domingo, 30 de janeiro de 2022

O Servo Peregrino

    Se em Caim temos o princípio mundano do estabelecimento dos povos ligados à terra, e por isso à concentração do poder e do império, em Abel temos o pai espiritual dos povos nômades não ligados à terra. Abel é o pai espiritual dos peregrinos. Abraão - filho de Héber (in Gn 11.14ss, de onde os israelitas recebem o nome de hebreus), e filho de Sem, o mais abençoado dos filhos de Noé – foi o pastor chamado por Deus com a promessa de herdar uma terra específica. Aqui, como encontramos em Gn 12, temos o início de Israel, a nação oráculo que veio a ser a voz divina no mundo para orientar todos os homens no caminho do Senhor. Assim como Abel, Enoque e Noé, ficamos sabendo que Abraão, antes Abrão, ouviu a Deus, e assim o seguiu. Seria muito difícil seguir por esse caminho se Abraão fosse alguém ligado à terra, aos bens etc., não dispondo da liberdade necessária para obedecer a Deus.

    Aqui temos o sentido da necessidade da liberdade para obedecermos, pois na ausência dela cumprir o que quer que seja da palavra de Deus é algo sumamente impossível. É exatamente nesse sentido que Jesus condena o amor às riquezas, pois elas aumentam a nossa gravidade que nos prende a esse mundo, sendo que o amor a elas nos impede de ouvir a Deus. As riquezas não são um mal em si. Mas aqui pode surgir uma dúvida: não foi a Abraão prometida justamente uma terra? Também aqui se impõe uma distinção: Abraão é filho de um tempo em que a humanidade já havia alcançado grande parte do mundo terra. O grande problema de Babel, foi antecipar um bem futuro, o possuir uma cidade. Ao tentar meter o carro na frente dos bois Ninrode e Babel, em sua ganância desenfreada atrapalharam o fluxo natural das coisas, perturbando a ordem divina – pela qual foram justamente castigados.

    É significativo que o início da peregrinação de Abraão se desse justamente a partir da terra de Babilônia, pois é de lá, da terra da revolta e da confusão, que também nós iniciamos a nossa peregrinação em direção à terra que nos foi prometida por Deus, a terra da graça e da liberdade estabelecida pela vontade santa do Senhor, e não pelo egoísmo do nosso pecado. Toda caminhada e toda a peregrinação da alma em direção ao Senhor começam simbolicamente em Babel e terminam em Jerusalém, a Cidade de Deus. Agostinho esclarece a dinâmica disso na interpretação do Salmo nº 64.2: Começa a sair quem começa a amar. Pois muitos saem ocultamente, e os pés dos que saem são os afetos do coração; e saem da Babilônia. O que significa: Babilônia? Da confusão. Como se sai de Babilônia, isto é, da confusão? Os que antes eram confundidos, devido à semelhança nas ambições, começam a se distinguir [ou destacar] pelo amor; já distintos não são mais confundidos.

Império e Transgressão

    A história da Torre de Babel é a história do primeiro levante grave contra Deus cometido pela humanidade após o Dilúvio. A ordem divina de crescer e multiplicar assim como povoar a terra é significativa para entendermos a ira de Deus sobre Babel. A narrativa cobre Gn 11.1-9 e descreve que partindo do lado oriental homens se estabeleceram na planície do Sinal, e intentaram queimar tijolos e usar piche betuminoso para construir uma torre que tocasse os céus. A finalidade deles eram duas: 1) fazer o nome grande; 2) não serem espalhados pela terra. Ao ouvirmos essas duas coisas nos lembramos de duas outras: 1) que os filhos das mulheres que coabitaram com os anjos no período pré-diluviano eram famosos (Gn 6.4); 2) que ao não quererem ser espalhados pelo mundo eles transgrediam a ordem frontal de Deus de povoar a terra (Gn 9.7).

    Temos em Babel a primeira tentativa de concentração de poder do mundo antigo. E entre os seus podemos contar com a presença de Ninrode, o descendente de Cam que foi chamado de o poderoso caçador diante do Senhor (Gn 10.8,9). Alguns, como Lutero, identificaram Ninrode como o líder do empreendimento da Torre de Babel, porque ele foi nomeado como o rei de Babel (de onde viria a Babilônia). Isso é muito possível, e como o primeiro homem destacado e poderoso do mundo pós-diluviano ele foi também o primeiro a organizar o primeiro levante contra os céus, buscando construir uma torre que tocasse a morada de Deus. Isso nos faz lembrar a profecia de Isaías, proferida séculos mais tarde contra o rei de Babilônia Nabucodonosor: Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filha da alva [...] E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu, e, acima das estrelas de Deus, exaltarei o meu trono, [...] Subirei acima das mais altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo (Is 14.12-14).

    O projeto da Torre de Babel era, portanto, um projeto imperial, a primeira tentativa de concentração de poder, e por isso de estabelecimento de controle sobre as pessoas do mundo pós-diluviano. É sob essa luz que devemos entender a narrativa, e é interessante notar que todos os impérios antigos se seguiram de Cam, pai de Ninrode: o império egípcio (Mizrain – Gn 10.6), o assírio (Nínive, cf. 10.11), o babilônico e os reinos cananitas (10.6), os quais lutaram duramente contra Israel. Aqui entendemos tanto a maldição de Cam, filho de Noé, como a razão do juízo sobre Babel, pois para que fosse destruída a intenção má os construtores foram confundidos em suas línguas. O importante é notar que o império da transgressão é destruído por dentro, já que o vício pecaminoso faz com que cada um em seu egoísmo fale apenas sua língua. Babel (que vem de בָּבֶל), cuja raiz significa desordem, confusão, é o oposto do pentecostes, pois em pentecostes mesmo em línguas diferentes todos se entendiam porque guiados não pelo pecado e revolta, mas pela amizade e pelo Espírito do Senhor (At 2.5,6).

