terça-feira, 26 de setembro de 2017

O Amor Concreto

   Existem duas maneiras de animalizar o homem: ou agir com brutalidade sobre ele ou agir com sentimentalismo. Nem a violência extremada e tão pouco afagos piegas podem ser confundidos com amor, já que ambos são as condições na existência onde o sentimento humano se encontra em estado de ruptura com o fundamento eterno da vida, o que acaba por gera um conflito entre dois elementos do amor, que é a firmeza espiritual e a doçura natural do sentimento humano.
   O homem é um ser completo e por isso só pode ser compreendido em sua completude e não por partes isoladas. A realidade do amor no tempo nos fornece um exemplo da fratura ontológica do homem que a sofre por estar voltado contra o Ser (Deus em linguagem teológica). Nesse sentido, em nome do amor, as mais perversas confusões podem se manifestar em uma unilateralidade que enxerga o amor ou como "aceitando tudo o que é humano" ou como "excludente do homem por amor ao correto". Em épocas de trevas excludentes o Amor se manifesta como reconciliador; e em épocas de pieguismo sentimentalóide e pedante o Amor se manifesta como o divisor reclamando seus próprios direitos em meio à mentira que destrói o espírito. Tanto a "violência por amor" tal como o "pieguismo" são degenerações humanas cujo sentimento natural se encontra adoecido por causa da ruptura do homem com o seu fundamento eterno.
   Hoje em dia, sem dúvida, vivemos tanto uma espécie de degeneração quanto a outra. Mas em ambas as degenerações existe algo em comum: a ausência do intelecto. Por isso a razão fornece a estrutura inteligível do amor sem o qual tudo se degeneraria em uma irracionalidade que rebaixaria o status ontológico do homem ao nível de bichos. Tanto o pieguismo kitch quando a violência brutal estão em confronto com a razão humana e invariavelmente é na ausência do intelecto que a desestruturação do homem mais se manifesta. Podemos ver um homem que em nome de sua paixão joga tudo para o ar, abandonando filhos e esposa e em consequência destruindo a sua vida e a dos outros; também vemos o homem brutalizado destruindo tudo aquilo que lhe poderia encaminhar a uma vida plena, machucando os outros e a si mesmo por meio de uma reação desproporcional a uma injustiça sofrida, sendo essa falta de proporcionalidade em sua ação o que gera o desequilíbrio e o aprofundamento ao nível da crise de uma injustiça que ele visava vingar.
   Contudo nem o amor exclui o sentimento e nem mesmo a reação enérgica à injustiça sofrida. Na verdade ambas, quando integradas ao intelecto, se manifestam como a essência do amor na história. A realidade concreta do amor é tanto integradora quanto excludente, já que o amor não está nem a cima e nem a baixo da justiça. Um amor é justamente excludente quando nega a negação do amor. A condenação tem raízes plantadas no amor que não tolera a injustiça transformando-a em não-injustiça, pois se assim fosse tal amor seria um salvo conduto para a manifestação do caos que aniquilaria o homem, ou a livre ação do não-ser que aniquilaria o ser. Nesse sentido tanto o ódio ao homem como o amor degenerado e leniente por mais que pareçam distintos à percepção vulgar, produzem os mesmos efeitos devastadores sobre o homem - e na verdade não pode haver a livre circulação da injustiça sem a presença da tolerância degenerada que "deixa correr". Que a "tolerância" dê espaço à ação desenfreada da injustiça é algo que não é historicamente desconhecido.
   Por tanto o amor é condenatório e excludente, mas o amor salvífico, não negando a ira e a condenação, mas pressupondo-a, é aquilo que se manifesta por meio do sacrifício criando uma segunda chance. A sabedoria Bíblica afirma que não pode haver perdão sem a verdade e a misericórdia. A verdade é aquilo coloca o transgressor de frente para o seu erro e de frente para a verdade que o confronta eternamente; a misericórdia é o desejo que afirma a vontade por parte do agravado de que o transgressor continue a viver. Se olharmos para a estrutura clássica do entendimento cristão sobre a redenção sabemos que nenhum erro fica sem custo. No casso da teoria da redenção mais importante, que é a de Santo Anselmo, vemos que a redenção necessita da vingança para produzir seus efeitos sobre o pecador. Cristo é aquele que sofre a ira divina que deveria cair sobre todos os homens, abrindo espaço para o perdão humano quando esse assume o seu erro diante de Deus. Nesse caso nem a misericórdia de Cristo exclui a justiça e nem a justiça de Deus exclui a misericórdia, pois ambas são assumidas de forma inteligível no sacrifício produzindo assim a satisfação que é apropriada pelo homem mediante o arrependimento penitencial.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Pecado, Alienação e Redenção

