quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Socialismo e Nazismo

 

   Vejamos, abaixo, algumas reivindicações de Hitler que nos levam a compreender que ele desejou com todas as forças o agigantamento do Estado, fazendo com que este assumisse aquela feição paternal que Lula, os socialistas e muitos brasileiros tanto gostam: querem que o estado banque tudo, sem desejar uma liberdade que permita o auto-governo das pessoas.  

  "Nós exigimos a divisão de lucros de indústrias pesadas.

   Nós exigimos uma ampliação, em larga escala, da proteção social na velhice.

   Abolição de rendas não auferidas através do trabalho [renda por juros ou por meio de jogos, por exemplo]. Fim de escravidão por juros.   

   Nós exigimos a criação de uma classe média saudável [alguma semelhança sobre a criação de uma classe média por decreto?] e sua conservação, a imediata socialização das grandes lojas de departamento, que deverão ser arrendadas a baixo custo por pequenas empresas, e um trato de máxima consideração a todas as firmas pequenas nos contratos com o governo federal, estadual e municipal.

   Nós exigimos uma reforma agrária adequada às nossas necessidades, uma legislação para desapropriação de terra com propósitos de utilidade pública, sem indenização, a abolição de toda especulação com a terra.

   O Estado deverá se responsabilizar por uma reconstrução fundamental de todo o nosso programa nacional de educação, para permitir que todo alemão capaz e laborioso obtenha uma educação superior e subsequentemente seja encaminhado para posições de destaque [...] Nós exigimos que o Estado financie a educação das crianças com excepcionais capacidades intelectuais, filhas de pais pobres, independentemente de posição ou profissão.

   O Estado deve cuidar de elevar a saúde nacional, protegendo a mãe e a criança, tornando ilegal o trabalho infantil, encorajando o trabalho físico por meio de leis que obriguem a prática de ginástica e de esporte, pelo apoio incondicional a todas organizações que cuidam da instrução física dos jovens." (GOLDEBERG, J. Facismo de Esquerda. p. 82, apud NARLOCH, O Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo. p. 178,179)" 

   Com base neste texto é possível clarear bem em nossa mente o que significa o fato de um Estado com plenos poderes, assim como o resultado inevitável da exigência de diretos para tudo quanto é coisa. 

   A equação é simples: direitos demandam uma necessidade de Estado (pois ele deve garantir, por leis, o dever de outros - pois sem deveres não existem direitos); muitos direitos é igual a Estado grande; Estado grande significa redução da liberdade individual (pois é o fruto do nosso trabalho que garante os direitos); liberdade individual pequena é igual a ficar sujeito ao despotismo de quem concentra mais poderes; aquele que concentra mais poderes (o Estado) tem direito de controlar a sua vida individual. 

   Como disse no texto "Frustração Salvífica", é necessário, antes de tudo, para que possamos ter uma ideia melhor sobre política, ação humana, governo etc, compreender, primeiro, quem é o ser humano, e, após isso, entender a que estamos sujeitos quando um pequeno grupo humano possui plenos poderes sobre nossa vida.

   Seria matéria de muita inocência contar com a bondade humana deixando a poucos o controle geral da vida de muitos e, neste sentido, nas mãos do governo a possibilidade de decidir os rumos de uma nação, sem o contraponto de uma comunidade acadêmica (independente), jornalística, empresarial, religiosa e de outros grupos humanos, que, com os seus posicionamentos, ampliam o poder de visão do governo.

   Frente a isto, temos a ideologia socialista, que é amada aqui no Brasil com uma "tara" inexplicável a primeira vista, mas que é compreensível quando analisamos a genealogia de nossa política que descende da França, Portugal etc - que foram construídas diferentemente daquele processo inglês e  americano que coloca a liberdade individual (segundo a filosofia liberal conservative) como um contrapeso significativo ao domínio do governo.

   Neste sentido, a filosofia liberal coloca nos ombros de indivíduos a responsabilidade por si próprios, sendo, por tanto, necessário a emancipação individual do Estado Babá, que, para defender os seus "pequeninos", invariavelmente exige muito no sentido financeiro e no sentido da liberdade de pensamento. Ter um Estado para garantir os "Direitos Humanos" é, ao mesmo tempo, ter um pretexto para a existência do Estado, que antes reduzido em sua atuação à esfera jurídica e militar, agora, no mundo moderno, desempenha um papel de "gestor de um mundo melhor" - projeto este que vem desde o iluminismo francês (com os jacobinos), e cujo ápice foi o socialismo alemão (com Hitler), soviético (com os sovietes) e chinês (com Mao Tsé Tung), e que faz eco, hoje, com o Estado Islâmico, com a ONU e outros.

   É sabido, como afirma Paul Jhonson em "Tempos Modernos", que toda a tentativa de engenharia social, de mudanças abruptas do cenário político, e de tentativas de mudanças radicais da sociedade e da cultura, impostos de cima para baixo, terminaram em genocídio. Um Estado gigantesco, produtor de moral, que não deixa margens para liberdades econômicas, assim como liberdade de consciência e de opinião - pontos de diferenciação determinante entre o iluminismo francês do iluminismo inglês -, e que concentra o poder econômico, jurídico e político nas mãos, está fadado ao despotismo.

   Esta tara socialista que o Brasil tem de encontrar o "pai redentor" no Estado, mesmo com todas as evidência de não transcendência que este evidencia, não deixa de ser algo onde vemos um eixo que divisa o significado desta situação com relação a aquela que foi encontrado a Alemanha na década de trinta, pois, no final das contas, eles esperavam um "pai redentor", um alguém poderoso que, no fim das contas, acabou por esmagar, "em favor do povo", toda e qualquer liberdade individual existente por meio da eliminação dos inimigos e concorrentes, sejam eles financeiros, ideológicos (canais de televisão, jornais, artistas, filósofos, teólogos, escritores etc), ou políticos - não se espantem, pois esta é a face mais pura do socialismo. 

sábado, 13 de setembro de 2014

Doença das Almas Gêmeas


   Sempre achei a teologia da prosperidade uma ofensa para a inteligência de todo mundo por causa da contradição mortal entre suas pretensões e a experiência que cada ser humano normal possui no seu dia a dia.

   Nunca fiquei dando muita bola para ela pois desconfiava da capacidade que as pessoas tinham de viver muito tempo sob a exposição de algo tão infantilizador - era mais otimista, por tanto, quanto ao poder de rejeição de coisas pedantes e monstruosidades morais como essas. No entanto, tenho visto o tamanho da praga que este negócio tem sido para a integridade de Igrejas históricas, do pentecostalismo clássico etc.

   É nessas horas - penso - que o católico tem razão de operar no campo da superioridade diante da fragilidade magisterial de Igrejas Protestantes. Também é aqui que vemos o trabalho de sísifo que temos para atuar - digamos - com aquele esforço de saneamento mental quanto a estas coisas, assim como para nos defendermos, dizendo: olha, não somos assim! - pagando contas que não são nossas.
   
   Tenho visto, desde a minha faculdade de teologia, que o esforço ainda é muito maior, pois, não raro, há um ou outro em igrejas evangélicas com um ranço infinito contra a atividade mental em teologia, contra a valorização de pegar pesado nos estudos - e, para piorar, são alguns destes que surgem com aquele desejo de ser "pastor", com aquele orgulho infinito de se achar moralmente superior a muitos - não é difícil, deste modo, enveredar pelo lado mais fácil das coisas por falta de opções.

