segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Mudança de Discurso?

    O gyordanismo, se podemos chamar assim o fenômeno teológico recente, agora cobra os resultados de uma profecia auto-realizável, ao dizer que negamos na substituição penal a questão da "pena exata" em seu sentido fenomênico meramente exterior, e que isso se dá em razão de uma instabilidade constitutiva da teologia da substituição penal que faz seus proponentes fatalmente "retornarem a Anselmo".

    Agora duas coisas importantes a serem pontuadas sobre a acusação:

    1) Antes de mais nada a profecia auto-realizável é aquela acusação que você faz, com espanto e perplexidade, de que uma coisa será aquilo que ela é. É como se alguém dissesse: "aposto que se plantar bananeira, você ficará com as duas mãos no chão". Em quê essa ilustração se encaixa na questão aqui discutida é como segue:

    O rev. Gyordano diz que a teologia da substituição penal não pode ser "substitutiva" em sentido estrito porque "nem todos" (como se os "nem todos" constituíssem casos raríssimos) os proponentes dessa teologia afirmam que duas penas aos perdidos se encontraram em Cristo: a separação eterna do Pai e a morte espiritual (as duas são uma só, no fim). Nesse sentido não há "sofrimento no lugar", "substituição" etc. A questão é que ele tem uma noção de substituição que já funciona como uma carta marcada no discurso, e com notas que jamais foram defendidas pelos proponentes da teologia da substituição penal. Então se alguém se defende dizendo que não é assim, logo vem a cartada: "então não é substituição". Truco!!! Ele parece decidir o que é e o que não é a substituição penal.

    Prestem bem atenção na questão fulcral que determina todo o entendimento sobre a substituição penal a partir das seguintes notas: 1) Cristo é homem impecável; 2) Logo seu ser não é fracionado, como é o ser dos condenados; 3) Cristo recebe todo o peso dos pecados da humanidade em si, em seu ser imaculado, e nisso ele recebe a ira divina como se os pecados dos homens fossem confessados sobre ele, satisfazendo e fazendo a reparação diante da justiça de Deus; 4) A pena devida é qualitativa no sentido da intensidade do esmagamento com o qual ele foi esmagado na Cruz; 5) Jesus recebe não todas as espécies de penas (já que elas são contraditórias entre si - e isso foi um argumento conhecido na idade média), mas algo proporcional que axiologicamente (valorativamente) está radicado na exigência da justiça. Aqui não é impossível entender que Jesus suportou toda a maldição da lei quando, na morte cruenta na cruz, se fez realmente maldição; 6) Há substituição evidentemente porque os pecados não são meros atos exteriores - nem no direito se julga um crime como mero ato exterior fora do seu significado próprio recebido do contexto do crime (nem todo assassinato é igual segundo a sua constituição valorativa, embora os atos exteriores dos assassinatos às vezes sejam idênticos) -, mas infrações das quais a justiça divina demanda reparações segundo a ordem estabelecida, e aqui não estou me detendo no fato de que Jesus cumpriu ativamente (e não apenas passivamente na cruz) a lei no nosso lugar, o que é constitutivo da doutrina da expiação e justificação; 7) Jesus não pode sofrer a pena como o demônio e o condenado, pois se o condenado ou o demônio sofressem a pena na mesma intensidade, eles sofreriam destruição eterna - a qualidade do ser impecável de Jesus demarca toda essa questão.

    2) Por várias razões aqueles que defendem a teologia da substituição penal (como ela é, e como foi concebida) jamais retornaram a Anselmo. Eis aqui algumas delas: 1) Anselmo não entende que na satisfação Deus é o agente da pena, como afirma a teologia reformada com base na Escritura (Is 53:5,10); 2) Em certo sentido Anselmo liga a cristologia à teologia da expiação na questão do sofrimento de valor infinito que só o Deus encarnado pode ter, mas não se segue daí que isso se dá da mesma forma que a teologia reformada concebe a questão, principalmente na especificação da aplicação dos benefícios angariados pela morte de Cristo na cruz; 3) Anselmo não explica a necessidade de uma união mística na aplicação dos benefícios da redenção - e Tomás de Aquino até crítica Anselmo porque sua teologia não explica qual a relação orgânica entre a Cabeça e o Corpo nessa staurologia (o rev. Gyordano erra o alvo quando direciona essa crítica à teologia da substituição penal e não à teologia de Anselmo); 4) A obra intercessória de Cristo é o meio da aplicação dos benefícios angariados pela sua obra expiatória, e isso não existe na teologia da satisfação de Anselmo, parecendo mais uma transmissão de méritos para aqueles que são salvos que não é explicada. A teologia reformada entende que a intercessão de Cristo pelo Corpo é uma continuidade do ofício sacerdotal de Cristo, embora tal obra não seja de caráter satisfatório; 5) Anselmo não considera a obediência ativa de Cristo como parte especial da teologia da expiação, pois para Anselmo se Cristo cumpriu a lei, cumpriu apenas em benefício de si mesmo - já que isso era algo devido a Deus em função da sua condição humana. A obra superrogatória na qual Cristo nos conquista a salvação é algo realizado exclusivamente na Cruz, o que contrasta radicalmente com a teologia reformada, já que esta considera a obediência ativa de Cristo como parte constituinte da obra da redenção, e nisso Cristo também cumpre a lei vicariamente (no nosso lugar).

