quarta-feira, 21 de junho de 2017
A Necessidade de um Delírio Novo
sábado, 4 de março de 2017
Cristo a Filosofia e a Ciência
sexta-feira, 3 de março de 2017
Teologia Anti-Teológica
Essa é a mesma dinâmica que inunda a ideia de que a fé é antagônica à religião, pois se anula toda espécie de religião em nome de uma ideia que está cravada na cabeça daquele que diz que fé é antagônica à religião - e ao fazer isso aquele que ouve essa maravilha de ideia cria uma observância fiel e estrita à ideia, ou seja, caindo no processo religioso que (ou pseudo-religioso) que ele dizia negar - haja "çabiência".
O Domínio do Espírito: Da Educação Moral ao Amor ao Próximo
Entre os seus maiores doutores e mestres, o cristianismo sempre foi compreendido como o caminho que pretende proporcionar uma vida no Espírito. E isso quer dizer de uma vez por todas: o domínio da mente sobre as paixões e a exaltação dos bem eternos acima de quaisquer bens terrestres. O ascetismo cristão é, por tanto, a busca por uma vida na mente, e por isso vale dizer: uma vida sensata, sábia, fundada na razão e nas leis eternas que uma vez possuídas tornam possível o abrir de olhos para o verdadeiro propósito da vida humana. Do contrário o próprio cristianismo não seria o que ele arroga ser: universal e atemporal.
A reforma e o seu irracionalismo buscou, em parte, destruir essa universalidade ao tentar sobrepor um sobrenaturalismo absoluto à fé, retirando-a dos campos da razão, ciência, das artes etc - proibindo, por assim dizer, de Cristo encarnar na cultura. Este foi o lamento de Erasmo: "onde quer que o luteranismo chegue as letras caem"; este foi resultado da ira de Lutero ao chamar de prostituta a própria Razão. O resultado político do luteranismo foi, por exemplo, a cisão entre a moral e a política - lembrando a doutrina dos dois governos de Lutero -, que deu para a política uma espécie de liberdade absoluta, sendo uma das primeiras vítimas desse pensamento o próprio Lutero, que em seu escrito "Da Autoridade Secular", reclama de um efeito da sua própria doutrina quando os príncipes confiscavam os seus escritos: dar liberdade absoluta aos estados seculares.
Não nos surpreende que o estado prussiano tenha confeccionado uma constituição que se orgulhava de fazer uma separação entre moral e direito - pois dada a atmosfera religiosa e intelectual da Alemanha, o que a razão e a religião poderia dizer ao governo, quando este se tornasse absolutamente autônomo, livre de todas as peias morais? Ou outra: se a própria razão era incapaz de captar as leis eternas, em que a razão do legislador poderia se apoiar para conhecer tanto o bem quanto o mal? Não nego que o puritanismo luterano tenha fundado uma moral rígida entre os nórdicos. A questão foi justamente que Lutero legou uma crítica da razão que se levada a sério, em sérias circunstâncias, torna a defesa contra políticas irracionais algo substancialmente impossível. E um triste capítulo da história da Alemanha - que possui sim uma história gigantesca e venerável - não nos deixa enganados sobre isso.
No livro "A Abolição do Homem" de C. S. Lewis, há uma defesa fundamental da Razão Natural que não é de forma alguma negligenciável, perfazendo as condições para a compreensão e a defesa da fé, ou a preambula fidei, tal como se encontra na própria estrutura do livro "Cristianismo Puro e Simples", onde uma análise da razão natural capaz de compreender o bem e o mal constitui o ponto de partida para provar a mensagem universal do cristianismo. E aqui é importante lembrar que Lewis era um fiel da Igreja Anglicana, um ramo da Reforma que não aceitou o divórcio entre razão e a fé, dando continuidade à grande linhagem da filosofia espiritualista cristã que, grosso modo, dominou soberana em toda a história do cristianismo desde os Padres da Igreja até à Idade Média, assim como na Idade Moderna.
