sexta-feira, 22 de setembro de 2017

O Paradoxo da Tolerância e o Evangelho

   Um amor real nunca "aceita tudo". A confusão entre amor e tolerância se dá justamente por causa da incompreensão do paradoxo da tolerância, onde a elevação desta ao nível do princípio acaba por dar espaço ao seu contrário.
   Mas vamos entender: será que a tolerância é boa quando, em nome da diversidade, colocamos em um mesma cercado lobos e cordeiros? O mesmo se dá com a liberdade ilimitada: a liberdade igual entre lobos e cordeiros é sentença de morte aos cordeiros.
   O amor é o equilíbrio justo e hierárquico das diferenças e não a tolerância elevada ao nível do princípio. A tolerância só é possível com uma estabilidade consensual sustentada por regras: a diferença é um aspecto permanente da humanidade, mas ela deve ser equilibrada por um justo meio onde as pessoas aceitem determinadas leis que subjugam a todos por meio de um contrato social.
   Esse tem sido o consenso político do ocidente, cuja base cultural é tanto cristã como iluminista e cuja junção se deve mais a um arranjo pragmático do que a um motivo principiológico. Mas a tolerância cristã só se ajusta a isso porque fundada no amor do Evangelho que apregoa a paciência de Deus que leva o homem ao arrependimento e à salvação, e não por causa de um nivelamento acrítico de todas as diferenças que é uma caricatura diabólica do amor para quem "tudo é bom ao seu modo".

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Assassinatos de LGBT: Mais Matemática, Por Favor

O assunto está ficando chato demais. Mas existem erros de metodologia que simplesmente me deixa assustado... Ligar protesto contra a exposição do Santander com assassinato de travesti é simplesmente desonesto. É aquela perguntinha incendiária que amplia a nossa visão: Será que todo assassinato de travesti é homofobia? Conheço não poucos assassinatos de homossexuais que fazem programa, por exemplo, que foram causado por pessoas que faziam programas com eles.
Alguns dizem que a população LGBT é de 11 milhões de pessoas, ou algo próximo de 5% da população. Dizem que algo em torno de 347 LGBT's morreram assassinados por motivo de homofobia em 2016, certo? Morrem, aproximadamente, 55 mil brasileiros por ano por assassinato. Vamos lá: se 5% da população corresponde a 343 assassinatos, e se multiplicarmos esse número por vinte - que dá a proporcionalidade de 95% de brasileiros héteros -, então teremos 6.940 assassinatos proporcionais aos 95%. Isso significa que sobram aí 43.060 assassinatos proporcionais para que o grupo LGBT alcance o tanto de assassinato de héteros.
Isso quer dizer que existe uma epidemia de heterofobia, se morrem proporcionalmente mais de héteros no Brasil? Não, pois no Brasil morre muito todo mundo. O Brasil é um dos países que mais mata, e nenhuma classe sai ilesa. O que contesto é essa narrativa incriminatória que, no fundo, visa cercear a opinião, meter medo e, no fundo, anseia poder político por meio de uma calúnia que se quer verdade porque aqueles que se servem dela sabendo que podem ganhar com isso. O vitimismo é algo altamente lucrativo no mundo contemporâneo.
Por tanto, mais honestidade e matemática, por favor.

Mais Sobre Arte: A Crítica da Faculdade de Julgar

   Para palpitar sobre arte, leia esse livro em especial - se você aguentar e se não for um teologuinho incapaz.
   Aqui está a tese maravilhosa de Kant - esquecida de todos os pós-modernos por causa daquele estranho gosto que os fazem ter o coração devotado ao lixo -, que é: "A Beleza é o Símbolo da Moralidade". Não será possível entender o porquê de Hegel ter afirmado que a destinação da arte é semelhante a da religião e da moral sem esse livro. Também sem esse livro é impossível compreender algumas proposições de Schelling.
   Mais do que qualquer outra obra o romantismo alemão se fundou aqui... E sinceramente eu me pergunto a razão pela qual a modernidade aceitou o urinol de Duchamp, inaugurando a militância destrutiva na Europa contra toda a tradição estética do ocidente, tendo esse livro de pouco mais de cem anos nas suas costas.
   Mas é isso aí. Se você não quer ser demolido quando fala de arte, leia essa obra de Kant - que, repito, não é acessível ao incapaz.