A Benção e a Maldição

     Após o Dilúvio Noé e sua família, como os únicos da espécie humana, receberam uma aliança divina, uma benção que possuía as famosas duas partes de benção/direitos e deveres. Entre as bênçãos/direitos estavam: a fecundidade, o domínio sobre os animais e o direito de se alimentar de toda erva e carne. Entre do deveres estavam: a proibição de comer o sangue e a proibição do assassinato sob pena da morte do assassino. Esse último dever desenha algo importante sobre o valor do sangue no Antigo Testamento como o portador da vida, e já explica os ritos de expiação dos pecados que se tornarão determinantes no Antigo Testamento. Assim, a pena pelo derramamento do sangue seria o derramamento do sangue como permuta satisfatória do esvaziamento da vida do assassino em razão do ato do assassinato. Também explica a razão pela qual o autor de Hebreus assevera: sem derramamento não há remissão (Hb 9.22), onde o sangue de Jesus é dado por nós em substituição do derramamento do nosso sangue.

    Como sinal da aliança Deus criou o arco celeste, ou o arco-íris como promessa que jamais iria fazer perecer o mundo sob as águas. Essa narrativa é interessante porque ela quebra com os mitos do antigo-oriente dos caos cíclico, como o mito babilônico que compreendia que de tempos em tempos a história se repetia, se iniciando após um caos diluviano e perecendo também pelo dilúvio, repetindo esse processo infinitamente. A fé do Antigo Testamento destrói com a percepção cíclica da história, estabelecendo no seu lugar uma visão progressiva de história. Para a fé cristã o dilúvio é uma etapa da história após o qual seguirá o seu curso, sendo consumada com a segunda vinda de Jesus, sem que esse processo seja repedido, ou seja, a história não se repete, mas avança para um fim. A mesma coisa com a salvação: a salvação não é a restauração da vida adâmica pré-lapsária (antes da queda), mas o avanço a uma realidade melhor pela recepção de um corpo espiritual.

Após isso a família de Noé saiu da arca, e Noé, como agricultor, plantou uma vinha e bebeu do seu fruto. Embriagado deitou nu na sua tenda e Cam, seu filho mais novo, relatou aos seus irmãos, Sem e Jafé, os quais entraram de costas com uma capa e a deitaram sobre seu pai. Noé ardendo em fúria amaldiçoou Cam, que foi pai de Canaã, a terra que seria conquistada pelos descendentes de Sem, ou seja, os filhos de Israel. Nesse ponto a história das bênçãos e maldições, ou seja, a de que Cam seria servo tanto de Sem e Jafé nos parece dar uma explicação da história. Mas seria muito reducionista dizer que Israel destruiu Canaã em suas incursões de conquista apenas por causa da maldição de Noé sobre seu filho, pois mesmo que Cam fosse desonroso com seu pai, a terra de Canaã, com a sua multidão de injustiça, foi responsável pela sua queda. A maldição de Noé sobre Cam é apenas uma síntese simbólica da maldição que o povo de Canaã trouxe sobre si mediante a sua rebelião contra Deus, pois como Cam se rebelou contra o seu pai, assim Canaã se revoltou contra Deus, trazendo o mal sobre si.

A Natureza da Regeneração

    A palavra regeneração é profundamente importante para a vida cristã, embora ela pareça possuir inúmeros significados na Escritura. Por regeneração podemos entender, segundo a escritura, três coisas: 1) A ressurreição após o retorno de Cristo, como está em Mt 19.28, onde Jesus disse que aqueles que o seguirem, i.e, os apóstolos, na regeneração, se assentarão em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel; 2) A santificação, como em Tt 3.5, onde o apóstolo diz: Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo, pois fica evidente que a noção de renovação está atrelada a um poder transformador na concessão efetiva de uma nova vida; 3) Ou pode ser entendido como justificação, como em Ef 2.1-10, onde é dito que Deus nos deu vida estando mortos em delitos e pecados – nesse sentido fé é pura receptividade da graça.

    Mas também entendemos, por uma lógica demandada pela ordem dos fatos, que certa graça vem antes, sendo a regeneração um dom divino que nos alcança, transformando-nos. Mas veja bem: fora a ressurreição, os dois significados de regeneração, principalmente o último, não comportam a noção de perfeição absoluta da vida. Por justificação entendemos uma mudança de relação de Deus conosco, não uma mudança da nossa natureza. Assim, Deus nos trata como justos por causa de Cristo, não pela nossa perfeição pessoal. Fato é que Paulo, se dirigindo à comunidade de Colossos, em Cl 3.5ss, ainda exorta aos cristãos que mortifiquem os resquícios viciados da velha natureza. Ora, uma natureza que precisa modificar velhos vícios, resquícios de pecados, ainda não é uma natureza perfeita, conformada absolutamente com a justiça divina. Aqui somos considerados filhos não porque fomos transformados em justos, mas sim para que venhamos a ser justos.

Assim, a natureza da regeneração não nos informa, sob nenhuma hipótese, algo como a presença de uma natureza humana transformada tão radicalmente a ponto de termos alcançado a dignidade intrínseca na qual somos vistos perfeitos por sermos perfeitos. Antes somos vistos como filhos por sermos visualizados em Cristo, pois pelos seus méritos somos dignificados como filhos de Deus, nos assentando juntamente com Cristo nos lugares celestiais, ou seja, como aqueles que foram reconciliados com Deus. A partir desse ponto caminhamos em direção à perfeição no segundo sentido da palavra regeneração, pois é na santificação que vamos mortificando a velha natureza. Aqui nós entramos no campo daquilo que foi chamado tradicionalmente de luta contra o pecado, ou conformação com a morte de Cristo (Fp 3.10), na própria área do discipulado, que é o sinal vivo e verdadeiro da recepção da fé que atua pelo amor (Gl 5.6), já que onde houve regeneração e justificação, necessariamente há discipulado e santificação.

