quarta-feira, 21 de junho de 2017

A Necessidade de um Delírio Novo


   Para lembrar um velho adágio, sabemos que a vastidão do nada, quando habita a mente, torna essa a oficina do demônio. Essa sabedoria proverbial pode ter sua verdade comprovada nos diversos domínios da vida. Para um sociedade sem espírito, quando farta de si mesma, não é estranho que de súbito ela seja tomada pelo mais assombroso desejo de morte. Essa destruição maravilhosa, por mais que ostente uma certa aparência de prodígio, ou de uma irrupção misteriosa, trata-se do fruto amadurecido da preguiça e do cultivo da letargia que quando faz rebentar seus primeiros brotos, a todos torna notório o odor de sua podridão cultivada.

   Não é sem razão que foi destacada nas primeiras linhas a cima a expressão "sociedade sem espírito". O que me leva à sua utilização é a intuição que sempre me acompanhou de que uma certa violência brutal é sempre o resultado de uma negligência cultivada. A estupidez e a violência dos bem intencionados tem um quê de um atalho desprezível, de um salto sobre as etapas de um esclarecimento meditativo que, para os impacientes de espírito, soa como um aniquilamento místico a que sucumbe o homem suspenso eternamente diante do horror de suas dúvidas, o que no mais das vezes o condena à inação. É isso, e não outra causa, que faz com que os ativistas sejam tão burros em seus empreendimentos, pois as suas percepções não passam pelo crivo da abstração, mas partindo da imagem percebida, seus sentimentos são transformados em ações tão logo os movam, o que acaba por fazer perecer suas atitudes no abismo da irracionalidade.

   A crueza brutal tem esse aspecto de selvageria bárbara, e é devido a essa convulsão de sentimentos que faz a razão ser eclipsada que um determinado ativismo se torna tão atraente, pois oferece uma espécie de razão transcendental a partir da qual a vida tem algum sentido, mesmo que obscuro. Por mais grotesco que possa parecer, sempre é reconfortante se conceber como estando do lado certo da história. E melhor é quando não precisamos pensar muito sobre isso. São as simplificações terríveis do dia que nos revelam o quão animalesco pode ser o homem quando abandonado ao seu próprio sentimento e pior ainda quando aliado a uma motivação transcendente, se encontra à mão aquela ideologia que concede fundamento à sua vaidade moral. Animalidade e vaidade moral foram os dois ingredientes que constituíram a explosividade do nazismo e do marxismo, ambos matando em nome de uma razão superior: um em nome de uma suposta supremacia racial, o outro em nome dos decretos da história. 

   É impressionante o quão sujeitas se encontram as sociedades modernas ao contágio de apelos messiânicos. O vácuo espiritual que o materialismo ocidental causa cria um espaço insalúbre propício para o nascimento de delírios utópicos, fruto de uma espiritualidade degenerada casada com um desejo materialista não totalmente satisfeito. Os detritos do cristianismo no ocidente pôs em circulação um espírito revolucionário insatisfeito com a não conquista da eternidade, e, à maneira dos Titãs, não podendo assaltar o céu, trouxemos a destruição sobre a terra. Contudo, o caso interessante do ocidente é que a falta de espírito o faz ter também falta de forças para morrer. Não acreditamos em nossas utopias, que são para nós epenas um passatempo articulado no vácuo de nossa vida insatisfeita. Contudo, outros, para a sua própria desgraça, acreditam por nós. O refinamento ocidental não o deixou que ele fosse pego pelas suas piadas sinistras. O caso da China e da Rússia é emblemático porque tratam-se de nações que levaram a sério até à morte uma trapaça que inventamos por não termos nada mais sério a fazer. Como puderam eles crer em uma ideia que exigia muita fé para ser crida e que foi forjada em meio a uma sociedade que já não tinha fé alguma?

   Por outro lado, ao que parece, tal piada não pode ser negligenciada em seus efeitos, já que tende a agregar sentido àqueles que já não tem mais esperança. O avanço de ideias totalitárias deveria nos convidar à consideração sobre a miséria do nosso mundo. Dois mundos infinitamente se afastam tragicamente nessa história toda até o ponto de unidade absoluta: o mundo dos cínicos e o dos desesperados. Os cínicos inventam cosmos inacreditáveis por passatempo; os desesperados, por lhes faltarem esperanças, engolem tudo o que possa desatola-los do meio desta realidade pútrida, miseravelmente fria e cadavérica, o que acaba por atolá-los cada vez mais no lixo da existência. As necessidades de um novo delírio revelam o vazio dos cínicos na medida em que eles necessitam de uma pequena faísca mística de emoção para sobreviver, mas que eles são incapazes de manter acesa até o fim por lhes faltar amor e a fé necessária para acreditar em Deus ou em si mesmos; e por outro lado lançam luz sobre os existencialmente desesperados, que por estarem deformados pela ausência de esperança, afogam-se em um nada violento e desolador, visto que não possuem mais nada a perder. Qual o sentimento em meio a tudo isso se não uma mescla de ira e compaixão, de apelo à espada e à misericórdia diante do escândalo da existência? O ideia de um mundo condenado a um drama sério que nos convida a crer que tudo nasceu para dar errado não é de todo infundada, mesmo que a crença nisso faça aniquilar o nosso próprio espírito em niilismo. 

