sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Retratação

    Hoje eu escrevi um texto no qual certa palavra ofendeu algumas pessoas. Eu me retrato aqui na intenção de que a comunicação entre eu e essas pessoas não encontre ruídos desnecessários afim de que andemos em um caminho que é maior que todos nós. E esse é o primeiro ponto.

    O segundo ponto é que, até por amor a esses, eu externo aqui uma profunda e imensa tristeza por uma simples constatação: todo esse movimento ainda tomará consciência de sua imensa ilusão a qual a história ainda declarará.
    Nesse sentido, minha intenção não é criar ruído. Meu papel aqui está calcado na amizade pela qual apontamos as consequências de certos atos. Eu tenho experiência o suficiente e segurança para ver que o andar por carto caminho é algo que prejudicará.
    Sem cinismo algum invoco a Deus por minha testemunha de que de tudo o que aqui falo nada de mentira pode aqui encontrar qualquer sustentação, pois não tenho interesse especial em política e nem ando à procura da promoção de qualquer político.
    Por mim, por minha família e pelos meus amigos, eu me retrato quando a inconveniência da ofensa se alguém sentiu assim. Mas por mim, por minha família e amigos eu não posso deixar de apontar aquilo que irá nos prejudicar, pois assim não age qualquer amigo.
    Se você quer ser amigo comigo, andaremos sempre juntos, e que Deus guie a todos nós*. _________________________________________________
[*] Texto escrito em 03/09/2021 em referência a este texto.

O Golpe e a Parteira do Caos

Passou agora a pouco um carro de som aqui na rua da minha casa chamando as pessoas para um manifestação que literalmente prega golpe de Estado. Ou seja: que prega crime. Tem gente que chama isso de "liberdade de expressão", ou melhor: liberdade que prega golpe contra as instituições que legalmente garantem a liberdade.

Existe um problema da ordem da inteligência no nosso país governado por ordas de whatsapp: vivem de informações fragmentárias achando que possuem o suficiente na cabeça para construir o melhor dos mundos, enquanto, à maneira do feiticeiro, mexem com forças que não entendem, promovendo a liberação de uma onda de destruição que possivelmente os destruirá.

Os iludidos, guiados pelo ódio cego, pela vontade de destruir um suposto inimigo que eles sequer conhecem direito, cuja ideia não passa de uma sombra tosca à altura da sua compreensão, movem seus esforços em um tipo de brincadeira assassina cujas consequências eles não podem medir.

    A burrice é a parteira do caos.*
__________________________________________________________________
[*] Texto Escrito em 03/09/2021


Sócrates, a Injustiça de Estado e a Posição Conservadora

    Quando Sócrates estava para ser morto por uma morte injusta perpetrada pelo Estado, ele pediu aos seus discípulos que não intervissem ou que fizessem oposição revoltosa contra tudo o que estava acontecendo. Assim ele fez não porque considerasse o Estado de Atenas justo ou seus juízes, que aplicaram a ele uma sentença injusta, o padrão da medida, mas sim porque ele não queria ser razão de revolução alguma, dando pretexto para a matança.

    Os conservadores que ao longo dos séculos se inspiraram no exemplo do filósofo para fazer oposição a qualquer movimento político radical, assim fizeram não porque eram filisteus sem espírito que gozavam de satisfação com estado de coisas presente, mas porque sabiam que o remédio radical contra a doença poderia matar o corpo que antes eles pretendiam salvar, como é o caso com a Revolução Francesa.
    Obviamente que a ideia socrática era medida pela inteligência que sabe que o bem, estando até mesmo acima da verdade (no sentido daquilo que é explicado na República de Platão, e não no sentido da justificação da mentira), está também absolutamente acima de qualquer sanha furiosa embebida pela sede de vingança, convicta de que busca unilateralmente a aplicação da justiça, não levando em consideração que nessa toada eles estarão destruindo aquilo para o qual estão tentando trazer a salvação.

O Marxismo Maoísta e o Problema dos Princípios

    Essas frases abaixo mostram que o defeito fundamental do marxismo-leninismo é um problema de princípios. A primeira citação, perturbadora por todas as consequências a que seus princípios levam, evidencia aquilo que chamamos de problemas dos "meios". Os problemas relativos aos meios é que os fins não justificam tudo, nem a busca pelo melhor dos mundos justifica todos os meios possíveis para se chegar lá, incluindo a matança.