O Velho Mundo e o Novo Mundo

     O Velho Mundo e o Novo Mundo são duas grandezas bíblicas que indicam para nós dois modos de ser, duas realidades que guardam em comum o fato de serem ambas possibilidades – e mesmo realidades – para nós, e separadas por indicarem elementos irreconciliáveis entre si. Como vimos na devocional anterior, Noé é o ponto de transição do velho para o novo mundo, é alguém que está no novo mundo ao mesmo tempo como continuidade e novidade em relação ao velho. Noé habitava um velho mundo marcado pela maldade, corrupção e pela rebelião contra Deus, ao mesmo tempo em que estando lá era um sinal da novidade porvir inaugurada após o justo juízo de Deus. Podemos significar o mundo velho pela rebelião o novo mundo pela amizade com Deus. Jesus disse no Evangelho de João: Em verdade, em verdade vos asseguro: quem ouve a minha Palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida (Jo 5.24).

É justamente aqui que temos o sentido e a realidade máxima do batismo, o qual tem no dilúvio a sua imagem (1Pe 3.21), pois nele temos a figura do sepultamento do velho homem no imergir nas águas, e a ressurreição do novo homem no emergir das águas (Cl 2.12). Mas Noé era a figura dessa divisa, a sombra, sendo a realidade Cristo, pois nele temos a promessa de um novo ainda mais radical, e assim mesmo o sepultamento ainda mais radical do velho mundo que subsistiu em Noé. Não nos enganemos: se a catástrofe cósmica que pôs um fim ao velho mundo em Noé se deu poderosamente, ela ainda não foi capaz de pôr um fim ao pecado do homem, pois Deus disso é testemunha no que disse após o sacrifício de Noé: Não tornarei a ferir a terra por causa do homem, pois é má a imaginação do seu coração desde a sua meninice (Gn 8.21b), se referindo à humanidade na qual Noé está incluso.
Da mesa forma é o nosso batismo: mesmo que tenhamos rompido e realizado um juízo sob o nosso velho mundo o deixado para trás mediante a fé – como foi Noé que pela fé condenou o velho mundo (Hb 11.7) –, ainda há em nós certos resquícios do pecado que ainda vivem em nós e contra os quais ainda devemos lutar – tal como Noé que foi contado com aqueles cuja imaginação e as pulsões do coração não são perfeitas. Mas tanto o batismo como o dilúvio apontam para uma realidade maior, para vinda de Cristo na consumação dos séculos. Pela fé hoje já tornamos presente, parcialmente, aquilo que se dará no fim de todas as coisas, e aguardamos, na fé, a manifestação da justiça salvadora de Deus, lá onde o novo mundo da amizade com o Senhor se sagrará vencedor contra o velho mundo da rebelião contra Deus, findando assim com o poder do pecado e da morte em nós mesmos, inaugurado o novo mundo da justiça e da alegria na terra que não será mais amaldiçoada pelo pecado humano.

O Justo Diante de Deus

    Nos dias anteriores ao Dilúvio a escritura relata a escalada alucinante da corrupção humana. O clímax dessa corrupção é narrado em Gn 6.1,2, e ali se diz que os filhos de Deus coabitaram com as filhas dos homens, nascendo assim heróis. Dificilmente é possível defender que se trata da mistura da linhagem espiritual de Sete e a linhagem “mundana” de Caim, mas sim que os anjos coabitaram com as mulheres porque eles as consideraram belas. Uma tradição judaica afirma que esse período é ta terrível porque a união entre as mulheres e anjos nada mais era do que um efeito da prática de magia e feitiçaria. Assim a corrupção chegou à esfera do espírito de uma forma insuportável para Deus, pois dessa união nasceram os poderosos do mundo (possivelmente corruptores, homens só de guerra etc.), e isso para o desgosto de Deus que reduziu a vitalidade do homem em função dessa escalada da maldade dizendo que os anos do homem passariam a ser 120 anos, prometendo apagar a vida na terra.

    No contexto do alastramento da perversidade, Noé é descrito como um homem que achou graça (misericórdia) aos olhos de Deus, assim como era um homem justo e íntegro. O nome Noé vem de נֹחַ (nōah), ou Nôa, cujo significado é tanto descanso ou repouso – como indica a profecia de Lameque, seu pai, que disse que em Noé haveria descanso para os trabalhos e fadigas causadas pela maldição da terra -, como também permanecer ou continuar – o que é sugestivo pois é de Noé de onde flui a raça humana que foi destruída no período do Dilúvio, podendo com justiça concluirmos que ele cumpre um papel semelhante a Adão, fazendo dele o cabeça do novo mundo. Em Noé, dado tudo isso, temos como que uma figura de Cristo, pois ao ser um pregador da justiça Noé desempenha uma função salvadora, construindo uma arca – como figura da Igreja –, onde ele livra a humanidade e também a criação como obra de Deus do juízo do próprio Deus.

