quarta-feira, 5 de agosto de 2020

O Romantismo e a Revolução

   O romantismo é o suspiro lamentoso por um passado amado, mas inexistente. É um idealismo de fuga que, amando um certo mundo que apenas existe na mente, se recolhe no aconchego da concha na qual o indivíduo se afasta do mundo, se portando negativamente em relação a ele.

   O problema surge quando, no extremo absoluto da negatividade da Ideia, se passa à ação positiva na implementação do mundo ideal que só pode existir em contraposição ao mundo efetivo. Tal positivação da ideia negativa não pode se dar sem a destruição de tudo o que existe.

   O romantismo lamentoso e resignado se transforma no mais absoluto ativismo destruidor, pois o extremo do negativo é, ao mesmo tempo, o extremo do positivo. O absoluto negativo da ideia é a sua mais absoluta concreção.

   Todo suspiro romântico guarda assim a suspensão do mundo presente, pois carrega em si a direção de um retorno transfigurado a um momento ideal, o que em seu conceito é o mesmo do se entende por revolução.

A Lei Natural, a Vontade e a Salvação

   A ideia própria de lei natural não se permite ser ela mesma hipostasiada a determinadas "escolas" da lei natural. Sim, o que pode ser considerado lei natural em Platão é extremamente distinto do que Hobbes ou mesmo Locke consideravam lei natural - quem estuda a questão sabe exatamente disso. A noção de "lei" natural é antes a consideração de que há uma realidade à qual a mente humana deve prestar contas, e à qual ela tem acesso, mesmo que parcialmente, ainda que em seu estado pecaminoso.

   Nem no cristianismo se considera uma disjunção entre "lei natural e fé" - coisa contrária à própria razão, porque ambas partilham da unicidade da realidade à qual a fé e o conhecimento prestam contas. E para ser claro aqui nem  mesmo o demônio ignora essas leis, já que ao se desfazer da hierarquia divina ele deve estabelecer a própria, caso contrário também não seria remoído no inferno pela consciência da sua culpa, assim como o ímpio o será, sem ter poder ou vontade suficiente para reverter a sua situação.

   Por mais exótico que possa parecer, o que vai à frente ilustra a questão: alguém preso no vício (da carne; sexo, glutonaria; ou do espírito; mentira ou orgulho) não perdeu a sua consciência que tal vício possa ser destrutivo, e mal para si. Mas a sua disposição o impede realmente de mudar. Ele reconhece, por contraste, a contradição entre o ideal e o real em sua vida, ou a contradição entre o que ele é e o que ele deveria ser (sim, ele tem certa noção natural do certo e do errado, ainda que não plena).

   Daí surge a distinção entre "intelecto e vontade" na teologia, pois a salvação não é lá tanto um evento de ensino esclarecido quanto a cura de uma vontade, uma habilitação da vontade para se unir à verdade do intelecto. E é por isso que João afirmou que ainda que muitos dos judeus crescem em Cristo como o Messias, eles não confessavam por medo (Jó 12:42); da mesma forma os demônios sabiam ser Jesus o Filho de Deus, mesmo enquanto anjos caídos (Lc 4:34). De Deus não é o bastante saber, é necessário amar. É por isso que oramos não apenas para alçar conhecimento em Deus, mas também amar o que conhecemos para que não sejamos semelhantes aos demônios.

Ainda que em Obras Imperfeitas, Contudo Salvos pelo Fundamento: Agostinho e os Méritos Salvíficos de Cristo1

Por outro lado, quando alguém ama a esposa e o faz segundo Cristo, quem dúvida que tem Cristo por fundamento? Se ama segundo este século, carnalmente, através da morosidade das concupiscências, como os gentios, que desconhecem Deus, mesmo nesse caso o apóstolo, ou melhor, por intermédios dos apóstolos, lho permite por condescendência. Mesmo nesse caso pode ter Cristo por fundamento. Porque, se não lhe antepõe sua afeição e seu prazer, embora sobre ele se edifique madeira feno e palha, tem Cristo por fundamento e será salvo pelo fogo. O fogo da tribulação queimará essas delícias e esses amores, não condenaveis devido ao matrimônio. A esse fogo pertence a viuvez e as demais calamidades que privam desse gozo. Por isso, essa edificação será prejudicial para quem edificou, porque não terá o que edificou sobre o fundamento e será atormentado pela perda de coisas cujo gozo encantava. Mas será salvo pelo fogo, pelos méritos do fundamento [Cristo], porque, se algum perseguidor lhe propusesse optar entre esses objetos e Cristo, a Cristo não anteporia coisa alguma."