   A redenção só tem significado diante da lei, afinal: de quê somos salvos? A primeira resposta é: de nós mesmos e das consequências das nossas ações que nos levam ao abismo.
   A lei de Deus é a tradução da consequência inevitável do nosso desejo de autonomia, do desejo de sermos deuses para nós mesmos e a consequente alienação da qual padecemos por estarmos separados de Deus, que é o fundamento eterno da nossa vida.
   Se nos decidimos nos voltar contra Deus, a morte é o que nos espera, pois sem ele a nossa vida é insustentável. Cristo é quem vence, por meio da Cruz e da Ressurreição, essa alienação ou essa separação abismal que o nosso pecado provoca entre nós e Deus.
   Experimentar a redenção é experimentar a reconciliação amorosa por meio da qual vencemos a ameaça da morte para vivermos a fé na promessa de uma amizade invencível com Deus.

Tolerância Destrutiva

   A "tolerância" sem regras que disciplinem a conduta e a relação entre pessoas pode levar a um conflito assimétrico que tende a aniquilar justamente os moralmente comprometidos. Guerra assimétrica é isso: promover a tolerância ilimitada entre lobos e cordeiros, deixando lobos serem completamente lobos e cordeiros completamente cordeiros.
   É óbvio que a "não intervenção" que deixe livre a relação entre a "lobidade" do lobo e a "cordeiridade" do cordeiro acabará matando o coedeiro. Ah sim, mas é preconceito e intolerância falar que a "lobidade" do lobo é perigosa para a "cordeiridade" do cordeiro. Bom é sermos tolerantes e respeitarmos "diverside" e deixarmos liberalmente correr pois sabemos que a "harmonia pré-estabelecida" dará conta de tudo.
   Esse é tipo de principiologia assassina que confunde amor com liberdade e tolerância ilimitados, e que é levada dianda em nome das "boas intenções", dos "bons sentimentos" e - Santo Deus! - do cristianismo. Mas como dizia o velho Marx: "o caminho para o inferno é pavimentado por boas intenções".

O Paradoxo da Tolerância e o Evangelho

   Um amor real nunca "aceita tudo". A confusão entre amor e tolerância se dá justamente por causa da incompreensão do paradoxo da tolerância, onde a elevação desta ao nível do princípio acaba por dar espaço ao seu contrário.
   Mas vamos entender: será que a tolerância é boa quando, em nome da diversidade, colocamos em um mesma cercado lobos e cordeiros? O mesmo se dá com a liberdade ilimitada: a liberdade igual entre lobos e cordeiros é sentença de morte aos cordeiros.
   O amor é o equilíbrio justo e hierárquico das diferenças e não a tolerância elevada ao nível do princípio. A tolerância só é possível com uma estabilidade consensual sustentada por regras: a diferença é um aspecto permanente da humanidade, mas ela deve ser equilibrada por um justo meio onde as pessoas aceitem determinadas leis que subjugam a todos por meio de um contrato social.
   Esse tem sido o consenso político do ocidente, cuja base cultural é tanto cristã como iluminista e cuja junção se deve mais a um arranjo pragmático do que a um motivo principiológico. Mas a tolerância cristã só se ajusta a isso porque fundada no amor do Evangelho que apregoa a paciência de Deus que leva o homem ao arrependimento e à salvação, e não por causa de um nivelamento acrítico de todas as diferenças que é uma caricatura diabólica do amor para quem "tudo é bom ao seu modo".