Mas onde desejo chegar? A minha busca é por colocar em evidência o matrimônio feliz entre a razão e a fé, sendo que a única possibilidade de uma compreensão profunda e relevante do cristianismo se encontra nessa união feliz, assim como a possibilidade de entendimento próprio do cristianismo e a razão de sua mensagem ser o que é, ou seja, universal. Da mesma forma, a possibilidade de uma educação cristã passa totalmente pelo crivo do poder da razão que, submetida à fé, é capaz de captar a sua essência e transmitir em palavras inteligíveis o que é um cristianismo.
Dizia no início do texto que o cristianismo é uma vida na mente, e que a vida na mente é aquele que, compreendendo, por meio da graça, as Leis de Deus, busca se submeter a estas Leis, sendo esta VIDA EM DEUS o bem mais precioso que um homem pode querer em vida, um bem que, ao seu possuído, torna todos os outros bens ou negligenciáveis ou submissos a este bem supremo que é a posse da vida em Deus. Nisso temos em mente também a ordenação da vida em meio ao caos do mundo. Trata-se daquele domínio puritano da alma que não permite ao homem se tornar escravo das coisas desta vida, mas senhor das mesmas. Nesse sentido não é o sexo, o dinheiro, o poder, a glória, o desejo de fama ou o estômago que nos dominam. Na verdade dominamos, por meio do auto controle, todas essas coisas. Pois é o pecado, a desordem na alma, que traz a desordem no mundo até o seu fim, que é a morte.
Por outro lado é a vida sob o domínio da mente ou do espírito que traz ao homem a possibilidade do amor, já que se domino os meus desejos, repartir o que tenho com o meu próximo é um ato de soberania que exercemos sobre nós mesmos. Por isso podemos dizer que só o homem espiritual, que entende a efemeridade do mundo e a eternidade de Deus, pode desfrutar verdadeiramente daquilo que possui, pois dar seus bens ao próximo é a característica de um homem que realmente possui e não é possuído pelo que tem. E somente aquele que possui seus bens pode dar a eles o destino que deseja, pois ao abrir mão do que se possui para ajudar a quem precisa, declaramos a soberania da nossa vontade para livremente, sem dor ou peso no coração, destinar o que é nosso a qualquer necessitado. É justamente aqui que Jesus Cristo se mostra verdadeiro, pois amar - que é a razão do próprio cristianismo - não é uma virtude possível ao avarento, mas sim para aqueles que se desprenderam dos pesos, do egoísmo e da ganância desta vida. Por isso, virar as costas para o mundo é a única possibilidade de amar a Deus e ao próximo, pois com isso conferimos ao mundo o seu devida valor na hierarquia dos valores.
E quem pode, com a sua própria razão, atribuir um valor diferente a tudo o que dizemos? A difusão da fé cria toda uma rede de costumes os quais são a causas de muitas leis e das instituições em nosso mundo ocidental. Na literatura, nas artes, nas ciências e por todos os lados podemos enxergar um vestígio de Cristo, e é causando essa ordem moral no mundo que podemos ver, também, um bem concreto desta fé no mundo. Mas o caos é sempre presente onde faltam a razão e a irradiação dos valores, dos quais participamos e não apenas conhecemos. Nunca é demais enfatizar aquilo que é óbvio: seja a razão prática do cristianismo, seja razão teórica no casamento entre a fé e a filosofia, a ordenação da alma do homem e o conhecimento desta ordem conferiram em muito as razões fundamentais das relações humanas presentes hoje; e é por isso mesmo que ensinando aos homens o domínio do espírito sobre a vida é que podemos espalhar valores que nada mais são do que o amor ao próximo, pois a educação cristã é o próprio amor ao próximo.
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017
A Destruição Nominalista; Ou: A Ruína da Inteligência e a Queda dos Universais
A questão hoje é materializada na ideologia de gênero, segundo a qual todos nascem como uma tábula rasa e vão sendo construídos ao longo da existência, até culminar na cristalização de um particular absoluto impassível de generalização e identidade com algo fora dele. O que era, no princípio, uma generalidade indiscernível, ou uma pasta amorfa, agora é um destaque absoluto desta mesma massa. Mas é óbvio que isso é um raciocínio falacioso em termos lógicos, pois não existem absolutos distintos que não sejam Um e o mesmo Absoluto. Mas só se tem a percepção disso se temos em vista os Universais que são como que o laço e o princípio de identidade subjacente a todos os particulares determinados, por estarem imersos e dissolvidos no mesmo Universo, ou Deus, participando, por isso, em seu Ser.