    Notem que nesses cinco pontos a possibilidade de um "retorno a Anselmo" é algo impossível para aqueles que fazem a horrível manobra de conduzir teologia da substituição penal de volta para aquilo que ela incrivelmente sempre foi.

    Mas aqui a baixo vai um texto longo de Herman Bavink para ilustrar a questão da "pena qualitativa" - embora em alguns pontos o endosso não seja per se absoluto para uma afirmação exata da teologia da substituição penal - que tanto confunde a cabeça de algumas pessoas acostumadas - até inconscientemente - à noção anselmiana de que a expiação de Cristo está fundamentada em uma noção meritória quantitativa. Segue o texto:

    "Segundo, o caráter substitutivo da obediência de Cristo automaticamente envolve também equivalência, porque corresponde completamente à exigência da lei. Essa equivalência, porém, foi entendida de forma diferente pela Reforma e por Roma. Duns Scotus cria que um ser humano santo ou um anjo também teria feito satisfação por nossos pecados se Deus tivesse aprovado essa substituição, pois “toda oferta criada tem tanto valor quanto Deus quer que tenha, e não mais”. Semelhantemente, os remonstrantes posteriormente ensinaram que não a justiça de Deus, mas somente a integridade (aequitas) exigiu uma satisfação e que “o mérito que Cristo pagou foi pago de acordo com a estimativa de Deus Pai”.

    Francamente em oposição a essa interpretação, Aquino disse que a paixão de Cristo foi não somente uma satisfação suficiente, mas “uma satisfação superabundante pelos pecados da raça humana”. Foi então levada em consideração a questão de se uma gota do sangue de Cristo não teria sido suficiente para fazer a expiação. Toda essa forma de observar a questão, tanto em Aquino quanto em Duns Scotus, está baseada em uma estimativa quantitativa externa do sofrimento de Cristo.

    Em princípio, a Reforma rompeu com esse sistema de avaliação. Isso fica evidente pelo fato de que ela rejeitou tanto a “aceitação” de Scotus quanto a “superabundância” de Aquino; que, além da obediência passiva, ela também incluiu a obediência ativa na obra de Cristo; que, embora considerasse o sacrifício de Cristo equivalente, ela não o considerou idêntico àquilo que seríamos obrigados a sofrer e a fazer; que ela o considerou completamente suficiente, de forma que nenhum acréscimo, por meio de nossa fé e de nossas boas obras, era necessário, seja segundo os católicos ou segundo os remonstrantes. Os reformados diziam que a obra de Cristo por si mesma era completamente suficiente para a expiação dos pecados do mundo todo, de forma que, se ele quisesse salvar um número menor, ela não poderia ser menor e, se quisesse salvar um número maior, não teria de ser aumentada.

    Os pecados, de fato, não são débitos financeiros e a satisfação não é um problema de aritmética. A transferência de nossos pecados para Cristo não foi um processo tão mecânico que os pecados de todos os eleitos tiveram de ser cuidadosamente contados e depois colocados sobre Cristo e expiados separadamente por ele. Cristo tampouco passou por todas as fases da vida humana e fez expiação separada pelos pecados de cada fase ou idade, como Irineu e outros afirmaram. Ele também não sofreu precisamente as mesmas coisas (idem) que nós, pois consciência de culpa e assim por diante não podia ocorrer nele e ele também não conheceu a morte espiritual como inclinação para o mal e não sofreu a morte eterna em forma e duração, mas apenas intensa e quantitativamente como abandono de Deus.