   Se, por um lado, há muita vontade, por outro há uma molecagem meio "judaizante", meio "oportunista", meio "animal de rapina", e - pior de tudo - meio messiânica, achando que a fé esta no  no dever de salvar o mundo da fome, das "opressões", da pobreza por meio de determinadas "chaves", sejam elas "conversões" ou sejam elas "visões sociais do evangelho". Neste sentido, posso dizer da teologia da prosperidade que ela tem uma irmã gêmea chamada "teologia da libertação", pois as duas padecem - cada qual ao seu modo - de uma enfermidade genética apenas: negam a situação presente da vida por uma hipótese, achando poderem criar um paraíso na terra; sendo que a teologia da libertação o faz pela via da alucinação e a teologia da prosperidade pela via da imbecilização.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Frustração Salvífica





   Qualquer teoria política deve estar embasada também na antropologia, pois a política não é algo, em primeiro plano, de pura abstração, pois antes de ser uma razão exterior ou "um livro", a política é o ser humano, possibilidade humana e ação humana no mundo. Neste sentido, devemos pensar a totalidade da política partindo daquela orientação socrática: "conhece-te a ti mesmo".

   Qualquer individuo sensato deveria medir, antes de tudo, as possibilidades humanas, seus vícios e as suas virtudes, a partir de um olhar sobre si mesmo e, neste sentido, desconfiar que, em termos universais, a humanidade em muitos aspectos é este negócio estragado, este problema constante pós edênico que oscila entre a grandeza e a baixeza, entre a felicidade e a tristeza, entre - como já dito - os vícios e as virtudes e, com isto, destituído completamente de qualquer possibilidade messiânica ou salvadora no mundo - possibilidade que deveria gravitar apenas na esfera religiosa e metafísica, como uma promessa a ser cumprida após o fim de todas as coisas. 


   Tal vez a pergunta mais urgente neste cenário político seria o porquê da necessidade de exigir do outro aquilo que não podemos fazer por nós mesmos, como se a existência virtuosa alheia fosse um direito para nós, enquanto nadamos no mar da nossa própria miséria - o que, em absoluto, não exclui a compreensão de que, sim, há de fato pessoas que, estando acima da média, se sobressaem as demais, e que não devemos tolerar um determinado grau de decadência ao nosso redor: sempre é possível vislumbrar algo melhor no mundo (até certo ponto). 


   Esta constatação poderia fazer com que nossos olhos fossem abertos para duas constatações: 1ª) Não podemos colocar esperanças demasiadas sobre outras pessoas ou grupos; 2ª) deveríamos desconfiar de maneira aguda de qualquer espécie de discurso político ou religioso que pretende satisfazer estas esperanças demasiadas por meio de ações humanas, afim de que por elas atinjamos "um mundo edênico", onde, por exemplo, pessoas conviverão pacificamente umas com as outras, com os animais, com as árvores, que respeitarão totalmente, por meio de um plano político de saneamento mental, os velhinhos e as baleias, e que não haverá mais pobreza. 
 

   Esta constatação poderia fazer com que nossos olhos fossem abertos para duas constatações: 1ª) Não podemos colocar esperanças demasiadas sobre outras pessoas ou grupos; 2ª) deveríamos desconfiar de maneira aguda de qualquer espécie de discurso político ou religioso que pretende satisfazer estas esperanças demasiadas por meio de ações humanas, afim de que por elas atinjamos "um mundo edênico", onde, por exemplo, pessoas conviverão pacificamente umas com as outras, com os animais, com as árvores, que respeitarão totalmente, por meio de um plano político de saneamento mental, os velhinhos e as baleias, e que não haverá mais pobreza. 


   Esta constatação poderia fazer com que nossos olhos fossem abertos para duas constatações: 1ª) Não podemos colocar esperanças demasiadas sobre outras pessoas ou grupos; 2ª) deveríamos desconfiar de maneira aguda de qualquer espécie de discurso político ou religioso que pretende satisfazer estas esperanças demasiadas por meio de ações humanas, afim de que por elas atinjamos "um mundo edênico", onde, por exemplo, pessoas conviverão pacificamente umas com as outras, com os animais, com as árvores, que respeitarão totalmente, por meio de um plano político de saneamento mental, os velhinhos e as baleias, e que não haverá mais pobreza. 

   Sempre achei o pessimismo antropológico algo mais inteligente - tal vez isso se dê pelo fato de eu ser protestante; por exemplo: não se admite santos no protestantismo, pois se crê que o estado irremediável do homem só pode ser revertido pela aquisição gratuita dos méritos de Cristo pela fé (e somente por ela) -, pois isto descreve uma situação que nos acompanha irremediavelmente até ao túmulo, sobrando intacta apenas a luz da razão, este saber sobre o bem e o mal, que para a nossa infelicidade nos faz compreender o abismo em que nos encontramos, mesmo cientes intuitivamente de uma realidade perfeita que para nós é inatingível, de cuja consciência não é possível sem o esmagamento que se segue. 

   No mundo ordinário, sempre convivemos com um certo grau de realizações, sucessos e satisfações, mas essas coisas - vale lembrar - apenas constituem um determinado aspecto da nossa vida, onde não pode ser descartado o lado sombrio da mesma; e se considerarmos estas coisas de maneira mais sensata, ampliando isto sobre a totalidade da humanidade, veremos que diante deste mal, apesar de todo o bem existente, ninguém escapa, e, por isso, para vivermos, devemos nos reconciliar até ao nível do razoável com o absurdo. Por tanto, cabe a pergunta: quem é ou são aqueles que podem trazer, neste presente século, a salvação e um mundo melhor?  

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Instrumental Nietzscheano


   Para quem leu, no mínimo, dois livros do Nietzsche, e tem uma noção básica de como anda a tendência do "espírito" atual na cabeça dos intelectuais, sabe que o instrumental filosófico fornecido por Nietzsche serve, segundo os interesses da presente época, apenas para uma causa: a destruição e corrosão do pensamento cristão. 



 Geralmente a ideia humanista que se tem do pensamento nietzcheano (que possui intuições fundamentalmente válidas) do tipo "Humano Demasiado Humano", não pode ser compreendida sem a ideia da "Vontade de Potência", que, segundo ele diz nos livros "Além do Bem e do Mal" e "Genealogia da Moral", é o princípio fundante da existência "Aristocrática" do "povo conquistador", "guerreiro", "livre", que "subjuga os povos", o germe da "besta loira", daquele "povo nobre", "magnânimo", "escravizador", e do "espírito dionisíaco", ou "wotaniano". 

   Este espírito dinâmico, "humano demasiado humano", que vive pelo "instinto" e pelo "desejo", que ama a "liberdade", não pode, por tanto, ser comparado em nada com a tendência contemporânea de apelo à "democracia" e à "liberdade" tal como compreendemos as coisas com estes termos, e isso torna estranho esta coqueluche nietzschieana atual para pessoas que amam os "pobres" e os "oprimidos", as mulheres, visto que qualquer coisa assim seria defender, segundo Nietzsche, a "moral do escravo" e do povo ressentido que olha para os nobres e fortes com inveja. 

