobre a vida para que a "revelação total do eu" seja inibida: trabalho, amizades, compromissos, convenções sociais, cultura etc. Mesmo Jesus Cristo buscou revelar-se pouco a pouco - e se apresentou de forma gloriosa, enquanto estava peregrinando neste mundo, só a Pedro, Tiago e João no alto do monte tabor (longe das massas), pedindo segredo para os três que viram.

   Assim como, segundo Lutero, esta vida não é devoção, mas a busca pela verdadeira devoção, também no nosso hoje não desfrutamos do nosso verdadeiro eu, mas sim da cruenta, difícil e pesada busca por um. Aqui há dois caminhos: ou enfrentamos a cruz da busca, ou aderimos às facilidades e falsidades excitantes do mundo - é nesse sentido que podemos compreender a seguinte frase no livro do Apocalipse, se referindo à razão da vitória dos Mártires sobre a Besta e sobre o Falso Profeta: "E não amaram a própria vida até à morte" - já que vislumbravam algo superior a tudo o que existe neste mundo.

   Somos convidados a crucificar dia a dia o nosso eu pelo ao bem e pela perfeição absolutos. Mas não nos elevando a lugares que não são os nossos, e não fugindo da dor e da perda fé em si mesmo que o auto-conhecimento nos proporciona, lancemos como peregrinos nesta terra toda a nossa confiança na graça do Deus da verdadeira devoção e do verdadeiro eu a serem conquistados totalmente na eternidade.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Burguês de Esquerda; Ou: O Radical Chique


   Não sigo apenas minha cabeça, mas leio livros e análises de pessoas mais inteligentes do que eu para não revestir a minha falta de informação de autoridade, e sair desinformando gente mundo afora. Assim segue, e afirmo que o Partido Democrata americano e a própria Hillary está à esquerda do espectro político. A própria esquerda americana inclui artistas, juristas, acadêmicos, cineastas, jornalistas, apresentadores de TV (gente chamada por lá de "radical chique", "esquerda limousine", o a nossa conhecida expressão "esquerda caviar"), como All Gore, Angelina Jolie, Brad Pit, George Clooney - que foi contra o impeachment da Dilma -, Richard Gere, Jhon Travolta, Whoopi Goldberg, Ben Affleck, Leonardo DiCaprio, Cameron Diaz, George Soros etc.

   Contudo há uma distinção substancial entre o pensamento de esquerda americano e a versão europeia, já que o primeiro sofreu condicionamentos específicos por causa da própria história constitucional americana. Roger Scruton, um dos principais teóricos do pensamento conservador britânico já explica o que distingue o pensamento de esquerda americano, como segue:

   “O pensamento americano de esquerda é uma espécie diferente de sua contrapartida europeia, tendo seguido um caminho evolucionário à parte, em condições não propícias ao desenvolvimento da hostilidade. No entanto, ele compartilha com o socialismo europeu certa estrutura subjacente, e exerceu uma influência similar, ainda que tardia. O triunfo da constituição dos EUA foi fazer da propriedade privada e da liberdade individual características inalienáveis, não somente para o plano político, mas também para o próprio pensamento político. Quase toda filosofia americana com inclinação esquerdista no século XX fundou-se em preconcepções liberais, e uma parte muito pequena desafiou a instituição da propriedade. Em vez disso, ela concentrou-se em denegrir as formas vulgares que a propriedade pode assumir – ‘consumismo’, ‘consumo fútil’, ‘sociedade de massas’ e ‘publicidade de massas’.[...] É o espetáculo da propriedade nas mãos de pessoas comuns, descentes, rudes e incultas que atribulou as percepções da esquerda.” (SCRUTON, Pensadores da Nova Esquerda p. 39)

   O ódio ao “common sense” (o senso comum) por parte dos “radicais chiques” é conhecido entre os americanos. Na recente corrida presidencial que deu a Trump a vitória sobre Hillary Clinton, os analistas (estrangeiros e brasileiros) apontaram um fator essencial para a vitória do Magnata: “homens brancos que não possuem ensino superior”. Geralmente é ao homem rude, simples e não intelectualizado - algo extremamente valorizado no pensamento conservador anglo-americano, como relata o filósofo germano-americano Eric Voegelin – que está sob a mira dos pensadores de esquerda nos EUA. Não é de estranhar já que o homem comum não está interessado em grandes engenharias sociais, nas múltiplas formas de constituição familiar, liberação do consumo recreativo de drogas e do aborto indiscriminado, pois seu costume é tipicamente o do homem trabalhador que vive para cuidar de si, da sua família e ir a um culto em alguma igreja nos dias de domingo. Por tanto, nada de utopias e de grandes transformações sociais – algo que excita a imaginação de esnobes californianos e nova iorquinos.