O Dom do Conhecimento



   Hoje eu fico com cada vez mais espanto quando busco compreender de onde as pessoas tiram a ideia do bem e mal, do certo e do errado.
   Se eu fosse um relativista ou um historicista radical diria que essa compreensão está relacionada com o modo de compreender o mundo de cada época e de cada povo, e que cada qual está certo ao seu modo. Mas como eu posso saber que "cada um está certo ao seu modo" se esse relativismo esvazia a própria ideia de bem e mal, e que, por isso, nunca atingimos com a nossa mente o que sejam essas coisas de fato? 
   Por mais que gente sabida ache superstição a ideia de iluminação eu não consigo não constatar realmente que quem nos esclarece o certo e o errado é a presença divina sem a qual não seria possível um bem no mundo, já que o bem, necessariamente, deve ser sempre o mesmo, eternamente igual a si e perdurar assim por todo o sempre. 
   Sendo o mal o que é, qual não seria a ignorância de quem nunca soubesse o que essa coisa é, sendo impossível o discernimento sobre o certo e o errado? Que vida degenerada não viria daí? Já afirma o cristianismo que o mal é o afundamento radical na contingência, pois privados da referência da luz do ser a mente humana é enterrada nas trevas do não-ser, onde não há definição mas apenas trevas, degeneração e ignorância.

Antes de Palpitar Sobre Arte


   Antes de palpitar sobre arte ou expressão, leiam esses livros, por favor:

 
Benedetto Croce: Estética como ciência da expressão e linguística em geral.

F. W. J. von Schelling: Filosofia da Arte (Obra Genial).

Roger Scruton: O Rosto de Deus (esse livro tem um itinerário semelhante ao de Hegel: passa da realidade espiritual e abstrata para a concretização do espírito no mundo). 

Roger Scruton: Coração Devotado à Morte - O Sexo e o Sagrado em Tristão e Isolda, de Wagner (veja aqui qual é o lugar do sexo na arte, pois ele está ligado à redenção, e não à profanação).

Fichte: Sobre o Espírito e a Letra na Filosofia (é aqui que começa a investigação filosófica da arte ligada ao romantismo alemão).

Ângelo Monteiro: Arte ou Desastre (Crítica deliciosa à arte moderna. Livro de formação para barsileiros).

Theodore Darlrymple: Nossa Cultura... Ou o que restou dela (Os primeiros 12 ensaios falam exclusivamente sobre arte e na segunda parte existem insights sobre arquitetura, como em "Como Ler uma Sociedade". O 12° ensaio fala sobre o niilismo estético).

Santo Agostinho: Cidade de Deus (Nos primeiros capítulos Agostinho apresenta uma hipótese para a decadência romana: os teatros. A argúcia do pensamento de Agostinho é de espantar).

G. W. F. Hegel: Curso de Estética (A visão de arte de Hegel apresentada através do seu método dialético e da sua filosofia da consciência é edificante e maravilhosa).

Platão: República (Aqui está a crítica fundamental da arte que se tornou modelo para a filosofia).

S. A. Kierkegaard: O Desespero Humano (como uma categoria da consciência isolada do seu fundamento pode levar o homem, através da atividade frenética da imaginacão, ao desespero do infinito e sem formas? Com uma visão cristã Kiekergaard aponta aqui a doença das doenças da modernidade: a ausência das limiações ou, em linguagem filosófica, de um limite ontológico, algo que desemboca no niilismo estético).

C. S. Lewis: A Abolição do Homem (Como o subjetivismo pode destruir a sua Humanidade e até a sua nação? Não tratando diretamente da arte, Lewis toca, não obstante, em um ponto fundamental da compreensão da arte: o fundamento objetivo da experiência humana).

Nortorp Frye: Imaginação Educada (Qual o alcance da literatura bíblica e grega na formação da literatura, do padrão linguístico e mental do Ocidente?). 

Imannuel Kant: Observações Sobre o Sentimento do Belo e do Sublime (Sendo um livro de antropoligia filosófica, Kant parte dessas duas categorias estéticas para explicar até a diferenciação entre os sexos. Você já ouviu falar do "Belo Sexo" se referindo ao gênero feminino e o "Sexo Sublime" se referindo ao gênero masculino?).