   Mal se sabe, por tanto, que para efeitos democráticos Nietzsche possui avassaladoramente uma tendência inversa, pois é anti-democrático, e anti-socialista (ainda que compreendendo que toda esta "moral socialista" é pura mentira e fachada) etc, pois, segundo ele, isso entra em total contradição contra aquela hierarquia que exige a existência de senhores e de escravos, como afirmava o pensamento grego. 

   É estranho constatar a demonização de Aristóteles, que no livro " A Política" defendeu literalmente o mesmo pensamento escravagista e que colocava a mulher em posição "sub-missa", enquanto que Nietzsche possui um lugar no panteão do pensamento acadêmico brasileiro. Tal vez a causa desta "demonização", no fundo, não seja pelo conteúdo semelhante que falei acima, mas justamente porque o pensamento aristotélico foi plasmado ao pensamento católico, enquanto que o pensamento nietzschiano o foi ao pensamento anticristão. 

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Israel: Breves Considerações

   

   
   
   A propaganda difamatória sistemática é um dos lados da guerra que poucas pessoas estão habituadas a ver, mas hoje é uma das mais eficientes táticas utilizadas por grupos que, atropelando a verdade, buscam ganhar a causa por meio da conquista das consciências. 

   Hoje esta tática encontra-se totalmente em curso, pois é possível ver a oposição radical contra Israel, não levando em conta que comumente os membros terroristas do Hamas escondem o seu armamento no meio da população civil, ou seja: quando um grupo como o Hamas - que é abertamente favorável ao genocídio e extermínio dos judeus - utiliza a população civil como escudo, não há condenação alguma sobre eles, mas quando os israelenses defendem o seu território e o seu povo, gerando consequência trágicas como o "efeito colateral de guerra", então é condenação por cima de condenação.

   É importante considerar que com isto não se nega que haja o elemento trágico neste evento, mas por outro lado deve ser considerado que o território de israel é tão infimamente pequeno perto dos territórios árabes que somente quem fez um juramento de cegueira não pode ver o tamanho da barbárie a que este povo é sistematicamente exposto; e é óbvio que se eles não possuem o direito de viver em seu território, então nenhum de nós no mundo possuímos tal direito. Não é difícil entender isto - aliás, esta é uma das táticas psicológicas que busca desarmar as pessoas da ideia da legitimidade de algumas ações que podem garantir a sobrevivência.

   Há pessoas que devido a esta mentalidade politicamente correta, e extremamente infantilizada, vivem em um mundo extremamente cor-de-rosa e que não são capazes de penetrar na estrutura da situação que envolve empreitas de defesa nacional, assim como a necessidade das mesmas em determinados momentos.

   Infelizmente o Édem foi deixado para trás, assim como a união total entre o gênero humano é um dado no qual podemos por a nossa confiança somente a custa de muita inocência. Há muitas pessoas que possuem argumentos teóricos válidos - como a consideração de que a utilização da força é algo desagradável -, mas que são ineficazes no nível prático - pois a defesa, ainda como o elemento trágico que ela traz em determinados momentos, são coisas que garantem a possibilidade do não extermínio.

   Aquele que não tem cuidado dos seus - como o cuidado que o governo de Israel vem demonstrando -, mas age contra os mesmos a pretexto de não cometer "maldade", não pode ter a capacidade de cuidar, ou até mesmo de amar alguém - eis, por tanto, o paradoxo inexorável e trágico deste campo cujo nome é vida.

domingo, 13 de julho de 2014

Filósofos e Filosofastros

   

   É interessante que muitos dos filósofos que negam a capacidade humana de juízo acerca do real (tipo existecialistas, nietzcheanos, kantianos etc), são aqueles que mais juízos acerca da realidade fazem, negando toda uma herança intelectual e cultural que constitui os pilares sob os quais são consolidadas nossas noções e sentidos sobre o mundo, substituindo-os por uma ideologia nova e que, não se sabe ao certo, busca fundamentar a vida do individuo assim como de toda a sociedade. 

   Não se fala aqui da noção do pensamento que busca uma determinada revisão - o que sempre é algo saudável -, mas sim de uma transvolação radical dos valores, cuja aquilo que vem depois só pode ser uma noção fundamentada na autoridade como uma "imposição de narrativas", e não em um pensamento fundamentado na noção que geralmente se possui da realidade - como indicava Aristóteles ao dizer que a filosofia deveria partir de noções geralmente aceitas, sendo as mesmas ampliadas em círculos concêntricos, indicando a necessidade de uma "herança no  penamento", de maneira que aquilo que se encontrava no "ponto ômega" de uma construção intelectual (e até moral), deveria corresponder aos elementos primordiais da ideia, não contradizendo-os. Mas o que geralmente se vê é a substituição do "senso comum" por uma outra ideia de mundo que é uma ruptura completa a tudo aquilo que se pensou, configurando-se, por tanto, em uma descontinuação histórica, assim como uma contradição lógica dos princípios elementares do pensamento - e até mesmo das relações de um indivíduo no mundo (sejam elas políticas, comerciais, pessoais etc).  

   Não é difícil compreender isto se partirmos da seguinte constatação: geralmente uma filosofia do tipo realista - onde a verdade depende da presença do objeto e não do sujeito que apreende tal objeto - aceita a realidade tal como ela se mostra; mas uma filosofia idealista - tipo kantiano - nega a totalidade daquilo que chega à consciência como tal, ou seja: tudo o que é experiência pessoal não se enxerga a partir da consciência pessoal, sendo mais verdadeiro, não obstante, aquilo que Kant fala do real, do que o real tal como vivenciamos por nós mesmos. Tal vez aí esteja a raiz mais profunda do problema relacionado com a questão da ideologia e da massificação das consciências na história recente: não se enxerga a experiência a partir de si mesmo, mas sim a partir de uma interpretação de terceiros acerca da mesma: não há mais autonomia senão a de um grupo de intelectuais que ditam o sim e o não para nós. 

   Não há uma manifestação mais poderosa acerca disso do que a Universidade moderna que parou de tentar interpretar a realidade para começar a impor aquilo que ela pensa. O problema do Brasil não é a falta de intelectuais, mais o excesso dos mesmos, o que permitiu que o senso pessoal da realidade fosse substituído por uma ideia acerca da totalidade formulada pela cabeça de outros - ainda que a mesma contradiga radicalmente a experiência do sujeito no mundo. Com isso se ganhou em diplomas, mas se perdeu em autonomia, democratizando a estupidez. 



   Não é a toa que esse tipo de "filosofia crítica" seja a predileta para a doutrinação estatal; e não é preciso ser nenhum gênio para perceber o quão afinada estas são a governos que, negando princípios, faz com que a única opção possível seja aquilo que ela reza para todos aqueles que estão sob a sua sombra. Eis a consequência inevitável: prometendo autonomia ela produz apenas servidão. 

terça-feira, 1 de julho de 2014

Trotsky Contra as "Nuvens"




   O materialismo dialético - soberano absoluto nas escolas brasileiras - não é senão a negação radical de qualquer valor intrínseco à vida, visto que tal valor, sob o ponto de vista do materialismo, é reduzido apena a uma variável na cadeia de situações não fixas, mas determinadas por coisas como "cultura", "ponto de vista", "relações econômicas" etc e que desemboca, certeiramente, na revolução afim de criar um "mundo melhor" - a meta absoluta, mesmo que qualquer espécie nefasta de meios justifiquem o fim "glorioso" da sociedade utópica, e ainda que esta desconhecida nunca venha a ser. 