    Estas frases perturbadoras foram escritas por Mao Tsé Tung, o ditador comunista:
1) "Todos os comunistas devem compreender a seguinte verdade: "O poder político nasce do fuzil"" (Problemas da Guerra e da Estratégia - 6 novembro de 1938)*
2) "A tarefa central e a forma suprema da revolução é a conquista do poder político pelas armas, é a solução desse problema pela guerra" [...] (Ibidem)*
3) "Do ponto de vista da teoria marxista sobre o Estado, o exército é o principal componente do poder de Estado. Todo aquele que quiser conquistar e manter o poder de Estado deve possuir um forte exército". (Ibidem)*
4) "Nós somos partidários da abolição da guerra; nós não queremos a guerra. A guerra, porém, só pode abolir-se por meio da guerra. Para acabar com as armas há que pegar em armas". (Ibidem)*
    O problema da 1ª frase é a sugestão de que a violência ou a ameaça constituem a razão da ordem política. Não é diferente você assumir que a comunidade política é formada por porcos os quais se conduzem a varadas. No caso do Mao Tsé-Tung isso não está longe da verdade em função da matança que ele perpetrou ao próprio povo. Em retórica, poderíamos classificar o discurso político do ditador como "argumentum ad baculum", ou a tentativa de persuasão com base na ameaça de paulada.
    A questão é que se o fim da ação política visa a liberdade, obviamente que o poder político não pode ter sua origem na ponta do fuzil, mas sim em uma noção compartilhada de ordem a qual nasce daquilo que em nos é o mais humano: a razão, e é a razão o fundamento da liberdade; pois mesmo quando a violência é usada para a manutenção da paz política - e isso não se ignora -, a razão se interpõe como o princípio que incoa o movimento em direção à liberdade, mesmo que para isso nos utilizemos dos vários meios disponíveis que não contrastam com a justa ordem dos meios.
    Isso vai de encontro à noção perturbada dos adoradores da guerra, independentemente do espectro político em que habitam. Pois o problema não é lado político, mas sim os princípios que encarnam. E perceber isso é importante para deitarmos abaixo os reducionismos da nossa época que enxergam o mal apenas em sentido geográfico: quem senta daquele lado é bom; quem está aqui é mal.
Se não atentarmos aos problemas dos princípios, seremos engolfados pelas deformações que caracterizam a nossa época.
_________________________________________________
[*]Citações tiradas do "O Livro Vermelho: Citações do Comandante Mao Tsé-Tung".

A Mística, o Nada e a Justificação

     Há algo na linguagem sobre a fé que consta na tradição luterana, e que surge da influência que o misticismo alemão exerceu sobre essa tradição, que é algo maravilhoso. Assim se diz que a "fé é nada", e é por esse processo de nadificação do homem que ele pode receber sobre si a justiça de Deus, que é "iustitia aliena" (justiça de outro), não justiça própria. Assim se nega que o ato da fé seja computado meritoriamente para a salvação, mesmo que seja o maior dos atos morais entre os homens no curso da história - e mesmo nessa esteira Calvino nega algo que certos escolásticos diziam, ou seja, que a fé é uma conjectura moral (suficiente para a salvação). Por isso a fé é o nada no qual Deus faz algo, pois Deus salva o homem, fazendo-o nova criatura tal como Deus fez no ato da criação, criando o mundo ex nihilo (a partir do nada). A fé é o meio da recepção da graça, e sua presença na realização da justificação é uma presença absolutamente passiva como canal pelo qual a graça flui para o pecador. Aqui se compreende bem melhor o que seria a justificação em sua linguagem correta na ortodoxia protestante: a justificação é pela graça, mediante a fé e não apenas "pela fé". Assim nem o ato de crer é computado, pois não é a "fé" que justifica, mas apenas a graça de Deus que nos outorga a justificação, pois ao fim e ao cabo Deus nos salva apenas por amor a Cristo.

Oramos o que Cremos

    Oramos somente aquilo que nós cremos; e se oramos, é Deus quem criou essa possibilidade para nós, iniciando em nós o ato da oração quando ele mesmo nos ensinou a orar.

E assim cremos:
1) Se oramos "santificado seja o Seu Nome" é porque não está em nosso poder santificar o Seu nome.
2) Se oramos "venha a nós o Teu Reino" é porque não está em nosso poder materializar esse Reino.
3) Se oramos "seja feita a Tua vontade" é porque não temos poder para que ela seja feita, seja na terra ou nos céus.
4) Se oramos "dá-nos o pão de cada dia" é porque não garantimos a sua vinda, seja do pão terreno, seja do pão dos céus.
5) Se oramos "perdoa as nossas ofensas" é porque em última instância, estar isento de pecados é graça do Senhor.
6) Se oramos "não nos deixe cair na tentação" que destrói a fé, é porque é Deus quem pode sustenta a nossa fé até o fim.
    É Deus, e somente Deus, quem pode tornar realidade aquilo que ele nos ensinou, em Cristo, a Sua Palavra, a buscarmos em oração.

A Operação das Naturezas de Cristo e a Comunicação Idiomática

Em 1 Co 10.1-5 se diz que todos os israelitas no deserto beberam da mesma pedra espiritual que era Cristo, muito embora nem todos tivessem mesclado a esse ato a fé, daí que foram prostrados no deserto. Pois bem, se a "bebida" e a "comida espiritual" no deserto são predicadas pelo Apóstolo como sendo de Cristo, ou melhor: identificadas como o próprio Cristo, obviamente que ninguém ali bebeu ou comeu a natureza humana de Cristo, posto que nem havia havido à época qualquer encarnação, muito embora o apóstolo possa tomar a liberdade de assim dizer, já que as operações (energias) de ambas as naturezas divina e humana são atribuídas a uma pessoa só. Nesse sentido pode-se dizer que Deus deu a sua carne e seu sangue aos israelitas enquanto deu a eles a operação da salvação em uma época em que nem havia encarnação, pois se a natureza divina é onipresente, o Verbo de Deus se encontra em todos os momentos da criação. Da mesma forma, afirmamos que Deus morreu na cruz, mesmo que a morte seja impossível à natureza divina; no entanto assim falamos porque predicamos as operações da natureza humana, como o morrer, da pessoa de Cristo em quem se encontram unidas as naturezas divina e humana. Podemos, enfim, dizer que onde está a presença do Verbo eterno ali está, concretamente, a pessoa de Cristo, e podemos atribuir à pessoa as operações de ambas as naturezas, e tomar uma operação característica de uma natureza pelos atos da pessoa toda como se fosse realizada pela outra natureza; assim, se há presença espiritual de Cristo e dali fruímos de sua presença salvífica, comemos a carne e bebemos o sangue de Cristo no mesmo sentido de que falamos que "Deus nasceu" ou de que "Deus morreu na Cruz".