Mas por mais que analisemos esta questão, por hora, do ponto de vista da filosofia, é necessário compreender também que o ser humano possui uma capacidade de imaginação infinita. E se se concebe de um modo imaginativo, segundo uma montagem mental, um constructo que agrega a si de maneira criativa de todas algumas formas possíveis em uma única personalidade, se tornará evidente também que no nível jurídico, qualquer lei que abarque uma determinada personalidade assim será algo impossível dado o grau de informações específicas, já que não há duas espécies de um gênero humano, mas infinitas. Não é possível que o Estado abarque e satisfaça todas as montagens mentais, já que elas entrarão em conflito umas com as outras – e com o próprio Estado de forma irreconciliável também -, sedo alguns conflitos reconciliáveis e outros conflitos irreconciliáveis, exigindo, por assim dizer, a extinção de um ou de outra personalidade, pois, por exemplo: é impossível a absorção de uma determinada particularização de alguém que concebe e põe em prática um constructo mental de demanda a extinção do Estado e da Humanidade, pois um direito que permite isso acabará com toda a possibilidade de sociedade humana. Não é possível, por tanto, descartado o princípio da identidade, uma particularização radical sem que essa particularização não entre em conflito com todas as outras particularizações radicais - veremos, no fundo, o conflito mais radical de todos contra todos: o temível advento do caos primordial.
Já é possível perceber a partir daqui que sem um princípio de identidade as relações entre as pessoas são impossíveis. Mas também é impossível a absorção do Todo em um único e abstrato Eu, negando a particularidade de outros eus. As pessoas são particulares determinados que, em sua determinação biológica ou histórica ainda assim guardam um princípio de identidade que as unifica - tal como se encontra em nossa gramática - como "Homens", ou a "Humanidade". E é aqui que ideologia de gênero - que é o resultado extremo da quebra da percepção do real - chega a esses dois radicais: a particularização radical ou a generalização radical. Todas essas coisas destroem a inteligência, e atacam todas as estruturas da manifestação da inteligência nas suas mais diversas frentes: no direito, na teologia, na filosofia e na ciência. Mas tudo isso é o fruto maduro da filosofia nominalista que separando o geral do específico – tal como presente na escolástica medieval contra qual ela se rebelou - acaba por destruir a estrutura da Razão que sustenta ambos e que é o fundamento inteligível do Universo como um todo.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017
O que ao Pobre Importa; Ou: O Registro de um Estranho Esquecimento
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017
Aos "Iluminados"
Há fundamentalismos por outros meios. Por exemplo: se os liberais pensam que por se aterem a uma crítica excessiva aos "apegos fanáticos" daqueles que não arredam seus pés calejados de alguns trejeitos tradicionalistas que esses julgam ser algo "opressor" para outros grupos, nem por isso esses liberais estão longe do tão odiento fanatismo que dizem sempre estar no outro e nunca neles mesmos.
A militância intransigente e chulé dos "ilustrados" que vivem metendo o nariz na vida alheia, desejando prescrever-lhes os modos "corretos", "justos" e em "conformidade com a sã doutrina do pensamento racional", afim de que estes abandonem os maus hábitos "opressores" - como só aquela estranha mistura entre um Aiatolá e um surfista ocidental descamisado pode fazer -, lenhando e buscando, noite e dia, reformar a mente do seu próximo com uma nova metafísica, é algo muito mais fundamentalista do que o jeito de ser daqueles tradicionais em que eles acusam o fanatismo.
Afinal de contas: reformadores sempre os tereis convosco - e principalmente aqueles que tratam seus semelhantes como verdugos, tal como aqueles que, entre nós, estão totalmente convencidos da missão redentora e messiânica de trazer novas luzes em um mundo que, antes deles, estava imerso em densas trevas. - e ai daqueles que não concordarem com eles: o inferno moral é o único destino.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017
A Moral e o Estado do Espírito Santo.