   A inflexibilidade dos valores, assim como de uma ordem no mundo, segundo a compreensão cristã, fornece, por tanto, um apoio no qual o homem, submetido a essas coisas, não pode ultrapassar ou negociar segundo a sua "soberania", ou segundo a soberania de um ideal utópico, visto que, do "ponto de vista" destas leis o homem é recompensado e legitimado ou condenado, havendo, por tanto, uma determinada segurança, e não um horizonte histórico de acontecimentos amorfo e destituído de valores específicos, assim como de meios específicos, fazendo, por tanto, que o nosso destino seja lançado nas mãos de um caos sem princípios e leis, variável ad infinitum et ultra, onde a única certeza é a ausência de certezas, a não ser a certeza do mundo melhor que nunca vem. 

   Já entendia Leon Trotsky que a única oposição séria ao materialismo histórico dialético - que ele defendia ardorosamente - só poderia ser feita seriamente por uma realidade meta-física - caso ela existisse, de fato -, visto que esta seria a única fundamentação séria de uma moral cotidiana ou de valores reais pelos quais seria possível viver a vida, assim como morrer, e que transcendesse o modus operandi do materialismo emperrando-o, e, por conseguinte, o destruindo, visto que esta pedra fundamental contraditaria a ideia de que os fins utópicos de uma sociedade perfeita justificam os meios para se chegar lá - revolução, morte, destruição de famílias, instituições, culturas etc. 

   Segue, aqui, Trotsky: "A moral independente dos 'fins', isto é, da sociedade [perfeita] - quer seja deduzida das verdades eternas quer da "natureza humana" - não é, no final das contas, senão uma modalidade da 'teologia natural'. O céu continua sendo a única posição fortificada de onde se pode combater o materialismo dialético." (TROTSKY, Leon - Moral e Revolução. p. 3)

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Contra o Socialismo

  


  O governo socialista é o resultado da fusão do poder político e econômico nas mãos do governo. Já nas democracias capitalistas o que impera é a divisão dos poderes, sendo o poder político separado do poder econômico. 

   Quando, por exemplo, um indivíduo sofre o agravo de um capitalista em um governo de economia capitalista, o agravado tem a possibilidade de se refugiar na sombra do governo; e, por outro lado, se o governo começar a se valer de um poder persecutório sobre aquele que o incomoda - por exemplo -, aquele que é perseguido pode se refugiar nos braços de alguns empresários - a exemplo de muitos judeus que conseguiram se refugiar da perseguição nazista por meio do apoio de empresários que os abrigaram, como Schindler e outros. No entanto, em um governo que funde o poder econômico e político, se algum indivíduo for perseguido pelo governo, onde é que ele encontrará refúgio, a não ser em Deus mesmo? 

   Essa foi uma das constatações que me fez desacreditar totalmente em qualquer espécie de socialismo, pois o mesmo, jamais tornou-se, assim como jamais se tornará, um Comunismo de fato - Comunismo que é materialmente e espiritualmente impossível, assim como injusto na raiz. 

   Nunca houve na história da humanidade uma concentração de renda tão grandiosa como aquela fomentada por governos socialistas, cujo aparato de poder de ação só é possível quando, em uma nação, o seu poder transborda, e muito, sobre todos os capitalistas juntos. O que podemos pensar de uma mega concentração de poder nas mãos de poucos? Isso nunca deu certo, assim como nunca poderá dar certo, de fato. 

   Mas o que mais espanta é que o mesmo socialismo só é possível por meio da colaboração coletiva, onde cada qual oferece o seu quinhão na concessão de um poder gigantesco para uns poucos - seja conscientemente ou por negligência -, convencidos pela lisonja da vida mais fácil. Mal sabe aquele que assim contribui que constrói uma mão não para esmagar, mas, antes de tudo, para ser esmagado. 

sábado, 7 de junho de 2014

Escritura, Nazismo, Virtude e Lucro





   Vamos começar com a leitura de dois versículos da Escritura:

   15 - Perfeito era nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado, até que se achou iniquidade em ti.

   16 - Na multiplicação do teu comércio, se encheu o teu interior de violência, e pecaste; pelo que te lançarei, profanado, fora do monte de Deus e te farei perecer, ó querubim protetor, entre pedras afogueadas [blilhantes]. (Ez 28:15-16)



   Um dos métodos de interpretação das Escrituras é o alegórico, onde predomina um princípio hermético que compreende a relação entre a história e as passagens bíblicas como círculos concêntricos, ou seja: na micro história bíblica se sobrepõe, significada por esta última, a macro-história universal (e vice-versa). 



   É por este método, compreendendo a Escritura em sua estrutura simbólica, que se faz possível a atualização do seu sentido, hoje, para todos aqueles que compreendem o texto bíblico como intérprete da realidade e como a fornecedora de orientações para a vida presente. 



   Lendo, hoje, na revista Super Interessante (ed. 333) a matéria de capa que trata do envolvimento de gigantes da indústria mundial na construção da Alemanha nazista, me veio uma luz que lançou uma clareza ímpar tanto sobre a Escritura, assim como sobre os eventos históricos e que, resumidamente, se trata disto: 

   01 - Com relação à "perfeição dos caminhos", basta lembrar que o III Reich foi tido como a apoteose da virtude, visto que no movimento foi visível o apregoamento de noções como higiene, fraternidade, fidelidade, trabalho árduo, disciplina, coragem, engajamento, cumplicidade, crescimento econômico e até mesmo a investidura de uma intensa piedade religiosa - interpretando o Füller como um tipo Messiânico do III Reich Milenar (que possui um misto de inspirações pagãs e bíblicas - Ap. 20:6) - foram patentes no Nacional Socialismo (Nazismo). 

   02 - Mas o Nazismo não foi apenas visto, em meio à intensa humilhação após a Primeira Guerra Mundial, como uma luz da virtude que impulsionou a esperança e o alavanque dos ânimos dos alemães para a reconstrução da nação, pois é notório o crescimento econômico vertiginoso experimentado durante o governo do Füller. Por exemplo, a IG Farbem - desmebrada após a Guerra - que contava com a participação de gigantes na área química como a Bayer, subiu o seu lucro de 5 milhões de marcos, em 1936, para 122 milhões de marcos em 1943. 

   Entre as empresas que investiram na reconstrução da Alemanha, assim como influenciaram o boom econômico, o fornecimento de armas, tecnologias para os campos de extermínio, participaram ativamente do governo e que se serviram do trabalho escravo, estão: A IG Farbem (Basf, Bayer e Hoescht - que colaboraram com os campos de extermínio na fabricação do gás Zyklon-B, utilizado nas câmaras de gás), a IBM (que forneceu uma tecnologia de informação para organização de campos de extermínio), Kupp, Siemens, Coca-Cola (desenvolvendo, na época nazista, a Fanta sabores uva e laranja), Nestlé, Dr Oetker, Ford, GM (General Motors), BMW etc. 

   03 - Não é preciso nos delongarmos para compreender o que veio ser a profanação do nome do Nacional Socialismo que, antes - ainda que tenhamos que fazer um esforço para vislumbrar isso (como faço até hoje!) -, era contemplado com uma auréola de de santidade, assim como o seu Füller!