Os Bacantes e os Portadores das Insígnias

    Me lembro de um dito de Platão que muito me impressionou porque havia nele uma carga de percepção religiosa bem poderosa. O dito era exatamente este: "Muitos são os que portam as insígnias, mas poucos são os bacantes".

    Em sentido estrito, a ideia era a de que muitos participavam exteriormente do mistério dionisíaco, mas poucos eram os que participavam do seu sentido religioso.
    Se referindo ao Antigo Testamento Paulo dizia: "Nem todos os que são de Israel são de fato israelistas" (Rm 9.6), ou: "Porque o judeu não o é o que é exteriormente, e nem a circuncisão a que é feita exteriormente na carne" (Rm 2.28).
    Em sentido idêntico podemos dizer: "não é verdadeiro cristão aquele que porta os sinais exteriores da fé - os sacramentos -, mas aquele que os validam na fé e no coração". Pois muitos até podem portar os sinais, mas nem por isso todos portam a coisa significada.

Os Costumes dos Povos e a Fonte do Direito

    O Livro I, Título II § 9 das Institutas de Justiniano contém um princípio importante do direito que chamamos de "consagração pelo uso" cuja fonte é o "acordo tácito", constituindo as "normas não escritas". O § (parágrafo) diz o seguinte: "O direito não escrito é aquele ao qual o uso conferiu comprovação. Com efeito, os costumes (mores) diuturnos comprovados graças ao consenso dos seus praticantes têm validade igual à da lei".

    É profundamente interessante notar que o direito romano possui uma percepção importante sobre aquilo que chamamos de "fonte dos direitos", sendo este constituído tanto da reflexão dos jurisconsultos, da vontade dos magistrados como do costume geral dos povos, e particular das cidades, criando instituições e gerando obrigações.

    Logo se vê com isso que o direito não é algo frio e exato como as arestas de um cubo, mas tal como é próprio das coisas humanas, nasce da reflexão exercida no fluxo da história, em meio à tradição dos povos, no turbilhão dos embates políticos e mesmo religiosos.

    Tendo isso vista, as leis estão estreitamente ligadas ao costume das gentes, e como disse um filósofo, "a moral (não no sentido moralista, mas no sentido do costume corrente) é a substância da sociedade", e isso significa que é do espírito do povo (folkgeist) que as instituições nascem, logo, se o espírito do povo for degradado, sua constituição política também o será.

O Amor e a Santidade

    Hoje de manhã, como às vezes eu faço, tirei uma foto do meu filho e mandei para a minha mãe. E ao ver meu filho tive aquela experiência que nos é comum e que consiste em ser tocado por aquela afecção de amor, afecção que envolve também um certo sentimento de temor, temor quanto à possibilidade de que algum mal toque aquilo que amamos. Isso me conduziu a orar por ele e pedir a Deus que o guardasse.

    O que isso quer dizer propriamente? Algo bem óbvio, mas não menos importante e também fundamental: o amor santifica e nos santifica porque nos leva a buscar algo que é maior do que nós mesmos para garantir um bem do qual muitas vezes temos a certeza de que não somos tão capazes, como o de realizar perfeitamente o bem em favor daquele a quem amamos.

    E sim, a santidade é também o constitutivo fundamental do amor porque ela toca as cordas mais profundas do nosso coração, sendo, por tanto, a expressão mais profunda e visceral da nossa humanidade, na busca de algo acima de nós em favor do bem de tudo o que está ao redor de nós, envolvendo também a possibilidade do sacrifício. Ou seja: o amor nos eleva direção ao amor a Deus e daquele que nos é próximo*. ___________________________________________________

*Texto escrito em 24/08/2021

Eric Voegelin, os Movimentos de Massa e a Segunda Realidade

    Tem uma reflexão interessante de Eric Voegelin (aquele que ocupou a cátedra de Max Weber após a Segunda Guerra) em "Hitler e os Alemães" onde ele se detém justamente sobre a questão da "migração para a segunda realidade" usando o conceito de Pascal de "diversionismo" (divertissement), pegando Dom Quixote para explicar a questão. O argumento é simples e de fácil apreensão, mas muito profundo.