    Há também alguma verdade na “aceitação”, pois a estrita justiça de Deus exigia que todo ser humano devia fazer pessoalmente satisfação por si mesmo e foi sua graça que deu Cristo como o mediador de uma aliança e imputou sua justiça aos membros dessa aliança. Uma estimativa quantitativa, portanto, não se encaixa no caso da satisfação vicária. Na doutrina da satisfação, estamos tratando de fatores diferentes daqueles que podem ser medidos e pesados. O pecado é um princípio que controla e corrompe toda a criação, um poder e um reino que se expande e se organiza em numerosos pecados reais. A ira de Deus é uma fúria dirigida contra o pecado de toda a raça humana. Sua justiça é a perfeição pela qual não pode tolerar ser negado ou desonrado como Deus por suas criaturas. A satisfação vicária, portanto, significa que, como fiador e cabeça, Cristo entrou na relação com Deus - sua ira, sua justiça, sua lei - na qual a raça humana estava. Para essa humanidade, que foi dada a ele para reconciliação, ele foi feito pecado, tomou-se uma maldição e tomou sobre si sua culpa e punição. Quando os socinianos dizem que, de qualquer forma, Cristo podia fazer satisfação somente por uma pessoa, não por muitas, porque só suportou a punição do pecado uma vez, esse raciocínio é baseado na mesma estimativa quantitativa que a “aceitação” de Duns Scotus e a “superabundância” de Aquino, pois embora o pecado que entrou no mundo por meio de Adão se manifeste em uma série incalculável de pensamentos, palavras e atos pecaminosos, e embora a ira de Deus seja sentida individualmente por todo membro culpado da raça humana, foi uma lei indivisível que foi violada, a ira indivisível de Deus que foi acendida contra o pecado de toda a raça humana, a justiça indivisível de Deus que foi ofendida pelo pecado, o Deus eterno e imutável que foi afrontado pelo pecado."1

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1] BAVINK, Herman - Dogmática Reformada. vol. 3, ed. Cultura Cristã p. 406,407

Algumas Distinções entre a Teoria da Satisfação de Anselmo de Cantuária e a Teologia da Expiação Penal Substitutiva

    As distinções entre a Teologia de Anselmo de Cantuária e a Teologia dos reformadores no campo da expiação são as seguintes:

    1) A Teologia da Satisfação não entende que Jesus sofreu uma "pena devida" que trouxesse satisfação aos requisitos da Lei; Anselmo fala sobre a honra ofendida de Deus, e sobre a satisfação devida prestada pela morte de Cristo na cruz, morte essa que possuí valor infinito. Nisso ele estava embasado em uma linguagem que remontava ao direito privado germânico. A distância entre uma coisa e outra é imensa, se pararmos para pensar bem.

    2) A Teologia da Satisfação não tem espaço algum para a consideração da obediência ativa de Cristo. A Teologia Reformada e Luterana consideram em uníssono que a expiação advém também da obediência ativa de Cristo, que embora seja analiticamente distinguida da obediência passiva (morte na Cruz), não é ontologicamente separável, pois ambas as obediências são predicadas da história da pessoa una de Cristo, estando separadas apenas por questões teóricas.

    3) Na Teoria da Satisfação anselmiana não há a explicação do papel da ressurreição, já que o ato da redenção é explicado exclusivamente como a realização da cruz; contudo a ressurreição está em continuidade com a obra da expiação, já que a ressurreição é a confirmação gloriosa da validade do ato expiatório do Cristo imaculado, assim como é a possibilidade da continuidade da própria obra expiatório na obra da intercessão - Já que Jesus foi ressuscitado para a nossa justificação.

    4) A Teoria da Satisfação de Anselmo indica que os méritos superabundantes de Cristo são transferidos ao pecador em perdão de pecados e na abertura para a realidade da vida eterna. Trata-se da aplicação da obra superrogatória de Cristo. Mas não se explica o como dessa aplicação. Na teologia dos reformadores (reformada e também luterana, guardada as suas distinções) a explicação se dá na exposição do ofício sacerdotal de Cristo que continua com a obra intercessória de Cristo. Os benefícios da justificação, do perdão dos pecados, da renovação e da perseverança são aplicados pela oração de Cristo pelo bem do seu corpo, e é justamente para ser o cabeça da Igreja que ele ressuscita assim como continua a interceder por nós - algo que Cristo, como morto, não faria, pois não poderia ser o cabeça físico do seu Corpo.

Será que Estou Mentindo?

    "Afirmar Nicéia e Calcedônia é negar a possibilidade de separação real entre o Pai e o Filho. É verdade que nem todos os que aderem à teoria da SP chegam a afirmar essa separação, mas atenção: o rompimento de comunhão entre Deus e o homem (afastamento, alienação) é a consequência mais importante do pecado, e todas as demais são decorrentes, sintomas dela, às vezes metáforas dela. Se Cristo não sofreu essa consequência, ele não sofreu, como substitutivo, as consequências do pecado". (MONTENEGRO, Gyordano. Punido pelo Pai? / editado por Jadson Targino. 1 ed. João Pessoa: Publicações Digitais Independentes. 2020, Jesus Sofreu a Ira de Deus? [Parte 6]).