   Por último é bom lembrar que grande parte deste flerte com o pensamento da esquerda chique americana pode ser visto no Brasil como nas novas modas de ciclistas, que na busca por não não poluir a atmosfera da cidade optam por um rolê de bike. Assim também, eles optam pelo vegetarianismo como um ato político contra o sofrimento dos animais, ou buscam sintonizar com as energias da natureza - não raro com ajuda de maconha - tão maltratada pela sociedade de mercado, ou em nome da substituição às religiões “opressivas” e “tradicionais”. Tais são as formas do pensamento político de esquerda dos EUA e que são representados no Brasil por indivíduos como Fernando Haddad ou por Marina Silva. Nada há de estranho neste pensamento chique que atrai, grosso modo, gente de classe média entediada que se sente culpada pelo próprio sucesso e que, como um ato de purgação da consciência, adere a certas agendas cult, pensando que comer rúcula e dar um rolê de bike irá salvar o mundo.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Capitalistas de Esquerda

   Grandes empresários que servem à agenda da esquerda não são elefantes cor-de-rosa. É até engraçado ver no Brasil a quantidade de mega-empresários que se fizeram de uma agenda progressista nos costumes e na estrutura política uma pauta de ação - vide Eike Batista, Odebrescht, OAS, Júlio Camargo e até o engenheiro Paulo Maluf, que disse se sentir um comunista quando próximo do Lula - e ainda haver dúvidas sobre isso.

   A razão pela qual grandes corporações se servem de políticas de esquerda é que com o aumento da carga tributária, e a escolha de empresas de grande porte em processos de licitação (porque podem fazer serviços a preços mais acessíveis do que as pequenas empresas), os pequenos empresários são ELIMINADOS dos negócios, destruindo a concorrência e abrindo espaço para o oligopólio das grandes corporações.

   Tudo isso é uma espécie de jogo de xadrez, e quem ler o livro do economista Kelvin D. Williamson "The Pollitically Incorrect Guide to Socialism", ou o livro do filósofo Roger Scruton "Thinkers of New Left" não irá se assustar com a informação. Mas no Brasil isso é um segredo ainda restrito a um pequeno grupo de iniciados. E quem somos nós quando, neste país, a falta de informação é o próprio critério de autoridade?

A Eleição dos EUA e a Segunda Realidade


   Quem quiser se informar com os canais de informação tradicionais, ainda vai ter muita vergonha e errar o resto da vida - e mesmo que todo mundo te ache lindo, esperto ou simpático, a sua opinião não valerá uma rolha, e ainda fará que as pessoas que você tem por queridas errem.

   Na semana passada, quando contestei um amigo meu sobre a credibilidade da Globo News ele, meio consternado, me perguntou: mas em quem você confia? - ao que eu disse: Fox News. É óbvio: ela não é um deus ou um demiurgo, mas quase ninguém que conheço em lugar algum conhece alguma interpretação de fatos fora daquilo que os nossos canais tradicionais de informação apresentam (com uma unanimidade vergonhosa), mas vivem sendo alimentadas por uma segunda realidade plantada pelos ativistas (que não pretendem entender a realidade, mas transformá-la) e pelo beautiful people "bem-pensante".

   Esses mesmos são os que não entenderão a eleição americana, mas ficarão surpresos porque os nossos canais tradicionais de mídia ainda tratarão justificar que o monstro que pintaram do Trump foi eleito por causa da degeneração brutal da mente americana com relação à realidade, ao desprezarem um indivíduo angélico chamado Hillary (a monstra do ISIS, das drogas, da cultura libertina e do aborto até os nove meses de gestação) - se o Trump não é um anjo (e não é sob hipótese nenhuma), a Hillary é reprovável, não sendo melhor sob aspecto nenhum (excetuando a retórica).