***

   Todas as empresas citadas a cima obtiveram lucros imensos, assim como a promessa de estabilidade e crescimento na Alemanha após a Guerra, mesmo que, em nome dessas promessas e por causa do lucro, tivessem que sacrificar os seus princípios por meio de trabalho escravo, colaboração com os campos de extermínio, financiamento das políticas racistas do Nacional Socialismo etc. 

   É de se notar que, hoje, muitas empresas e políticas públicas contam com um impedimento mortal: a moral judaico-cristã que, como se encontra registrado nas escrituras, proíbe o lucro na base da corrupção e do sacrifício humano como visto nestes dados. 

   Não é a toa que a busca pelo poder seja delimitado - não impedido - por meio de regras e princípios cristãos; e é certamente nisso que reside uma das motivações mais profundas do ódio que, hoje, se encontra voltado para o cristianismo bíblico e para os cristãos que professam a fé no mesmo. 

domingo, 1 de junho de 2014

A Gênese Real de Todo o Mal



   Para mim, uma das coisa que traz mais amargor ao meu coração é o divórcio. Mal sabem as pessoas que o casamento, na ótica de Jesus e do Novo Testamento (e infelizmente de maneira mais gritante no meio protestante, entre as ramificações do cristianismo), é algo indissolúvel. O advento da (i)moralidade moderna pôs o desejo pessoal de realização imediata - ou instantânea - acima do casamento.

   A mentalidade da relação como algo descartável é a responsável pela destruição e pelo enfraquecimento da consistência das relações humanas em suas mais diversas manifestações. Nunca termos como fidelidade, verdade, sinceridade, paciência, esperança, perdão, compreensão, doação e auto-sacrifício foram tão inacessíveis e detestados pelos homens, imperando no lugar dessas coisas, quase unânime, aquele método de sobrevivência baseado na falsidade integral, que expõe ao ridículo aquele que nega a mentira como uma arma de sobrevivência legítima.

   Nesse sentido, mentir é a regra fundamental para toda a "boa relação", assim como a pose e a aparência para satisfações daqueles que são guiados, apenas, pelas vistas e não pela via invisível dos valores.

   Não é de se admirar que em meio à desvalorização e degradação da ideia do casamento, surja uma sociedade hipócrita, amante de si mesma, cínica, lisonjeira, e com uma necessidade absoluta de aprovação alheia - resultado da solidão que lhe vem do desprezo metódico, da afetação de superioridade, do engano e da existência sedutora que satisfaz os sentidos, mas não podem remediar e dar segurança para a alma, sendo, na verdade, os meios de perdição da mesma.

   A falta de perseverança na construção de algo sólido, duradouro cujo resultado não pode vir do dia para a noite é, acima de tudo, sinal claro de decadência, pois a visão de mundo moderno apregoou que ser sábio é viver guiado pelo prazer presente, mesmo que isso seja feito às custas da tristeza alheia. Não é de se estranhar que a recompensa disso tudo seja a solidão atroz pela qual muitos se queixam, sem saber, de fato, que essa ilusão e auto-engano onde muitos procuram a felicidade é, na verdade, a gênese real de todo o mal.

Contemplação, Estética e Personalidade



   Tal vez uma das razões para a decadência da moral humana em um determinado lugar seja a ausência de exemplos modelares que indiquem a existência de uma realidade mais elevada, assim como um padrão mais alto pelo qual pautar a conduta pessoal em determinados momentos da vida. 
   
   Uma das funções definitivas da religião cristã - e por isso, uma das contribuições mais decisivas e essenciais para a vida humana - tal vez seja o apontamento para uma realidade que transcenda as movimentações ordinárias, indicando a falha nas mais diversas dimensões da existência. 

   Uma das contribuições decisivas da religião judaica - e endossada pelo cristianismo - foi a execração da ideia da divinização humana (como, por exemplo, em Ex 20:2), o que permitiu a contemplação de um padrão eterno, ainda que inatingível para a vida temporal, assim como leis fixas que não deveriam ser revogadas, ainda que o ser humano jamais pudesse, em suas falhas existenciais, cumprir em si as exigências provenientes da Lei divina (Rm 7).  

   Devido a isso, é de salutar importância a ideia da transcendência - ou mais precisamente a ideia de Deus - e do incondicionado em meio a cultura humana, pois tal transcendência possui um poder que alavanca e estimula a ascensão da consciência até ao nível de um padrão moral por meio do qual se pautar, permanecendo fixo e irrevogável pelos séculos dos séculos. 

   Não houve para a vida intelectual científica, religiosa e pública - a começar por Moisés e os profetas de Israel, Paulo, Sócrates, Platão, Aristóteles, os pais da Igreja, Lutero, Leibniz, Newton, Montesquieu, Descartes, Kierkegaard etc. - uma contribuição que inspirou de maneira mais decisiva a acensão antropológica e a construção e consolidação de ideias, culturas, leis, nações, modos de relação, de produção, e instituições do que a ideia de um Ente-de-Razão-Superior e Eterno, fundamento da realidade ou da moral, que fornece por si uma cosmovisão, quer para o indivíduo, quer para a sociedade, apresentando por Si Mesmo o Seu SIM ou o Seu NÃO a toda e qualquer ação desempenhada no âmbito da realidade. 

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   Em quê se pautar? A pergunta para essa resposta não pode ser fácil ou mesmo simplória, pois, nestes dois casos, o que se coloca em jogo é a resposta fundamental que indica para o ser humano como agir, pensar,  esperar, em fim: viver. 

   Uma resposta essencial para essa pergunta é dada ao ser humano através da religião, e não é atoa que aquilo que é colocado diante dos olhos do ser humano como um Ser Superior, objeto de sua contemplação, sempre se imponha, também, como o objeto supremo de desejo do adorador, seja o desejo da incorporação total dessa divindade em si mesmo, ou seja na participação das forças e energias divinas em meio a história da vida, eliminando, com isso, os problemas existenciais presentes, passados e evitando os futuros. 

   Na Bíblia, vemos da parte de Jesus um apelo: "Sede perfeitos como o vosso Pai Celestial é perfeito" (Mt 5:48), assim como da parte da tradição religiosa judaica: Sede Santos porque Eu, o Senhor vosso Deus, Sou Santo (Lv 19:02; e, paralelamente a isso: I Pe 1:16). Que seria isso, senão uma exigência para que o contemplador, ou adorador, se esforçasse para atingir o mais alto padrão de vida no contexto da própria vida, através da prática constante da espiritualidade, que envolve a compreensão da existência de coisas eternas e perfeitas, não constatáveis no contexto da existência humana individual ou coletiva, mas acima dessa e invencível sobre essa?

   Na prática da obediência a Deus, no âmbito da fé cristã, se encontra a prática da oração, onde por um envolvimento profundo do indivíduo na contemplação divina, através da fé - o que não pode ser concebido como a projeção do "meta-humano" de Feuerbach -, o ser humano é colocado, definitivamente, perante o Absoluto à quem ele roga, se espelha e deseja, em um movimento místico que atinge até as raízes do seu ser, promovendo curas psíquicas, físicas e meta-físicas - ou espirituais. 

