quarta-feira, 5 de agosto de 2020

A Oração, o Estudo e a Espiritualidade

   Em minhas leituras volta e meia me acho orando a Deus. A razão disso é que procuro a assimilação decente do conteúdo lido, de modo a evitar tomar pistas falsas, tomando o que seja proveitosos, alcançando a verdade do que foi lido e aprimorando a minha fé.

   Refletindo sobre isso hoje acabei lembrando das aulas do curso de teologia - curso que foi encerrado já há sete anos. Havia um costume comum dos professores de iniciar a aula com uma oração ou de encerra-la assim, e em alguns casos de iniciar e encerrar com oração.

   A lembrança realmente afetuosa que tenho dessa época se deve ao fato de que orar era algo que realmente funcionava. Era impossível em meio à oração você não experimentar seus pensamentos serem organizados, ou de suas ansiedades não serem suavizadas, ou de suas forças não serem restabelecidas, ou de seu intelecto não ser aberto, nos habilitando de fato para a apreensão do conteúdo. Às vezes a experiência era realmente transfiguradora, e eu não estou exagerando quando afirmo isso aqui.

   A consciência da relação profunda entre o estudo e a prática espiritual - já que o estudo é e deve ser prática espiritual - é uma das coisas que foram perdidas com a crescente secularização e apostasia da sociedade.

   Certamente poucas pessoas tem ciência dessa relação, desconhecendo que o estudo, para quem crê, é uma forma de buscar a glória de Deus e, como implicação do ensino do N. S. Jesus Cristo, de ama-lo com todo o entendimento (Lc 10:27), pois não existe distinção possível entre Deus e a Verdade.

Fascismo e Modernidade

   Muitos não tem a mínima noção de que o movimento fascista foi como um movimento de vanguarda cultuado por gente ilustrada mundo afora, sendo considerado mesmo um movimento cult - como pensava o poeta e Bernard Shaw -, movimentando grifes, moda vestuária, influenciando as artes e também a arquitetura no início do século XX.

   Uma das coisas que certamente vai causar horrores a muita gente é saber que o movimento artístico chamado Futurismo era como que o movimento que condensava em si a estética fascista, e cujo discurso nada mais era do que uma glorificação da modernidade, da industrialização, manifestando insuspeita antipatia por aquilo que chamava de "passadismo", apego às tradições arcaicas, ao prosaísmo pequeno burguês e à estética interiorana.

   Na arquitetura o fascismo era representado pelo movimento chamado "brutalista", cujo maior expoente foi o suíço Lecorbusier, o qual seguindo o futurismo tinha toda aquela ideia que vingou na arquitetura moderna com auto-estradas gigantes e construções de concreto, aço e vidro, conjuntos habitacionais formados por prédios semelhantes a colmeias e que tinham como fim a destruição da configuração das antigas cidades europeias com a sua arquitetura gótica e prosaica, sem grandes prédios verticais, levando essas antigas cidades de vez para a modernidade industrial. Um sonho bem excêntrico de Lecorbusier era a destruição do centro histórico de Paris.

   Incrivelmente Brasília foi pensada segundo a arquitetura de Lecorbusier, junto com a noção de "bairro de ofícios" e prédios habitacionais etc. E da mesma forma é possível entender o quanto a engenharia civil e a arquitetura encamparam a estética fascista que, em sua raiz, é sustentada por um culto ao gigantesco, à glória e ao poder característicos da modernidade pós-iluminista pouco habituada a um estética rural e interiorana.

   Fascismo é tudo, menos um movimento passadista, "reacionário", "cristão", e faz mais parte da tecitura imaginativa dos antifascistas modernos do que eles imaginam.

Castanhari e a Empulhação

   Para começo de conversa, quem conhece o histórico do Mussolini - e até da cúpula fascista - sabe que é o contrário disso: Mussolini era, no sentido estrito da palavra, um vadio quando estava entre os socialistas suíços. Era também reconhecido como um homem de vida promíscua, assim como foi creditada a ele a figura de primeiro sex simbol da era moderna - que coisa, Santo Deus!

   Onde essa gente aprende essas coisas?
   No fundo, no fundo, essa compreensão de coisas - que talvez essa gente nem sabe de onde vem - tem a ver com a distorção que Hebert Marcuse causou na imaginação moderna, quando deu carteirada de psicanalista dizendo que o "fascismo" e a violência da guerra estavam ligadas à repressão sexual, sendo a violência e a industrialização em massa uma das suas formas de sublimação - o que era uma crítica à moral puritana que moldou os Estados Unidos.

