quinta-feira, 27 de julho de 2017

O Supremo Bem



   Existe uma visão errada das coisas que está calcada na falta de compreensão sobre a verdadeira finalidade das nossas ações. O fim último das nossas ações é o bem e é esse bem que devemos perseguir se quisermos - obviedade das obviedades - alcançar algo bom em nossas vidas. Essa visão errada, na verdade, trata-se de um vício que persegue a grande maioria das pessoas e que se constitui na busca pela realização de virtudes ou produção de bens secundários: um é sincero, e acha que a sua sinceridade é um bem em si mesmo; outro já pensa que o bom é ser corajoso; outro é o ter saúde; outro uma boa posição social; outro já pensa que é buscar ser informado; outro visa o escrever bem; o outro o poder de convencer.
   A questão é que não sustentadas pelo bem todas as virtudes a cima listadas tendem a degenerar: o sincero pode vir a ser um inconveniente que não segura a sua língua em nome do decoro; o corajoso pode vir a ser um temerário que coloca a sua vida e a vida dos outros em risco por pura vaidade; a saúde do saudável pode fornecer amplo poder para a produção da sua maldade, algo que uma saúde fraca limitaria; a boa posição social pode fazer com que se use a influência para destruir maliciosamente adversários; o que é bem informado pode manipular informações apenas em benefício próprio; o que escreve bem pode fazer pessoas migrarem para uma segunda realidade e por em marcha delírios destrutivos; e aquele dotado de poder de convencimento pode usar de forma maligna esse poder para promover causas malignas.
   Já Platão, na República, e Kant, na Fundamentação da Metafísica dos Costumes, afirmam que o bem é a ideia reguladora e que pode ser expandida ilimitadamente sem se contradizer a si mesma, e que quando todas as coisas perdem de vista esta finalidade, tudo vem a ser corrompido. O fino ajuste das coisas requer para a sua própria manutenção uma constante revisão e revisitação do olhar avaliador e imperecível do bem. Se Platão vivesse em nossos dias, enxergaria horrorizado a expansão da técnica acompanhada de um declínio religioso e moral nas áreas em que justamente essa técnica cresce. No diálogo platônico chamado Protágoras há um mito em que Zeus, após a criação do homem, vê desesperado o fato de que Prometeu concedeu a esses a posse do fogo de Hefésto e as habilidades práticas de Atenas (as virtudes técnicas e científicas), mas sem o poder moderador das virtudes cívicas, fraternais e religiosas. Prevendo a extinção do homem ele encarrega Hermes de distribuir tais virtudes para que os homens não se matassem uns aos outros. Essa intuição é de primeira ordem e abre caminho para percebermos a necessidade de uma concepção atemporal de bem, ou, como diria Russel Kirk, de uma “ordem moral duradoura” que promova um bem duradouro e infinito ao homem.
   E por fim, tal ideia do bem se harmoniza claramente com o conceito cristão de amor, que se estende para além da simples noção de afeto. Em I Co 13, o hino clássico acerca do amor cristão, temos a incrível afirmação de que nem a distribuição total dos nossos bens aos pobres e nem mesmo o entregar o meu corpo para ser queimado e nem o conhecimento total nada valem se não houver amor. Entramos, por tanto, no terreno que ultrapassa a noção vulgar que confunde amor com egoísmo e com desejo de satisfação para si. O primeiro mandamento (Êx 20:2), que ordena a colocarmos Deus acima de tudo, nos faz perceber também que sendo Deus o bem supremo sem o qual nada do que existe poderia vir a ser, então, ou tudo é orientado n’Ele ou nada pode vir a ser bom para os homens. É por isso que não há diferença substantiva entre amar a Deus, amar o próximo e amar a si mesmo, como nos ensinou Jesus (Mt 22:37-40).