Edmund Burke: Investigações Filosófica Sobre a Origem das Nossas Ideias do Sublime e da Beleza (Investigação profunda sobre os fundamentos do gosto).

Roger Scruton: Beleza (Uma obra brilhante para compreendermos a destinação da arte e do porquê da degradação do gosto ser também a degradação homem e do mundo). 

René Girard: A Conversão da Arte (Como a arte pode revelar a verdade fundamental da inveja como um dado estrutural da cultura humana e a consequente escalada aos extremos apocalípticos da violência que invariavelmente são canalizados a um bode expiatório? Girard sustenta a tese de que toda a literatura é essencialmente a recontagem da narrativa da paixão de Cristo, o seu modelo fundamental, ou é uma farsa que oculta o homem do próprio homem) 

Werner Jaeger: Paideia - A Formação do Homem Grego (Qual era a ideia de formação grega? Contando a história do ideal pam-educacional da civilizacão grega, que ia da ideia de educação à política, família, religião, filosofia, artes em seu mais amplo alcance e mesmo à estética corporal, Jaeger explica a dimensão, profundidade e alcance da cultura grega).

   Não vá na ideia de ideologuinho ou teologuinho. Leiam isso e aprendam o que é arte.

A Arte como o Último Covil


   A escultura, arquitetura, poesia e demais áreas da arte jamais são neutras. Todas são expressões simbólicas de realidades que militam em nosso espírito ou são coisas para as quais damos o nosso assentimento e que se estabelecem em uma relação dialética com o eu daquele que as contempla. Nunca a arte não diz nada, pois impõe por si mesma uma informação à realidade pelo próprio fato de existir.
   Todas as expressões da arte passam informação e podem, como já disseram Platão, Santo Agostinho e Hegel, elevar o homem, sendo veículo das mais altas realidades do espírito, ou podem fazer degenerar o coração humano e enterra-lo em pensamentos vis ou incitá-lo à violência e ao dilaceramento. Sem essa crítica não haveria nem mesmo aquele violento movimento iconoclasta do protestantismo cristão, o qual enxergava em qualquer arte uma degeneração do espírito. Mas não precisamos ir tão longe.
   O que vimos no espaço cultural do Santander não foi algo neutro. Em sua apresentação o curador disse quais eram as intenções do evento: quebrar o significado patriarcal de museu, quebrar a imposição normativa da moral sexual vigente, abolir os parâmetros normativos do cânone artístico e se presentar como campo de batalha. Mas vale lembrar o que aformou Dalrymple quando sabemos da manipulação da imagem infantil: o que é quebrado no nível simbólico também será quebrado na realidade.
   Antigamente se poderia dizer em épocas de vigência máxima do jingoísmo que o nacionalismo era o último refúgio do canalha. Hoje, sem medo de errar, podemos dizer que na vigência geral de uma existência estética de corte sartreano não comprometida, onde ninguém quer dizer aquilo que realmente diz ao dizer, que a arte tornou-se o último covil dos criminosos.

Hegel e a Finalidade da Arte


   Já se foi o tempo de G. W. F. Hegel em que, considerando o destino, a finalidade e a essência da arte, era possível definir assim a essência da arte: 
   "O seu mais alto destino, tem-no a arte em comum com a religião e com a filosofia. Como estas, também ela é uma expressão do divino, das necessidades e exigências mais elevadas do espírito."
   "Despertar da alma: este é, dizem-nos, o fim último da arte, o efeito que ela pretende provocar. Quando sob este apecto consideramos o fim último da arte [...] logo verificamos que o conteúdo a arte compreende todo o conteúdo da alma e do espírito, que o fim dela consiste em revelar à alma tudo o que a alma contém de essencial, de grande, de sublime, respeitoso".
   "A arte teria por fim , sobre tudo, l'aduciment de la barbarie [suavização do bárbaro], e é certo que, para um povo que mal entrou na vida civilizada, esta suavização dos costumes constitui, com efeito, o fim principal que a arte se destina. Acima deste fim, situa-se a moralização, que durante muito tempo se considerou como o mais elevado."
   Contudo, nem tudo são luzes, pois o filósofo alemão também afirma:
   "[A arte] Tem o poder de nos experimentar em todas as infelicidades e misérias, de nos tornar presentes o mal e o crime. Graças a ela temos o poder de sermos testemunhas pávidas de todos os horrores, experimentar todos os pânicos, podemos ser revolvidos pelas emoções mais violentas. Pode a arte erguer-nos à altura de tudo o que é nobre, sublime e verdadeiro, arrebatar-nos até a inspiração e ao entusiasmo, como pode mergulhar-nos na mais profunda sensualidade, nas paixões mais vis, abafar-nos em uma atmosfera de volúpias, e bandonar-nos desamparados, esmagados pelo fogo de uma imaginação desenfreada."
   Nesse caso temos o niilismo estético, a quebra absoluta de valores levada a cabo em nome de uma pretença liberdade por meio da qual se deseja expressar a animalidade mais vil do homem como um valor entre outros. O igualitarismo vigente que incita ao nivelamento por baixo de tudo o que é humano, associado a uma liberdade ilimitada só pode resultar na degeneração tal como vimos no espaço cultural do Santander, a anti-arte concreta.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Igreja Reformada, a Lei e a Liberdade