   Não tratamos, aqui, essas coisas como puro idealismo, visto que as possibilidades de tal perfeição não possem a sua origem, puramente, do pensamento humano, mas sim numa correspondência à uma realidade de ordem superior a qual é intuída ou revelada, de onde emanam e se fundamentam a ordem, a perfeição, e onde reside, definitivamente, a razão e o significado do ser humano em seu estado mais belo, puro, perfeito, ou seja: universal. 

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   Não é por acaso que da negação de princípios fixos, da ideia do Eterno, do Verdadeiro, de um Bom-em-Si, assim como a ausência da contemplação de padrões elevados de vida, piedade e virtude - ou seja, da estética autêntica, que é um campo do conhecimento filosófico cujo objeto de estudo é o Belo -, siga-se uma relativização agressiva que coloca em xeque toda a fundamentação da moral, rebaixando a mesma ao nível da degradação total e deformando incontornavelmente a personalidade e cultura humanas.

   No contexto atual da sociedade brasileira, é óbvio que podemos enxergar uma cultura doente, sem senso de direção, perdida em si mesma, assim como frustrada com relação aos pontos de apoio que para si criou como meios de obter consolação frente às demandas da vida pessoal, política e mesmo religiosa. 

   A quantidade infindável de receitas, de criações culturais, de livros, programas terapêuticos, eventos, músicas, e soluções já criaram a falsa sensação de conforto por causa da opulência desses meios que chegam próximo ao infinito, pondo, até mesmo, uma nuvem pseudo-profilática que fornece apenas um paliativo, mas que no momento seguinte se revela como impotente para por um fim definitivo à dor do espinho da carne que incomoda intensamente, e que revela uma dimensão mais profunda e infinitamente mais séria do mal presente na humanidade.  

   A sede humana por padrões altos, assim como a exigência que por parte da sociedade humana se faz com relação às coisas ordeiras, justas que permitam a construção de uma personalidade moral autêntica - pelo menos no Brasil, onde essa exigência é profundamente alta, hoje -, apontam para um anseio humano de totalidade, de transcendência, cuja correspondência não pode ser menos do que o perfeito como uma resposta aos dilemas existenciais que pedem, a altos rogos, por cura, e nada menos do que Deus e a contemplação de Sua perfeição, beleza, eternidade e santidade pode fornecer um padrão definitivo de como pensar, agir e esperar e assim curar o cor inquietum (coração inquieto, em latim), que, segundo o bispo cristão Agostinho de Hipona, é o desejo eterno da alma pelo descanso em Deus.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

A Inércia Condescendente e a Invasão Vertical dos Bárbaros




   Não me contento, e acho no mínimo pavoroso que ninguém consiga ver nada nisso. É de amargar, pois espernear daqui para ali, para ver se no mínimo uma consciência acende em meio a este tumulto é um trabalho - quase - de Sísifo: quando achamos que vamos rolar a pedra para o outro lado ela, novamente, volta e passa por cima de nós, esmagando-nos.

   A leviandade e o analfabetismo político de um povo intocado dentro se si mesmo, e residente em um mundo prazeroso aos sentidos faz com que, por sua desatenção, repentinamente lhe estourem a porta tomando a sua  vida por assalto.

   Nunca, aos meus olhos, foi tão agoniante ver a inércia de um povo, pois isso - como já disse - é o início de seu próprio castigo. Não adianta "trabalhar as ocultas", na "humildade", pois isso seria semelhante a apagar um incêndio assoprando bolhas de sabão. Tudo isso é semelhante a um indivíduo que, ao ser assaltado, faz um apelo ao assaltante para que ele atente para as boas maneiras. Tudo inútil, pois em determinadas situações é necessário "sentar o pé", pois, do contrário, com uma ação menos enérgica se põe em risco a própria vida.

   Este último decreto (dc. 8.243) da "presidenta" (que erro de português persistente, meu Deus!), simplesmente acabou com a democracia representativa, dando início à lei do mais forte, do movimento mais robusto, mais violento, mas impregnado daquela força esmagadora que, sequer, respeita o outro (a calda do Dragão Ap 12:4) - não estaríamos, aqui, vendo o reavivamento do poder revolucionário marxista?

   A igualdade dos indivíduos perante a lei é o que confere, verdadeiramente, a identidade para a democracia. Trocado o indivíduo por um movimento, o poder estará nas mãos não do voto - que é do indivíduo -, mas do "maior movimento", o que, em si, é o fim do poder das minorias, ou um esmagamento do indivíduo e do poder da consciência individual.

   Por fim, ouvi falar que a revolução, agora, não é mais feita plenamente nas bases, mas é um movimento vertical que, de cima a baixo, ou de um movimento descendente que vai das instâncias maiores do poder à totalidade da vida civil, promove a invasão devastadora de bárbaros e esses, pelo que vemos, não querem o nosso bem, apenas poder. 

terça-feira, 6 de maio de 2014

A Metafísica da Compreensão; Ou: Entre Babel e Pentecostes

   A simplicidade guarda também o maravilhoso; e já alguém disse que o genial é reduzir o complexo até à sua simplicidade; também a linguagem, por mais singela que pareça, é um desses elementos presentes no universo que guarda o seu fascínio.

   Não se pode considerar, sem um certo grau de abstração, a maravilha presente no simples fato de que um determinado eu fale e um outro compreenda. De que um determinado indivíduo peça e um outro responda à aquilo que foi pedido. De que um determinado alguém chore - seja por dor ou por alegria - e um outro seja por isso movido em suas entranhas por compaixão, ou mesmo por um profundo ódio. A possibilidade da informação e a captação pela inteligência de algum sentido transmitido na linguagem, se encontra  inserida nas dimensões abissais daquilo que podemos chamar de metafísica, ainda que vivenciemos mais isso do que qualquer outra coisa em nossas vidas.

   Quando escrevi o texto "A Gramática do Real" tinha em mente, também, questões como a da possibilidade da compreensão entre um ser humano e outro, assim como a da possibilidade da compreensão do mundo por parte do ser humano, o que sustento ser algo fundado sobre uma base transcendente que sustenta tudo aquilo que há no universo, e que forma o eixo no qual é possível, também, a nossa orientação no âmbito da realidade, sendo que a ausência deste eixo transcendente provocaria, nada mais e nada menos, do que a imersão da totalidade da existência no mar do caos - que é o destino último de toda espécie de teoria que afirme contundentemente a inexistência de uma verdade objetiva e real por si só.
 
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   Com essa introdução preliminar, é possível prosseguir o raciocínio a cima destacado com mais acuidade. Para que possamos compreender, irei destacar duas compreensões distintas acerca possibilidade de uma contato com o real, sendo que ambas são opostas frontalmente em si: 1º) a ideia da impossibilidade do conhecimento da realidade objetiva; 2º) a ideia da possibilidade do conhecimento objetivo de  uma realidade objetiva.
   Ao longo dos séculos, estas duas posições vem sendo discutidas. Anseio aqui - não com a profundidade necessária -, explicitar as duas correntes e, ao fim, mostrar a minha posição sobre o assunto, assim como aquela que deveria guiar o nosso pensamento.


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   A primeira noção acerca da teoria do conhecimento que iremos trabalhar, pertence à corrente que afirma "a impossibilidade de um contato objetivo com a realidade". 