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1] Agostinho - Cidade de Deus. Lib. XXII. Cap. XXVI

O Uso dos Pais da Igreja no Labor Teológico

   Em teologia, se você quiser tanto refutar como afirmar algum pensamento teológico com base em textos patrísticos é necessário ter alguns cuidados, os quais exponho logo abaixo:

   1) Evite dizer, de primeira, que algum pai concorda com aquilo que é uma doutrina que chegou à sua diferenciação no sécs. XIX, XVII, XVI, ou até mesmo do XIII. Geralmente pais dos sécs. I, IV etc. lidavam com tópicos que apenas chegariam à sua diferenciação nos séc. XIII, XV, XIX etc. Evite discussão partidária com base em teólogos como Crisóstomo, Atanásio, Orígenes, Tertuliano, Agostinho, etc.

   2) Pelos mesmos motivos, evite dizer que tal teólogo patrístico "abomina" teologias do séc XIX, XVI, ou que ele "negou" uma configuração teológica que chegou à sua forma nos séc. XV, XVI etc.

   3) Não tente ser um "teólogo patrístico", pois muitas questões de teologia ao longo do tempo chegaram a uma configuração mais determinada e complexa, e portanto retroceder a configurações menos diferenciadas não agrega em nada à teologia. Tal comportamento frente a teologias antigas geralmente sinaliza apenas um truque psicológico fundado em uma fuga de questões atuais apenas porque alguém quer estar estreitado a um "pai", sem olhar para as demandas do hoje, fugindo delas, aliás. Nem mesmo esses pais se comportaram dessa forma, avançando em temas e buscando a exaustão do trabalho iniciado por teólogos mais antigos justamente porque tinham um hoje ao qual se reportar.

   4) Esse último ponto é a razão pela qual podemos buscar na história da teologia, no pais, nos comentadores bíblicos que realizaram o seu devido trabalho ao longo da história, ideias seminais que podem corroborar com algum pensamento teológico mais diferenciado, ou que constitua a base mesma desse pensamento teológico mais diferenciado, mas que carece, ela própria, de diferenciação. Um exemplo disso está no uso - por vezes partidário - de fontes patrísticas por muitos que querem afirmar ou negar teologias modernas da expiação, coisa que por vezes beira o cômico. Podemos dizer que há uma "ideia seminal", mas não que há uma teologia realmente "pronta" com base na qual você possa sair, sem mais cuidados, fazer do oposição a configurações teológicas mais modernas.

   5) O uso de ideias seminais pode levar a conclusões que os próprios pais não chegaram, mas que certamente chegariam caso levassem até à exaustão as consequências das premissas que adotaram em sua tarefa teológica. E é justamente aqui que está o trabalho mais difícil por parte daqueles que não apenas são arqueólogos de ideias, ou historiadores de teologia, mas que atualizam o sentido de tal premissa teológica realizando de fato a tarefa de descompacta-la e levá-la para um nível superior de diferenciação.

O Apelo do Profeta Cheio do Espírito

   Quando as tragédias e a maldade que grassam o mundo foram coisas indiferentes às fé? A resposta é: Nunca!

   "Ouvi agora isto, vós, chefes da casa de Jacó, e vós, maiorais da causa de Israel, que abominais o juízo e perverteis tudo o que é direito, edificando a Sião com sangue e a Jerusalém com injustiça". (Miquéias 3:9-10).

   A questão é que, um versículo antes, o profeta Miquéias afirmava: "Mas de certo, eu sou cheio da força do Espírito do Senhor e cheio de juízo e ânimo, para anunciar a Jacó a sua transgressão e a Israel o seu pecado" (3:8).

   É imperativo que, para entender o apelo do profeta, entendamos que este dispunha de amor a Deus, do Espírito, do juízo, da compreensão do certo e do errado e da misericórdia, pois o ofício do profeta não é a destruição, mas o subjugar da realidade das vontades terrenas à realidade da vontade celeste.

   No profetismo bíblico o profeta não é um destruidor, é um arauto de Deus, é alguém que condensa na sua alma a verdadeira ordem para o mundo, e que devido a sua unidade com Deus pode anunciar e definir o bem, mas também condenar o mal.

   Na Bíblia, profeta não é um bravateiro, um revolucionário, mas a manifestação do pedido divino de reconciliação, aquele que em sua ação deseja a conversão dos homens enterrados no transitório e no efêmero para que estes voltem seus olhos e corações para o mundo da verdade e da eternidade.