    Não quero me estender sobre esse assunto, mas tenho que me declarar. Quando afirmei que o rev. disse que a substituição penal implica em morte espiritual - a separação do Pai e do Filho na cruz -, estava me referindo a afirmações como essas. A aplicação da lógica àquilo que vai escrito acima é simples. Basta retirar os "nãos" da seguinte frase: "Se Cristo 'não' sofreu essa consequência, ele 'não' sofreu, como substitutivo, as consequências do pecado", que ficaria assim: "Se Cristo sofreu essa consequência [da separação entre o Pai e o Filho - o que infringe Calcedônia e Nicéia], ele sofreu, como substitutivo, as consequências do pecado". Note que no texto ele está se referindo à substituição penal, e em específico ao artigo sobre a substituição, ao qual damos a nossa anuência e que ele diz necessariamente desembocar em separação entre o Pai e o Filho. Isso não é invenção da minha cabeça, é o que está escrito a cima.

    Ou seja: se nós afirmamos que Cristo morreu como substitutivo, sofrendo a pena a nós devida - no sentido do peso da pena -, sofrendo em seu corpo as consequência do pecado - as defecções -, então, segundo o rev. Gyordano, é necessário afirmar a separação real de Deus Pai e o Deus Filho. A questão é que essa consequência radical não foi afirmada pela teologia reformada, já que o Filho assume uma pena qualitativa que não o faz desmanchar em sua justiça, em sua fé, esperança e amor ao Pai. Não basta afirmar que estou mentindo sobre o rev. ter afirmado que a SP implica em morte espiritual, basta afirmar as consequências lógicas desta afirmação feita em objeção à teologia sustentada pela teologia reformada e confeccionada por pessoas como Calvino, Zanchius, Turrentini etc., para entendermos a questão.

Algumas Considerações Sobre os Erros do Reverendo Gyordano Montenegro Basilino Sobre a Teologia da Substituição Penal

    Infelizmente o rev. Gyordano M. Basilino acha que a substituição penal é alquimia. Ele realmente acredita que as ideias de "substituição" e de "pena" estão amparadas em uma noção de equivalência de nível pueril, tipo: se a humanidade foi condenada ao inferno é necessário em uma teologia da "substituição penal" que o mesmo indivíduo que assume a pena a sofra tal como o condenado a sofre na igualdade da PENA, sendo o substituto lançado no inferno literalmente e sofrendo como o condenado literalmente. Ele está convencido mesmo disso sem levar em consideração várias explicação dos próprios reformadores a respeito.

    Infelizmente ele já disse de forma até muito imprópria que a SP consequentemente leva ao resultado se que Cristo sofreu a pena do inferno de fogo, ou que os reformadores ensinavam que Jesus sofreu a separação do Pai etc., ou que a substituição penal não explica a função do sangue de Cristo - se ele tivesse se dado o trabalho de ler Bavink nesse sentido não diria que alguém negligenciou o papel purificador do sangue. Essas coisas causam admiração em quem não leu nada a respeito e que toma por verdade informações aleatórias por ausência de outras informações pelas quais seria possível realizar uma comparação digna do assunto.

    Quanto à pena que Cristo assume, geralmente se diz que ela se trata de uma pena qualitativa e de peso infinito, a qual é polarizada pela santidade e pela graça infinitas de Cristo. Ela não se encaixa em uma noção quantitativa de pena - como Bavink explica -, tal como poderia se depreender da uma leitura literalista da Lei do Talião, onde pelo agravo de um olho, o olho do agravador deveria ser igualmente ferido. Não estamos falando dessa equivalência (e seria bom ler o que os reformadores sempre falaram sobre a questão antes de se meter a falar da própria questão, questão que se desenha sobre a forma de um espantalho de mente de alguns, inclusive na do rev. Gyordano), pois os reformadores nunca disseram essa enormidade, já que Jesus não sofre todas as espécies de penas, como se concluiria de uma leitura literalista (e não axiológica) da Lei do Talião, visto que existem penas contraditórias (ninguém pode sofrer a pena por afogamento e por fogo ao mesmo tempo). O que sempre foi afirmado é que Jesus sofreu uma pena qualitativa que uma leitura rasa da Substituição Penal não pode captar. E nesse sentido há certa razão em dizer que na ordem da justiça o Pai aceita esse tipo de pena como mais do que satisfatória para saldar a nossa dívida com a justiça divina - como afirma Bavink.