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Assassinatos de LGBT: Mais Matemática, Por Favor

O assunto está ficando chato demais. Mas existem erros de metodologia que simplesmente me deixa assustado... Ligar protesto contra a exposição do Santander com assassinato de travesti é simplesmente desonesto. É aquela perguntinha incendiária que amplia a nossa visão: Será que todo assassinato de travesti é homofobia? Conheço não poucos assassinatos de homossexuais que fazem programa, por exemplo, que foram causado por pessoas que faziam programas com eles.
Alguns dizem que a população LGBT é de 11 milhões de pessoas, ou algo próximo de 5% da população. Dizem que algo em torno de 347 LGBT's morreram assassinados por motivo de homofobia em 2016, certo? Morrem, aproximadamente, 55 mil brasileiros por ano por assassinato. Vamos lá: se 5% da população corresponde a 343 assassinatos, e se multiplicarmos esse número por vinte - que dá a proporcionalidade de 95% de brasileiros héteros -, então teremos 6.940 assassinatos proporcionais aos 95%. Isso significa que sobram aí 43.060 assassinatos proporcionais para que o grupo LGBT alcance o tanto de assassinato de héteros.
Isso quer dizer que existe uma epidemia de heterofobia, se morrem proporcionalmente mais de héteros no Brasil? Não, pois no Brasil morre muito todo mundo. O Brasil é um dos países que mais mata, e nenhuma classe sai ilesa. O que contesto é essa narrativa incriminatória que, no fundo, visa cercear a opinião, meter medo e, no fundo, anseia poder político por meio de uma calúnia que se quer verdade porque aqueles que se servem dela sabendo que podem ganhar com isso. O vitimismo é algo altamente lucrativo no mundo contemporâneo.
Por tanto, mais honestidade e matemática, por favor.

Mais Sobre Arte: A Crítica da Faculdade de Julgar

   Para palpitar sobre arte, leia esse livro em especial - se você aguentar e se não for um teologuinho incapaz.
   Aqui está a tese maravilhosa de Kant - esquecida de todos os pós-modernos por causa daquele estranho gosto que os fazem ter o coração devotado ao lixo -, que é: "A Beleza é o Símbolo da Moralidade". Não será possível entender o porquê de Hegel ter afirmado que a destinação da arte é semelhante a da religião e da moral sem esse livro. Também sem esse livro é impossível compreender algumas proposições de Schelling.
   Mais do que qualquer outra obra o romantismo alemão se fundou aqui... E sinceramente eu me pergunto a razão pela qual a modernidade aceitou o urinol de Duchamp, inaugurando a militância destrutiva na Europa contra toda a tradição estética do ocidente, tendo esse livro de pouco mais de cem anos nas suas costas.
   Mas é isso aí. Se você não quer ser demolido quando fala de arte, leia essa obra de Kant - que, repito, não é acessível ao incapaz.

O Dom do Conhecimento



   Hoje eu fico com cada vez mais espanto quando busco compreender de onde as pessoas tiram a ideia do bem e mal, do certo e do errado.
   Se eu fosse um relativista ou um historicista radical diria que essa compreensão está relacionada com o modo de compreender o mundo de cada época e de cada povo, e que cada qual está certo ao seu modo. Mas como eu posso saber que "cada um está certo ao seu modo" se esse relativismo esvazia a própria ideia de bem e mal, e que, por isso, nunca atingimos com a nossa mente o que sejam essas coisas de fato? 
   Por mais que gente sabida ache superstição a ideia de iluminação eu não consigo não constatar realmente que quem nos esclarece o certo e o errado é a presença divina sem a qual não seria possível um bem no mundo, já que o bem, necessariamente, deve ser sempre o mesmo, eternamente igual a si e perdurar assim por todo o sempre. 
   Sendo o mal o que é, qual não seria a ignorância de quem nunca soubesse o que essa coisa é, sendo impossível o discernimento sobre o certo e o errado? Que vida degenerada não viria daí? Já afirma o cristianismo que o mal é o afundamento radical na contingência, pois privados da referência da luz do ser a mente humana é enterrada nas trevas do não-ser, onde não há definição mas apenas trevas, degeneração e ignorância.

Antes de Palpitar Sobre Arte


   Antes de palpitar sobre arte ou expressão, leiam esses livros, por favor:

 
Benedetto Croce: Estética como ciência da expressão e linguística em geral.

F. W. J. von Schelling: Filosofia da Arte (Obra Genial).

Roger Scruton: O Rosto de Deus (esse livro tem um itinerário semelhante ao de Hegel: passa da realidade espiritual e abstrata para a concretização do espírito no mundo). 

Roger Scruton: Coração Devotado à Morte - O Sexo e o Sagrado em Tristão e Isolda, de Wagner (veja aqui qual é o lugar do sexo na arte, pois ele está ligado à redenção, e não à profanação).

Fichte: Sobre o Espírito e a Letra na Filosofia (é aqui que começa a investigação filosófica da arte ligada ao romantismo alemão).