O Pastor, o Evangelho e a Cultura

   Se um pastor, ao tomar posse do sentido do texto bíblico, não atualiza tal sentido eterno do texto bíblico para a esfera temporal, para os dias de hoje, qual será a utilidade do seu trabalho?

   Se alguém disser a um pastor: "só anuncie o Evangelho", sendo ele impedido da tarefa de ligar o sentido da mensagem do Evangelho ao tecido histórico, ao homem e ao mundo concreto tal como eles existem, não há nenhum trabalho real, pois não há o cumprimento da tarefa de fazer o Verbo Eterno se tornar carne no tempo.

   A pregação do Evangelho é a pregação do perdão e do arrependimento dos pecados, mas ninguém será tão incisivo se não mostrar de quais pecados o homem deve se arrepender, pois para isso é necessário analizar o homem em sua concretude, no seu fazer concreto, e partir daí para analizar a ligação entre a vontade de Deus e o homem que em seus atos e disposições históricas se opõe à vontade de Deus.

   Devido a isso é inevitável o conflito entre o Evangelho e Cultura, pois a cultura é o fazer do homem, fazer que traz as marcas do homem, de suas virtudes, do seu espírito, mas também dos seus pecados que afrontam a Deus e que esmagam o seu próximo.

Algumas Considerações sobre Hegel, Kierkegaard e Voegelin

   Uma das coisas mais irônicas que vemos na leitura de Hegel é que tanto Kierkegaard como Voegelin - a despeito do desejo desses de enterrar Hegel por toda a eternidade - seguem a Hegel na natureza da sua argumentação contra certas pretensões absurdas do iluminismo contra a fé, como provar a realidade eterna mediante o apelo unilateral à realidade meramente empírica.

   Tanto Voegelin como Kierkegaard e Hegel apelam para a ideia de que o fundamento e assunto da fé são espírito e que é nessa relação espiritual que o conteúdo da fé se prova a si mesmo.

   De fato, quanto tomamos o conteúdo bíblico como objeto de fé é na fé que a verdade desse conteúdo vem para todos nós. Se tivéssemos que esperar o fim da "crítica bíblica" ou esperar a elaboração dos argumentos em favor da existência de Deus para começarmos a ter fé estaríamos quase todos perdidos. Mas, para a totalidade daqueles que crêem, é na "vinda de Deus a nós" que Deus prova a sua existência no mais profundo do nosso espírito, nos elevando até Ele.

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Nestorianismo ad Nausean; Ou: A Teologia da Substituição Penal e a Unidade Substancial entre a Natureza Humana e Divina de Cristo