   Essa ideia claramente descende de um determinado "pessimismo antropológico", assim como - como diria Ludwing von Misses - de uma pluralidade de "lógos" existentes devido ao suposto fato de que as condições ou posições determinam o pensamento humano - como classe, local vivencial, cultura, distinta experiência de vida, raça, carga genética etc.

   Com um olhar para o mundo da cultura, tal teoria teria aparentemente uma fundamentação no real, visto que uma certa pluralidade nos salta aos olhos e que, sem dúvida, fala de "diferentes valores" que seriam socialmente construídos ao londo dos milênios e que surgiram por força de uma experiência cultural específica - ou muitas, até. 

   Um teórico que se destaca nesta escola trata-se de Friedrich Nietzsche, que concluiu que a moral tem um fundo explicativo na psicologia da vontade, sendo assim nas condições oportunas do momento destituídas de impessoalidade e neutralidade; ou seja: todos os valores humanos são construções humanas que, em última instância, são imposições feitas por meio de uma ação humana na cultura e história. Sendo assim, não há moral e nem verdades por si mesmas, mas apenas aquilo que no fundo ele chamou de "vontade de poder" que, na realidade, é a característica última, assim como a última possibilidade explicativa de todas as ações humanas possíveis. 

   Aqui pode-se perceber que a verdade, no fundo, é pessoalidade, e sendo pessoalidade é uma construção de indivíduos, não possível, sequer, uma neutralidade, assim como um algo "em-si" e puro. Ainda que a vontade de poder possa ser considerada um princípio metafísico, as questões da imobilidade de uma realidade absoluta que fundamente a ação humana, assim como a estrutura da realidade que se impõe acima do ser humano e da multiplicidade de "verdades", são considerados por Nietzsche como máscaras que, no fundo, ocultam a pura vontade humana. Ideias como "valores absolutos" e "verdades absolutas" são vistas como suspeitas devido a esse voluntarismo universal. Devido a tudo isso, segundo Nietzsche, ideias como "metafísica" e a "coisa-em-si" são mentiras a serem destruídas, pois no fundo, tais conceitos camuflam as intencionalidades impostas como verdade última, algo inadmissível a um "espírito livre". A constatação de tal fato demanda a necessidade da "transvolação dos valores", pois as "verdades vigentes" são coisas de um época que amparam, apenas, determinados grupos - como o clero, igreja, poderes e a ciência. Tal tarefa de implodir os valores para a chegada de um "novo sol da verdade", de uma autêntica liberdade, é algo que, segundo Nietzsche, será realizada pelo "Super-Homem" - como anuncia Zaratustra.

    No entanto, com todas estas informações, cabe a pergunta se Nietzsche desejava ser compreendido de maneira objetiva, ou se mesmo que ele não quisesse que sua mensagem fosse apreendida e obedecia servilmente segundo o seu expediente - afim de que cada qual fosse um espírito-livre -, se uma obediência à ordem de não obedecê-lo e de não compreendê-lo não seria a correspondência à uma informação objetiva, por isso "em-si" como um dado da realidade, prevalecendo, assim, a sua própria consciência sobre as demais consciências. 

   Um outro indivíduo cuja compreensão é fundamental para o assunto em questão, trata-se do filósofo prussiano Imannuel Kant, cuja epistemologia nega qualquer acesso a dados metafísicos através do conhecimento, assim como a intuição direta de objetos reais. 

   Kant pertence à escola do idealismo germânico, e isso porque, segundo ele, o conhecimento não é algo que dependa do objeto simplesmente, mas sim - e com muito mais intensidade - do sujeito que apreende, não o objeto em-si, mas o fenômeno que fornece os dados por meio dos sentidos que são sintetizados pelo pensamento.    
   Noções como "espaço", "tempo", "relações de causa e efeito", são algumas categorias segundo as quais os dados sensíveis são sintetizados e transformados em conhecimento. Isso sugere que a mente não é, por isso, capaz de verdade, sendo que o mundo não é, para nós, o mundo tal como ele é, mas aquilo que dele apreendemos segundo nossas categorias. Isso expulsa qualquer possibilidade de conhecimentos metafísicos, pois, segundo Kant, não podem ser conhecidos por não poderem ser captados como dados sensíveis, pertencendo, por tanto, à esfera dos dados a-priori, que podem ser pensados, mas não conhecidos, diferente dos dados a-posteriori, ou seja, aqueles que são experimentados e pensados. 

   Nesta compreensão de Kant se torna impossível o conhecimento daquilo que chamo de "real", ou seja, das coisas tais como elas, por si mesmas, se apresentam a nós na intuição (experiência direta) da realidade. Se levado até às últimas consequências, não podemos ter a certeza de nos orientarmos no espaço, e mesmo a possibilidade de se desviar de um buraco na rua, assim como subir com precisão o meio-fio evitando o tropeço. Também, a certeza da comunicação entre indivíduos é comprometida por a mesma ser sujeita às categorias que, no fundo, não podem nos colocar em contato com o sentido próprio das palavras. O problema aqui é este: qual a garantia que temos de que as categorias de Kant são semelhante às nossas categorias, assim como que as categorias de todos os seres humanos são semelhantes entre si? Não seriam as "categorias" apenas "dados" inapreensíveis pela experiência senão dados da abstração? Também: como Kant pode saber sobre a "impossibilidade" da apreensão total do real, pois não seria esse limite algo cujas possibilidades de ser como fronteira entre uma coisa e outra algo cuja realidade e possibilidade seria um dado, por tanto, absoluto? Qual é a possibilidade do próprio limite compreendido por Kant? O que é o limite compreendido por Kant? Seria o fenômeno do limite algo que fosse diferente daquilo que o limite é em-si? - é interessante atentar para a questão do limite em Kant, pois se trata de uma dos mais importantes elementos de sua epistemologia. 

   Também, a pergunta que caberia a Nietzsche poderia ser feita a Kant: não seria compreender Kant uma refutação do seu pensamento, assim como uma superação? Se compreender um fato como realidade em Nietzsche seria implodir o pensamento de Nietzsche, compreender Kant não seria implodir o pensamento de Kant? O que podemos apreender de Kant é a sua "obra-em-si", ou o "fenômeno-de-sua-obra"? Eis o resultado lógico que escoiceia o nosso pensamento quando pensamos tudo isso.  

   Se Kant e Nietzsche - que logicamente são opostos em algumas coisas entre si - fossem em suas conclusões considerados como quintessência da verdade - nos dados que foram por mim apresentados -, imagine como seria o meio em que vivemos? Certamente que um puro caos. Não haveria possibilidade de compreensão, e nem mesmo de discordância, pois tudo estaria sujeito a uma relatividade totalitária sem fim. Deslizaríamos uns sobre os pensamentos dos outros sem chegar à apreensão do cerne daquilo que o outro disse, pois cada verdade seria uma "verdade para si". Tal confusão demoníaca, é semelhante à aquilo que podemos ver na escritura bíblica sobre Babel, onde a capacidade de compreensão um do outro foi debilitada. Se essa fosse a  verdade de fato então o processo de conhecimento não nos levaria para a realidade, mas para o seu inverso: para a desagregação nossa da realidade e, em seguida, para o nosso cerramento absoluto na esfera subjetiva, provocando um entenebrecimento demencial, introduzindo-nos esquizofrenicamente em um mundo paralelo que pode ser concebido epenas por aquele e lá vive e acredita através de um processo de sugestão psicótica. Tal é, para qualquer dotada de sanidade, o resultado ultimo dessas teorias sobre a verdade (Nietzsche) e o conhecimento (Kant).    