   Diante disso, é somente pela fé que ainda podemos assegurar que o mundo foi formado por um Deus bondoso, pois é isso o que a nossa razão pede para que ela não possa morrer e para que o mal não seja justificado diante da história. A necessidade de um novo delírio é fruto do tédio e do desespero, mas é somente a presença de Deus e de um amor crucificado que pode salvar a nossa razão do delírio que a nossa vida pede para não morrer de inanição de sentido; contudo é bem sabido que esse delírio não nos faz viver, apenas acelera tragicamente a nossa própria destruição. 

sábado, 4 de março de 2017

Cristo a Filosofia e a Ciência

Na Bíblia o livro dos Provérbios, no capítulo de número 8, temos os famosos versículos sobre a eternidade da sabedoria, sendo que por ela Deus mesmo criou todo o Universo e fixou nele LIMITES. Ao mesmo tempo temos uma exortação no livro a buscar em nossa vida, sobre tudo, a sabedoria. No Evangelho de João, no capítulo de número 1 temos a informação de que TUDO foi criado por meio do VERBO (que é Cristo), e a palavra VERBO é a tradução do grego da palavra LOGOS, que significa a RAZÃO ESTRUTURANTE, ou o princípio de compreensão de todo o Universo. No livro do apostolo Paulo aos Colossenses (1:13-19) temos a afirmação de que em Jesus tudo foi criado e que tudo subsiste nele, assim como em 2:3 afirma que todos os tesouros da sabedoria e da ciência estão nele, e que isso foi conferido à Igreja.
Os Escolásticos Medievais e os Pais da Igreja (do período nomeado Patrística) levaram isso a sério, elaborando - no caso dos escolásticos - o método de exposição geométrica da teologia, onde dos axiomas da unicidade de Deus toda a teologia era derivada juntamente com a revelação bíblica em um discurso racional coerente e sistemático sobre a fé. A união entre a Filosofia e a Teologia criou o direito e a doutrina dos Estados na Idade Média, assim como formulou todos os princípios da investigação científica. A ideia de que há uma RAZÃO ETERNA no Mundo e nos corpos físicos, ou seja, a ideia de uma ordem pré-estabelecida que é a justificação própria das ciências modernas, foi retirada da teologia cristã e das filosofias platônica e aristotélica, que afirmavam que todas as coisas são guiadas por processos inteligíveis à RAZÃO (algo possível por causa da compreensão de que o homem é capaz de entender por sua razão a RAZÃO DO MUNDO), e que se são verdadeiros são verdadeiro permanentemente, ou melhor, eternamente.
Diante disso, vemos que muito do progresso científico tem um pé calcado em princípios teológicos que mesmo após a secularização da cultura são ainda necessários para a possibilidade das ciências - pois se isso não é verdadeiro, como a ciência pode crer na razão humana se ela não consegue entender, pelos métodos da ciência experimental, o que é a razão? Uma ciência niilista é um absurdo em termos, e é, por assim dizer, a razão de destruição da própria ciência. Mas não é só isso, o ódio anti-intelectual que impera na Igreja é, também, uma das razões da queda da importância da própria Igreja, quando esta decidiu entender que tudo é moral e razão prática (não que isso seja totalmente errado), acabando, no fundo, com os fundamentos da própria razão prática - pois, no fundo, de onde é que retiramos a nossa ideia de bem ou de mal a não ser por meio daquilo que os cristãos escolásticos ou os pais da igreja chamavam de razão natural, ou da capacidade do espírito humano de experimentar diretamente (intuir) no real o Fundamento da Estrutura da Própria Realidade? Se assim não fosse seria um absurdo a Bíblia exigir, no livro dos Provérbios, a buscar sabedoria para a nossa própria vida prática.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Teologia Anti-Teológica

Qualquer um que em nome de uma "vivência direta com Deus", que em nome da "fé viva", nega a teologia, no fundo está também fazendo teologia, pois teologia é discurso sobre a fé ou comentário às Escrituras Sagradas ou às experiências com Deus. O resultado prático é o seguinte: anula-se todo tipo de teologia e, no lugar delas, colocamos a opinião do teólogo que DIZ que a "experiência direta" é a mais importante (que nada mais é do que uma afirmação teológica).
Essa é a mesma dinâmica que inunda a ideia de que a fé é antagônica à religião, pois se anula toda espécie de religião em nome de uma ideia que está cravada na cabeça daquele que diz que fé é antagônica à religião - e ao fazer isso aquele que ouve essa maravilha de ideia cria uma observância fiel e estrita à ideia, ou seja, caindo no processo religioso que (ou pseudo-religioso) que ele dizia negar - haja "çabiência".
Mas é claro, hoje o mundo é movido na base do clichê, do jargão, pois no fundo no fundo ninguém mais sabe o significado real daquilo que diz ou daquilo que diz acreditar. Invalidado está o preceito cristão de "fides quaerens intellectum", ou seja: a fé que busca a compreensão de si mesma.

O Domínio do Espírito: Da Educação Moral ao Amor ao Próximo


Entre os seus maiores doutores e mestres, o cristianismo sempre foi compreendido como o caminho que pretende proporcionar uma vida no Espírito. E isso quer dizer de uma vez por todas: o domínio da mente sobre as paixões e a exaltação dos bem eternos acima de quaisquer bens terrestres. O ascetismo cristão é, por tanto, a busca por uma vida na mente, e por isso vale dizer: uma vida sensata, sábia, fundada na razão e nas leis eternas que uma vez possuídas tornam possível o abrir de olhos para o verdadeiro propósito da vida humana. Do contrário o próprio cristianismo não seria o que ele arroga ser: universal e atemporal.

A reforma e o seu irracionalismo buscou, em parte, destruir essa universalidade ao tentar sobrepor um sobrenaturalismo absoluto à fé, retirando-a dos campos da razão, ciência, das artes etc - proibindo, por assim dizer, de Cristo encarnar na cultura. Este foi o lamento de Erasmo: "onde quer que o luteranismo chegue as letras caem"; este foi resultado da ira de Lutero ao chamar de prostituta a própria Razão. O resultado político do luteranismo foi, por exemplo, a cisão entre a moral e a política - lembrando a doutrina dos dois governos de Lutero -, que deu para a política uma espécie de liberdade absoluta, sendo uma das primeiras vítimas desse pensamento o próprio Lutero, que em seu escrito "Da Autoridade Secular", reclama de um efeito da sua própria doutrina quando os príncipes confiscavam os seus escritos: dar liberdade absoluta aos estados seculares.