    Dom Quixote foi alguém que tinha certo saudosismo da época da cavalaria, pois vivia em uma época, no fim da idade-média, onde essa instituição já era decadente. Explicando de forma muito superficial Dom Quixote era aficcionado com as histórias fantásticas de cavalaria e lutava com moinhos de vento achando que eram dragões etc. A graça é que ele começa a angariar certos seguidores e até chega a ter entrada no mundo palaciano (na alta esfera de poder).
    A questão começa a ficar séria quando alguns começam a levá-lo a sério, e o que era um diversionismo meio bizarro passa a se cristalizar na mente de certas pessoas como ideia séria. Grosso modo Eric Voegelin diz que a partir daí o que se dá é aquele descolamento do mundo e uma migração para uma segunda realidade, onde a brincadeira passa para a disposição homicida.
    Muito dos movimentos de massa tem essa característica, e o diversionismo nada mais é do que aquela disposição que passa a cristalizar ideias que antes até pareciam loucura ou motivo de piada para quem estava de fora, ou de mera diversão para os de dentro. O problema é quando certas idéias adquirem o contorno de problemas existenciais.
    Grande parte do nosso país está imerso em uma certa narrativa política a qual não conhece direito, esposando certas idéias sem pensar em suas consequências, e isso a ponto de se dispor a matar. Esse diversionismo assassino faz parte de uma longa propagação de mentiras, e a Pandemia já nos mostrou o quão longe isso pode ir.
    Como o feiticeiro, muita gente está conjurando forças que desconhecem, sonhando com certo paraíso construído por meios que só podem conduzir ao pesadelo. E sim, nesses últimos anos desde 2013, nunca a feitiçaria política esteve tão em uso quanto nesses últimos dias, pois toda feitiçaria está calcada nessa migração para uma segunda realidade.

Comentários no Livro de Isaías 2.1-5: (וְלֹא־יִלְמְד֥וּ עֹ֖וד מִלְחָמָֽה) E não mais aprenderão a guerra.

Texto Hebraico de Isaías 1.1-5:

1 הַדָּבָר֙ אֲשֶׁ֣ר חָזָ֔ה יְשַֽׁעְיָ֖הוּ בֶּן־אָמֹ֑וץ עַל־יְהוּדָ֖ה וִירוּשָׁלִָֽם׃
2 וְהָיָ֣ה׀ בְּאַחֲרִ֣ית הַיָּמִ֗ים נָכֹ֨ון יִֽהְיֶ֜ה הַ֤ר בֵּית־יְהוָה֙ בְּרֹ֣אשׁ הֶהָרִ֔ים וְנִשָּׂ֖א מִגְּבָעֹ֑ות וְנָהֲר֥וּ אֵלָ֖יו כָּל־הַגּוֹיִֽם׃
3 וְֽהָלְכ֞וּ עַמִּ֣ים רַבִּ֗ים וְאָמְרוּ֙ לְכ֣וּ׀ וְנַעֲלֶ֣ה אֶל־הַר־יְהוָ֗ה אֶל־בֵּית֙ אֱלֹהֵ֣י יַעֲקֹ֔ב וְיֹרֵ֨נוּ֙ מִדְּרָכָ֔יו וְנֵלְכָ֖ה בְּאֹרְחֹתָ֑יו כִּ֤י מִצִּיּוֹן֙ תֵּצֵ֣א תוֹרָ֔ה וּדְבַר־יְהוָ֖ה מִירוּשָׁלִָֽם׃
4 וְשָׁפַט֙ בֵּ֣ין הַגּוֹיִ֔ם וְהוֹכִ֖יחַ לְעַמִּ֣ים רַבִּ֑ים וְכִתְּת֨וּ חַרְבוֹתָ֜ם לְאִתִּ֗ים וַחֲנִיתֹֽותֵיהֶם֙ לְמַזְמֵרֹ֔ות לֹא־יִשָּׂ֨א גֹ֤וי אֶל־גּוֹי֙ חֶ֔רֶב וְלֹא־יִלְמְד֥וּ עֹ֖וד מִלְחָמָֽה׃ פ
5 בֵּ֖ית יַעֲקֹ֑ב לְכ֥וּ וְנֵלְכָ֖ה בְּאֹ֥ור יְהוָֽה׃

Tradução e Comentário:

1)                                                                     הַדָּבָר֙ אֲשֶׁ֣ר חָזָ֔ה יְשַֽׁעְיָ֖הוּ בֶּן־אָמֹ֑וץ עַל־יְהוּדָ֖ה וִירוּשָׁלִָֽם׃
A Palavra que viu Isaías, filho de Amoz, sobre Judá e Jerusalém.

    Aqui temos, ao que parece, uma segunda introdução da profecia de Isaías; e se repararmos bem, essa profecia aqui, dos vs.1-4, é idêntica à profecia registrada no livro de Miquéias em Mq 4.1-3. E isso não é incrível, levando em consideração que ambos os profetas exerceram seu ministério no séc. VIII a.C. Isso nos ajuda a termos uma pista sobre o clima da época, nos auxiliando na compreensão da profecia.

    No começo temos a afirmação: A Palavra que viu Isaías. É um frase semelhante, mas não igual, a Isaías 1.1, onde temos חֲזוֹן֙ יְשַֽׁעְיָ֣הוּ, e que significa Visão de Isaías, mais אֲשֶׁ֣ר חָזָ֔ה que significa que viu. O segundo conjunto de palavras (אֲשֶׁ֣ר חָזָ֔ה) encontramos em ambos os versículos; assim, a distinção é que em 1.1 se diz que o que via a seguir se tratavam das visões que viu de Isaías, e em 2.1 era a palavra que viu Isaías. A distinção, por tanto, não deve nos impressionar e nem nos levar a maiores especulações. O fato é que tanto a visão que viu quanto a palavra que viu assinalam a origem sobrenatural da profecia, consignando a ela a autoridade devida. Da mesma maneira, a profecia diz respeito a um certo contexto geográfico: Judá (יְהוּדָ֖ה) e Jerusalém (וִירוּשָׁלִָֽם). E como afirmei no comentário a Isaías 1.1-9, ao apontar para o lugar específico para qual a Palavra de Deus se manifesta, isso só pode significar que Deus tem interesse nas realidades particulares como o Deus da história, ou como alguém que se manifesta na história e através da história.