   Mas o sinistro é que esse fenômeno é idêntico àquilo que Karl Kraus, jornalista germânico que presenciou a ascensão de Hitler ao poder, disse sobre o papel de degeneração mental dos alemães causada pela imprensa, que, literalmente, empurrou quase que a Alemanha inteira para a segunda realidade contra os judeus - já que o novo judeu será o americano branco sem ensino superior.

   O que ocorrerá será o seguinte: vai ser difícil a camada "bem-pensante" reconhecer seus erros, já que não tendo consciência moral, a tarefa mais fácil será justificá-los - não importa que monstruosidade seja plantada na realidade a partir daí. É óbvio que isso não pode acabar bem, já que o pior convicto é o mal-informado.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Notas Sobre a Soberba

   Assédio moral é a arma do diabo para diminuir as pessoas, descreditar a igreja etc. Há muito mais misericórdia na igreja, na ideia de perdão dos pecados, do que há em um mundo hipócrita que não desejando apontar o erro para a correção da conduta, deseja simplesmente a aniquilação do indivíduo por causa de um erro causado. Sem pensar, a tendência para a qual o nosso mundo vai, constrói para ele um cenário de suicídio, pois é óbvio que ninguém está incontaminado pelo erro, já que cada qual tem do pecado um quinhão. Mas por causa deste moralismo hipócrita, a indignação afetada o mundo só cava o buraco onde irá cair. É questão de tempo até ele "resvalar o pé" e cair em contradição, como diz o Salmo, e ser enforcado na forca que ele mesmo preparou para que outro fosse enforcado em seu lugar.

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   Não acredite jamais em indignação afetada. Há quem, por "amor à justiça" duvide de um cristianismo de um pecador, pelo fato de ele cometer um erro, ou uma série deles. Não caia nessa, daqui a pouco será você a ser destruído por esse moralismo afetado. Há diferença entre o indivíduo que aponta o erro fatal de alguém, e o julgador que se alegra com a queda do seu inimigo. Não nos alegremos por causa da miséria moral de ninguém. Podemos até ser irônicos quando alguém erra; mas não há ironia que não esteja permeada por uma íntima dor, pela sensação de que o conjunto da obra não é o que deveria ser e que ela não é assim mesmo que estejamos dentro dela. Onde se encontra aquela vontade por expiação e arrependimento que são direcionados ao PECADOR, ao errante, e que não desejando a sua morte quer, antes de tudo, o seu arrependimento? Sejamos amigos com os que erram, pacientes, não fazendo a divisão escarnecedora entre nós e eles.

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   Todo o falsário se compreende com o centro do mundo, o estágio mais avançado da humanidade e o ápice da razão. É duro e humilhante constatar que não somos o que queríamos ser. Mas há valor em quem se lança a si mesmo para a periferia da razão, reconhecendo que há quem seja melhor do que ele mesmo. Já o megalomânico só pode ser tratado com ironia, nunca com uma verdade direta - tal como Jesus em suas parábolas. E é até interessante ver como ele mesmo afunda em sua própria sabedoria afetada. Mas é tremendamente doloroso ver quantas pessoas ele arrasta consigo. Há sabedoria, às vezes, em ver Roma pegando fogo e, como Nero, contemplar tudo tocando harpa.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Política como Ferida

   Política é aquele tipo de ferida que você deve cuidar não porque você goste dela, mas porque se ela inflama demais, acaba te matando.

   Por exemplo, por mais preguiça que eu sinta quando alguém faz terra rasada da pobreza existente na África e na Europa, não dá para ficar assistindo achando que tudo está bem como os padrões de comparação que andam por aí.

   Sinto, como todo mundo que consegue interpretar um texto sente em situações assim, que muita coisa já se perdeu, e que o mundo não deseja enxergar a realidade.

   Mas lutar por uma causa perdida é muito melhor do que simplesmente olhar e deixar o bonde passar, ignorando, em silêncio, o descarrilamento assassino em seus trilhos.