Corrupção e Equívocos



   Há uma visão equivocada de que a corrupção é o maior mal de uma República. Definitivamente não. Um exemplo claro disso é o que ocorreu com a Petrobrás, onde a corrupção causou um prejuízo muito menor do que a política de preços de combustível, na insistência do Governo Dilma de não repassar o aumento de preços e fazer a empresa arcar com os custos - o que ocorreu também com a Eletrobrás, quando Dilma baixou o preço da energia, incentivando o consumo, o que acabou por precipitar o país na crise energética, pois não haviam fontes de energia suficientes para suprir a demanda. Foi justamente esta política de preços desastrada que levou o país à ruína, ao desemprego em massa e à maior recessão da sua história. Há mais coisas entre o céu e a terra do que imagina a vã filosofia dos puritanos escandalizados que imaginam que a corrupção é o maior mal em um país. Não, a estupidez também é um imenso mal, e o pior disso é que o estúpido - como a Dilma - pensa que a sua estupidez é ao mesmo tempo o clímax da virtude, já que um indivíduo assim está plenamente convencido da sua própria bondade. Não é difícil prever que um governante assim está predestinado a levar o país à ruína.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Elementos do Direito Natural



   A ideia de direito natural afirma a existência de uma justiça fundamental que é passível de ser captada pela razão. Tal ideia se baseia no fato da existência da verdade. As dificuldades não são poucas na tarefa de afirmar tal hipótese, já que logo surge a objeção de que há uma variedade de noções de verdade e uma variedade de noções de justiça. Mas logo após a constatação desta pluralidade de concepções de verdade e de justiça - ou mesma da afirmação de que não existe a verdade e nem mesmo a justiça -, surge assim mesmo o estupor, já identificável no surgimento da filosofia, de que é justamente esta pluralidade que exige da nossa razão a resposta concernente à Verdade e à Justiça. 
   A aventura humana pela busca de uma unidade da razão com uma verdade fundamental permeia toda a história da religião e da filosofia. Essa é uma busca que nos parece estar vinculada à essência do animal  reflexionante que é o ser humano e na busca da compreensão pela realidade das coisas tal como são. O choque da existência, ou a ameaça do não ser, o afundamento do homem na mais absoluta contingência, o que parece fazer do homem alguém plantado em pântano movediço que escoa para o nada, onde tudo é incerto e aniquilação, parece levar o homem à pergunta pelo Ser. O estupor gerado pela barbárie violenta que nos cerca e que cerca a história leva o homem a perguntar pelo fundamento eterno da própria realidade. A aniquilação violenta perpetrada pelos homens e pela natureza, ainda que nos leve a pensar e acreditar que estamos vendidos à aniquilação e à violência, provoca no homem a necessidade de uma resposta que é ao mesmo tempo uma experiência que justifica uma ordem no interior da história. 
   Ainda que se possa afirmar que todo o processo racional do homem na busca pela verdade e pela justiça seja um derivado do seu medo diante da violência da natureza, é fato que entre todos os animais o homem é o único que se faz a pergunta pela verdade, pela justiça ou pelo sentido da vida. A agonia da razão, ou as dores de parto do raciocínio lutam no homem para colocar no mundo uma verdade final e um sentido que justifique a  existência do próprio homem no mundo.
   Mas não é apenas as relações entre o homem e o mundo que o leva à pergunta pelo Ser. Também, e principalmente, é a relação dos homens entre si que leva à pergunta pela ordem verdadeira e pela pergunta pela justiça. A constatação do fato da existência de homens se matando, roubando uns aos outros e oprimindo uns aos outros o leva o homem à pergunta pelo ser. Não é pequena a dor que desencadeia o lamento doloroso e a busca de sentido entre homens que se ferem e que agonizam uns nas mãos dos outros. A terrível experiência de barbárie mútua, o temor pela vinda do tempo do levantar a mão de todos contra todos é o que também leva o homem pela pergunta com relação à perspectiva correta sobre a vida. Aqui também temos que constatar que a peculiaridade atordoante do fato de que o homem chora e geme por causa do sofrimento físico e que encarando esta desordem como algo não natural ou mesmo como uma violência ao seu ser, o leve também a perguntar pela ordem justa de todas as coisas. Essa intuição da ordem pode ser que seja a busca dos seus alívios existenciais. Mas o mais admirável de tudo é que penetrando pelo véu do sofrimento homens excelentes viram uma luz de ordem por meio da qual puderam enxergar a própria ordem da existência cuja dignidade não só serve ao fim do sofrimento físico, mas que também se constitui como o mundo da realidade fundamental que encerra a resposta à desordem do mundo existente e que, por isso mesmo, é a realidade mais sagrada de todas as realidades possíveis.