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017
O que nos Ensina o Reverendo Hoseph Hall? Ou: As Moscas Reunidas Sobre um Cavalo Esfolado
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017
Os Frutos Podres do Novo Egoísmo
Começando no caso das igrejas, tal vez deveríamos nos perguntar se a ideia de uma Igreja fundada em dogmas proclamados de modo infalível não seria algo que permitiria mais estabilidade e mais amizade entre gerações distintas - proporcionando o desenvolvimento de uma verdadeira "comunidade de almas" - do que uma ecclesia reformata et semprer reformanda est. Mal interpretada essa ideia é, na verdade, fora de uma tradição com valore fixos, um convite à revolução permanente no campo doutrinal e, por isso, na mente daqueles submetidos à esfera de ação deste tipo de "ecclesia". Como concordaria Aristóteles, a ideia de que se somente existisse um movimento infinito de reforma sem uma forma eterna fixa padrão a dirigi-la, o bem seria impossível. E podemos saber o porquê de tudo isso analisando um fato óbvio sobre a constituição de uma comunidade de almas, cuja unidade é metafísica. Se me entrego ávidamente à implosão dos padrões e enxergo nisso um "bem-em-si", então, para mim, toda destruição, independentemente das feridas, das divisões, das rixas e das dores será sempre algo criativo. O eu reina e o universo o serve, algo digno de uma molecagem irresponsável.
Se uma reforma é legítima ela deve, como dizia G. K. Chesterton, conservar valores eternos tal como um homem que deve pintar sempre um poste que ele deseja ver permanentemente branco. Na área da moral e das relações humanas, as mudanças abruptas de valores só servem para espalhar a confusão, discórdia e angústias generalizadas, pois os apóstolos bem intencionados da reforma radical são egoístas o bastante para impor seus padrões de pensamento de forma abrupta a uma comunidade gerada no interior de uma determinada tradição. Não negamos uma revolução metafísica, mas entre ela e o egoísmo há uma distância de pequenez infinita - e somente um homem vil ou um Deus poderá realiza-la.
A inflação do eu parte do pressuposto do "ponto mais avançado na história". É o novo egoísmo. Nesse sentido, se tudo já estivesse tão determinado assim, não seria mais necessário aprender, mas somente viver. E é aqui que temos a raiz do desentendimento conflituoso entre pais e filhos, já que sua origem se dá na deturpação e no desencontro de interesses. Esse é o triste fruto da emancipação juvenil que, se crendo na possa plena das luzes, mandam às favas todos os conselhos de experiência afim de obedecerem à voz dos seus próprios corações. Mas como o mundo é apinhado de corações que pensam de forma distinta, não precisamos ser demasiado imaginativos para ver o que seria de um mundo onde cada coração se pusesse a ser o seu próprio órgão legislativo. Temos aqui um universo degradado, fragmentado e egoísta tal como sugerido pela física de Epicuro, onde cada átomo, sem maiores compromissos, persegue apenas o seu clinâmen.
Não por outro motivo, cada indivíduo autocentrado tende a ser egoísta, e não é estranho percebe o porquê da maneira violenta a massa dos jovens modernos desejam se sobrepor a todo custo os seus desejos e o seu "modo de ser" sobre o mundo. A questão passa por uma falsa percepção de emancipação e luta por uma liberdade da qual, sem perceber, eles estão fartos. Mas essa é uma consciência falsa de liberdade porque embasada em um nada de referências. Na longa desqualificação por parte da intelligentsia progressista moderna dos pais e dos mais velhos como intrinsecamente portadores de um pensamento retrógrado, exilando-os para as terras da insignificância, os jovens perderam o pré-requisito fundamental para a liberdade que é a experiência acumulada, já que é somente daí que podemos evocar comparações e, por isso, atingir o verdadeiro conhecimento do que é liberdade. Ao sugerir de maneira implícita que o reino da ignorância é o mais livre os intelectuais formados no seio de uma vasta tradição suprimiram os referenciais nos quais foram formados e aquilo que Edmund Burke chamava de "O Guarda Roupa da Imaginação Moral".