  Na Reforma - principalmente nos setores da Igreja Reformada - o que predominou foi o entendimento de que lei e liberdade possuem uma relação indissolúvel. E isso significa que não era apenas a fé que importava, ou a Graça, mas a moral também era fundamental - até para compreendemos o que é a Graça. 

  Esse equilíbrio entre Graça e Lei é a razão da ordenação de muitas sociedades protestantes e aquilo que impediu de estas sociedades sucumbirem às ações de revolucionários fanáticos e dos totalitários. A Bíblia não apenas anuncia a Graça, também nos confere mandamentos, pois segundo ela, Deus, quando se revela, não é apenas salvador, mas também é legislador. Qualquer um que não está sob a lei de Deus não pode estar sob a sua graça. 

   Se por um lado temos os legalistas que ligam mais para a moral do que para a graça - sufocando a vida do homem - e por outros temos os fanáticos revolucionários que desejam destruir todo o tipo de ordem em nome de uma liberdade absoluta, a Bíblia nos ensina que sob Deus o homem, na sua presença, vive na junção da lei e da liberdade, o que evita com que sejamos legalistas ou liberticidas, mas um tipo de homem cuja personalidade se encontra centrada em Deus.

A Revelação, a Razão e a Edificação




   
O fanatismo religioso é uma das formas com que a destruição do homem e da sua razão se manifesta. A revelação cristã não vem para aniquilar o indivíduo, para destruí-lo, enlouquecê-lo, ou para torná-lo um alienado, fazendo com que esse siga de forma abobada, ou como um indivíduo lobotomizado, qualquer fanático que saiba dizer "amém" ou "Deus falou comigo". Ao contrário disso a revelação vem justamente para edificar o homem afim de que ele possa atingir a grandeza para a qual foi criado e para que ele utilize, para glória de Deus, o máximo da potencialidade da sua razão em toda as possibilidades de manifestação dessa - seja isso no campo da ética, no campo estético, científico ou religioso -, pois "A revelação não destrói a razão: é a razão que suscita a pergunta pela revelação". (Paul Tillich)