***

      
   A segunda consideração paira sobre a possibilidade real de uma verdade objetiva que guie a realidade humana, assim como forneça um logos que, acima da cultura humana, a julgue, quer reprovando, quer confirmando; quer concedendo o seu sim, quer concedendo o seu não. 

   A ideia de uma realidade objetiva não foi negada em Kant, ainda que residindo na esfera da razão prática, pois julgava ele que uma fundamentação da moral era necessária pra que fosse possível uma orientação das decisões no âmbito da realidade. Por isso, a religião, ainda que não pudesse ser pensada, poderia ser vivida. 

   Kant com essa empreita busca interpretar os conteúdos de fé à luz da razão prática afim de chegar no fundamento moral último da religião (conteúdo este eterno), entendendo que o fim do homem é um fim moral. 

   Até aqui podemos andar com Kant, no entanto, podemos perguntar se tal conteúdo moral não é, também, uma realidade objetiva, ou mesmo passível de conhecimento. Com isso, como posso reconhecer algo como moralmente bom se, antes, não o conheço? E se a moral não é objeto de conhecimento, como podemos apreender o seu fundo como bom através do reconhecimento de que isso, de fato, é bom? Não estaria aqui a doutrina da alma no estilo grego sendo necessária no jogo? Como posso pensar algo sem o conhecer e sem apreender a sua essência (definição) e sem que a essência da coisa possa ser apreendida? Não entraríamos, novamente, se este último não fosse possível, no mar do caos?

   A coisa é de uma evidência clara, pois não se pode prescindir do conhecimento, ou melhor, da estrutura formal da possibilidade do conhecimento - que é, ela mesma, o objeto de estudo da metafísica - que, ainda que não existente no campo da experiência é, contudo, o único padrão possível para o julgamento das experiências. Coisas como o bem, o mal, o certo e o errado presentes no julgamento moral não podem prescindir de uma determinada forma que funde, independentemente de interesses, a validade real do juízo.

   Não parto, aqui, da premissa que vê nas culturas existentes o fim último da análise cultural, assim como do pensamento que compreende que a cultura humana geral é a única aferição da medida da moral, assim como a fonte única para a compreensão acerca dela mesma, o que certamente desembocaria na questão da "moral relativa", e que fundamentaria a ideia de que a moral é uma questão apenas regional, o que apagaria a ideia do objetivo último, supremo e uno da vida humana.

   A intelecção humana, como tal, se atém às formas de juízo, o que fundamenta uma gramática do pensamento humano, cujas produções variam de pessoa para pessoa, mas cujas formas são dependentes, em tudo, da dilapidação para a sua legitimação, o que é oferecido pelas possibilidades do pensamento (que são anteriores à esses), cuja existência é chamada de Verdade.

   Nesse sentido podemo dizer que o pensamento humano, por si só, não pode ser considerado a verdade última - a não ser que o primeiro participe do último. Também, nenhuma existência histórica cultural pode ser considerada, em si, a verdade propriamente dita, e nem o suprassumo da realidade última, contudo, nenhuma cultura poderia existir e nem mesmo ser coesa em si se não houvesse uma verdade objetiva, que - como disse - essa verdade condenando-a, quer legitimando-a.

   A possibilidade da própria compreensão se fundamenta na realidade objetiva, visto que a necessidade de uma base que possibilite a compreensão daquilo que falamos, sentimos, e do que escrevemos impera sobre todas as relações humanas.

   E para ilustrar o que digo aqui, basta que lembremos do registro na Escritura sobre a vinda do Espírito Santo no dia de Pentecostes, onde uma comunicação se deu através de indivíduos que não conheciam outra língua que não a sua, mas que - assim dizendo -, em uma espécie de "linguagem universal", cumpriram os requisitos das formas de comunicação e da compreensão, de maneira que aquilo que eles "falaram" pôde ser ouvido e compreendido.

   O milagre, neste sentido, não passa pelo processo de "racionalização", pois ainda assim não se pode justificar o fundo de tal milagre, pois não se consegue justificar a compreensão - neste caso - a não ser através da constatação da própria compreensão que, como um axioma matemático, deve estar na "conta" para se resolver a questão.

   Muitas outras linguagens universais poderiam entrar na digressão que aqui se faz, mas o que é importante compreender é que apenas um ponto absoluto conseguiria possibilitar a compreensão, a comunicação assim como o julgamento que se faz de todos os dados que nos chegam por meio das experiências.


***

   Sempre hão de haver ideias múltiplas sobre aquilo que dizemos sobre o campo do real, mas apenas uma fundamentação da própria realidade pode conferir objetividade devida objetividade a este campo, pois a unica coisa que ideias múltiplas sobre o real conseguem dizer é sobre a existência de ideias múltiplas, mas o julgamento das mesmas, certamente, é uma questão essencial para a nossa própria orientação pessoal e consciente de nossas vidas. 

   A mera "constatação" da inexistência de uma verdade objetiva é contraditória na própria expressão - como espero ter provado -, justamente porque a constatação da inexistência é, por sua vez, um dado que tenta se passar por absoluto e, por tanto, verdadeiro. 

   O mesmo ocorre com a ideia da irreconhecibilidade de uma realidade metafísica, pois a própria transformação do dado da irreconhecibilidade em uma constatação universal é, por sua vez, transformado em um dado real que faz de uma ideia verdadeira e, por tanto, justa e assim real ou possível. Por isso a Metafísica do Conhecimento de Imannuel Kant entra em jogo, não pela experiência, onde Kant julga ser o único campo possível do conhecimento, mas pela abstração pura, onde ele julga captar os parâmetros para o juízo acerca de um determinado fato que ele advoga como definitivo (e por isso com uma validade metafísica). Se Kant se refere ceticamente à experiência sensitiva do mundo, é necessário entender que o ser humano deve, por meio dos dados que lhe chega pela experiência, se orientar nele. Se apreender o que vejo como algo que "não vejo", então segue-se que a pura apreensão da obra de Kant é propriamente impossível, pois a sua linguagem ou comunicação é, também, impossível, tanto como os conceitos que ele busca validar em sua obra - como a-priori, a-posteriori, moral, imperativo categórico etc - os quais chegam a mim por intermédio da obra de de Kant. 


   A impossibilidade da inapreensibilidade de uma realidade objetiva é o ponto onde toda a possibilidade de compreensão humana e de comunicação se mantém de pé ou cai. Certamente que, ainda aqui, noções de bem ou de mal não podem sofrer essa análise ou essa justificação, justamente porque a única justificação da verdade é a própria verdade assim como a consciência sem testemunhos que temos da própria verdade. 

   A validação ou a reprovação de uma determinada moral também passa por esse crivo, pois somente a consciência individual pode conhecer a moral tal como ela é, assim como apreender os princípios que subjazem a uma determinada consciência e que fundam a ação humana individual e o seu desdobramento no mundo, trazendo consigo, a cima de tudo, a carga intransferível de responsabilidade pessoal que se presta perante o Absoluto, quer o indivíduo queira ou não. Neste sentido, todos necessitam de uma Verdade que não deixe a vida humana precipitar-se na destruição e num vazio de sentido.