   Ao recorrer a livros de filosofia e à literatura das grandes religiões percebemos que essa experiência de ordem tem os traços da experiência mística, pois é essa própria experiência: a experiência da ordenação da alma por meio do vislumbre de uma ordem espiritual transcendente. À filosofia platônica temos a afirmação surpreendente da existência do suporte de um mundo noético não visível pelos olhos humanos, mas apenas aos olhos da mente. Não é a vulgar experiência racional, mas sim uma experiência de uma Razão ordenada pelo Ser e que revela o próprio Ser e que confere forma e ordem a tudo o que existe. A visão dos traços racionais na natureza por meio da filosofia e da experiência cristã com o Lógos está no início da empreita científica, pois essa supõe uma ordem de existência acessível à razão humana. E ainda que a ciência moderna tenha praticado um parricídio, seus antecedentes na filosofia mística dos gregos e na teologia monoteísta cristã é algo que não pode ser negado. 
   Mas a natureza da experiência mística convence de que ela é a mãe de todo ordenamento no mundo por supor que há uma ordem fundamental e imperecível para o mundo. Essa ordem pressupõe uma substância divina, pois só a ordem eterna é uma ordem segura a um mundo ameaçado pela desordem destrutiva. Não por acaso, o terror niilista que ameaça com o afundamento do mundo na contingência é o medo básico de todo homem. Com isso não afirmamos que esse seja o nome usualmente dado para as experiências de terror do homem. No entanto, o medo da loucura, da morte, da guerra total, da violência generalizada no seio familiar e na cidade, o medo da miséria absoluta e a destruição das pedras de sentido são basicamente o medo da manifestação atroz da contingência através da negação do ser com o afundamento da realidade no não ser. Em fim, temos medo do triunfo do mal. Contudo o medo, como medo, deve ter como característica uma ameaça à integridade humana e assim ser isso a resposta definitiva para o homem no mundo. A radicalização do pensamento sobre a integridade nos leva ao vislumbre de uma realidade sempre íntegra. Contudo essa experiência de integridade perfeita não seria o que é a não ser por meio de um fato posto pela própria realidade eterna a que nos referimos. Ao nos darmos conta da distância qualitativa entre nós e a realidade eterna, devemos chegar à consideração de que ela é um dado presente sem o qual a ideia de eternidade não seria possível. Assim também, não teríamos a experiência do mal se já não tivéssemos tido a experiência do bem e se essa experiência não fosse um fato dado antes mesmo da experiência do mal. 
   Chegamos aqui a um ponto crítico e decisivo da nossa reflexão: o que começou por uma reflexão sobre a experiência do sofrimento se revelou como a reflexão sobre uma realidade secundária por sua própria natureza. Refletimos sobre o espanto cósmico do homem por meio das inúmeras ameaças da natureza; refletimos também sobre o espanto do homem frente ao homem e as terríveis experiências de sofrimento e dor que os homens causam uns aos outros; refletimos sobre o anseio por uma ordem sem sofrimentos do homem e o vislumbre desta ordem na própria ânsia pelo não sofrimento; assim chegamos à espantosa afirmação de que em todas essas coisas o bem era algo pressuposto na própria reflexão sobre o sofrimento do homem. Partimos da constatação sobre o sofrimento e vimos que não há sofrimento sem a experiência de integridade violada e que não há integridade violada sem uma realidade precedente da integridade em si. Tal vez o registro mais marcante de que "no princípio era o bem" seja o relato do paraíso presente no Antigo Testamento. Aqui afirmamos a mesma coisa. Também afirmamos a nossa hipótese otimista justamente pelo fato de que a experiência de ordem eterna para a razão humana é uma experiência de fato. E sabemos que não existe busca pela justiça que não esteja alicerçada nesta ideia de uma justiça ideal e eterna sem a qual seria impossível a pergunta pela própria justiça. Assim também afirmamos que sem essa realidade primordial de uma justiça eterna a barbárie e a violência estão justificadas e o fundamento do mundo não é nada além do que um caos aniquilador.

domingo, 9 de julho de 2017

Sentido e Sacrifício


   A relação entre sentido e sacrifício é absoluta, pois tudo o que faz sentido para a gente é também aquilo pelo qual podemos nos entregar plenamente em sacrifício afim de tornar efetiva a objetivação desse sentido no mundo.