    Assim como seu antecessor Enoque, Noé ouvia a Deus, e andava com Deus (Gn 6.9b) e seu ouvir e andar não foram inócuos. Como Enoque, que foi obra da graça, também Noé o foi, pois achou misericórdia aos olhos do Senhor (Gn 6.8). Assim, Noé não achou misericórdia por ser justo, mas porque achou misericórdia Noé era justo, caso contrário dizer que Noé achou misericórdia e graça nem mesmo fará sentido. O apóstolo Paulo afirma de Deus: terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia (Rm 9.15). É importante percebermos isso para nunca partirmos da compreensão de que foi o ato pessoal de Noé que atraiu a graça de Deus; Deus não é causado pela justiça do homem, mas é quem causa toda justiça no homem. Então sendo um ouvinte agraciado por Deus, pregador da justiça divina, homem espiritual, Noé foi o salvador do mundo antigo, livrando a ele e mais sete pessoas do juízo, e parte da criação. Noé é o sinal do Evangelho, é o homem do dilúvio como sinal do batismo, pois no batismo morremos para a maldade do velho mundo e ressuscitamos para a justiça Deus.

Aquele que já não Era

    O tronco genealógico de Noé contém certas características dignas de nota. Enoque, o sétimo depois de Adão pelo tronco de Sete, é, sem dúvidas, seu membro mais ilustre, ou um dos três mais ilustres ao lado do próprio Noé e Adão. Seu nome, חֲנוֺךְ (hanôq), significa iniciado, ou até mesmo preparado no sentido de consagrado. Todos esses significados para seu nome são pertinentes, e o mais importante é que eles iluminam o que sobre Enoque é dito em Gn 5.21-24. Como já foi dito em outro lugar nessa devocional, a linhagem de Sete (o terceiro filho de Adão) se distingue da linhagem de Caim por certo fator decisivo, pois, ao contrário da linhagem de Caim, a linhagem de Sete não desenvolveu técnicas como a pecuária desenvolvida por Jabal (Gn 4.20), ou mesmo a música por Jubal (Gn 4.21), ou a metalurgia desenvolvida por Tubalcaim (Gn 4.22a), antes, suas contribuições parecem caminhar na direção do desenvolvimento da espiritualidade, e Enoque ou Noé parecem ser disso o maior exemplo.

    O relato de Gênesis 5.21-24 nos traz algumas poucas informações sobre Enoque, mas mesmo poucas elas são suficientes para percebermos o tamanho da sua grandeza, fazendo dele um dos maiores personagens de destaque da Escritura. E aquilo que confirma a grandeza do pré-diluviano são dois testemunhos: 1) Que Enoque andou com Deus e já não era; 2) Que Deus o tomou para si. Podemos listar ao longo da Escritura três personagens com os quais isso (o arrebatamento) certamente ocorreu, que são Enoque, Elias e Jesus, e um que possivelmente ocorreu, ou seja, Moisés. Na LXX (texto grego do Antigo Testamento) a palavra usada para dizer que Enoque já não era é ουχ ηυρισκετο, que quer dizer não foi achado, e na bíblia hebraica o termo usado é אֵינֶ֕נּוּ, que quer dizer algo como ele era nada. A última forma de expressar o arrebatamento de Enoque é a mais forte das duas, e podemos entender que Enoque só era nada, ou que ele desapareceu, porque Deus era o todo dele, e isso como consequência direta do fato de que andou com Deus.
    No Novo Testamento Enoque é citado no livro de Judas (Jd 1.14,15), o penúltimo da bíblia, onde uma profecia, a da Vinda do Senhor com os seus santos e o juízo, é creditada a ele. O que alguns não sabem é que essa profecia é retirada do apócrifo Livro de Enoque, um livro imenso que relata várias profecias, assim como conversas com anjos por parte do patriarca. Não se trata de um livro inspirado (não é decisivo para a fé), mas foi recepcionado parcialmente por Judas, o que mostra o apreço apostólico pelo grande patriarca. Mas o fato é que Enoque foi tomado por Deus porque andou com Ele. Não viu a morte, como o grande profeta Elias. Assim Enoque é visualizado como uma grande obra da graça, um padrão de espiritualidade que carrega em si uma grande promessa, que é a de se andarmos com Deus, Deus tudo será e nós e não seremos colhidos pela morte ou pelo mundo.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

As Dores Infernais de Cristo e a Refutação de Arianismo e Nestorianismo na Teologia da Expiação Luterana e Reformada

    Uma das mentiras influentes contra a teologia da substituição penal é que se levada às últimas consequências ela implicaria em arianismo ou nestorianismo. Volta e meia essa mentira, como um cadáver que ainda anda, volta a circular. Turretini, já no século XVII, havia dado resposta a esse tipo de acusação, falando da natureza do abandono de Cristo na cruz, abandono que mesmo que afirmado na Escritura os detratores dessa teologia insistem em negar:

"Ora, este abandono não deve ser concebido como absoluto, total e eterno (tal como é sentido somente pelos demônios e pelos réprobos), mas temporal e relativo; não com respeito à união da natureza (a qual o Filho de Deus uma vez assumiu, e a qual ele nunca desfez); ou da união de graça e santidade, porque ele foi sempre inculpável (akakos) e puro (amiantos), dotado de imaculada santidade; ou de comunhão e proteção, porque Deus estava sempre à sua direita (SI 110.5), nem nunca ficou sozinho (Jo 16.32)1.

    Todas os destaques do texto acima negam coisas importantes a serem pontuadas aqui: 1) Em relação ao destaque que diz "este abandono não deve ser concebido como absoluto, total e eterno", devemos entender que a natureza intacta de Cristo para Turretini reduz a zero a possibilidade de ele ser destruído pela pena a ele infligida, o levando ao desespero de salvação. Assim, não existe possibilidade de arianismo ou nestorianismo porque a pena é relativa à natureza humana, não à natureza divina, que embora sejam hipostaticamente unidas, podem ser concebidas em suas propriedade próprias, já que uma pena "temporal e relativa" não afeta a eternidade da natureza divina, tal como a fome diz respeito apenas à natureza humana.