   Não por outro motivo o próprio Marcuse se tornou o guru do movimento hippie, que na década de 60 tinha o slogan: "faça amor não faça guerra", ignorando o fato incontroverso de que é a livre e descontrolada vasão dos instintos, e não o controle sobre eles, a causa da própria violência.

Apóstolo João: Prestarei Contas em Teu Lugar

Mas João reuniu suas forças, sem cogitar de sua idade, e foi atrás dele [um discípulo jovem que havia se perdido], clamando:

'Meu filho, porque foges de mim? De mim, teu pai, desarmado e velho? Tem piedade de mim, meu filho, não tenhas medo. Resta-te ainda esperança e vida. Eu prestarei contas em teu lugar a Cristo. Se for preciso, aceitarei morrer de bom grado por ti, como o Senhor morreu por nós. Darei a minha vida pela tua. Para. Tem confiança. Foi Cristo que me enviou.'

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1] Eusébio de Cesaréia - História Eclesiástica - Lib. III.XXIII.XVI - Paulus. p. 143

Cristianismo e Conservadorismo

   Tem gente que está doida na ideologia - ou na ignorância mesmo - quando confunde conservadorismo político com cristianismo. Mas sabe essa gente que Edmund Burke, o fundador do conservadorismo - que deve ser lido sim -, foi contra a ação de evangelização por parte de clérigos anglicanos e de não conformistas na Índia justamente porque entendia o induísmo como a base de estabilidade social da Índia, tal como o cristianismo era para a Inglaterra.

   A questão central aqui é que há uma divisa radical que o cristão deve, enquanto cristão, aceitar: o padrão cultural de uma sociedade não pode estar acima da reivindicação da Palavra de Deus. Portanto, ainda que o Cristianismo não seja revolucionário, e nem se ocupe com a transformação da forma vigente de governo de qualquer país, a exemplo do cristianismo que vigorou no início do império romano, nenhum Cristão está autorizado pela fé a colocar evangelho a venda pela manutenção da cultura política que está aí, se tais padrões se chocam contra a Palavra de Deus.

   Como os cristãos antigos que oravam pelo bem da República de Roma e do Império, nem por isso somos condescendentes com a cultura do Império. Um conservador como Celso, filósofo romano, que via na fé cristã um princípio de ruptura da unidade cultural do Império, e com isso um potencial esfacelamento do império, era mais conservador do que Orígenes que denunciava as suas mazelas, não obstante um bom súdito romano. E ainda que a filosofia conservadora tenha seus méritos contra as pretensões revolucionárias dos justiceiros do momento, dos destruidores de estrelas, ela também encontra em si mesma o seu limite.

   A única coisa que a fé cristã deve conservar acima de tudo é a sua fidelidade a Deus, orando para o seu país e pelas instituições do seu país para que tudo vá bem, sendo bons cidadãos, bons contribuintes, bons trabalhadores, honestos pagadores, bons pais de família, bons filhos, ordeiros, amantes da paz, da beneficência e da misericórdia, não aceitando que a pretexto de conservação se aceite a apostasia.

   A mente cristã é conservadora por um lado, mas aceita o avanço e o progresso por outro: conserva o bem, mas também luta pela transformação do que é inadequado e mal, fundando toda sua ação, seja na conservação ou no progresso, em um padrão eterno de justiça.

Breve Comentário à Fenomenologia do Espírito de Hegel

    Terminei de ler o "Fenomenologia do Espírito" de Hegel e tenho certo sentimento ambíguo em relação à obra, que certamente é um dos livros de filosofia mais difíceis (se não o mais difícil) que alguém pode ler.

   Há muito o que aprender lendo esse livro, a começar pelo treino mental em acompanhar um discurso dinâmico com vários giros dialéticos, onde o que é negado aqui (x), pode ser afirmado lá na frente só que não da mesma forma (x.y = z) como é o caso do tema da intuição, que começando com a intuição sensível, em sua abstração é negada como intuição sensível, sendo seu conteúdo suprassumido no conceito, permitindo um retorno a uma intuição transfigurada em um segundo momento. Por exemplo: quando você enxerga um livro você tem uma intuição (experiência) do livro carente de conteúdo; em um segundo momento, você lê o livro e vai preenchendo a representação com determinados conteúdos; em um terceiro momento, você suprassumiu a primeira impressão do livro, junto com o seu conteúdo, elevando a experiência ao conceito, e ao retornar à visão do livro que você viu primeiramente você tem uma intuição absoluta, totalmente transfigurada. Aqui temos o retorno transfigurado da primeira intuição já iluminada pela totalidade do processo de compreensão do seu conteúdo, sendo a figura mental do primeiro processo, agora elevada ao nível do conceito.