   Um fato inquestionável da teologia da Substituição Penal é que ela de forma alguma implica em separação ontológica entre o Pai, o Espírito e o Filho, como se, para o sofrimento da ira divina na Cruz, o Filho fosse como que apartado da Trindade. Da mesma forma há o consenso de que o evento da Cruz não divide as duas naturezas de Cristo.
   Na mentalidade popular, muitos das igrejas que até mesmo confessam que "Cristo sofreu no nosso lugar" e que "pagou o preço dos nossos pecados" erroneamente atribuem "morte espiritual" ao Filho de Deus em virtude de seu abandono na Cruz. No entanto quem já passou os olhos nas considerações de Calvino a respeito da teologia da Substituição Penal sabe que em nenhum momento o reformador sequer cogitou em morte espiritual em relação a Cristo. Pelo contrário, Calvino entendia que mesmo nas agonias indizíveis suportadas por Cristo na Cruz, jamais o nosso Senhor sofreu "desespero de salvação", ou lhe faltou fé, esperança e confiança na justiça de Deus. Da mesma forma, Calvino afirma que mesmo no interior dos sofrimentos, "não lhe é detraído o poder" 1, o que significa pensar que não há também qualquer cisão entre a natureza humana e divina de Cristo.
   As considerações um tanto quando extensas de Calvino a esse respeito encontram uma síntese sofisticada na pena do teólogo reformado italiano François Turrettini, que sem sobra de dúvidas é um dos três maiores teólogos da tradição reformada, e certamente o maior no que diz respeito às habilidades no campo da filosofia.
   Estas são as considerações de Turrettini:
"Ora, este abandono não deve ser concebido como absoluto, total e eterno (tal como é sentido somente pelos demônios e pelos réprobos), mas temporal e relativo; não com respeito à união da natureza (a qual o Filho de Deus uma vez assumiu, e a qual ele nunca desfez); ou da união de graça e santidade, porque ele foi sempre inculpável (akakos) e puro (amiantos), dotado de imaculada santidade; ou de comunhão e proteção, porque Deus estava sempre à sua direita (SI 110.5), nem nunca ficou sozinho (Jo 16.32). Mas, no tocante à participação de alegria e felicidade, Deus, suspendendo por algum tempo a presença favorável da graça e o influxo de consolação e felicidade para que ele pudesse sofrer toda a punição a nós devida (no tocante à subtração da visão, não no tocante à dissolução da união; no tocante à ausência do senso do amor divino, interceptado pelo senso da ira divina e vingança que repousa sobre ele, não no tocante à privação ou extinção real desse amor). E, como dizem os escolásticos, no tocante à “afeição da vantagem” para que fosse destituído da inefável consolação e alegria que provêm do senso do amor paternal de Deus e da visão beatífica de seu semblante (SI 16); porém não no tocante à “afeição da justiça”, porque ele não sentia em si nada desordenado que tendesse ao desespero, impaciência ou blasfêmia contra Deus." 2.
   Também Turrettini explica que Cristo não sofreu o castigo como sofrem os condenados, pois não existe fração ontológica em Cristo pelo qual ele realmente pudesse "sofrer a condenação", embora evidentemente a sofra como "peso em si", mas não como o condenado a sofre em si.
   Assim ele explica:
"Além do mais, tampouco se poderia dizer que ele entrou no lugar dos condenados ou foi condenado. De fato ele pôde suportar os castigos dos que merecem ser condenados, porém não dos condenados, ao ponto de adentrar os lugares infernais preparados para eles (de onde ninguém pode regressar), ou que ele foi devotado ao castigo eterno, visto que a eternidade dos castigos que merecemos foi compensada ricamente em Cristo por seu peso e por seu valor extremo" 3.
   Vemos aqui que Turrettini, de saída, impugna a acusação de "nestorianismo", heresia do século V d. C. que defende a sobreposição de naturezas em Cristo, o que seria o mesmo que afirmar que não há uma união substancial entre a natureza divina e humana em Jesus e sim uma separação em que a relação entre o Verbo e Jesus se daria apenas no nível moral - algo que as confissões reformadas conjuntamente condenam.
   Na citação também entendemos no que consiste o sofrimento dessa ira divina, que em Turrettini se trata de um "sensus", na suspensão da "afeição de vantagem" ou dos auxílio da graça que dizem respeito não à união hipostática, mas no sentimento do gozo temporal de certo influxo da graça que, evidentemente, pode se ausentar sem prejuízo da unidade. É justamente por isso que vemos mudanças temporais em Cristo, como no evento da transfiguração, onde Jesus teve em sua face o resplendor do Sol (Mt 17:2), sem que isso aumentasse a qualidade da união hipostática.
   A questão crucial aqui é que, arrasada a possibilidade de nestorianismo, também é automaticamente impugnada a acusação de arianismo ocasional - em virtude do abandono divino de Jesus na Cruz -, ou de que Pai e Filho estavam "ontologicamente separados" na Cruz.
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1] CALVINO, João - Institutas da Religião Cristã; ed. Casa Editora Presbiteriana. 1985. Livro II. Cap. XVI.12. p. 282-285
2] TURRETTINI, François - Compêndio de Teologia Apologética. p. 429
3] Idem. p. 430