    Há de se levar em conta a inocência de Cristo, o que corresponde à noção do seu ser intacto, o que consequentemente implica em que ao sofrer a pena Jesus não a sofre como um condenado, ou seja: Jesus não sofre a pena como sofrerem os condenados e o diabo, já que o ser desses é fragmentado. Jesus não é fragmentado e por isso não perde a fé e a esperança, o que para ele é impossível, e nem pelo peso do evento é destroçado a ponto de perder a ordenação da sua alma, e nem perde a justiça e o amor a Deus a quem sempre amou, assim como não comete o pecado de desespero de salvação. Não há morte espiritual em Cristo - que é algo que o rev. Gyordano quer empurrar goela a baixo a todo custo como uma consequência inevitável da substituição penal, o que é um erro enorme, dado tudo o que já foi dito.

O Pai não Julga?

    O fato de Jesus ter dito "Assim, o Pai a ninguém julga, mas confiou todo o julgamento ao Filho" (Jo 5:22) não pode servir de versículo prova contra a Substituição Penal, pois esse versículo é antecedido por este: "o Filho nada pode fazer de si mesmo, senão somente aquilo que vir fazer o Pai" (Jo 5:19).

    A ideia aqui não é que "O Pai não julga absolutamente", pois se isso o Pai não fizesse, logicamente o Filho jamais julgaria, já que faz apenas aquilo que viu o Pai fazer. A questão em foco está na autoridade messiânica de Jesus de Nazaré, que como o Messias de Israel será aquele que julgará e aquele que já julga os povos.

Perceba que com base na teologia de João, que é uma teologia acentuadamente escatológica, a manifestação de Jesus já é o julgamento (krísin) final, no sentido de que aquele que o aceita é salvo, e aquele que o nega já está condenado, pois permanece sob a ira de Deus (Jo 3:36).

    É isso que quer dizer que "o Pai não julga", pois o ponto de juízo, para os homens, é Jesus Cristo, Jesus que é o Filho que aprendeu a realizar todas as coisas com o Pai, e que nada pode fazer sozinho ou por si mesmo.

P.S: SOLA SCRIPTURA

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Algumas Considerações sobre a Teoria do Resgate em Gregório de Nissa

    É interessante como as várias tentativas de explicar a expiação buscam equilibrar os atributos divinos. Por mais estranho que possa parecer, na teoria do resgate explanada por Gregório de Nissa (329-390) na obra A Grande Catequese, é afirmado que Deus manteve o equilíbrio de três atributos na execução da expiação. Tai atributos são: justiça, amor e sabedoria.

    É como segue:

    1) Na sua justiça: quando Deus não usou de poder tirânico contra Satanás, mas reconheceu seus direitos sobre o homem, e que portanto não poderia liberar o homem sem pagar um justo preço pela humanidade que voluntariamente se submeteu às trevas - o domínio do demônio - quando pecou.

    2) No seu amor: quando Deus não se contentou em ver a humanidade em seu estado deplorável, entregue ao poder do demônio, decidindo resgatá-la do poder do inimigo, realizando a economia da encarnação, livrando a humanidade ao dar a si mesmo (o Filho) como preço de resgate por ela.

    3) Na sua sabedoria: quando Deus, equilibrando a justiça e o amor, conduziu sabiamente a economia, e ocultando a sua divindade sob véu da carne, como um anzol é ocultado na isca, e assim fazendo captura o demônio na sua própria ganância (o enganador foi enganado justamente), já que não estando ciente do plano divino, o demônio mata Cristo na cruz, e quando ele pensa ter ganho acaba se destruindo, pois tem na morte de Cristo mais do que o preço que foi requerido. Então o preço é pago e, ao mesmo tempo, Satanás é destruído por ter se levantado contra o Filho imaculado de Deus.

    Os problemas evidentes dessa teoria do resgate são os seguintes:

    1) Ainda que o pecado seja uma criação diabólica, nada consta que ao submeter o homem pelo engano, seguiu-se daí um "direito do demônio", pois não há direito real que possa advir da usurpação. Não é estranho que a teoria do domínio siga essas premissa. E sim, ainda que os principados e potestades tenham subjugado a criação, não segue-se daí que haja nem virtual e nem atualmente um direito do demônio após o advento do pecado no mundo, que é o que é em virtude da defecção do pecado e da impossibilidade do homem de se voltar para o bem sobrenatural.

    2) A teoria do resgate, ao considerar a expiação, faz com que o problema do pecado seja um problema do homem com o demônio e não com Deus, ou melhor, um problema antropológico e metafísico que assinala a devida separação entre o homem e Deus.