Ângelo Monteiro: Arte ou Desastre (Crítica deliciosa à arte moderna. Livro de formação para barsileiros).

Theodore Darlrymple: Nossa Cultura... Ou o que restou dela (Os primeiros 12 ensaios falam exclusivamente sobre arte e na segunda parte existem insights sobre arquitetura, como em "Como Ler uma Sociedade". O 12° ensaio fala sobre o niilismo estético).

Santo Agostinho: Cidade de Deus (Nos primeiros capítulos Agostinho apresenta uma hipótese para a decadência romana: os teatros. A argúcia do pensamento de Agostinho é de espantar).

G. W. F. Hegel: Curso de Estética (A visão de arte de Hegel apresentada através do seu método dialético e da sua filosofia da consciência é edificante e maravilhosa).

Platão: República (Aqui está a crítica fundamental da arte que se tornou modelo para a filosofia).

S. A. Kierkegaard: O Desespero Humano (como uma categoria da consciência isolada do seu fundamento pode levar o homem, através da atividade frenética da imaginacão, ao desespero do infinito e sem formas? Com uma visão cristã Kiekergaard aponta aqui a doença das doenças da modernidade: a ausência das limiações ou, em linguagem filosófica, de um limite ontológico, algo que desemboca no niilismo estético).

C. S. Lewis: A Abolição do Homem (Como o subjetivismo pode destruir a sua Humanidade e até a sua nação? Não tratando diretamente da arte, Lewis toca, não obstante, em um ponto fundamental da compreensão da arte: o fundamento objetivo da experiência humana).

Nortorp Frye: Imaginação Educada (Qual o alcance da literatura bíblica e grega na formação da literatura, do padrão linguístico e mental do Ocidente?). 

Imannuel Kant: Observações Sobre o Sentimento do Belo e do Sublime (Sendo um livro de antropoligia filosófica, Kant parte dessas duas categorias estéticas para explicar até a diferenciação entre os sexos. Você já ouviu falar do "Belo Sexo" se referindo ao gênero feminino e o "Sexo Sublime" se referindo ao gênero masculino?).

Edmund Burke: Investigações Filosófica Sobre a Origem das Nossas Ideias do Sublime e da Beleza (Investigação profunda sobre os fundamentos do gosto).

Roger Scruton: Beleza (Uma obra brilhante para compreendermos a destinação da arte e do porquê da degradação do gosto ser também a degradação homem e do mundo). 

René Girard: A Conversão da Arte (Como a arte pode revelar a verdade fundamental da inveja como um dado estrutural da cultura humana e a consequente escalada aos extremos apocalípticos da violência que invariavelmente são canalizados a um bode expiatório? Girard sustenta a tese de que toda a literatura é essencialmente a recontagem da narrativa da paixão de Cristo, o seu modelo fundamental, ou é uma farsa que oculta o homem do próprio homem) 

Werner Jaeger: Paideia - A Formação do Homem Grego (Qual era a ideia de formação grega? Contando a história do ideal pam-educacional da civilizacão grega, que ia da ideia de educação à política, família, religião, filosofia, artes em seu mais amplo alcance e mesmo à estética corporal, Jaeger explica a dimensão, profundidade e alcance da cultura grega).

   Não vá na ideia de ideologuinho ou teologuinho. Leiam isso e aprendam o que é arte.

A Arte como o Último Covil


   A escultura, arquitetura, poesia e demais áreas da arte jamais são neutras. Todas são expressões simbólicas de realidades que militam em nosso espírito ou são coisas para as quais damos o nosso assentimento e que se estabelecem em uma relação dialética com o eu daquele que as contempla. Nunca a arte não diz nada, pois impõe por si mesma uma informação à realidade pelo próprio fato de existir.
   Todas as expressões da arte passam informação e podem, como já disseram Platão, Santo Agostinho e Hegel, elevar o homem, sendo veículo das mais altas realidades do espírito, ou podem fazer degenerar o coração humano e enterra-lo em pensamentos vis ou incitá-lo à violência e ao dilaceramento. Sem essa crítica não haveria nem mesmo aquele violento movimento iconoclasta do protestantismo cristão, o qual enxergava em qualquer arte uma degeneração do espírito. Mas não precisamos ir tão longe.
   O que vimos no espaço cultural do Santander não foi algo neutro. Em sua apresentação o curador disse quais eram as intenções do evento: quebrar o significado patriarcal de museu, quebrar a imposição normativa da moral sexual vigente, abolir os parâmetros normativos do cânone artístico e se presentar como campo de batalha. Mas vale lembrar o que aformou Dalrymple quando sabemos da manipulação da imagem infantil: o que é quebrado no nível simbólico também será quebrado na realidade.
   Antigamente se poderia dizer em épocas de vigência máxima do jingoísmo que o nacionalismo era o último refúgio do canalha. Hoje, sem medo de errar, podemos dizer que na vigência geral de uma existência estética de corte sartreano não comprometida, onde ninguém quer dizer aquilo que realmente diz ao dizer, que a arte tornou-se o último covil dos criminosos.