2)            וְהָיָ֣ה׀ בְּאַחֲרִ֣ית הַיָּמִ֗ים נָכֹ֨ון יִֽהְיֶ֜ה הַ֤ר בֵּית־יְהוָה֙ בְּרֹ֣אשׁ הֶהָרִ֔ים וְנִשָּׂ֖א מִגְּבָעֹ֑ות וְנָהֲר֥וּ אֵלָ֖יו כָּל־הַגּוֹיִֽם׃
E acontecerá no fim dos dias que a casa de Yahweh será estabelecida no cume das montanhas e afluirão para ela todos os povos.

    A profecia é escatológica, ou seja, se refere às últimas coisas. Assim, ele se refere ao fim dos dias (בְּאַחֲרִ֣ית הַיָּמִ֗ים), e aponta para uma posição geográfica que, por natureza, também possui certo significado simbólico. O fato de a casa de Yahweh (בֵּית־יְהוָה֙) se estabelecer no cume dos montes (בְּרֹ֣אשׁ הֶהָרִ֔ים) indica tanto a posição de destaque, quanto a sua autoridade que se alteia acima de tudo o mais, tal como a Palavra de Deus se alteia acima de todos os homens e de tudo o que existe. Assim, à Cidade dos Montes afluirão os povos, sendo ela estabelecida como o centro e o fim (τέλος) das nações no sentido de atraí-las todas a si, movendo suas intenções e afetos na busca pela orientação da sua razão para a realização das coisas que às nações mais importam.

3)   'וְֽהָלְכ֞וּ עַמִּ֣ים רַבִּ֗ים וְאָמְרוּ֙ לְכ֣וּ׀ וְנַעֲלֶ֣ה אֶל־הַר־יְהוָ֗ה אֶל־בֵּית֙ אֱלֹהֵ֣י יַעֲקֹ֔ב וְיֹרֵ֨נוּ֙ מִדְּרָכָ֔יו וְנֵלְכָ֖ה בְּאֹרְחֹתָ֑יו כִּ֤י
                                                                                             מִצִּיּוֹן֙ תֵּצֵ֣א תוֹרָ֔ה וּדְבַר־יְהוָ֖ה מִירוּשָׁלִָֽם׃
E irão muitas nações e dirão: Vamos, subamos ao monte da casa do Deus de Jacó, para que nos instrua acerca dos seus caminhos e andemos em suas veredas. Porque de Sião sairá a Lei e a Palavra de Yahweh de Jerusalém.                                                                

    Muitos povos ou nações (עַמִּ֣ים) irão ao encontro de Yahweh, apontando para ponto da instrução que se encontra no cume dos montes. Assim ocorrerá para que Yahweh instrua (וְיֹרֵ֨נוּ֙) nos caminhos dele (מִדְּרָכָ֔יו) e andemos (וְנֵלְכָ֖ה) nas veredas d'Ele (בְּאֹרְחֹתָ֑יו). Então o ensino e o caminho atrairão os povos. Mas cada qual é atraído por aquilo que ama e deseja no mesmo sentido de que muitos profetas e justos desejaram ouvir as palavras de Cristo (Mt 13.17). Assim, eles serão atraídos a Sião. E eis a razão: Porque (כִּ֤י) de Sião (מִצִּיּוֹן֙) sairá (תֵּצֵ֣א) a Lei (תוֹרָ֔ה) e a Palavra de Yahweh (וּדְבַר־יְהוָ֖ה) de Jerusalém (מִירוּשָׁלִָֽם).     É importante nos concentrarmos nessas palavras, dado tudo o que ainda se seguirá. Assim, Sião, como metáfora do locus de ensino de Yahweh, é, assim, a instrutora dos povos e está nisso a razão de ela ser o local da atração dos povos, pois em Sião eles encontram o seu τέλος, ou seja, o seu fim, a sua razão fundamental do como existir verdadeiramente. É na ciência da Lei e nas Palavras de Yahweh que eles podem achar a razão do seu repouso.

4) וְשָׁפַט֙ בֵּ֣ין הַגּוֹיִ֔ם וְהוֹכִ֖יחַ לְעַמִּ֣ים רַבִּ֑ים וְכִתְּת֨וּ חַרְבוֹתָ֜ם לְאִתִּ֗ים וַחֲנִיתֹֽותֵיהֶם֙ לְמַזְמֵרֹ֔ות לֹא־יִשָּׂ֨א גֹ֤וי אֶל־גּוֹי֙
                                                                                                         חֶ֔רֶב וְלֹא־יִלְמְד֥וּ עֹ֖וד מִלְחָמָֽה׃ פ
E julgará entre as nações e repreenderá muitos povos. E transformarão as espadas deles em enxadas e as lanças deles em podadeiras; e não erguerá a espada nação contra nação e nem aprenderão mais a guerra.