Por fim, o que resulta disso é óbvio: provincianismo de pensamento, a intolerância, egoísmo, a insegurança típica do auto-centrado cuja referência são seus sentimentos imediatos, a irritação constante, o poder de reflexão prolongada debilitado, incapacidade de abstração, o repertório de ação severamente tolhido e a redução da comunidade de interesses. A elevação dos modos do gueto ao nível de cultura é o resultado da provincianização e caipirização do mundo. Toda cultura complexa, possível pela cooperação entre inúmeras gerações foi tachada como elitista, repressora, exclusivista, racista, sem os intelectuais perceberem - ou percebendo até demais, segundo a estratégia leninista de "dividir para dominar" - que a única forma possível de formação da cultura, assim como dos padrões linguísticos é justamente esse - e os padrões linguísticos longe de serem uma artimanha repressora é a ferramenta mais eficaz para a transmissão do conhecimento e do depósito acumulado da alta cultura. Mas o contrário disso, os intelectuais louvam os pseudo-hieroglifos das pichações como manifestações dos modos comuns de comunicação entre as tribos bárbaras do asfalto. É o fim do mundo.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017
Intimidade Vulgar; Ou: A Privacidade e a Valorização dos Afetos
terça-feira, 17 de janeiro de 2017
Instituições: Um Mal?
terça-feira, 3 de janeiro de 2017
Sentimentos Demais e Juízo de Menos
O nosso mundo presente é extremamente guiado pelo afeto, pela sensação visual e por tudo aquilo que se pode perceber de forma mais direta possível - à semelhança dos animais que são débeis na utilização do intelecto. O mundo da razão e o conhecimento dos valores que julgam nossas sensações, com isso, é deixado de lado. Não é difícil ligar esse estado de coisas à situação absurda na qual vivemos. A destruição da inteligência, a redução de todo o mundo ao prazeroso - a plena floração da existência "estética", como dizia Kierkegaard -, a moda sentimental do multiculturalismo que afirma a inexistência de coisas superiores e inferiores no mundo (um pensamento para não deixar ninguém ofendido com as suas misérias), é, ao mesmo tempo, a destruição de toda a capacidade de juízo das ações mínimas na nossa vida concreta.
Uma mente humana comum sabe que diante de escolhas é necessário que optemos pelo mais urgente quando necessário, e pelo lúdico quando possível. A possibilidade mesma de julgar o "bom para o momento" é uma das coisas que caracterizam a inteligência humana e que impedem que caiamos em uma existência amorfa, o que seria algo simplesmente anti-humano - pois aqui, em sentido radical, a vida não vale mais do que a morte. O senso de hierarquia de prioridades é aquilo que possibilita que eu opte gastar o meu salário com a minha família ao invés de gastá-lo com jogos de azar. Toda escolha moral é uma escolha que envolve coisas com as quais estou envolvido de forma irredutível. É justamente isso também que me faz irresponsável quando não cumpro com o meu dever, distribuindo os custos de minhas irresponsabilidades com outros que acabam arcando com as consequências dos meus atos, não obstante não serem responsáveis por isso. É nesse sentido que a vida é inteligível; e é isso mesmo que forma a base de juízo para qualquer espécie de conduta humana, pois nenhuma ação humana está isenta de juízo.
Para a nossa própria orientação o universo moral deve ser evidente, e a política de terra rasada de todo universo moral só tende a beneficiar, em último caso, o imoral. Mesmo o antropólogo que observa uma cultura estranha com "isenção" faz isso em nome de um certo "respeito" e uma "superioridade científica". Mas devemos nos perguntar se até aí a própria atitude de isenção por parte do antropólogo não é algo que parte de um juízo de valor sobre a melhor atitude diante do seu ofício. Nesse sentido a sua imparcialidade é um posicionamento que ele crê ser superior ou adequada ao ofício, se servindo, por tanto, de uma hierarquia de valores e de um tipo de juízo moral que considera "inadequada" a parcialidade ou inferior a atitude de julgamento moral sobre as culturas, algo que não se deveria esperar de um antropólogo. Também é aqui que o multiculturalismo - que apela para uma indiferenciação valorativa de todas as culturas - se coloca como uma espécie de filosofia superior àquelas que julgam que um juízo de valor sobre as culturas - que define o inferior e o superior - não seja apenas adequado, mas imprescindível para conduta humana normal. Por tanto o sistema moral do multiculturalismo - que é sentimentalista e politicamente correto - é destruído em sua própria base.