Hegel e a Finalidade da Arte


   Já se foi o tempo de G. W. F. Hegel em que, considerando o destino, a finalidade e a essência da arte, era possível definir assim a essência da arte: 
   "O seu mais alto destino, tem-no a arte em comum com a religião e com a filosofia. Como estas, também ela é uma expressão do divino, das necessidades e exigências mais elevadas do espírito."
   "Despertar da alma: este é, dizem-nos, o fim último da arte, o efeito que ela pretende provocar. Quando sob este apecto consideramos o fim último da arte [...] logo verificamos que o conteúdo a arte compreende todo o conteúdo da alma e do espírito, que o fim dela consiste em revelar à alma tudo o que a alma contém de essencial, de grande, de sublime, respeitoso".
   "A arte teria por fim , sobre tudo, l'aduciment de la barbarie [suavização do bárbaro], e é certo que, para um povo que mal entrou na vida civilizada, esta suavização dos costumes constitui, com efeito, o fim principal que a arte se destina. Acima deste fim, situa-se a moralização, que durante muito tempo se considerou como o mais elevado."
   Contudo, nem tudo são luzes, pois o filósofo alemão também afirma:
   "[A arte] Tem o poder de nos experimentar em todas as infelicidades e misérias, de nos tornar presentes o mal e o crime. Graças a ela temos o poder de sermos testemunhas pávidas de todos os horrores, experimentar todos os pânicos, podemos ser revolvidos pelas emoções mais violentas. Pode a arte erguer-nos à altura de tudo o que é nobre, sublime e verdadeiro, arrebatar-nos até a inspiração e ao entusiasmo, como pode mergulhar-nos na mais profunda sensualidade, nas paixões mais vis, abafar-nos em uma atmosfera de volúpias, e bandonar-nos desamparados, esmagados pelo fogo de uma imaginação desenfreada."
   Nesse caso temos o niilismo estético, a quebra absoluta de valores levada a cabo em nome de uma pretença liberdade por meio da qual se deseja expressar a animalidade mais vil do homem como um valor entre outros. O igualitarismo vigente que incita ao nivelamento por baixo de tudo o que é humano, associado a uma liberdade ilimitada só pode resultar na degeneração tal como vimos no espaço cultural do Santander, a anti-arte concreta.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Igreja Reformada, a Lei e a Liberdade


  Na Reforma - principalmente nos setores da Igreja Reformada - o que predominou foi o entendimento de que lei e liberdade possuem uma relação indissolúvel. E isso significa que não era apenas a fé que importava, ou a Graça, mas a moral também era fundamental - até para compreendemos o que é a Graça. 

  Esse equilíbrio entre Graça e Lei é a razão da ordenação de muitas sociedades protestantes e aquilo que impediu de estas sociedades sucumbirem às ações de revolucionários fanáticos e dos totalitários. A Bíblia não apenas anuncia a Graça, também nos confere mandamentos, pois segundo ela, Deus, quando se revela, não é apenas salvador, mas também é legislador. Qualquer um que não está sob a lei de Deus não pode estar sob a sua graça. 

   Se por um lado temos os legalistas que ligam mais para a moral do que para a graça - sufocando a vida do homem - e por outros temos os fanáticos revolucionários que desejam destruir todo o tipo de ordem em nome de uma liberdade absoluta, a Bíblia nos ensina que sob Deus o homem, na sua presença, vive na junção da lei e da liberdade, o que evita com que sejamos legalistas ou liberticidas, mas um tipo de homem cuja personalidade se encontra centrada em Deus.