    Então podemos também afirma que: 2) Em relação ao destaque que diz: "não com respeito à união da natureza", não há possibilidade de nestorianismo. A pena aplicada a Cristo - assim entendem os teólogos reformados -, não implica na diluição da união entre as naturezas humana e divina em Cristo, a qual, como confessa a fé cristã, uma vez consumada permanecerá assim para toda eternidade. E tendo em vista, como dissemos, que a pena é, em sua constituição temporal e relativa, diz respeito à natureza humana, e não na dissociação de naturezas.

    Também podemos afirmar que: 3) Em relação ao destaque que diz: "ou da união de graça e santidade", Turretini assevera em Cristo a ausência completa daquela maldade característa da perda da graça, ou do bem devido. Assim a pena que Jesus padece não é semelhante, nesse sentido, à pena dos condenados, pois essa pertence àquele que realiza o ato mal, ato que não pode ser localizado em Cristo. E mesmo que Turretini assevere uma privação (privatio), não se trata de uma privação cuja "presença" torça a justiça e a santidade de Cristo.

    Também podemos afirmar que: 4) Em relação ao destaque que diz: "nem nunca ficou sozinho", isso diz respeito à unidade fundamental que subjaz a consubstancialidade eterna entre o Pai e o Filho. Como a natureza de Cristo contém unidas em si a natureza divina e humana de forma substancial, tal separação ontológica é impossível, pois o abandono, ainda que radical, diz respeito à perda da "afeição de vantagem", e ao "senso da ira divina", pois tal afeição de vantagem é uma graça criada na alma do justo cuja ausência não implica na destruição da ordem da alma de Cristo. Assim a pena, não é a pena própria do pecador como sofrida por ele se esse fosse submetido ao mesmo esmagamento que Cristo. É a pena do pecador que cai sobre Cristo, mas não a pena do pecador tal como ele o sofresse em sua condição própria de quem cometeu o pecado - já que a fraqueza da sua alma pecadora desabaria eternamente sob o mesmo peso.

    Assim, depois de fazer as distinções pela via negativa, explicando o que não é a recepção da pena em Cristo, Turretini se aplica a fazer as distinções pela via positiva, afirmando aquilo que é a recepção da pena em Cristo:

"Mas, no tocante à participação de alegria e felicidade, Deus, suspendendo por algum tempo a presença favorável da graça e o influxo de consolação e felicidade para que ele pudesse sofrer toda a punição a nós devida (no tocante à subtração da visão, não no tocante à dissolução da união; no tocante à ausência do senso do amor divino, interceptado pelo senso da ira divina e vingança que repousa sobre ele, não no tocante à privação ou extinção real desse amor). E, como dizem os escolásticos, no tocante à “afeição da vantagem” para que fosse destituído da inefável consolação e alegria que provêm do senso do amor paternal de Deus e da visão beatífica de seu semblante (SI 16); porém não no tocante à “afeição da justiça”, porque ele não sentia em si nada desordenado que tendesse ao desespero, impaciência ou blasfêmia contra Deus"2.

    Aqui Herman Bavink ilustra que aquilo que eu quero dizer quando afirmo que "não há uma fratura no ser de Cristo", e que por isso ele não pôde padecer a pena do pecado como sofre um condenado ou o diabo:

"Autoacusação, pesar, remorso e confissão pessoal de pecados não podem ocorrer no caso de Cristo e ele tampouco estava sujeito à morte espiritual, à inabilidade de fazer algum bem e à inclinação ao mal. Precisamente para ser capaz de levar os pecados de outros e fazer satisfação por eles, ele não podia ser um pecador. A “substituição de pessoas” que aconteceu entre Cristo e os que lhe pertencem não deve ser entendida em um sentido físico-panteísta, mas tem caráter legal: Cristo voluntariamente entrou na mesma relação com a lei e suas exigências em que estamos como resultado de nossa transgressão"3.

    Agora fazendo referência à teologia luterana, John Theodore Mueller, no "Dogmática Cristã" - que é o texto padrão para o ensino de Teologia Sistemática na formação de ministros da IELB -, afirma que a doutrina da expiação luterana confessa a imputação da culpa e da pena a Cristo, daí decorrendo o significado e o peso da pena aplicada a Cristo na Cruz. Muller também afirma a noção de "separação na Cruz", não implicando, não obstante, naquilo que pode ser chamado de "separação ontológica", mas sim no entendimento que afirma a pena sofrida cuja noção é modulada pela afirmação de que não há "desespero de salvação" em Cristo, enquadrando a teologia luterana na categoria daquelas que negam veementemente o arianismo ou o nestorianismo, tal como na teologia reformada.

    Segue o texto de Mueller:

"A agonia de Cristo de ver-se esquecido de Deus (MT 27.46), constituiu no padecimento da sua alma, da ira divina por causa dos pecados dos seres humanos, precisamente como se ele tivesse cometido as transgressões imputadas. Foi o padecimento das dores infernais (dolores infernales ), que consistem essencialmente na separação de Deus. [...]

    Com muita correção, nossos dogmáticos descrevem a agonia da desertio como sensus irae divinae propter peccata hominum imputa. É antiescriturístico atribuir desespero a Cristo (desesperatio) em sua angústia extrema, uma vez que desespero é iniquidade e, por tanto, não está em acordo com seu caráter não pecaminoso"4.

    Mueller é categórico em afirmar que Jesus sofreu em sua alma o senso da ira divina, como se ele fosse culpado pessoalmente pelos atos de transgressão contra Deus. Também há a presença da afirmação radical da separação de Deus. No entanto cabe uma modulação da noção de separação aqui, e essa modulação está em que Mueller confessa, junto com os dogmáticos, que não há desespero de salvação em Cristo. Ora, essa é a exata explicação que dá Turretini, embora o teólogo genebrino o faça de forma mais detalhada e Mueller de forma mais resumida. Em essência não há contraste nas afirmações, cabendo à explicação de Mueller o mesmo teor semântico do que vai explicado no texto de Turretini e mesmo naquilo que vai escrito no texto de Bavink aqui citado.