domingo, 28 de junho de 2020

Summun Jus Summa Injuria

   O título desse texto é um provérbio do direito romano que vertido para o português fica "suma justiça, suma injúria". E para estabelecermos um ponto de contato entre esse provérbio com a nossa experiência, podemos citar aqui o texto de provérbios: "Não sejas demasiadamente justo" (Eclesiastes 10:16a).
   Tomando esses dois textos, que para as conscicências sensíveis e para as almas puríssimas pode soar um tanto quanto ofensivo, podemos afirmar que eles oferecem uma baliza de juízo na consideração da fúria justiceira, grosseira e não raro hipócrita que assombra os nossos dias, onde mosquitos são coados às custas do engasgamento com camelos.
   O que essas duas considerações clássicas sobre a administração da justiça quer nos informar é que não existe administração geométrica para assuntos humanos, e que em muitos casos uma execução furiosa da justiça pode causar mais injúria e prejuízo do que o próprio mal que se deseja reparar. Até mesmo essa sentença e esse provérbio nos convidam para uma consideração tolerante e indulgente em relação às falhas e mesmo para os crimes alheios. Todo excesso é falo, e mesmo a administração excessiva contra excessos.
   Isso não quer dizer que tal consideração tenha que necessariamente descambar em niilismo prático, descartando a ideia de uma medida nas coisas. O que está em questão é a administração madura feita de forma cordial sobre aquilo que é alvo do nosso juízo. Em muito das nossas ações agimos de forma pascaliana, onde o coração se funda em razões que a própria desconhece.
   Mas para sermos práticos, e para dizer que a justiça anda de mãos dadas à misericórdia, há casos em que uma administração radical da justiça destrói toda uma estrutura da qual dependa algumas pessoas. Não raro traições conjugais são ocultadas por amigos para evitar que uma vez traduzida à tona o caso, tal mal não gere uma destruição maior do que o mal que já é um adultério, levando em consideração os filhos etc., deixando o tratamento da coisa para a esfera privada. A geometrização do caso, como se considerássemos saídas claras e medidas explícitas para o tratamento de problemas difíceis, leva a desastres maiores do que aqueles que procuramos evitar ao suprimir o erro com base na radicalidade.

Abstração Política e Revolução

   Em política é profundamente nefasta a toada idealista daqueles que por amor a uma abstração, por amor a um futuro hipotético, por amor a uma sociedade ideal que não existe em lugar nenhum, se colocam em marcha pela destruição da sociedade que existe.
   Não se perpetra tal mudança histórica sem uma enxurrada de crimes e destruição e só a mente psicopata pode se por tal trabalho insano - já que uma reviravolta escatológica efetuada em favor da sociedade absoluta só cabe a Deus.
   Não a revolução, mas sim a reforma que é o caminho saudável de ação política, pois a reforma não abole, mas aperfeiçoa o existente, colocando a possibilidade da ruptura como possibilidade extrema do processo de renovação.

A Tirania e a Bandeira das Boas Intenções

   Dizer que alguém está "combatendo ditadura" é um flatus vocis ou, como diria Hegel, uma palavrório vazio sem determinação de conteúdo.
   Não se conhece alguém só pelas palavras, já que elas estão sujeitas ao controle do indivíduo quenas emite, mas pela ações realizadas ao longo da vida, e isso implica que, em alguns casos, mais vale a forma da ação do que as palavras propriamente ditas, já que devidamente ligadas ao seu contexto ações possuem sentido unívoco e não equívoco.
   Só para ilustrar com uma porrada histórica a questão, lembrem-se que mesmo o Fidel Castro subiu no poder dizendo que estava combatendo a ditadura, para depois inaugurar um regime insanamente pior do que aquele que combatia.
   Ninguém se torna um tirano prometendo o inferno, antes sempre leva adiante a sua sanha com as bandeiras da liberdade.
Até mesmo o caminho do inferno é pavimentado com as bandeiras das boas intenções.

O Fanático e os Afetos

   A marca mais evidente do fanatismo é a ausência de amor. A luta real e sensata não é fundamentada pelo puro ódio ao inimigo, mas pelo amor daquilo que defendemos.
   É o amor pelos nossos, pelo nosso lar, pela nossa fé, pelos nossos filhos que nos torna aptos à batalha e que põe o signo da dignidade sobre tudo aquilo que fazemos para preservarmos de forma pura e adequada as coisas que são o alvo dos nossos afetos.
   O fanático não tem nada a defender a não ser seu próprio egoísmo, porque não tem nada para amar e nada pelo qual possa ser amado, já que a eliminação é o pressuposto básico que fundamenta tudo o que faz.

A Vinculação da Igreja a Governos

   Além do liberalismo teológico, uma das razões para o declínio vertiginoso da importância da Igreja europeia foi a relação imprópria entre Igreja e Nazismo, ainda que na pessoa de alguns (Barth, Neimöler, J.Jeremias, Bonhoeffer, Authaus, Tillich etc.), a voz realmente profética da Igreja contra o Nazismo se fez ouvir.
   A união imprópria da igreja com governos foi catastrófica em vários momentos da história, e hoje a adolescente igreja evangélica brasileira ao invés de desvencilhar a sua imagem de um determinado governo, quer, na pessoa de alguns de seus líderes, um vínculo mais profundo.
   Esse desastre levará tempo para ser reparado e marca hoje o início do declínio do prestígio das igrejas no Brasil perante a opinião pública. A Igreja cresce enquanto Igreja e não enquanto braço ideológico de governo.
   Achem ruim o quanto quiser, mas discordância ou careta não muda a natureza dos fatos.