   A Fenomenologia é propriamente a descrição do caminho que leva à destruição da distância entre a representação e a verdade, e nesse sentido a aparência e a verdade são encontradas unidas em uma nova configuração absoluta mediante a superação da contradição entre uma coisa e outra, na qual uma coisa não é estranha à outra, mas são unidas e estão junto a si em uma nova configuração que se encontra suprassumida no puro saber. O processo próprio desse modo de suprassunção é o processo histórico, processo que vai do mais abstrato ao mais concreto.

   Podemos dizer que Hegel manifesta de forma altamente diferenciada aquilo que viria ser chamado de "filosofia da consciência", pois na Fenomenologia vemos a busca da consciência pela unidade da realidade na sua mais alta configuração, cuja estrutura mesma está no próprio modo de consciência, e aqui Hegel ainda está na esfera do cristianismo quando afirma a substância absoluta como sujeito porque consciência que se sabe como sabe.

   Mas dentre alguns problemas na obra de Hegel podemos detectar a concepção univocista, de onde vieram acusações, muito justificadas, de que Hegel, como Espinosa, era um "panteísta". Hegel, no capítulo VII afirma que a natureza humana é o mesmo que a natureza de Deus, ou que na figura da religião, o espírito, ainda que absolutamente manifesto, carece da elevação ao conceito, o que seria o mesmo que carecer da superação que já aludimos da separação entre a "figura" (Gestalt) e verdade (Varheit), pois para Hegel o sobrenaturalismo causa uma cisão na realidade, já que o Espírito aqui está apresentado como um "Outro", o que seria o mesmo que, para Hegel, afirmar uma fragmentação no Uno, e portanto uma imperfeição.

   Para Hegel, na religião, antes de que na ciência, o conteúdo do Espírito foi manifesto, não obstante ao fato de que é apenas na ciência que a tarefa do Espírito como conceitualizante é levada a cabo. E aqui é necessário pontuar duas relações que estão dadas na fé e na filosofia e que, segundo o trabalho de Hegel, deveriam desembocar no saber absoluto. A primeira relação é entre fé e conhecimento e a segunda é entre filosofia e ciência.

   A primeira relação poderia ser compreendida pela expressão anselmiana: Fides Quaerens Intellctum (fé em busca de compreensão). A fé aqui é uma busca, ainda que ela tenha em si todo o senso de direção a partir de um dado já fornecido, que é a revelação. A distinção entre fé e conhecimento está dada nessa tenção, já que a fé é o fundamento das coisas que se esperam, e que não temos à mão a não ser no modo de esperança. Há um hiato entre fé e compreensão, já que a compreensão aqui se dá também no modo de prolepse - antecipação -, e não de realidade consumada. O cristianismo entende que conhecer a totalidade de Deus é ser Deus, mas ainda há uma modo de conhecimento apropriado para a nossa natureza. Hegel pretende romper esse hiato, colocando o conteúdo da fé no modo de conhecimento pleno, e disse ter levado isso a cabo em sua própria filosofia. É por isso que muitos afirmam que ao pretender consumar a fé a filosofia de Hegel é uma tentativa de, partindo da fé, destruí-la. Por natureza seu sistema pretendia ser totalitário, gerando outras sambas totalitárias.

   Outra relação se dá de modo semelhante à primeira, já que Hegel se lança no projeto de transformar a filosofia, enquanto projeto de busca, em Sofia, ou conhecimento da sabedoria. Logo no prefácio da fenomenologia ele declara abertamente que o empreendimento que tinha diante de si era a transformação da filosofia em ciência e ciência fundante de todo o saber de modo apotídico. Não é o bastante lembrar que que diz respeito à filosofia essa se queria "amante" da sabedoria e não "possuidora" dela de modo absoluto. O hiato prudente entre filosofia e Sofia é aquilo que em Hegel se busca superar, e superar mediante o saber absoluto. Podemos dizer que para Hegel, não há mais filosofia depois de Hegel, já que as várias figurações do saber chegam a seu termo em sua síntese absoluta.