    E por fim, é evidente que a acusação de que a Teologia da Substituição Penal tanto nos dogmáticos representativos da escola reformada, como no dogmático da escola luterana, e com isso nas teologias representativas da fé reformada e luterana, desemboca em nestorianismo ou arianismo. Essas são especulações que repugnam a lógica teológica que extrai exatamente de uma leitura atenta as conclusões necessárias das premissas teológicas de tais escolas, tal como essas premissas foram abraçadas ao longo de mais de quatro séculos.

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[1] TURRETTINI, François Compêndio de Teologia Apologética, Vol II. Ed. Cultura Cristã, São Paulo-SP. 1ª Edição, 2011. p. 429

[2] Idem.

[3] BAVINK, Herman. Dogmática Reformada Vol. III. Editora Cultura Cristã, São Paulo-SP. 1ª Edição, 2012. p. 405

[4] MULLER, John Theodore - Dogmática Cristã. Editora Concórdia. Porto Alegre-Rs. 4ª Edição, 2004. p. 288, 289.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

O Fundador Imperial

    Conta a narrativa da Escritura que Caim foi o primeiro filho do primeiro casal (Gn 4.1). Segundo a lei mosaica ele seria o primogênito da família, o herdeiro por excelência. Mas por certo desígnio da providência divina, a eleição caiu sobre Abel – curiosa disposição divina essa que em Gênesis parece, por graça ou gracejo, preterir os filhos mais velhos nos grandes empreendimentos de redenção e eleger os mais novos (com certas exceções) – e unido isso à não sensibilidade de Caim em relação ao plano divino acabou o enchendo de ódio (4.4-6). Devemos olhar para Caim e contemplar a calamidade de uma alma quebrada. Mesmo ali em seu estado de ódio ele ouvia a voz divina: Se, todavia, procederes mal, o pecado jaz à porta; e o seu desejo será contra ti, mas te cabe domina-lo (Gn 4.7.bss) A questão é que da trágica Queda nasce o primeiro assassinato que já desponta em sua versão mais cruel, ou seja, o fratricídio (assassinato de irmãos).

Narra Gênesis que após o assassinato de Abel Caim fugiu para leste do Éden, fugindo da face do Senhor desejando a morte pelo peso de uma culpa que ele não pôde suportar, e ainda assim fundou um modelo de vida criando a primeira cidade do mundo. Sua relação com a terra, ao que parece, o obrigava a isso, diferentemente do modo peregrino de vida exigida por uma atividade pastoril incipiente. Aqui não precisamos cair na tolice de achar cidades algo essencialmente mal, mas a princípio, para o cumprimento do desígnio divino de espalhar a humanidade sobre a terra, isso parecia ser um empecilho. Se olharmos firmemente para Gn 4 em diante veremos que da descendência de Caim pareceu surgir todo tipo de técnica industrial, musical, equitativa e mesmo bélica, ao passo que a descendência de Sete, Enos, teve o feito notável de fazer com que em seus dias se começasse a invocar o nome do Senhor. Aparentemente enquanto que a descendência de Caim se aperfeiçoou na mundanidade, a descendência de Sete, da qual veio Noé, se aperfeiçoou na espiritualidade.

Como dissemos acima, em Caim e Abel se dividem dois povos, e de Caim seguiriam os descendentes espirituais feridos na consciência (Gn 3.15) que fariam do poder do mundo o fim almejado, ao passo que do legado espiritual de Abel (e não físico) seguiriam os descendentes cuja marca é a peregrinação espiritual e a busca por Deus, fim absoluto posto a todo homem neste mundo e nesta vida. E entendamos que essa leitura simbólica de Gn 4 é pertinente aos interesses do Evangelho, não para criar a ilusão de uma satanização das cidades do mundo, pois visualizamos uma cidade que desce dos céus, (Ap 21.2-4), e nem para demonizarmos as ciências, mas sim para nos atentarmos para o sentido espiritual do perigo de quem usa da pátria terrena a ponto de esquecer da pátria celeste, já que nos é ensinado a nos servirmos do mundo como se dele não usássemos (1Co 7.31), o que nos previne de fazermos do transitório o permanente e do relativo o absoluto, deformando a nossa alma e nos esquecendo de Deus.

Abel e o Sinal da Graça

    Quando afirmamos que a humanidade foi abandonada por um justo juízo ao poder das trevas, tal afirmação só pode vir acompanhada com as mais firmes e duras aspas, e isso é já claro, como dissemos mais acima na penúltima devocional, em Gn 3 onde Deus promete uma descendência humana vencedora contra a descendência, também humana, da serpente. Mas avançando para além do primeiro casal vemos já em Abel um sinal claro e concreto da esperança, além ficar evidente no mesmo Abel que a relação entre a humanidade e Deus não havia padecido ainda de uma brutal e completa ruptura, como se esperaria da exata pena merecida pela transgressão do primeiro casal. Abel assim é, mesmo que alheio à técnica da oração que haveria de ser aplicada na época Enos, o neto de Adão, a mensagem da comunicabilidade divina ao homem, comunicabilidade responsável por transmitir graça e misericórdia. Abel é um sinal da fidelidade divina presente apesar da infidelidade humana.