Mas o que viria a ser a decadência da inteligência com base na orientação meramente sentimentalista das decisões? Muito se ouve falar de que devemos buscar ser "felizes"; contudo só um louco ou Deus podem ser felizes o tempo todo. A vida é mesclada com a infelicidade que nos caracteriza e que também nos humaniza. Não há bem verdadeiro no contexto desta vida que não esteja marcado pela realidade do sofrimento. Esperar ser "feliz o tempo todo" só pode ser um objetivo de vida de uma pessoa mimada. Não é sem razão que hoje, nesta busca desenfreada pelo prazer da felicidade, essa ideia tenha colocado em xeque instituições tão veneráveis com o casamento, e prostituído coisas tão importantes como a Igreja. Tal vez levada também pelo sentimento democrático, a verdadeira literatura e a verdadeira religião que tendiam a confrontar radicalmente o homem de maneira viril, acabou por ser rebaixada em sua verdadeira missão de servirem como o aguilhão da consciência ao nível das propagandas. O menor custo e o maior lucro parecem ser a tábua de juízo em um mundo onde a popularidade é o maior índice de valor que as coisas possuem.
Ao contrário disso, muitos esforços foram empreendidos para a descoberta do verdadeiro Bem para o homem. Sócrates inaugurou uma tradição de reflexão sobre a justiça que até hoje não cumpriu o seu papel de esgotar o assunto. Já o seu pupilo Platão remeteu a solução para o mundo das ideias eternas, cuja reflexão exata sobre essa realidade só poderia alcançar o ponto máximo quando atingisse o infinito, quando o pensamento e o espírito humano se elevassem à identidade absoluta com a Ideia Eterna. Mas os filósofos sabiam - ao contrário dos utópicos e radicais políticos de hoje - que vivemos no mundo da finitude, por isso o filósofo só poderia vislumbrar a totalidade da Ideia Eterna após a morte, quando desobrigados e desembalados da finitude que nos cerca. Da mesma forma o cristianismo prometia a bem-aventurança da Visão de essência eterna de Deus quando nossa alma estivesse em eterno matrimônio com o Eterno após a morte e o Juízo Final. Nessa escola filosófica espiritualista ficava clara a mensagem de que o mundo das paixões atrapalhavam a nossa Visão, ou contemplação da Realidade Absoluta. Por isso forças descomunais foram empregadas pelos intelectuais místicos para a compreensão da realidade, pois eles sabiam que no campo dos sentidos e das paixões - sejam eles afetos sentimentalistas ou o ódio brutal - não existe entendimento.
Falávamos dos afetos. E esses são, porque corrompidos, uma das partes do problema, e não a solução. Com isso não quero afirmar que nossos afetos não possuam um lugar especial na vida humana, pois é deles que nascem os nossos sentidos mas básicos de pertença e compromisso sem os quais nada importaria em nosso mundo. Contudo eles podem, quando deixados a si mesmos, nos transformar em piegas de um sentimentalismo barato ou em monstros ressentidos. A operação da inteligência nesse campo se torna necessária pelo simples fato de que é o intelecto humano que realiza juízos de valor e que estabelece hierarquias por meio dos quais julgamos nossas ações práticas e os nossos sentimentos como bons ou maus no contexto da realidade das nossas relações com o mundo. É por isso que em um país tão entregue aos sentimentos de euforia e de tristezas inexplicáveis - como se as sensações fossem tudo - como o Brasil, algo de sombrio se anuncia no horizonte. Somos muito habituados e ter grandes sentimentos; o problema é que ainda não sabemos explicar o que isso significa.