    Assim procederá Yahweh no fim dos dias: E julgará (וְשָׁפַט֙) entre (em meio) (בֵּ֣ין) as nações (הַגּוֹיִ֔ם) e repreenderá (וְהוֹכִ֖יחַ) muitos (רַבִּ֑ים) povos (לְעַמִּ֣ים). O Senhor no uso de sua plenipotência fará como se procede o juiz em sua própria corte: julga, repreende, retifica. No caso do Todo-Poderoso, ele próprio é a sua Justiça, já que ele é a instrução (תוֹרָ֔ה) e o julgamento (שׁפט).

    Podemos a partir de agora expor elementos para uma síntese importante, síntese que expressará o tom de muito da mensagem característica da profecia de Isaías em relação à política teológica das nações, se assim podemos nos expressar. Sim, e como a profecia de Isaías não tem razão de ser se não há implicações morais, e como a mensagem se dirige ao povo de Deus constituído em uma comunidade política, todos os assuntos morais importam à profecia, o que não exclui a política. Nesse sentido podemos caracterizar um fim no sentido pleno de um ideal inspirador e poderoso que se constitui na condição plena e última dos povos ensinados pelo Senhor, assim como ideal desejado pelo Senhor às nações. Portanto, nas ações do Senhor Ele ensinará e os povos transformarão (וְכִתְּת֨וּ) as espadas deles (חַרְבוֹתָ֜ם) em enxadas (לְאִתִּ֗ים) e as suas lanças (וַחֲנִיתֹֽותֵיהֶם֙) em podadeiras (לְמַזְמֵרֹ֔ות). A palavra hebraica que traduzimos por e transformarão (וְכִתְּת֨וּ) pode ser traduzida mais especificamente por e triturarão. Assim, a ideia é de que as armas de guerra seriam destruídas, e de seus restos seriam feitos instrumentos de plantio. A metáfora é maravilhosa, e faz lembrar, a título de exemplo, que o gás mostarda usado como uma das armas mais letais na Primeira Guerra, sendo posteriormente seu uso proibido nos campos de batalha, serviu como um poderoso fertilizante, aumentando drasticamente o rendimento das lavouras - assim, a ciência quer produz a arma é neutra, importando para o seu bom ou mau uso a disposição dos corações, ali onde o Senhor pode atuar e transformar.

    De tudo o que foi dito, ainda resta a complementação do versículo que deixará a síntese ainda mais evidente: e não levantará (לֹא־יִשָּׂ֨א) a espada (חֶ֔רֶב) nação (גֹ֤וי) contra nação (אֶל־גּוֹי֙) e nem aprenderão (וְלֹא־יִלְמְד֥וּ) mais (עֹ֖וד) a guerra (מִלְחָמָֽה). À guisa do que foi dito, aqui temos também um exemplo da profecia pacifista de Isaías. Resta óbvio que a cidade, modelo último como guia dos povos e estabelecida no cimo dos montes, está fundada em uma proposta avessa à guerra. Assim, tal paz foi conquistada mediante a repreensão, o juízo e o ensino do Senhor, em cuja sombra nenhuma nação irá mais levantar a espada uma contra a outra. É importante perceber nessa visão de Isaías o fundamento da sua profecia, cuja mensagem irá reverberar em toda sua atuação e intervenção como profeta. E se no capítulo anterior fomos defrontados com uma Jerusalém que traiu a sua vocação torcendo o direito, aqui estamos diante do cume da realização do propósito da cidade sobre os montes que foi absorvida absolutamente pela plenitude da perfeição no cumprimento total da sua vocação.

5)                                                                                                    בֵּ֖ית יַעֲקֹ֑ב לְכ֥וּ וְנֵלְכָ֖ה בְּאֹ֥ור יְהוָֽה׃
Vamos à casa de Jacó e andemos na luz de Yahweh.

    Assim como no Apocalipse de João, aqui quem ouve diz: "Vem!" (Ap 22.17b). E o povo persuadido pela altitude absoluta do ensino proferido na Cidade sobre os Montes, chama outro povo para lhe ouvir a voz e andar na luz (בְּאֹ֥ור) do Senhor (יְהוָֽה) o qual guiará a razão e a vontade dos povos na direção da sua paz e do verdadeiro repouso. Como pastor, o Senhor há de guiar a razão e o desejo dos povos para o seu fim último, e a guiará para a sua perfeição, à visão eterna de Deus, pois na comunhão entre aqueles que deram fim à guerra entre a mente e da vontade com a realidade, guerra gerada pelo pecado que conduz o homem para a discórdia interna (em sua alma) e externa (entre os homens), não há mais razão ou possibilidade para o conflito entre aqueles que são concordes entre si e Deus. Assim, livre dos pecados, agora repousam, sem conflito, em Deus. Assim, aqui é realizada a concreção absoluta da paz dos povos que desfrutarão da bem-aventurança eterna, pois estes alcançaram a comunhão plena com o seu fim último na visão eterna do Senhor.

    Amém!