    Abel surge na narrativa de Gênesis como um símbolo que concentra significados importantes. Seu nome (הָבֶל = hāvel) significa vapor, sopro e como uma névoa que logo se dissipa com o calor do sol assim foi a brevidade da sua vida, ceifada em função da inveja assassina do seu irmão. Lamento semelhante é possível fazer a respeito do tempo da vida de Cristo, pois: E quem pode falar dos seus descendentes? Pois ele foi ceifado da terra dos viventes (Is 53.8b), versículo que indica a morte das possibilidades ocasionada por uma partida prematura. Abel é símbolo do bem que padece. Mas também Abel simboliza o espírito da profecia, pois levou diante do Senhor as primícias do rebanho e gordura deste, ao passo que, sendo lavrador, Caim trouxe uma oferta dos primeiros frutos da terra. Mas Abel antecipa nesse ato, ao qual Caim não foi sensível, todo sentido do sacrifício e da expiação de pecados que seriam realizados por Cristo. Também vemos aqui a separação espiritual de dois tipos de povos, o povo da terra simbolizado por Caim e o povo peregrino sinalizado por Abel.

Sobre esses dois últimos elementos há muito o que dizer, e se analisarmos bem Abel e Caim fazem o par dualista do qual seguem os dualismo entre Deus e a serpente, a morte a e vida, o Egito e Israel. Sendo constituído de povos ligados à terra, parece que a princípio a Escritura abomina aqueles que constroem impérios – como veremos mais adiante –, ao passo que elege um povo pastoril ligado à prática de peregrinação (Abraão, Isaque e Jacó), prática que é incompatível com a posse de terra. Vemos essa mentalidade ainda em Gênesis, onde os egípcios, o povo da serpente, império agrícola cujo exercício de poder foi anti-divino, abominam pastores (Gn 43.32), ou os povos peregrinos. Nesse sentido é interessante que a Escritura defina os cristãos como peregrinos e forasteiros (1Pe 2.11), povo que tem por modelo a Jesus, alguém que não tinha onde reclinar a cabeça, ao contrários dos pássaros e raposas que possuem seus ninhos e covis (Lc 9.58). A questão é que a espiritualidade do Filho de Deus evidenciada por Abel abraça a liberdade em relação ao mundo, sendo sensível à voz do Espírito; e não sendo de forma fundamental preso à terra, faz com que a sua alma se desprenda deste éon (século), pelo Espírito, em direção à eternidade.

Paraíso: Saudade ou Esperança?

    O Éden é algo que desperta nossa imaginação em função do poder que a noção do estado paradisíaco exerce sobre nós. Assim, pensamos no Éden como o espaço físico ímpar que sediou a existência do homem dotado de perfeição e de posse da justiça original que nos abandonou em função da primeira transgressão da raça. É bem claro à vista disso que não somente localizamos o Éden atrás de nós, mas também o antepomos ao nosso futuro, não tendo dele consideração apenas por aquilo que foi, mas, acima de tudo, visando seu significado, aquilo que ainda pode ser para nós, como um fim superior acima do nosso decaído estado presente. O Éden nesse sentido é também um símbolo que condensa as nossas mais altas esperanças, e exatamente por isso ele vem a ser para nós uma tela de fundo que projeta uma luz pela qual enxergamos o estado presente da nossa vida. Quando nos referimos à Queda, assinalamos, mesmo inconscientemente, uma vida superior que não é presença, mas que é saudade e ao mesmo tempo esperança.

Aparecendo na Escritura pela primeira vez em Gn 2.8, a palavra Éden provém do termo hebraico עֵדֶן (‘ēden) significa prazer ou deleite, indicando que o lugar que comportava esse estado de perfeição do homem era um lugar aprazível, agradável e prazeroso. Fica clara a noção de que o local rescendia humanidade, como uma casa agradável que ignora qualquer espécie de fratura, brutalidade, sofrimento ou dor. Assim, quanto mais vamos revirando o significado do estado paradisíaco, o Éden de Gênesis, mais vamos nos encontrando com a nossa máxima esperança, e toda a experiência atual que temos do estado da presente vida nos faz imaginar o quão poderoso é o desejo pela perfeição que não temos, algo que fica muito mais impressionante quando contemplando o próprio sofrimento pelo reflexo da perfeição, já que o sofrimento sequer faz sentido sem um desejo pela perfeição, pois toda a dor é o profundo lamento de um estado agradável que já não possuímos mais. Aquele que está doente quer de volta a saúde que possuía, qualquer triste quer uma felicidade que já não tem.

Nesse sentido, a dor nos sinaliza a ausência de algo que outrora foi presente, nos remete a uma saudade e a uma esperança, indicando que sentimos saudades de uma perfeição agora ausente. Contudo, apesar de o Éden suscitar saudade esperança, a revelação da Escritura não nos promete uma simples restauração do paraíso edênico. Não existe restauração na bíblia, pois a revelação divina não conhece uma história que se repete, mas que avança para um destino melhor, e maior, pois assim como Adão é menor do que Cristo, o Éden é menor do que Jerusalém. Não estamos voltamos simplesmente a um início bom, mas avançando para um futuro melhor. É justamente por isso que não podemos conhecer a constituição das muralhas de Jerusalém analisando nosso próprio coração, nem o coração mais íntegro, pois lá será posto aquilo que olho jamais viu, o que jamais subiu ao coração do homem (1Co 2.9), pois essa realidade só pode ser comunicada pelo Espírito, que é o Espírito da Nova Criação, o que não impede que ela seja compreensível pela nossa saudade do paraíso.

Agnus Dei: A Promessa da Esperança

  Gn 3 é uma coleção surpreendente de informações que constituem, na verdade, a ossatura de toda a mensagem divina da escritura sagrada. É impressionante como em tão pouco espaço pode haver em um só núcleo uma mensagem com potencial de desdobramento em outras mensagens tão distintas e variadas, sem, contudo, comportar qualquer contradição entre elas. De Gn 3 podemos falar toda uma vida e não esgotaremos a sua mensagem, nem mesmo será desgastada a sua verdade ao longo de toda a existência do nosso mundo como ele é hoje. Entre essas informações de Gn 3 encontramos aquela figura misteriosa, tão poderosamente carregada de promessas e esperanças, mas ao mesmo tempo reveladora a respeito do preço da redenção do homem, que é a figura das vestes dadas por Deus para cobrir Adão e Eva da nudez da qual se tornaram cientes a partir do momento em que transgrediram contra Deus.