   Essa unidade absoluta entre "fé e razão", que antes de ser configurada como uma tensão, caiu aqui no modo de uma coisa intuída, ainda que na modalidade do espírito (Geist), e essa transformação da filosofia em Ciência é a inauguração própria do paraíso terrestre, coisa contra qual se revoltaram tanto Schelling quanto Kierkegaard. Contra o idealismo objetivo de Hegel Kierkegaard opôs a categoria da infinitude subjetiva apaixonada a partir da qual asseverou o valor infinito do sujeito contra a objetivação hegeliana, afirmando ainda a continuidade do hiato, da alienação entre o existente e o absoluto, ainda que objetivação hegeliana fosse levada a cabo partir do conceito de Espírito. Schelling, partindo das categoria da revelação, opôs à unidade hegeliana entre fé e razão a cisão existencial reconhecida no modo da busca (não há síntese absoluta entre sujeito e objeto na era presente), empurrando para o futuro a unicidade (A Igreja de João) da Era do Espírito.

   Enfim, a obra hegeliana é uma grande marco do espírito humano, prenhe de ambiguidades, e de detalhes infinitamente verdadeiros, como a sua oposição ao positivismo cientificista, a crítica ao intuicionismo e aos entusiastas que colocavam a suprema realização da comunhão entre Deus e o homem no "sentimento" (Schleiermacher), a noção verdadeira de que a família é o fundamento do Estado e que a realidade é constituída por estamentos, sendo a inteligência a suprema manifestação no ser etc. E assim é a Fenomenologia do Espírito, livro que certamente deve ser lido e relido para ser de fato compreendido, mesmo que não sejamos transformados em Deus em função disso - para a tristeza de Hegel.

O Romantismo e a Revolução

   O romantismo é o suspiro lamentoso por um passado amado, mas inexistente. É um idealismo de fuga que, amando um certo mundo que apenas existe na mente, se recolhe no aconchego da concha na qual o indivíduo se afasta do mundo, se portando negativamente em relação a ele.

   O problema surge quando, no extremo absoluto da negatividade da Ideia, se passa à ação positiva na implementação do mundo ideal que só pode existir em contraposição ao mundo efetivo. Tal positivação da ideia negativa não pode se dar sem a destruição de tudo o que existe.

   O romantismo lamentoso e resignado se transforma no mais absoluto ativismo destruidor, pois o extremo do negativo é, ao mesmo tempo, o extremo do positivo. O absoluto negativo da ideia é a sua mais absoluta concreção.

   Todo suspiro romântico guarda assim a suspensão do mundo presente, pois carrega em si a direção de um retorno transfigurado a um momento ideal, o que em seu conceito é o mesmo do se entende por revolução.

A Lei Natural, a Vontade e a Salvação

   A ideia própria de lei natural não se permite ser ela mesma hipostasiada a determinadas "escolas" da lei natural. Sim, o que pode ser considerado lei natural em Platão é extremamente distinto do que Hobbes ou mesmo Locke consideravam lei natural - quem estuda a questão sabe exatamente disso. A noção de "lei" natural é antes a consideração de que há uma realidade à qual a mente humana deve prestar contas, e à qual ela tem acesso, mesmo que parcialmente, ainda que em seu estado pecaminoso.

   Nem no cristianismo se considera uma disjunção entre "lei natural e fé" - coisa contrária à própria razão, porque ambas partilham da unicidade da realidade à qual a fé e o conhecimento prestam contas. E para ser claro aqui nem  mesmo o demônio ignora essas leis, já que ao se desfazer da hierarquia divina ele deve estabelecer a própria, caso contrário também não seria remoído no inferno pela consciência da sua culpa, assim como o ímpio o será, sem ter poder ou vontade suficiente para reverter a sua situação.

   Por mais exótico que possa parecer, o que vai à frente ilustra a questão: alguém preso no vício (da carne; sexo, glutonaria; ou do espírito; mentira ou orgulho) não perdeu a sua consciência que tal vício possa ser destrutivo, e mal para si. Mas a sua disposição o impede realmente de mudar. Ele reconhece, por contraste, a contradição entre o ideal e o real em sua vida, ou a contradição entre o que ele é e o que ele deveria ser (sim, ele tem certa noção natural do certo e do errado, ainda que não plena).