Não nos surpreende que o estado prussiano tenha confeccionado uma constituição que se orgulhava de fazer uma separação entre moral e direito - pois dada a atmosfera religiosa e intelectual da Alemanha, o que a razão e a religião poderia dizer ao governo, quando este se tornasse absolutamente autônomo, livre de todas as peias morais? Ou outra: se a própria razão era incapaz de captar as leis eternas, em que a razão do legislador poderia se apoiar para conhecer tanto o bem quanto o mal? Não nego que o puritanismo luterano tenha fundado uma moral rígida entre os nórdicos. A questão foi justamente que Lutero legou uma crítica da razão que se levada a sério, em sérias circunstâncias, torna a defesa contra políticas irracionais algo substancialmente impossível. E um triste capítulo da história da Alemanha - que possui sim uma história gigantesca e venerável - não nos deixa enganados sobre isso.

No livro "A Abolição do Homem" de C. S. Lewis, há uma defesa fundamental da Razão Natural que não é de forma alguma negligenciável, perfazendo as condições para a compreensão e a defesa da fé, ou a preambula fidei, tal como se encontra na própria estrutura do livro "Cristianismo Puro e Simples", onde uma análise da razão natural capaz de compreender o bem e o mal constitui o ponto de partida para provar a mensagem universal do cristianismo. E aqui é importante lembrar que Lewis era um fiel da Igreja Anglicana, um ramo da Reforma que não aceitou o divórcio entre razão e a fé, dando continuidade à grande linhagem da filosofia espiritualista cristã que, grosso modo, dominou soberana em toda a história do cristianismo desde os Padres da Igreja até à Idade Média, assim como na Idade Moderna.

Mas onde desejo chegar? A minha busca é por colocar em evidência o matrimônio feliz entre a razão e a fé, sendo que a única possibilidade de uma compreensão profunda e relevante do cristianismo se encontra nessa união feliz, assim como a possibilidade de entendimento próprio do cristianismo e a razão de sua mensagem ser o que é, ou seja, universal. Da mesma forma, a possibilidade de uma educação cristã passa totalmente pelo crivo do poder da razão que, submetida à fé, é capaz de captar a sua essência e transmitir em palavras inteligíveis o que é um cristianismo.

Dizia no início do texto que o cristianismo é uma vida na mente, e que a vida na mente é aquele que, compreendendo, por meio da graça, as Leis de Deus, busca se submeter a estas Leis, sendo esta VIDA EM DEUS o bem mais precioso que um homem pode querer em vida, um bem que, ao seu possuído, torna todos os outros bens ou negligenciáveis ou submissos a este bem supremo que é a posse da vida em Deus. Nisso temos em mente também a ordenação da vida em meio ao caos do mundo. Trata-se daquele domínio puritano da alma que não permite ao homem se tornar escravo das coisas desta vida, mas senhor das mesmas. Nesse sentido não é o sexo, o dinheiro, o poder, a glória, o desejo de fama ou o estômago que nos dominam. Na verdade dominamos, por meio do auto controle, todas essas coisas. Pois é o pecado, a desordem na alma, que traz a desordem no mundo até o seu fim, que é a morte.

Por outro lado é a vida sob o domínio da mente ou do espírito que traz ao homem a possibilidade do amor, já que se domino os meus desejos, repartir o que tenho com o meu próximo é um ato de soberania que exercemos sobre nós mesmos. Por isso podemos dizer que só o homem espiritual, que entende a efemeridade do mundo e a eternidade de Deus, pode desfrutar verdadeiramente daquilo que possui, pois dar seus bens ao próximo é a característica de um homem que realmente possui e não é possuído pelo que tem. E somente aquele que possui seus bens pode dar a eles o destino que deseja, pois ao abrir mão do que se possui para ajudar a quem precisa, declaramos a soberania da nossa vontade para livremente, sem dor ou peso no coração, destinar o que é nosso a qualquer necessitado. É justamente aqui que Jesus Cristo se mostra verdadeiro, pois amar - que é a razão do próprio cristianismo - não é uma virtude possível ao avarento, mas sim para aqueles que se desprenderam dos pesos, do egoísmo e da ganância desta vida. Por isso, virar as costas para o mundo é a única possibilidade de amar a Deus e ao próximo, pois com isso conferimos ao mundo o seu devida valor na hierarquia dos valores.

E quem pode, com a sua própria razão, atribuir um valor diferente a tudo o que dizemos? A difusão da fé cria toda uma rede de costumes os quais são a causas de muitas leis e das instituições em nosso mundo ocidental. Na literatura, nas artes, nas ciências e por todos os lados podemos enxergar um vestígio de Cristo, e é causando essa ordem moral no mundo que podemos ver, também, um bem concreto desta fé no mundo. Mas o caos é sempre presente onde faltam a razão e a irradiação dos valores, dos quais participamos e não apenas conhecemos. Nunca é demais enfatizar aquilo que é óbvio: seja a razão prática do cristianismo, seja razão teórica no casamento entre a fé e a filosofia, a ordenação da alma do homem e o conhecimento desta ordem conferiram em muito as razões fundamentais das relações humanas presentes hoje; e é por isso mesmo que ensinando aos homens o domínio do espírito sobre a vida é que podemos espalhar valores que nada mais são do que o amor ao próximo, pois a educação cristã é o próprio amor ao próximo. 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

A Destruição Nominalista; Ou: A Ruína da Inteligência e a Queda dos Universais

   A tese fundamental do conceito nominalista repousa na ideia de que a percepção dos universais e a capacidade da linguagem expressá-los são impossíveis. Desde a sua afirmação por meio da filosofia de Guilherme de Ockam, o nominalismo nada mais fez do que cindir a inteligência, ou gerar a generalização inconveniente e o especialismo terrível. Uma é percebida nas ciências naturais, e a outra no igualitarismo totalitário. Em ambos os casos a humanidade é desmanchada por ser impossível não compreendemos mais o que significa "humano". A baliza normal da inteligência, que é a percepção do real e a capacidade subjetiva de entender o racional como possível, foi tragada pelo nominalismo.