    3) Ainda que reconheçamos que o pecado deixa o homem cativo sob o poder das trevas (o que é fato inescapável), o cativeiro é um cativeiro da vontade, pois o homem no pecado não pode não querer o mal, o que o torna sujeito ao diabo. Essa teologia nada tem a explicar sobre a defecção antropológica causada pelo pecado.

    4) No Oriente, onde essa teoria vingou majoritariamente, não é estranho que não tenha vingado também a teologia sobre o pecado original, pois essa teologia não se reporta em primeiro plano ao homem, senão a um conflito divino contra as potências demoníacas que adquiriram direitos sobre a criação. E ainda que essa teoria tenha uma verdade metafísica evidente, o drama da redenção se desenrola por sobre as nossas cabeças.

    5) Não consta que no Antigo Testamento os sacrifícios sejam transações entre Deus e os demônios. Aliás, essa é a característica de vários rituais pagãos em que os sacrifícios eram feitos também aos demônios para que eles não importunassem os viajantes, construtores, recém nascidos etc. Esse costume sobrevive em determinados setores das culturas orientais, xamânicas, indígenas e pagãs no geral.

    6) Nada há no Novo Testamento (e nem na Escritura como um todo) indicando que houvesse alguma transação dessa espécie, nem implícita e nem explicitamente.

    7) Mas para sermos justos, a verdade metafísica da teoria do resgate é que basicamente o mal trata-se de um acidente parasitário que não pode subsistir fora do bem, ou do ente. E sendo que o mal tende para o nada (não-ser), ao lograr o seu êxito o mal se destrói. Já o bem, por ser o que é, em sua essencialidade não pode ser destruído. Mas obviamente essa verdade pode subsistir em outras teorias da expiação, assim como subsiste não só na metafísica cristã como na sua ética como um todo.

    Eu poderia citar mais problemas, mas basicamente estes são os que por hora levanto nessas considerações.

Quem é Arrogantemente Louco para se Dizer Justo Diante de Deus?1

    Existem na terra homens justos, grandes, fortes, prudentes, continentes, pacientes, misericordiosos, homens que suportam, com paciência, todos os males por causa da justiça; mas, se é verdade, porque é mesmo verdade: "Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos" (I Jo 1.8), e: "nenhum ser vivo se pretende justo diante de ti" (Sl 142.2), então, eles não são sem pecado e nenhum deles seria tão arrogantemente louco para pensar que não precisaria fazer a oração do Senhor por quaisquer pecados seus.

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1] Agostinho - O Castigo e o Perdão dos Pecados. Livro 2.18

Justiça Infusa não é Justificação

    Se no catecismo da Igreja Católica se afirma que a justificação é a conformação interior do homem com a justiça divina, seguir-se-ia daí que a justificação seria a infusão completa da justiça, no sentido da conformação do que somos ao ser de Cristo. Aqui a justificação seria o mesmo que santificação. Ao contrário dessa ideia, na Escritura a I Carta de João, lemos explicitamente: "se dissermos que não temos pecado, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós" (I Jo 1:8) - lembrando que João se dirige a uma Igreja que não duvidamos estar possuída pela graça.

    Antes disso, a teologia da reforma diz que a pena do pecado, a fonte da impolução, continua em nós, e que somos absolvidos dos nossos pecados, e por estarmos unidos a Cristo e recebermos a filiação, e a justiça de Cristo passa a ser a nossa justiça em função dessa unidade - mesmo que recebamos castigos corretivos de Deus por causa da impolução. É por isso que justificação implica em que os nossos pecados não nos são imputados, e que mesmo após a absolvição fica a mancha da nossa natureza e a lei do pecado habita em nós, sendo essa mancha sarada progressivamente no processo de santificação, que é a conformação do nosso ser com o ser de Cristo operada pelo Espírito Santo - sem aumento algum da qualidade da filiação, que é a filiação que recebemos por sermos aceitos por Deus Pai em Cristo Jesus o Filho. É justamente por isso que ao sermos justificados pela fé entramos em uma aliança com Cristo.

    A teologia católica romana não abre espaço para a aceitação do homem na justificação "apesar de", apesar das nossas manchas, pecados etc., pois o resultado da sua compreensão de justificação é que é necessário você ser intrínseca mente justo para ser aceito por Deus (e nem a graça atual oferecida universalmente ajuda nisso, já que ela não é justificação no sentido Paulino do termo, que é justificação independentemente de obras), o que é uma ideia que não se encontra na Escritura, a começar pela forma da aceitação de Deus e da aliança de Deus com os patriarcas.