O animal do qual proveio a pele que serviu de vestimenta a Adão e Eva não é especificado. Mas é sugestivo que as “peles” que vieram desse animal tenham servido justamente para remediar uma situação criada depois da queda. É evidentemente provável que tenha havido um sacrifício, pois o termo “pele” (עוֺר) tem relação com a pele animal, humana ou não, e a questão se torna mais interessante pois o termo עוֺר (‘or) tem relação com a “nudez”, sendo empregado nesse sentido em Hc 2.15, indicando que, como uma troca, a pele do animal foi usada para cobrir a pele dos homens. E se a morte do animal não é a informação fundamental do texto, certamente o tipo de uso que permitiu que esse animal viesse a ser útil para remediar a situação do primeiro casal não deixou de ser o sacrifício. Nesse ponto é importante atentar para o sentido da palavra expiação. No texto original essa palavra é kipper (כִּפֶּר) e significa essencialmente “cobrir”, como evidencia seu uso para sinalizar o ato de Noé de cobrir de piche a arca (Gn 6.14), embora o termo “vestir” em Gn 3.21 seja distinto de kipper.

Como foi dito acima, não é possível precisar exatamente o animal sacrificado para cobrir a nudez de Adão e Eva. Mas é certo que a associação de Cristo ao cordeiro, algo que remonta à interpretação cristã de Isaías 53.7, remonta ao animal sacrificado para expiar, i.e, cobrir o nosso pecado, trocando a sua pele, i.e., seu corpo e a sua vida, pelo nosso corpo e pela nossa vida. Assim, podemos localizar a expiação entre um dos temas de Gn 3, além do pecado, das consequências advindas do pecado e da promessa da libertação; e unindo isso à profecia messiânica da descendência que esmagará a cabeça da serpente presente também em Gn 3, é visível que o quadro da promessa da salvação vai ficando muito mais completo, pois além de prover a expiação Deus ali também promete a destruição do império das trevas ao qual o homem foi justamente abandonado. E nesse sentido temos aqui a profecia divina que prometeu ao homem transgressor a misericórdia, misericórdia alcançada e efetivada mediante o Agnus Dei, o Cordeiro de Deus que expia, cobre e retira todo o pecado do mundo.

O Devorador do Pó

  Uma das três maldições que se seguiram à transgressão de Eva, de Adão e da Serpente foi aquela na qual Deus condenou a serpente a tanto rastejar sobre o seu ventre como a comer por toda a sua vida o pó da terra. Essas figuras apresentadas em Gn 3 serviram de material especulativo para os cristãos ao longo dos séculos, e no contexto da igreja nascente, nos primeiros séculos, em que a interpretação alegórica (ou mística) dos textos sagrados era algo muito comum, muita reflexão criativa a respeito da narrativa de Gênesis ganhou espaço entre os cristãos para que, por meio de interpretação dessas figuras, ensinos morais e espirituais se tornassem padrão de orientação para os homens que buscavam uma vida ajustada à vontade de Deus, ajudando-os assim a compreender a realidade circundante na qual estavam inseridos e pela qual, de certa forma, eles estavam determinados.

Entre essas interpretações, uma muito interessante que busca colher o significado da maldição da serpente, especificamente no seu rastejar sobre o ventre e no comer o pó por todos os dias. A interpretação se funda na conhecida maldição que entende ser a soberba, o orgulho, a mãe de todos os pecados. O orgulho doentio da serpente foi o de se por a rivalizar com Deus, querendo, semelhantemente à ilusão que propôs para Eva, ser deus para si mesmo. O querer ser Deus para si mesmo a serpente fez de si mesma o centro do seu mundo. Para ilustrar essa questão, a acusação de Paulo contra os inimigos da Cruz em Fp 3.19 é que esses tem por deus o seu próprio ventre, sendo contrários à Cruz e ao amor de Cristo. Não seria esses homens aqueles que rastejam sobre o seu ventre? Não seriam esses aqueles que teriam o seu umbigo como o centro do mundo? A analogia é criativa, pois ela ilustra o fato de que rastejar sobre si, se perder sobre si mesmo, é necessariamente o destino do homem sem Deus.

Uma segunda figura da narrativa da maldição da serpente é aquela que afirma que a sua condenação seria comer o pó da terra. Irineu de Lyon, cristão do século (130-207 d.C.), foi um dos primeiros a especular sobre a inveja da serpente sobre o homem que ele disse ser cumulado de bens por Deus. Assim, nessa inveja arruinou a si mesmo ao buscar arrasar o homem feito à semelhança de Deus. Essa, podemos dizer, foi a primeira vez que a serpente comeu o pó da terra, já que o homem viera do pó, ou melhor, é pó (Gn 3.19). Assim o demônio seria condenado a buscar o pó, ou melhor, a destruição do homem por todo o tempo que vivesse, já que o homem, por uma justa ira de Deus, foi deixado ao poder do reino das trevas (Ef 2.1-10), sendo alimento da serpente, pois essa só vive para alimentar esse seu pecado. Mas a serpente foi obrigada ao ódio, já que na redenção a destruição da raça não logrou êxito, pois ao se fazer carne Cristo nos conquistou a salvação na Cruz, e ao buscar comer o pó da carne de Cristo, ela fez jus à própria condenação, ao mesmo tempo em que Deus ali nos deu a salvação.