A Revelação, a Razão e a Edificação




   
O fanatismo religioso é uma das formas com que a destruição do homem e da sua razão se manifesta. A revelação cristã não vem para aniquilar o indivíduo, para destruí-lo, enlouquecê-lo, ou para torná-lo um alienado, fazendo com que esse siga de forma abobada, ou como um indivíduo lobotomizado, qualquer fanático que saiba dizer "amém" ou "Deus falou comigo". Ao contrário disso a revelação vem justamente para edificar o homem afim de que ele possa atingir a grandeza para a qual foi criado e para que ele utilize, para glória de Deus, o máximo da potencialidade da sua razão em toda as possibilidades de manifestação dessa - seja isso no campo da ética, no campo estético, científico ou religioso -, pois "A revelação não destrói a razão: é a razão que suscita a pergunta pela revelação". (Paul Tillich)

quinta-feira, 27 de julho de 2017

O Supremo Bem



   Existe uma visão errada das coisas que está calcada na falta de compreensão sobre a verdadeira finalidade das nossas ações. O fim último das nossas ações é o bem e é esse bem que devemos perseguir se quisermos - obviedade das obviedades - alcançar algo bom em nossas vidas. Essa visão errada, na verdade, trata-se de um vício que persegue a grande maioria das pessoas e que se constitui na busca pela realização de virtudes ou produção de bens secundários: um é sincero, e acha que a sua sinceridade é um bem em si mesmo; outro já pensa que o bom é ser corajoso; outro é o ter saúde; outro uma boa posição social; outro já pensa que é buscar ser informado; outro visa o escrever bem; o outro o poder de convencer.
   A questão é que não sustentadas pelo bem todas as virtudes a cima listadas tendem a degenerar: o sincero pode vir a ser um inconveniente que não segura a sua língua em nome do decoro; o corajoso pode vir a ser um temerário que coloca a sua vida e a vida dos outros em risco por pura vaidade; a saúde do saudável pode fornecer amplo poder para a produção da sua maldade, algo que uma saúde fraca limitaria; a boa posição social pode fazer com que se use a influência para destruir maliciosamente adversários; o que é bem informado pode manipular informações apenas em benefício próprio; o que escreve bem pode fazer pessoas migrarem para uma segunda realidade e por em marcha delírios destrutivos; e aquele dotado de poder de convencimento pode usar de forma maligna esse poder para promover causas malignas.
   Já Platão, na República, e Kant, na Fundamentação da Metafísica dos Costumes, afirmam que o bem é a ideia reguladora e que pode ser expandida ilimitadamente sem se contradizer a si mesma, e que quando todas as coisas perdem de vista esta finalidade, tudo vem a ser corrompido. O fino ajuste das coisas requer para a sua própria manutenção uma constante revisão e revisitação do olhar avaliador e imperecível do bem. Se Platão vivesse em nossos dias, enxergaria horrorizado a expansão da técnica acompanhada de um declínio religioso e moral nas áreas em que justamente essa técnica cresce. No diálogo platônico chamado Protágoras há um mito em que Zeus, após a criação do homem, vê desesperado o fato de que Prometeu concedeu a esses a posse do fogo de Hefésto e as habilidades práticas de Atenas (as virtudes técnicas e científicas), mas sem o poder moderador das virtudes cívicas, fraternais e religiosas. Prevendo a extinção do homem ele encarrega Hermes de distribuir tais virtudes para que os homens não se matassem uns aos outros. Essa intuição é de primeira ordem e abre caminho para percebermos a necessidade de uma concepção atemporal de bem, ou, como diria Russel Kirk, de uma “ordem moral duradoura” que promova um bem duradouro e infinito ao homem.
   E por fim, tal ideia do bem se harmoniza claramente com o conceito cristão de amor, que se estende para além da simples noção de afeto. Em I Co 13, o hino clássico acerca do amor cristão, temos a incrível afirmação de que nem a distribuição total dos nossos bens aos pobres e nem mesmo o entregar o meu corpo para ser queimado e nem o conhecimento total nada valem se não houver amor. Entramos, por tanto, no terreno que ultrapassa a noção vulgar que confunde amor com egoísmo e com desejo de satisfação para si. O primeiro mandamento (Êx 20:2), que ordena a colocarmos Deus acima de tudo, nos faz perceber também que sendo Deus o bem supremo sem o qual nada do que existe poderia vir a ser, então, ou tudo é orientado n’Ele ou nada pode vir a ser bom para os homens. É por isso que não há diferença substantiva entre amar a Deus, amar o próximo e amar a si mesmo, como nos ensinou Jesus (Mt 22:37-40).