   A questão hoje é materializada na ideologia de gênero, segundo a qual todos nascem como uma tábula rasa e vão sendo construídos ao longo da existência, até culminar na cristalização de um particular absoluto impassível de generalização e identidade com algo fora dele. O que era, no princípio, uma generalidade indiscernível, ou uma pasta amorfa, agora é um destaque absoluto desta mesma massa. Mas é óbvio que isso é um raciocínio falacioso em termos lógicos, pois não existem absolutos distintos que não sejam Um e o mesmo Absoluto. Mas só se tem a percepção disso se temos em vista os Universais que são como que o laço e o princípio de identidade subjacente a todos os particulares determinados, por estarem imersos e dissolvidos no mesmo Universo, ou Deus, participando, por isso, em seu Ser.

   Mas por mais que analisemos esta questão, por hora, do ponto de vista da filosofia, é necessário compreender também que o ser humano possui uma capacidade de imaginação infinita. E se se concebe de um modo imaginativo, segundo uma montagem mental, um constructo que agrega a si de maneira criativa de todas algumas formas possíveis em uma única personalidade, se tornará evidente também que no nível jurídico, qualquer lei que abarque uma determinada personalidade assim será algo impossível dado o grau de informações específicas, já que não há duas espécies de um gênero humano, mas infinitas. Não é possível que o Estado abarque e satisfaça todas as montagens mentais, já que elas entrarão em conflito umas com as outras – e com o próprio Estado de forma irreconciliável também -, sedo alguns conflitos reconciliáveis e outros conflitos irreconciliáveis, exigindo, por assim dizer, a extinção de um ou de outra personalidade, pois, por exemplo: é impossível a absorção de uma determinada particularização de alguém que concebe e põe em prática um constructo mental de demanda a extinção do Estado e da Humanidade, pois um direito que permite isso acabará com toda a possibilidade de sociedade humana. Não é possível, por tanto, descartado o princípio da identidade, uma particularização radical sem que essa particularização não entre em conflito com todas as outras particularizações radicais - veremos, no fundo, o conflito mais radical de todos contra todos: o temível advento do caos primordial.

   Já é possível perceber a partir daqui que sem um princípio de identidade as relações entre as pessoas são impossíveis. Mas também é impossível a absorção do Todo em um único e abstrato Eu, negando a particularidade de outros eus. As pessoas são particulares determinados que, em sua determinação biológica ou histórica ainda assim guardam um princípio de identidade que as unifica - tal como se encontra em nossa gramática - como "Homens", ou a "Humanidade". E é aqui que ideologia de gênero - que é o resultado extremo da quebra da percepção do real - chega a esses dois radicais: a particularização radical ou a generalização radical. Todas essas coisas destroem a inteligência, e atacam todas as estruturas da manifestação da inteligência nas suas mais diversas frentes: no direito, na teologia, na filosofia e na ciência. Mas tudo isso é o fruto maduro da filosofia nominalista que separando o geral do específico – tal como presente na escolástica medieval contra qual ela se rebelou - acaba por destruir a estrutura da Razão que sustenta ambos e que é o fundamento inteligível do Universo como um todo.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

O que ao Pobre Importa; Ou: O Registro de um Estranho Esquecimento

Muito mais do que a escassez natural dos recursos no mundo, é a falta de rigidez moral o que realmente prejudica o pobre. Não é por acaso a opção - de resto inteligente - que muitos dos pobres fazem por igrejas pentecostais de estilo clássico ao invés das igrejas protestantes e evangélicas tradicionais de hoje, e também da Igreja Católica - que desde a Alta Idade Média deixou de lado a austeridade e rigidez platônicas que caracterizaram o modo ascético de vida dos Padres da Igreja e dos anacoretas ao abraçar a prudência quase permissiva apregoada pela prudência da ética aristotélica.
No Brasil isso é um fato cujas esquinas das nossas cidades não me deixa mentir - a começar pela assombrosa distância numérica que separa a membresia das igrejas protestantes e evangélicas clássicas e a I. E. Assembleia da Deus, onde não é tanto o pão físico apregoado nos nossos púlpitos, mas o rígido estilo de vida que não permite que se gaste pão atoa. É lógico, por tanto, que a fixidez moral forma como que um cordão sanitário em torno do fiel, impedindo-o de vivenciar as delícias destrutivas do nosso belo mundo, algo que somente uma moral puritana pode produzir. Mas ao contrário disso, o aburguesamento da vida, e o costume ao conforto levam ao turvamento da razão e que acaba por produzir aquele raciocínio estranho de que uma vida moral plena é, antes, o derivado de uma existência rechonchuda, abarcando indivíduos bem agasalhados, e não o fruto de uma disciplina fundada na austeridade - um raciocínio que quase descredita a máxima de que nem só de pão viverá o homem. Esquecida está a evangelização dos pobres, tal como esquecida está a máxima de que aos filhos o que importa é a presença e o ensino e não um iPad vicário.
Como diziam os antigos, é a ideia que confere forma à matéria, e que é o espírito que deve trazer em seu cabresto as paixões que, deixadas aos seus caprichos, constituem a razão da ruína e da deformidade material do homem. Mas é óbvio que um rebaixamento do rigor moral em nome de uma "existência livre" não é algo que venha muito em auxílio dos pobres - e nem dos ricos -, assim como a ética da licenciosidade sexual e da permissão dos dez casamentos em vida não protegem a vida de ninguém, sendo muito mais terrível para a vida daqueles que, não tendo à mão a abundância material, nada de mais valioso dispõem em vida do que uma existência reconciliada de um lar estável e seguro - não é outra a raiz da prosperidade dos evangélicos e protestantes. Alguns liberais parecem deliberadamente se esquecer - por motivos bem claros -, mas é justamente por isso que a militância contra a moral "fundamentalista" dos conservadores cristãos por parte dos liberais é vista com tanta desconfiança por parte dos cristãos pobres, os quais enxergam, com extrema razão, na moral de ferro dos cristãos puritanos uma tábua de salvação pessoal que paira suspensa e invencível acima da superfície de um mundo que se afoga em um mar de iniquidade autodestrutiva.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Aos "Iluminados"


   Há fundamentalismos por outros meios. Por exemplo: se os liberais pensam que por se aterem a uma crítica excessiva aos "apegos fanáticos" daqueles que não arredam seus pés calejados de alguns trejeitos tradicionalistas que esses julgam ser algo "opressor" para outros grupos, nem por isso esses liberais estão longe do tão odiento fanatismo que dizem sempre estar no outro e nunca neles mesmos. 