   Daí surge a distinção entre "intelecto e vontade" na teologia, pois a salvação não é lá tanto um evento de ensino esclarecido quanto a cura de uma vontade, uma habilitação da vontade para se unir à verdade do intelecto. E é por isso que João afirmou que ainda que muitos dos judeus crescem em Cristo como o Messias, eles não confessavam por medo (Jó 12:42); da mesma forma os demônios sabiam ser Jesus o Filho de Deus, mesmo enquanto anjos caídos (Lc 4:34). De Deus não é o bastante saber, é necessário amar. É por isso que oramos não apenas para alçar conhecimento em Deus, mas também amar o que conhecemos para que não sejamos semelhantes aos demônios.

Ainda que em Obras Imperfeitas, Contudo Salvos pelo Fundamento: Agostinho e os Méritos Salvíficos de Cristo1

Por outro lado, quando alguém ama a esposa e o faz segundo Cristo, quem dúvida que tem Cristo por fundamento? Se ama segundo este século, carnalmente, através da morosidade das concupiscências, como os gentios, que desconhecem Deus, mesmo nesse caso o apóstolo, ou melhor, por intermédios dos apóstolos, lho permite por condescendência. Mesmo nesse caso pode ter Cristo por fundamento. Porque, se não lhe antepõe sua afeição e seu prazer, embora sobre ele se edifique madeira feno e palha, tem Cristo por fundamento e será salvo pelo fogo. O fogo da tribulação queimará essas delícias e esses amores, não condenaveis devido ao matrimônio. A esse fogo pertence a viuvez e as demais calamidades que privam desse gozo. Por isso, essa edificação será prejudicial para quem edificou, porque não terá o que edificou sobre o fundamento e será atormentado pela perda de coisas cujo gozo encantava. Mas será salvo pelo fogo, pelos méritos do fundamento [Cristo], porque, se algum perseguidor lhe propusesse optar entre esses objetos e Cristo, a Cristo não anteporia coisa alguma."

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1] Agostinho - Cidade de Deus. Lib. XXII. Cap. XXVI

O Uso dos Pais da Igreja no Labor Teológico

   Em teologia, se você quiser tanto refutar como afirmar algum pensamento teológico com base em textos patrísticos é necessário ter alguns cuidados, os quais exponho logo abaixo:

   1) Evite dizer, de primeira, que algum pai concorda com aquilo que é uma doutrina que chegou à sua diferenciação no sécs. XIX, XVII, XVI, ou até mesmo do XIII. Geralmente pais dos sécs. I, IV etc. lidavam com tópicos que apenas chegariam à sua diferenciação nos séc. XIII, XV, XIX etc. Evite discussão partidária com base em teólogos como Crisóstomo, Atanásio, Orígenes, Tertuliano, Agostinho, etc.

   2) Pelos mesmos motivos, evite dizer que tal teólogo patrístico "abomina" teologias do séc XIX, XVI, ou que ele "negou" uma configuração teológica que chegou à sua forma nos séc. XV, XVI etc.

   3) Não tente ser um "teólogo patrístico", pois muitas questões de teologia ao longo do tempo chegaram a uma configuração mais determinada e complexa, e portanto retroceder a configurações menos diferenciadas não agrega em nada à teologia. Tal comportamento frente a teologias antigas geralmente sinaliza apenas um truque psicológico fundado em uma fuga de questões atuais apenas porque alguém quer estar estreitado a um "pai", sem olhar para as demandas do hoje, fugindo delas, aliás. Nem mesmo esses pais se comportaram dessa forma, avançando em temas e buscando a exaustão do trabalho iniciado por teólogos mais antigos justamente porque tinham um hoje ao qual se reportar.

   4) Esse último ponto é a razão pela qual podemos buscar na história da teologia, no pais, nos comentadores bíblicos que realizaram o seu devido trabalho ao longo da história, ideias seminais que podem corroborar com algum pensamento teológico mais diferenciado, ou que constitua a base mesma desse pensamento teológico mais diferenciado, mas que carece, ela própria, de diferenciação. Um exemplo disso está no uso - por vezes partidário - de fontes patrísticas por muitos que querem afirmar ou negar teologias modernas da expiação, coisa que por vezes beira o cômico. Podemos dizer que há uma "ideia seminal", mas não que há uma teologia realmente "pronta" com base na qual você possa sair, sem mais cuidados, fazer do oposição a configurações teológicas mais modernas.