As Obras e a Justificação

    É interessante que João Crisóstomo ensina que "obras da lei" é qualquer obra possível, e que por obras homem nenhum pode ser justificado diante de Deus. Justificação é por fé e essa é o meio receptor da graça que Cristo conquistou por todos nós em sua vida e no alto do madeiro, onde ele destrói a nossa maldição, tornando possível para nós a posse do Espírito prometido que ele nos derrama após a ressurreição.

    É a interpretação mais correta da ideia de "obras da lei", já que é estranho Paulo em Rm 8 afirmar que a enfermidade da lei é a "carne humana", se isso não implicasse que o homem não pode, nem depois do batismo ou da fé, deixar de lado a concupiscência pela qual ele cobiça, assim como pensa mal sobre tudo quanto é coisa.

    Aliás, essa é a mesma interpretação de Santo Agostinho que afirma que homem algum pode ser perfeito nesta vida, entendendo que a perfeição humana ainda é imperfeição diante de Deus, e que apesar de nossa culpa ser extinta na justificação, ainda permanece a pena do pecado que ele nomeia "fonte de pecados" e concupiscência.

O desespero da monstruosidade da incerteza quanto à consolação da justificação (como diriam dogmaticos luteranos como um Johan Theodore Muller) é o único caminho de quem colocou as obras como requisito da justificação. Ou a justificação é independente de obras, ou alguém jamais alcançará a justificação e o prêmio da justificação, que é a visão eterna de Deus.

    Realizar obras aceitáveis diante de Deus requer justificação - pois a fé opera pelo amor -, o que é diferente de dizer que a obra é necessária e requisito para a justificação. E aqui vemos como alguns se põe metas impossíveis de alcançar sem ter parado para pensar direito sobre o ponto central da questão.

The Vatican's Failure

    Tem um documento no site do Vaticano, elaborado pela Comissão Teológica Internacional em 1995 a pedido do Papa João Paulo II, que ao discorrer sobre a teologia da expiação dos reformadores diz que Calvino ensinou a enormidade de Jesus foi lançado no inferno e sofreu a dor dos condenados para pagar pelos nossos pecados. É por esse tipo de apresentação da teologia da expiação desenvolvida na teologia reformada que é possível explicar muitas oposições a ela, e nisso me vem um certo embasbacamento, pois a partir daí é possível saber o quão longe, às vezes, teólogos de alto calibri estão de uma informação adequada do que seria a teologia da expiação segundo compreendida pela teologia reformada - o que não é espantoso, já que até mesmo reformados desconhecem aquilo que professam. Se os de dentro não se acham na obrigação de saber o que professam, quem vai requerer que os de fora tenham essa obrigação?

A Piada, o Moralismo e o Trickster

    A divisa entre moralismo e moral é análoga à distinção que se faz entre justiça do justiçamento cruel. Moralismo é, invariavelmente, a afetação que, ainda que fundado em bases justas, é, no fim, guiada por reducionismos irracionais, cuja a afetação contra a mulher adúltera no Evangelho de João é um dos maiores exemplo - uma afetação, podemos dizer, sem consciência de si e que descarrila para a esfera do grotesco.

    Hoje mais cedo disse que a afetação moralista contra o pai trans, para o cristão, não era uma resposta bem vinda. Isso não significa que devamos suprimir a nossa própria humanidade diante da coisa, nos privando do sentimento de ofensa que a piada do pai trans suscita. A questão é que, mesmo diante da ofensa proposital - sim, ninguém ignora que a piada da Natura tem a finalidade de causar ofensa proposital - o cristão pode cair em outro truque, que é o truque do toureiro, que ao bandeirolar seu pano vermelho em frente ao boi o toureiro visa justamente encravar a lança no gado ensandecido e desorientado pela sua fúria.

    A reflexão moral, ao contrário, não substitui o afeto moral pela inteligência, e nem mesmo a inteligência pelo afeto moral, mas une ambas para fornecer uma resposta adequada à ofensa, por vezes embalada por uma ironia contra a qual o trickster não é capaz. E como disse o Vitor Barreto, a piada do pai trans é característica do mito do trickster, que na mitologia é apresentado, por exemplo, na figura do deus nórdico Loki, que, como o transsexual, é o deus do disfarce e da trapassa, e que, por meio da própria trapassa, é capaz de abalar até mesmo os fundamentos do mundo.