    A militância intransigente e chulé dos "ilustrados" que vivem metendo o nariz na vida alheia, desejando prescrever-lhes os modos "corretos", "justos" e em "conformidade com a sã doutrina do pensamento racional", afim de que estes abandonem os maus hábitos "opressores" - como só aquela estranha mistura entre um Aiatolá e um surfista ocidental descamisado pode fazer -, lenhando e buscando, noite e dia, reformar a mente do seu próximo com uma nova metafísica, é algo muito mais fundamentalista do que o jeito de ser daqueles tradicionais em que eles acusam o fanatismo.

    Afinal de contas: reformadores sempre os tereis convosco - e principalmente aqueles que tratam seus semelhantes como verdugos, tal como aqueles que, entre nós, estão totalmente convencidos da missão redentora e messiânica de trazer novas luzes em um mundo que, antes deles, estava imerso em densas trevas. - e ai daqueles que não concordarem com eles: o inferno moral é o único destino.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

A Moral e o Estado do Espírito Santo.

   O caos ano Estado do Espírito Santo gerado pela greve dos policiais só traz à luz a verdade de que, na ausência da ordem e das instituições responsáveis por promovê-las (sejam os hábitos ou outras instituições), o leve verniz de civilidade se esfarela, revelando a Besta oculta nos corações corruptos - e como é terrível vê-la agindo em toda a sua deformidade moral e violência. 

   E não nos enganemos pensando que trata-se de um caso particular e que coisa semelhante não aconteceria caso o colapso da ordem ocorresse em nosso meio, pois essa é a natureza das coisas e do mundo tal como ele é: sai de cena a razão e entra em cena a barbárie. Como diz a Bíblia: é perigoso incitar o Leviatã ou o monstro marinho que anda submerso nas profundezas, mas que nunca deixou de estar lá por viver aparentemente longe das luzes da nossa serena rotina.

   Por outro lado, a interpretação de "terra arrasada" no caso do Espírito Santo é insensata. Aproveitar o evento para dizer que somos igualmente bandidos em estado latente, ou como qualquer criminoso, é nivelar os crimes perpetrados em tempos de ordem àqueles que são realizados na ausência dela. As pessoas não são iguais: existem pessoas que são melhores do que outras e mais resistentes às corrupção. 

   De quebra uma interpretação assim traz o desserviço de considerar qualquer criminoso alguém que é assim porque foram simplesmente expostas às condições sob as quais qualquer um também o seria. Aceita essa interpretação, mesmo levando em consideração a maldade latente no coração humano e aquilo que auxilia esta maldade vir à luz, só resta a conclusão de que o dever e a obrigação são simples ficções e que no coração do homem não mora a liberdade nem para o bem e nem para o mal - como seria as marionetes do ambiente e do destino. 

   Daí para a interpretação reacionária e preconceituosa da ideologia de classes não resta nenhum passo - pois, de cordo com esse pensamento, os pobres desprovidos, porque expostos às dificuldades são justificadamente maus e os ricos e bem servidos são, por isso mesmo, justificadamente bons.

   Mas expor a questão dessa forma não seria anular as duas considerações acima, mas estabelecer um paradoxo. E a resolução desse paradoxo é a seguinte: os homens sofrem influência do seu ambiente, e o desenvolvimento do caráter é auxiliado por meio dos costumes que nos circundam. Contudo o estado de coisas, ainda que sejam o modelo, a referência e o estimulante das nossas ações, eles não anulam, contudo, o nosso poder de ir além deles, pois do contrário a violação e a obediência aos costumes e às leis, para o bem ou para o mal, seriam impossíveis - algo impensável caso não fôssemos o que somos: humanos demasiado humanos.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

O que nos Ensina o Reverendo Hoseph Hall? Ou: As Moscas Reunidas Sobre um Cavalo Esfolado


   Geralmente se percebe a bondade de um homem, ou um sentimento superior cultivado, naquele que, além de perceber o que há de mal no mundo, reconhece também aquilo que há de bom nele. Fruto de uma moral refinada, a capacidade de percepção tanto do bom quanto do mal sugere um entendimento com senso das proporções, o que é a base fundamental para o relacionamento entre os homens - e mesmo entre os homens e Deus. 

   Mas ao contrário disso, existe uma desconfiança fundamentada com relação àqueles que, crendo em sua própria pureza, veem no mundo apenas um lugar de trevas; do alto de sua arrogância, muitos dos que dizem lutar pela justiça, vivem, como acusadores contumazes, do apontamento de qualquer deslise alheio. É óbvio que isso sugere, além de uma deformidade moral, uma doença do espírito, pois ainda que tendo olhos abertos para a vilania do mundo, são suficiente cegos para enxergarem onde a bondade brilha nele. Muito da "luta pela justiça" em nosso presente mundo trata-se apenas de um marketing de comportamento dos que não se interessam em ser honestos, mas desejam, antes de tudo, parecerem honestos - ao contrário da mulher de Cézar -, se servindo de seus discursos parcialmente verdadeiros. E bem sabemos do prestígio angariado por aqueles que propagandeiam a própria bondade.