   5) O uso de ideias seminais pode levar a conclusões que os próprios pais não chegaram, mas que certamente chegariam caso levassem até à exaustão as consequências das premissas que adotaram em sua tarefa teológica. E é justamente aqui que está o trabalho mais difícil por parte daqueles que não apenas são arqueólogos de ideias, ou historiadores de teologia, mas que atualizam o sentido de tal premissa teológica realizando de fato a tarefa de descompacta-la e levá-la para um nível superior de diferenciação.

O Apelo do Profeta Cheio do Espírito

   Quando as tragédias e a maldade que grassam o mundo foram coisas indiferentes às fé? A resposta é: Nunca!

   "Ouvi agora isto, vós, chefes da casa de Jacó, e vós, maiorais da causa de Israel, que abominais o juízo e perverteis tudo o que é direito, edificando a Sião com sangue e a Jerusalém com injustiça". (Miquéias 3:9-10).

   A questão é que, um versículo antes, o profeta Miquéias afirmava: "Mas de certo, eu sou cheio da força do Espírito do Senhor e cheio de juízo e ânimo, para anunciar a Jacó a sua transgressão e a Israel o seu pecado" (3:8).

   É imperativo que, para entender o apelo do profeta, entendamos que este dispunha de amor a Deus, do Espírito, do juízo, da compreensão do certo e do errado e da misericórdia, pois o ofício do profeta não é a destruição, mas o subjugar da realidade das vontades terrenas à realidade da vontade celeste.

   No profetismo bíblico o profeta não é um destruidor, é um arauto de Deus, é alguém que condensa na sua alma a verdadeira ordem para o mundo, e que devido a sua unidade com Deus pode anunciar e definir o bem, mas também condenar o mal.

   Na Bíblia, profeta não é um bravateiro, um revolucionário, mas a manifestação do pedido divino de reconciliação, aquele que em sua ação deseja a conversão dos homens enterrados no transitório e no efêmero para que estes voltem seus olhos e corações para o mundo da verdade e da eternidade.

O Pastor, o Evangelho e a Cultura

   Se um pastor, ao tomar posse do sentido do texto bíblico, não atualiza tal sentido eterno do texto bíblico para a esfera temporal, para os dias de hoje, qual será a utilidade do seu trabalho?

   Se alguém disser a um pastor: "só anuncie o Evangelho", sendo ele impedido da tarefa de ligar o sentido da mensagem do Evangelho ao tecido histórico, ao homem e ao mundo concreto tal como eles existem, não há nenhum trabalho real, pois não há o cumprimento da tarefa de fazer o Verbo Eterno se tornar carne no tempo.

   A pregação do Evangelho é a pregação do perdão e do arrependimento dos pecados, mas ninguém será tão incisivo se não mostrar de quais pecados o homem deve se arrepender, pois para isso é necessário analizar o homem em sua concretude, no seu fazer concreto, e partir daí para analizar a ligação entre a vontade de Deus e o homem que em seus atos e disposições históricas se opõe à vontade de Deus.

   Devido a isso é inevitável o conflito entre o Evangelho e Cultura, pois a cultura é o fazer do homem, fazer que traz as marcas do homem, de suas virtudes, do seu espírito, mas também dos seus pecados que afrontam a Deus e que esmagam o seu próximo.

Algumas Considerações sobre Hegel, Kierkegaard e Voegelin

   Uma das coisas mais irônicas que vemos na leitura de Hegel é que tanto Kierkegaard como Voegelin - a despeito do desejo desses de enterrar Hegel por toda a eternidade - seguem a Hegel na natureza da sua argumentação contra certas pretensões absurdas do iluminismo contra a fé, como provar a realidade eterna mediante o apelo unilateral à realidade meramente empírica.

   Tanto Voegelin como Kierkegaard e Hegel apelam para a ideia de que o fundamento e assunto da fé são espírito e que é nessa relação espiritual que o conteúdo da fé se prova a si mesmo.

   De fato, quanto tomamos o conteúdo bíblico como objeto de fé é na fé que a verdade desse conteúdo vem para todos nós. Se tivéssemos que esperar o fim da "crítica bíblica" ou esperar a elaboração dos argumentos em favor da existência de Deus para começarmos a ter fé estaríamos quase todos perdidos. Mas, para a totalidade daqueles que crêem, é na "vinda de Deus a nós" que Deus prova a sua existência no mais profundo do nosso espírito, nos elevando até Ele.