    A questão é que a derrota do trickster está na sua inteligibilidade, pois uma vez compreendido o seu modo de agir o trickster é destruído de vez. Não basta apenas afetação moral, já que é desorientando que o trickster ganha poder - basta ver os trickster modernos como o Pernalonga ou o Pica-Pau, os quais ganham poder sobre seus inimigos na medida em que os enfurece. E é justamente nessa compreensão do chiste, na inteligibilidade do núcleo contraditório da piada trapasseira, no agir orientado, no afeto ordenado e na paciência que poderemos vencer, assim como ganhar a nossa alma.

    Sim, a afetação da ofensa não resolve por si, e é por isso que o moralismo é também o túmulo da moral.

O Pai Trans e a Resposta da Igreja

    A resposta moralista ao pai trans é o fosso da argumentação. O que a Igreja precisa mesmo, como disse o pr. Guilherme de Carvalho, é ressaltar a multidimensionalidade de uma antropologia que realmente defina o papel de um pai no mundo e a inescapabilidade da figura masculina na constituição da própria humanidade.

    Para isso a resposta exasperada é a última coisa a agregar na questão - e a Igreja cristã e seus líderes tem falhado na produção de uma definição sistemática dessa antropologia para um enfrentamento fundado na razão, ou, no mínimo, falhado em atualizar algo que já foi tão bem pensado nesse sentido ao longo da história da Igreja.

    Se a Igreja é a coluna da verdade por ser a depositária da revelação, cabe a ela destrinchar essa revelação para o bem do homem e atualizar a informação dessa revelação em meio à turbulência dos tempos - estabelecendo o um diálogo teológico entre revelação e cultura -, pois sabemos por onde vão os pés dos homens quando o homem está entregue a si mesmo, e nisso a força orientadora do pensamento cristão deve imprimir a sua marca indelével através da virtude de Cristo que não separa o justiça, misericórdia e inteligência.

    É justamente nessa direção que a verdade de Cristo derramada no mundo pela Igreja deve se manifestar, já que a orientação da inteligência é um dos bens supremos de Deus manifestos ao homem, pois dissipando a confusão dos tempos os cristãos podem realmente manifestar a mundo um serviço qualificado a Deus em todas as esferas; um serviço que é manifesto com as marcas da justiça, da misericórdia assim como da criatividade e da inteligência.

Por Que a Nossa Oração é a Oração de um Filho de Deus?

    A oração cristã possui também uma teologia, e uma das mais belas teologias, já que ela possui por base a noção de que em toda oração que fazemos há alguém nos antecede, nos segura e aperfeiçoa aquilo que oramos, entregando essa oração aperfeiçoada para o Deus Eterno.

    Essa é a ideia de mediação, e é em função dessa mediação que a eficácia da nossa oração é garantida como uma oração feita pelo Filho de Deus. Falando claramente a mediação é o ato de alguém que está no meio, entre uma realidade e outra, é o ato de realizar o trânsito entre uma coisa e outra, e no caso em questão o trânsito entre os homens e Deus. Esse trânsito qualificado, essa mediação, é possível por causa do Cristo em quem o Pai ligou para todo o sempre os céus e a Terra.

    Aqui há a ideia belíssima e fundamental da fé cristã: Cristo é o ponto de destaque da revelação divina, o ponto de intersecção entre o mundo dos homens e mundo de Deus. Eternidade e temporalidade estão unidas em sua pessoa, e a oração que fazemos no tempo está habilitada a transitar para Deus nesse ponto de intersecção como se fosse a própria oração da pessoa divina e humana de Cristo, o nosso mediador eterno.

    Na questão em que nos detemos, a partir do que foi dito, é possível compreendermos isto: ao mediar a nossa oração, Cristo faz das nossas orações a sua própria oração; é aqui se desvela a razão pela qual nossa oração é a oração de um filho de Deus, pois tal oração é (re)feita, por nós, pelo próprio Filho de Deus que aperfeiçoa o nosso orar, já que não sabemos orar como convém.

    A Escritura nos afirma que ao colocarmos a nossa fé em Cristo, somos unidos a Cristo e ao Pai - no amor do Espírito Santo - e recebemos com isso o dom da filiação, já que ao nos unirmos a Cristo pela fé e pelo batismo o que é de Cristo também passa a ser nosso, e o que é nosso é passa a ser perfeito pela justiça de Cristo.

    E por fim, é aqui a própria ideia da imputação da justiça de Cristo pode ganhar evidência solar - muito para além do perigo do descarrilamento alienador da linguagem jurídica que a noção de imputação pode envolver -, pois ao interceder por nós diante do Pai, Jesus Cristo eleva a nossa oração à justiça suprema, já que a nossa oração é a oração de Cristo e a oração de Cristo é, por graça amorosa, a nossa oração.