   Ao que parece, o reverendo anglicano Joseph Hall, que exerceu o seu episcopado no século XVII, eram sensível para as fragilidades humanas. Entendendo o mal a que o homem estava inclinado - não sendo, por tanto, um apóstolo da presunção de inocência, mas possuidores de um língua ferina, os quais o mundo sofre como sofre uma colheita diante de uma grande praga de gafanhotos - o reverendo Hall era sensível o bastante para tecer analogias instrutivas sobre a  decadência da natureza humana com base em eventos aparentemente insignificantes. Seguem suas palavras: 

"Como enxemeiam [se agrupam] essas moscas a parte esfolada do pobre animal, lá permanecendo e alimentando-se da pior porção da sua carne, sem sequer tocar nas partes sãs de sua pele. Assim age também a língua maliciosa dos detratores: se um homem tem em sua pessoa ou ações alguma enfermidade, eles certamente se reunirão ali e ali demorarão; enquanto isso, suas partes recomendáveis e seus méritos serão ignorados sem que a eles seja feita nenhuma menção, nenhuma consideração. A justificar essa disposição daninha nos homens estão um amor-próprio invejoso e uma crueldade vil; por hora, é apenas isso o que conquistam: criaturas necessariamente desprezíveis, não se alimentam de nada que não seja corrupção". 

   É instrutivo como Hall vê o "avanço à parte esfolada" por parte das moscas, desconsiderando-se a parte sã. O recorte arbitrário é o que caracteriza o detrator irreconciliável, o encrenqueiro contumaz que manda às favas qualquer vestígio de humanidade naqueles em quem vemos as manchas do erro, tal como se vê por telescópio - e só por eles - as manchas do Sol. Nada mais característico do nosso mundo de indivíduos auto-centrados do que a auto-beatificação em nome da condenação do mundo. O comportamento auto-indungente leva ao desenvolvimento de uma consciência extremamente sensível para os erros que não são os deles; e a extrema violência com relação aos erros dos outros pode até sugerir uma pureza para os mais incautos, mas trata-se certamente de um lenitivo à consciência esmagada pelos própria corrupção. Os berros histéricos em nome da justiça é característico de quem já não suporta os próprios erros, e por isso, se agarrar a um cavalo esfolado tal vez seja a última estratégia de salvação para quem deseja cobrir com um verniz de civilidade a sua tremenda cara-de-pau. 

  Que tenhamos em nosso meio mais "reverendos Hallses". 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Os Frutos Podres do Novo Egoísmo


   Alguns de nós que não perderam totalmente um sentimento de pavor diante da escalada descendente dos rumos do nosso mundo ficam chocados com a constante barbarização das relações humanas e da degradação evidente dos afetos. Mas poucos se põem a investigar as causas de tão grande barbarização que dominam as relações em nosso querido mundo. E não é meu interesse esgotar aqui o assunto, mas gostaria de refletir um pouco sobre as causas do egoísmo moderno, o que vejo plenamente estabelecido naquele pensamento progressista que afirma que o presente é o ponto mais avançado na história, sugerindo com isso que toda mudança, porque mudança, é boa em si mesma. Sendo um convite para a atomização do indivíduo, essa doutrina é, também, um convite aberto à violência.

Começando no caso das igrejas, tal vez deveríamos nos perguntar se a ideia de uma Igreja fundada em dogmas proclamados de modo infalível não seria algo que permitiria mais estabilidade e mais amizade entre gerações distintas - proporcionando o desenvolvimento de uma verdadeira "comunidade de almas" - do que uma ecclesia reformata et semprer reformanda est. Mal interpretada essa ideia é, na verdade, fora de uma tradição com valore fixos, um convite à revolução permanente no campo doutrinal e, por isso, na mente daqueles submetidos à esfera de ação deste tipo de "ecclesia". Como concordaria Aristóteles, a ideia de que se somente existisse um movimento infinito de reforma sem uma forma eterna fixa padrão a dirigi-la, o bem seria impossível. E podemos saber o porquê de tudo isso analisando um fato óbvio sobre a constituição de uma comunidade de almas, cuja unidade é metafísica. Se me entrego ávidamente à implosão dos padrões e enxergo nisso um "bem-em-si", então, para mim, toda destruição, independentemente das feridas, das divisões, das rixas e das dores será sempre algo criativo. O eu reina e o universo o serve, algo digno de uma molecagem irresponsável.

Se uma reforma é legítima ela deve, como dizia G. K. Chesterton, conservar valores eternos tal como um homem que deve pintar sempre um poste que ele deseja ver permanentemente branco. Na área da moral e das relações humanas, as mudanças abruptas de valores só servem para espalhar a confusão, discórdia e angústias generalizadas, pois os apóstolos bem intencionados da reforma radical são egoístas o bastante para impor seus padrões de pensamento de forma abrupta a uma comunidade gerada no interior de uma determinada tradição. Não negamos uma revolução metafísica, mas entre ela e o egoísmo há uma distância de pequenez infinita - e somente um homem vil ou um Deus poderá realiza-la.

A inflação do eu parte do pressuposto do "ponto mais avançado na história". É o novo egoísmo. Nesse sentido, se tudo já estivesse tão determinado assim, não seria mais necessário aprender, mas somente viver. E é aqui que temos a raiz do desentendimento conflituoso entre pais e filhos, já que sua origem se dá na deturpação e no desencontro de interesses. Esse é o triste fruto da emancipação juvenil que, se crendo na possa plena das luzes, mandam às favas todos os conselhos de experiência afim de obedecerem à voz dos seus próprios corações. Mas como o mundo é apinhado de corações que pensam de forma distinta, não precisamos ser demasiado imaginativos para ver o que seria de um mundo onde cada coração se pusesse a ser o seu próprio órgão legislativo. Temos aqui um universo degradado, fragmentado e egoísta tal como sugerido pela física de Epicuro, onde cada átomo, sem maiores compromissos, persegue apenas o seu clinâmen.

Não por outro motivo, cada indivíduo autocentrado tende a ser egoísta, e não é estranho percebe o porquê da maneira violenta a massa dos jovens modernos desejam se sobrepor a todo custo os seus desejos e o seu "modo de ser" sobre o mundo. A questão passa por uma falsa percepção de emancipação e luta por uma liberdade da qual, sem perceber, eles estão fartos. Mas essa é uma consciência falsa de liberdade porque embasada em um nada de referências. Na longa desqualificação por parte da intelligentsia progressista moderna dos pais e dos mais velhos como intrinsecamente portadores de um pensamento retrógrado, exilando-os para as terras da insignificância, os jovens perderam o pré-requisito fundamental para a liberdade que é a experiência acumulada, já que é somente daí que podemos evocar comparações e, por isso, atingir o verdadeiro conhecimento do que é liberdade. Ao sugerir de maneira implícita que o reino da ignorância é o mais livre os intelectuais formados no seio de uma vasta tradição suprimiram os referenciais nos quais foram formados e aquilo que Edmund Burke chamava de "O Guarda Roupa da Imaginação Moral".