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Declaração Teológica de Barmen

A Declaração Teológica de Barmen

31/05/1934

A Declaração Teológica de Barmen

1. UM APELO ÀS CONGREGAÇÕES EVANGÉLICAS E AOS CRISTÃOS NA ALEMANHA

O Sínodo Confessional da Igreja Evangélica Alemã reuniu-se na cidade de Barmen, de 29 a 31 de maio de 1934. Representantes de todas as Igrejas Confessionais alemãs uniram-se unanimemente numa confissão do único Senhor da Igreja una, santa e apostólica. Fiéis à sua confissão de fé, membros das Igrejas Luteranas, Reformada e Unida procuraram redigir uma mensagem comum e para ir ao encontro das necessidades e tentação da igreja em nossos dias. Com gratidão a Deus, estão convictos de que lhes foi concedida uma palavra comum para dizerem. Não foi sua intenção fundar uma nova Igreja ou formar uma união de Igrejas. Nada esteve tão longe dos seus pensamentos do que a abolição do status confessional das nossas igrejas. Pelo contrário, sua intenção era resistir com fé e unanimidade à destruição da Confissão de Fé, e, por conseguinte, da Igreja Evangélica na Alemanha. Em oposição às tentativas de estabelecer a unidade da Igreja Evangélica Alemã mediante uma falsa doutrina, fazendo uso da força e de práticas insinceras, o Sínodo Confessional insiste que a unidade das Igrejas Evangélicas na Alemanha só poderá provir da Palavra de Deus na fé concedida pelo Espírito Santo. Somente assim a igreja se renova.

O Sínodo Confessional, portanto, conclama as congregações para se unirem em oração e coesas cerrarem fileiras em torno dos pastores e mestres que permanecem fiéis às Confissões.

Não vos deixeis enganar pelos boatos de que pretendemos opor-nos à unidade da nação alemã! Não deis ouvidos aos sedutores que pervertem nossas intenções, dando a impressão de que desejaríamos quebrar a unidade da Igreja Evangélica Alemã ou abandonar as Confissões dos Pais da Igreja.

Examinai os espíritos, a ver se eles são de Deus! Provai também as palavras do Sínodo Confessional da Igreja Evangélica Alemã pare testar se estão conformes com a Sagrada Escritura e com a Confissão dos Pais. Se achardes que nossas palavras se opõem à Escritura, então não nos deis atenção! Mas se julgardes que nossa posição está conforme com a Escritura, então não permitais que o medo ou a tentação vos impeça de trilhar conosco a vereda da fé e da obediência à Palavra de Deus, a fim de que o povo de Deus tenha um só pensamento na terra e que nós experimentemos pela fé aquilo que ele mesmo disse: Nunca vos deixarei, nem vos abandonarei. Por esse motivo, não temais, ó pequenino rebanho, porque vosso Pai se agradou em dar-vos o seu reino.

2. DECLARAÇÃO TEOLÓGICA A RESPEITO DA SITUAÇÃO ATUAL DA IGREJA EVANGÉLICA ALEMÃ

Conforme as palavras iniciais da sua Constituição, datada de 11 de julho de 1933, a Igreja Evangélica Alemã é uma federação de Igrejas Confessionais, oriundas da Reforma, gozando de direitos iguais. O fundamento teológico para a unificação dessas igrejas se acha nos artigos 1º. e 2º. (1) da Constituição da Igreja Evangélica Alemã, reconhecida pelo Governo do Reich em 14 de julho de 1933:

Artigo 1º. - A base inviolável da Igreja Evangélica Alemã é o Evangelho de Jesus Cristo, conforme nos é atestado nas Sagradas Escritures e trazido novamente à luz nas Confissões da Reforma. Todos os poderes necessários à Igreja para cumprir sua missão por ele são determinados e limitados.

Artigo 2º. (1) - A Igreja Evangélica Alemã é dividida em igrejas regionais (Landeskirchen).

Nós, os representantes das igrejas Luterana, Reformada e Unida, dos Sínodos livres, das assembleias eclesiásticas e organizações paroquiais unidas no Sínodo Confessional da Igreja Evangélica Alemã, declaramos estarmos unidos na base da Igreja Evangélica Alemã como uma federação de Igrejas Confessionais. Unifica-nos a confissão de um só Senhor da Igreja una, santa, católica e apostólica.

Declaramos publicamente nesta Confissão, perante todas as igrejas evangélicas da Alemanha, que aquilo que ela mantém como patrimônio comum está em grande perigo que também ameaça a unidade da Igreja Evangélica Alemã. Ela se acha ameaçada pelos métodos de ensino e de ação do partido eclesiástico dominante dos cristãos alemães e pela administração da Igreja conduzida por ele. Esses métodos se vêm tornando cada vez mais salientes neste primeiro ano de existência da Igreja Evangélica Alemã. Essa ameaça reside no fato de que a base teológica da unidade da Igreja Evangélica Alemã tem sido contrariada contínua e sistematicamente e tornada ineficaz por doutrinas estranhas, da parte dos líderes e porta-vozes dos cristãos alemães, bem como da parte da administração da igreja. Se tais doutrinas conseguirem impor-se, então, conforme todas as Confissões em vigor em nosso meio, a Igreja deixará de ser Igreja, e a Igreja Evangélica Alemã, como federação de Igrejas Confessionais, tornar-se-á intrinsecamente impossível.

Na qualidade de membros das Igrejas Luterana, Reformada e Unida, podemos e devemos falar com uma só voz neste assunto. Precisamente por querermos ser e permanecer fiéis às nossas várias Confissões, não podemos silenciar, pois cremos ter recebido urna mensagem comum para proclamá-la numa época de necessidades e tentações gerais. Depositamos nossa confiança em Deus pelo que isto possa significar para as interrelações das igrejas Confessionais.