quinta-feira, 27 de julho de 2017

O Supremo Bem



   Existe uma visão errada das coisas que está calcada na falta de compreensão sobre a verdadeira finalidade das nossas ações. O fim último das nossas ações é o bem e é esse bem que devemos perseguir se quisermos - obviedade das obviedades - alcançar algo bom em nossas vidas. Essa visão errada, na verdade, trata-se de um vício que persegue a grande maioria das pessoas e que se constitui na busca pela realização de virtudes ou produção de bens secundários: um é sincero, e acha que a sua sinceridade é um bem em si mesmo; outro já pensa que o bom é ser corajoso; outro é o ter saúde; outro uma boa posição social; outro já pensa que é buscar ser informado; outro visa o escrever bem; o outro o poder de convencer.
   A questão é que não sustentadas pelo bem todas as virtudes a cima listadas tendem a degenerar: o sincero pode vir a ser um inconveniente que não segura a sua língua em nome do decoro; o corajoso pode vir a ser um temerário que coloca a sua vida e a vida dos outros em risco por pura vaidade; a saúde do saudável pode fornecer amplo poder para a produção da sua maldade, algo que uma saúde fraca limitaria; a boa posição social pode fazer com que se use a influência para destruir maliciosamente adversários; o que é bem informado pode manipular informações apenas em benefício próprio; o que escreve bem pode fazer pessoas migrarem para uma segunda realidade e por em marcha delírios destrutivos; e aquele dotado de poder de convencimento pode usar de forma maligna esse poder para promover causas malignas.
   Já Platão, na República, e Kant, na Fundamentação da Metafísica dos Costumes, afirmam que o bem é a ideia reguladora e que pode ser expandida ilimitadamente sem se contradizer a si mesma, e que quando todas as coisas perdem de vista esta finalidade, tudo vem a ser corrompido. O fino ajuste das coisas requer para a sua própria manutenção uma constante revisão e revisitação do olhar avaliador e imperecível do bem. Se Platão vivesse em nossos dias, enxergaria horrorizado a expansão da técnica acompanhada de um declínio religioso e moral nas áreas em que justamente essa técnica cresce. No diálogo platônico chamado Protágoras há um mito em que Zeus, após a criação do homem, vê desesperado o fato de que Prometeu concedeu a esses a posse do fogo de Hefésto e as habilidades práticas de Atenas (as virtudes técnicas e científicas), mas sem o poder moderador das virtudes cívicas, fraternais e religiosas. Prevendo a extinção do homem ele encarrega Hermes de distribuir tais virtudes para que os homens não se matassem uns aos outros. Essa intuição é de primeira ordem e abre caminho para percebermos a necessidade de uma concepção atemporal de bem, ou, como diria Russel Kirk, de uma “ordem moral duradoura” que promova um bem duradouro e infinito ao homem.
   E por fim, tal ideia do bem se harmoniza claramente com o conceito cristão de amor, que se estende para além da simples noção de afeto. Em I Co 13, o hino clássico acerca do amor cristão, temos a incrível afirmação de que nem a distribuição total dos nossos bens aos pobres e nem mesmo o entregar o meu corpo para ser queimado e nem o conhecimento total nada valem se não houver amor. Entramos, por tanto, no terreno que ultrapassa a noção vulgar que confunde amor com egoísmo e com desejo de satisfação para si. O primeiro mandamento (Êx 20:2), que ordena a colocarmos Deus acima de tudo, nos faz perceber também que sendo Deus o bem supremo sem o qual nada do que existe poderia vir a ser, então, ou tudo é orientado n’Ele ou nada pode vir a ser bom para os homens. É por isso que não há diferença substantiva entre amar a Deus, amar o próximo e amar a si mesmo, como nos ensinou Jesus (Mt 22:37-40).

Corrupção e Equívocos



   Há uma visão equivocada de que a corrupção é o maior mal de uma República. Definitivamente não. Um exemplo claro disso é o que ocorreu com a Petrobrás, onde a corrupção causou um prejuízo muito menor do que a política de preços de combustível, na insistência do Governo Dilma de não repassar o aumento de preços e fazer a empresa arcar com os custos - o que ocorreu também com a Eletrobrás, quando Dilma baixou o preço da energia, incentivando o consumo, o que acabou por precipitar o país na crise energética, pois não haviam fontes de energia suficientes para suprir a demanda. Foi justamente esta política de preços desastrada que levou o país à ruína, ao desemprego em massa e à maior recessão da sua história. Há mais coisas entre o céu e a terra do que imagina a vã filosofia dos puritanos escandalizados que imaginam que a corrupção é o maior mal em um país. Não, a estupidez também é um imenso mal, e o pior disso é que o estúpido - como a Dilma - pensa que a sua estupidez é ao mesmo tempo o clímax da virtude, já que um indivíduo assim está plenamente convencido da sua própria bondade. Não é difícil prever que um governante assim está predestinado a levar o país à ruína.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Elementos do Direito Natural