Por fim, o que resulta disso é óbvio: provincianismo de pensamento, a intolerância, egoísmo, a insegurança típica do auto-centrado cuja referência são seus sentimentos imediatos, a irritação constante, o poder de reflexão prolongada debilitado, incapacidade de abstração, o repertório de ação severamente tolhido e a redução da comunidade de interesses. A elevação dos modos do gueto ao nível de cultura é o resultado da provincianização e caipirização do mundo. Toda cultura complexa, possível pela cooperação entre inúmeras gerações foi tachada como elitista, repressora, exclusivista, racista, sem os intelectuais perceberem - ou percebendo até demais, segundo a estratégia leninista de "dividir para dominar" - que a única forma possível de formação da cultura, assim como dos padrões linguísticos é justamente esse - e os padrões linguísticos longe de serem uma artimanha repressora é a ferramenta mais eficaz para a transmissão do conhecimento e do depósito acumulado da alta cultura. Mas o contrário disso, os intelectuais louvam os pseudo-hieroglifos das pichações como manifestações dos modos comuns de comunicação entre as tribos bárbaras do asfalto. É o fim do mundo.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Intimidade Vulgar; Ou: A Privacidade e a Valorização dos Afetos

   A vulgarização parece ser o modo atual de ação daqueles (e daquelas) que, no fundo, buscam suprir por meio da auto-exposição as suas carências. Isso vem a calhar com a insegurança disseminada em nosso mundo. A privacidade e o segredo perderam o seu encanto original que a firmava a noção de que o íntimo era um meio de reservar aquilo que se possuía de precioso a quem fosse realmente digno da mais alta confiança.

   É nesse sentido que podemos compreender a impaciência dominando os corações, algo impossível de não perceber quando vemos a quantidade de meninas, mulheres, senhoras (!) e mesmo homens pondo a mostra seus próprios corpos - como se houvesse como uma realidade psicológica de fundo um medo de perder o valor no campo dos afetos para aqueles que fazem também da exibição uma forma de adquirir olhares e admiração.

   A vulgaridade é um monstro que se auto-alimenta.

   Não é atoa que a fidelidade - que anda de mãos dadas com a intimidade privada - ande tão fora de moda frente à dissolução dos afetos. Isso gera insegurança e um apelo mais forte ao vulgar como um meio de obter afetos. E temos aqui diante dos olhos uma realidade paradoxal: quanto mais se busca afeto mais as pessoas se distanciam dele. E para sintetizarmos isso trago como analogia uma máxima da economia, que é: a tendência de tudo aquilo que está em abundante oferta é a desvalorização.

   Por tanto, para o nosso bem, cuidemos da nossa própria intimidade e tenhamos fé que a busca pela pureza é, no fundo, a única parede de proteção que realmente protege e fomenta o verdadeiro amor.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Instituições: Um Mal?

As instituições não existem para destruir pessoas, na verdade as instituições são produtos humanos, produtos de reflexão humana e do logo e sofrido confronto humano com a própria realidade. O processo de formação das instituições se assemelha ao processo formador da cultura: resultam de um longo acúmulo de experiências e de razões que as pessoas não podem, sob hipótese nenhuma, adquirir sozinhas. Elas estão aí, por tanto, em princípio, para ajudar o homem - até mesmo contra o homem.
Há uma ficção em voga que diz sobre a maldade nata das instituições, algo como se elas fossem, no mínimo, o produto direto da corrupção humana. Na verdade há um tom de desprezo e ignorância profunda nesse argumento, ou um desejo pela destruição daquelas saudáveis travas que funcionam como freios às paixões humanas e à soberba humana que impendem que o homem corrupto desfralde a sua maldade ao mundo com o poder de um rei.
O desprezo às instituições não é algo humano, mas é, ao contrário do que se diz, anti-humano. Ele apoia-se em naquela vontade destrutiva onde a liberdade fundada em um ódio às convenções, aos acordos e ao respeito ao labor de terceiros - e um amor desmensurado a si mesmo - só pode degenerar em anarquia, um estado de coisas onde a vida torna-se basicamente impossível: a guerra de todos contra todos.
Todas as relações sérias se tornam institucionalizáveis, vindo a ser: Igreja, Estado, casamento, empresas, escolas, hospitais, partidos, fundações, grupos de estudo, agências financeiras etc. Todos fogem de um determinado estado primitivo para vir a ser potencializado pela razão e pelas descobertas do funcionamento das leis que guiam as relações e realizações humanas nos mais diversos campos da vida. Elas se tornam instituições em favor do bem e não do mal humano - e findam-se aqui as tolices de Jean Jacques-Rousseau.
A unidade entre os homens só pode resultar de um acordo formal e de um pacto que leve em conta a unidade da natureza humana descoberta ao longo da história. Quem possui um desprezo pelas instituições como princípio ama a desintegração das relações - e, por tanto, a desintegração dos homens -, e geralmente não sabe o que está falando, ou possui, no fundo, um desejo resoluto por destruir e de se auto-destruir.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Sentimentos Demais e Juízo de Menos


O nosso mundo presente é extremamente guiado pelo afeto, pela sensação visual e por tudo aquilo que se pode perceber de forma mais direta possível - à semelhança dos animais que são débeis na utilização do intelecto. O mundo da razão e o conhecimento dos valores que julgam nossas sensações, com isso, é deixado de lado. Não é difícil ligar esse estado de coisas à situação absurda na qual vivemos. A destruição da inteligência, a redução de todo o mundo ao prazeroso - a plena floração da existência "estética", como dizia Kierkegaard -, a moda sentimental do multiculturalismo que afirma a inexistência de coisas superiores e inferiores no mundo (um pensamento para não deixar ninguém ofendido com as suas misérias), é, ao mesmo tempo, a destruição de toda a capacidade de juízo das ações mínimas na nossa vida concreta.