Face dos erros dos cristãos alemães da presente administração da Igreja do Reich, erros que estão assolando a igreja e, também rompendo, por esse motivo, a unidade da Igreja Evangélica Alemã, confessamos as seguintes verdades evangélicas:

1. Eu sou o caminho e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim (Jo 14.6).
Em verdade, em verdade vos digo: o que não entra pela porta no aprisco das ovelhas, mas sobe por outra parte, esse é ladrão e salteador... Eu sou a porta: se alguém entrar por mim, será salvo (Jo 10.1 e 9).

Jesus Cristo, como nos é atestado na Sagrada Escritura, é a única Palavra de Deus que devemos ouvir, e em quem devemos confiar e a quem devemos obedecer na vida e na morte.

Rejeitamos a falsa doutrina de que a igreja teria o dever de reconhecer — além e aparte da Palavra de Deus — ainda outros acontecimentos e poderes, personagens e verdades como fontes da sua pregação e como revelação divina.

2. Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual se nos tornou da parte de Deus sabedoria e justiça e santificação e redenção (I Co 1.30).

Assim como Jesus Cristo é a certeza divina do perdão de todos os pecados, assim e também com a mesma seriedade, é a reivindicação poderosa de Deus sobre toda a nossa existência. Por seu intermédio experimentamos uma jubilosa libertação dos ímpios grilhões deste mundo, para servirmos livremente e com gratidão às suas criaturas.

Rejeitamos a falsa doutrina de que em nossa existência haveria áreas em que não pertencemos a Jesus Cristo, mas a outros senhores, áreas em que não necessitaríamos da justificação e santificação por meio dele.

3. Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é o cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado, pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua seu próprio crescimento para a edificação de si mesmo em amor (Ef 4.15-16).

A Igreja Cristã é a comunidade dos irmãos, na qual Jesus Cristo age atualmente como o Senhor na Palavra e nos Sacramentos através do Espírito Santo. Como Igreja formada por pecadores justificados, ela deve, num mundo pecador, testemunhar com sua fé, sua obediência, sua mensagem e sua organização que só dele ela é propriedade, que ela vive e deseja viver tão somente da sua consolação e das suas instruções na expectativa da sua vinda.

Rejeitamos a falsa doutrina de que à Igreja seria permitido substituir a forma da sua mensagem e organização, a seu bel prazer ou de acordo com as respectivas convicções ideológicas e políticas reinantes.

4. Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles. Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva (Mt 20.25-26).

A diversidade de funções na Igreja não estabelece o predomínio de uma sobre a outra, mas, antes o exercício do ministério confiado e ordenado a toda a comunidade.

Rejeitamos a falsa doutrina de que a Igreja, desviada deste ministério, poderia dar a si mesma ou permitir que se lhe dessem líderes especiais revestidos de poderes de mando.

5. Temei a Deus, honrai ao rei! (1 Pe 2.17).

A Escritura nos diz que o Estado tem o dever, conforme ordem divina, de zelar pela justiça e pela paz no mundo ainda que não redimido, no qual também vive a Igreja, segundo o padrão de julgamento e capacidade humana com emprego da intimidação e exercício da força. A Igreja reconhece o benefício dessa ordem divina com gratidão e reverência a Deus. Lembra a existência do Reino de Deus, dos mandamentos e da justiça divina, chamando, dessa forma a atenção para a responsabilidade de governantes e governados. Ela confia no poder da Palavra e lhe presta obediência, mediante a qual Deus sustenta todas as coisas.

Rejeitamos a falsa doutrina de que o Estado poderia ultrapassar a sua missão específica, tornando-se uma diretriz única e totalitária da existência humana, podendo também cumprir desse modo, a missão confiada à Igreja.

Rejeitamos a falsa doutrina de que a igreja poderia e deveria, ultrapassando a sua missão específica, apropriar-se das características, dos deveres e das dignidades estatais, tornando-se assim, ela mesma, um órgão do Estado.

6. Eis que estou convosco todos os dias até a consumação do século (Mt 28.20). A Palavra de Deus não está algemada (II Tm 2.9)

A missão da Igreja, na qual repousa sua liberdade, consiste em transmitir a todo o povo — em nome de Cristo e, portanto, a serviço da sua Palavra e da sua obra pela pregação e pelo sacramento— a mensagem da livre graça de Deus.

Rejeitamos a falsa doutrina de que a Igreja, possuída de arrogância humana, poderia colocar a Palavra e a obra do Senhor a serviço de quaisquer desejos, propósitos e planos escolhidos arbitrariamente.

O Sínodo Confessional da Igreja Evangélica Alemã declara ver no reconhecimento destas verdades e na rejeição desses erros, a base teológica indispensável da Igreja Evangélica Alemã na sua qualidade de federação de igrejas Confessionais. Ele convida a todos os que estiverem aptos a aceitar esta declaração a terem sempre em mente estes princípios teológicos em suas decisões na política eclesiástica. Ele concita a não pouparem esforços para o retorno à unidade da fé, do amor e da esperança.

Verbum Dei manet in aeternum* ________________________________ Texto retirado do Portal Luteranos.