   A ideia de direito natural afirma a existência de uma justiça fundamental que é passível de ser captada pela razão. Tal ideia se baseia no fato da existência da verdade. As dificuldades não são poucas na tarefa de afirmar tal hipótese, já que logo surge a objeção de que há uma variedade de noções de verdade e uma variedade de noções de justiça. Mas logo após a constatação desta pluralidade de concepções de verdade e de justiça - ou mesma da afirmação de que não existe a verdade e nem mesmo a justiça -, surge assim mesmo o estupor, já identificável no surgimento da filosofia, de que é justamente esta pluralidade que exige da nossa razão a resposta concernente à Verdade e à Justiça. 
   A aventura humana pela busca de uma unidade da razão com uma verdade fundamental permeia toda a história da religião e da filosofia. Essa é uma busca que nos parece estar vinculada à essência do animal  reflexionante que é o ser humano e na busca da compreensão pela realidade das coisas tal como são. O choque da existência, ou a ameaça do não ser, o afundamento do homem na mais absoluta contingência, o que parece fazer do homem alguém plantado em pântano movediço que escoa para o nada, onde tudo é incerto e aniquilação, parece levar o homem à pergunta pelo Ser. O estupor gerado pela barbárie violenta que nos cerca e que cerca a história leva o homem a perguntar pelo fundamento eterno da própria realidade. A aniquilação violenta perpetrada pelos homens e pela natureza, ainda que nos leve a pensar e acreditar que estamos vendidos à aniquilação e à violência, provoca no homem a necessidade de uma resposta que é ao mesmo tempo uma experiência que justifica uma ordem no interior da história. 
   Ainda que se possa afirmar que todo o processo racional do homem na busca pela verdade e pela justiça seja um derivado do seu medo diante da violência da natureza, é fato que entre todos os animais o homem é o único que se faz a pergunta pela verdade, pela justiça ou pelo sentido da vida. A agonia da razão, ou as dores de parto do raciocínio lutam no homem para colocar no mundo uma verdade final e um sentido que justifique a  existência do próprio homem no mundo.
   Mas não é apenas as relações entre o homem e o mundo que o leva à pergunta pelo Ser. Também, e principalmente, é a relação dos homens entre si que leva à pergunta pela ordem verdadeira e pela pergunta pela justiça. A constatação do fato da existência de homens se matando, roubando uns aos outros e oprimindo uns aos outros o leva o homem à pergunta pelo ser. Não é pequena a dor que desencadeia o lamento doloroso e a busca de sentido entre homens que se ferem e que agonizam uns nas mãos dos outros. A terrível experiência de barbárie mútua, o temor pela vinda do tempo do levantar a mão de todos contra todos é o que também leva o homem pela pergunta com relação à perspectiva correta sobre a vida. Aqui também temos que constatar que a peculiaridade atordoante do fato de que o homem chora e geme por causa do sofrimento físico e que encarando esta desordem como algo não natural ou mesmo como uma violência ao seu ser, o leve também a perguntar pela ordem justa de todas as coisas. Essa intuição da ordem pode ser que seja a busca dos seus alívios existenciais. Mas o mais admirável de tudo é que penetrando pelo véu do sofrimento homens excelentes viram uma luz de ordem por meio da qual puderam enxergar a própria ordem da existência cuja dignidade não só serve ao fim do sofrimento físico, mas que também se constitui como o mundo da realidade fundamental que encerra a resposta à desordem do mundo existente e que, por isso mesmo, é a realidade mais sagrada de todas as realidades possíveis.
   Ao recorrer a livros de filosofia e à literatura das grandes religiões percebemos que essa experiência de ordem tem os traços da experiência mística, pois é essa própria experiência: a experiência da ordenação da alma por meio do vislumbre de uma ordem espiritual transcendente. À filosofia platônica temos a afirmação surpreendente da existência do suporte de um mundo noético não visível pelos olhos humanos, mas apenas aos olhos da mente. Não é a vulgar experiência racional, mas sim uma experiência de uma Razão ordenada pelo Ser e que revela o próprio Ser e que confere forma e ordem a tudo o que existe. A visão dos traços racionais na natureza por meio da filosofia e da experiência cristã com o Lógos está no início da empreita científica, pois essa supõe uma ordem de existência acessível à razão humana. E ainda que a ciência moderna tenha praticado um parricídio, seus antecedentes na filosofia mística dos gregos e na teologia monoteísta cristã é algo que não pode ser negado. 