Uma mente humana comum sabe que diante de escolhas é necessário que optemos pelo mais urgente quando necessário, e pelo lúdico quando possível. A possibilidade mesma de julgar o "bom para o momento" é uma das coisas que caracterizam a inteligência humana e que impedem que caiamos em uma existência amorfa, o que seria algo simplesmente anti-humano - pois aqui, em sentido radical, a vida não vale mais do que a morte. O senso de hierarquia de prioridades é aquilo que possibilita que eu opte gastar o meu salário com a minha família ao invés de gastá-lo com jogos de azar. Toda escolha moral é uma escolha que envolve coisas com as quais estou envolvido de forma irredutível. É justamente isso também que me faz irresponsável quando não cumpro com o meu dever, distribuindo os custos de minhas irresponsabilidades com outros que acabam arcando com as consequências dos meus atos, não obstante não serem responsáveis por isso. É nesse sentido que a vida é inteligível; e é isso mesmo que forma a base de juízo para qualquer espécie de conduta humana, pois nenhuma ação humana está isenta de juízo.

Para a nossa própria orientação o universo moral deve ser evidente, e a política de terra rasada de todo universo moral só tende a beneficiar, em último caso, o imoral. Mesmo o antropólogo que observa uma cultura estranha com "isenção" faz isso em nome de um certo "respeito" e uma "superioridade científica". Mas devemos nos perguntar se até aí a própria atitude de isenção por parte do antropólogo não é algo que parte de um juízo de valor sobre a melhor atitude diante do seu ofício. Nesse sentido a sua imparcialidade é um posicionamento que ele crê ser superior ou adequada ao ofício, se servindo, por tanto, de uma hierarquia de valores e de um tipo de juízo moral que considera "inadequada" a parcialidade ou inferior a atitude de julgamento moral sobre as culturas, algo que não se deveria esperar de um antropólogo. Também é aqui que o multiculturalismo - que apela para uma indiferenciação valorativa de todas as culturas - se coloca como uma espécie de filosofia superior àquelas que julgam que um juízo de valor sobre as culturas - que define o inferior e o superior - não seja apenas adequado, mas imprescindível para conduta humana normal. Por tanto o sistema moral do multiculturalismo - que é sentimentalista e politicamente correto - é destruído em sua própria base.

Mas o que viria a ser a decadência da inteligência com base na orientação meramente sentimentalista das decisões? Muito se ouve falar de que devemos buscar ser "felizes"; contudo só um louco ou Deus podem ser felizes o tempo todo. A vida é mesclada com a infelicidade que nos caracteriza e que também nos humaniza. Não há bem verdadeiro no contexto desta vida que não esteja marcado pela realidade do sofrimento. Esperar ser "feliz o tempo todo" só pode ser um objetivo de vida de uma pessoa mimada. Não é sem razão que hoje, nesta busca desenfreada pelo prazer da felicidade, essa ideia tenha colocado em xeque instituições tão veneráveis com o casamento, e prostituído coisas tão importantes como a Igreja. Tal vez levada também pelo sentimento democrático, a verdadeira literatura e a verdadeira religião que tendiam a confrontar radicalmente o homem de maneira viril, acabou por ser rebaixada em sua verdadeira missão de servirem como o aguilhão da consciência ao nível das propagandas. O menor custo e o maior lucro parecem ser a tábua de juízo em um mundo onde a popularidade é o maior índice de valor que as coisas possuem.

Ao contrário disso, muitos esforços foram empreendidos para a descoberta do verdadeiro Bem para o homem. Sócrates inaugurou uma tradição de reflexão sobre a justiça que até hoje não cumpriu o seu papel de esgotar o assunto. Já o seu pupilo Platão remeteu a solução para o mundo das ideias eternas, cuja reflexão exata sobre essa realidade só poderia alcançar o ponto máximo quando atingisse o infinito, quando o pensamento e o espírito humano se elevassem à identidade absoluta com a Ideia Eterna. Mas os filósofos sabiam - ao contrário dos utópicos e radicais políticos de hoje - que vivemos no mundo da finitude, por isso o filósofo só poderia vislumbrar a totalidade da Ideia Eterna após a morte, quando desobrigados e desembalados da finitude que nos cerca. Da mesma forma o cristianismo prometia a bem-aventurança da Visão de essência eterna de Deus quando nossa alma estivesse em eterno matrimônio com o Eterno após a morte e o Juízo Final. Nessa escola filosófica espiritualista ficava clara a mensagem de que o mundo das paixões atrapalhavam a nossa Visão, ou contemplação da Realidade Absoluta. Por isso forças descomunais foram empregadas pelos intelectuais místicos para a compreensão da realidade, pois eles sabiam que no campo dos sentidos e das paixões - sejam eles afetos sentimentalistas ou o ódio brutal - não existe entendimento.

Falávamos dos afetos. E esses são, porque corrompidos, uma das partes do problema, e não a solução. Com isso não quero afirmar que nossos afetos não possuam um lugar especial na vida humana, pois é deles que nascem os nossos sentidos mas básicos de pertença e compromisso sem os quais nada importaria em nosso mundo. Contudo eles podem, quando deixados a si mesmos, nos transformar em piegas de um sentimentalismo barato ou em monstros ressentidos. A operação da inteligência nesse campo se torna necessária pelo simples fato de que é o intelecto humano que realiza juízos de valor e que estabelece hierarquias por meio dos quais julgamos nossas ações práticas e os nossos sentimentos como bons ou maus no contexto da realidade das nossas relações com o mundo. É por isso que em um país tão entregue aos sentimentos de euforia e de tristezas inexplicáveis - como se as sensações fossem tudo - como o Brasil, algo de sombrio se anuncia no horizonte. Somos muito habituados e ter grandes sentimentos; o problema é que ainda não sabemos explicar o que isso significa.