   Mas a natureza da experiência mística convence de que ela é a mãe de todo ordenamento no mundo por supor que há uma ordem fundamental e imperecível para o mundo. Essa ordem pressupõe uma substância divina, pois só a ordem eterna é uma ordem segura a um mundo ameaçado pela desordem destrutiva. Não por acaso, o terror niilista que ameaça com o afundamento do mundo na contingência é o medo básico de todo homem. Com isso não afirmamos que esse seja o nome usualmente dado para as experiências de terror do homem. No entanto, o medo da loucura, da morte, da guerra total, da violência generalizada no seio familiar e na cidade, o medo da miséria absoluta e a destruição das pedras de sentido são basicamente o medo da manifestação atroz da contingência através da negação do ser com o afundamento da realidade no não ser. Em fim, temos medo do triunfo do mal. Contudo o medo, como medo, deve ter como característica uma ameaça à integridade humana e assim ser isso a resposta definitiva para o homem no mundo. A radicalização do pensamento sobre a integridade nos leva ao vislumbre de uma realidade sempre íntegra. Contudo essa experiência de integridade perfeita não seria o que é a não ser por meio de um fato posto pela própria realidade eterna a que nos referimos. Ao nos darmos conta da distância qualitativa entre nós e a realidade eterna, devemos chegar à consideração de que ela é um dado presente sem o qual a ideia de eternidade não seria possível. Assim também, não teríamos a experiência do mal se já não tivéssemos tido a experiência do bem e se essa experiência não fosse um fato dado antes mesmo da experiência do mal. 
   Chegamos aqui a um ponto crítico e decisivo da nossa reflexão: o que começou por uma reflexão sobre a experiência do sofrimento se revelou como a reflexão sobre uma realidade secundária por sua própria natureza. Refletimos sobre o espanto cósmico do homem por meio das inúmeras ameaças da natureza; refletimos também sobre o espanto do homem frente ao homem e as terríveis experiências de sofrimento e dor que os homens causam uns aos outros; refletimos sobre o anseio por uma ordem sem sofrimentos do homem e o vislumbre desta ordem na própria ânsia pelo não sofrimento; assim chegamos à espantosa afirmação de que em todas essas coisas o bem era algo pressuposto na própria reflexão sobre o sofrimento do homem. Partimos da constatação sobre o sofrimento e vimos que não há sofrimento sem a experiência de integridade violada e que não há integridade violada sem uma realidade precedente da integridade em si. Tal vez o registro mais marcante de que "no princípio era o bem" seja o relato do paraíso presente no Antigo Testamento. Aqui afirmamos a mesma coisa. Também afirmamos a nossa hipótese otimista justamente pelo fato de que a experiência de ordem eterna para a razão humana é uma experiência de fato. E sabemos que não existe busca pela justiça que não esteja alicerçada nesta ideia de uma justiça ideal e eterna sem a qual seria impossível a pergunta pela própria justiça. Assim também afirmamos que sem essa realidade primordial de uma justiça eterna a barbárie e a violência estão justificadas e o fundamento do mundo não é nada além do que um caos aniquilador.

domingo, 9 de julho de 2017

Sentido e Sacrifício


   A relação entre sentido e sacrifício é absoluta, pois tudo o que faz sentido para a gente é também aquilo pelo qual podemos nos entregar plenamente em sacrifício afim de tornar efetiva a objetivação desse sentido no mundo.

   Se o sentido e a vida do cristão estão em Deus, então essa vida é marcada pelo signo da renúncia da cruz que se carrega com o objetivo de manifestar a glória de Deus. Se o sentido da vida é a glória e o poder pessoal, essa vida é vivida sob o signo do egoísmo, e então se sacrifica a honra, a verdade e mesmo a vida de quem se ama em nome da satisfação desse objetivo.
   Dois caminhos e dois sentidos de vida nos são propostos aqui: ou renunciamos a nós mesmos, buscando o sentido em Deus, renunciando o eu em nome de uma Verdade que nos é superior, ou nos fechamos em nós mesmo e sacrificamos o mundo e tudo o que existe para que possamos ser soberanos sobre todas as coisas.
   O primeiro caminho é o caminho de Jesus Cristo, que por Deus e pelo homem se entregou a si mesmo, pois tinha em vista aquilo amava; e o seguindo caminho é o do demônio, que vê o mundo como meio para a realização da própria glória.