   Se o sentido e a vida do cristão estão em Deus, então essa vida é marcada pelo signo da renúncia da cruz que se carrega com o objetivo de manifestar a glória de Deus. Se o sentido da vida é a glória e o poder pessoal, essa vida é vivida sob o signo do egoísmo, e então se sacrifica a honra, a verdade e mesmo a vida de quem se ama em nome da satisfação desse objetivo.
   Dois caminhos e dois sentidos de vida nos são propostos aqui: ou renunciamos a nós mesmos, buscando o sentido em Deus, renunciando o eu em nome de uma Verdade que nos é superior, ou nos fechamos em nós mesmo e sacrificamos o mundo e tudo o que existe para que possamos ser soberanos sobre todas as coisas.
   O primeiro caminho é o caminho de Jesus Cristo, que por Deus e pelo homem se entregou a si mesmo, pois tinha em vista aquilo amava; e o seguindo caminho é o do demônio, que vê o mundo como meio para a realização da própria glória.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Cristianismo e Formação


   O encontro do conceito de discipulado do cristianismo com a ideia de formação (paideia) grega formou como que a crisálida onde o nosso mundo ocidental foi formado. Queiram ou não, até o anti-cristianismo desta parte do mundo se serve de conceitos cristãos. 
   Se alguém diz que a igreja é intolerante, sem perceber o indivíduo recorre à ideia de tolerância formada seio do cristianismo, algo que não tem paralelo no mundo antigo. Se alguém faz a critica temerária sobre a violência de Deus no Antigo Testamento, dizendo que isso contrasta o conceito de bondade, o indivíduo se vale do conceito de bondade e misericórdia cristão e platônico, pois esse último foi crítico à maldade e perversidade dos deuses da mitologia, sustentando que Deus não é a fonte do mal, um conceito apropriado e desenvolvido grandemente pela teologia cristã.
   A grandeza do cristianismo reside no fato de que os seus inimigos não conseguem ultrapassá-lo conceitualmente e não conseguem criticá-lo senão com fragmentos de ideias e conceitos que lhe são constitutivos, isto é: qualquer tentativa de ultrapassar o cristianismo é, ao mesmo tempo, queda no nível moral e no nível do pensamento.

terça-feira, 27 de junho de 2017

A Ideologia e o Silogismo Assassino

   A ideologia é uma espécie de silogismo assassino. Pense bem: o que todos os movimentos ideológicos, desde o jacobinismo francês, o comunismo, o nazismo, o anarquismo - aquele movimento que entendia que um detonador impulsionava o movimento da história -, o jihadismo moderno et caterva não fizeram se não produzir uma razão para roubar, matar e destruir? Mas todos tem um atrativo comum: acreditam na santidade de suas razões, matam em nome do bem, da liberdade, da humanidade, da justiça, como se convocados à matança e para a destruição por uma razão transcendente. Mas faz parte do mal-caráter o se refugiar atrás de uma doutrina para por em circulação o seu impulso destrutivo e assassino.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

A Necessidade de um Delírio Novo


   Para lembrar um velho adágio, sabemos que a vastidão do nada, quando habita a mente, torna essa a oficina do demônio. Essa sabedoria proverbial pode ter sua verdade comprovada nos diversos domínios da vida. Para um sociedade sem espírito, quando farta de si mesma, não é estranho que de súbito ela seja tomada pelo mais assombroso desejo de morte. Essa destruição maravilhosa, por mais que ostente uma certa aparência de prodígio, ou de uma irrupção misteriosa, trata-se do fruto amadurecido da preguiça e do cultivo da letargia que quando faz rebentar seus primeiros brotos, a todos torna notório o odor de sua podridão cultivada.

   Não é sem razão que foi destacada nas primeiras linhas a cima a expressão "sociedade sem espírito". O que me leva à sua utilização é a intuição que sempre me acompanhou de que uma certa violência brutal é sempre o resultado de uma negligência cultivada. A estupidez e a violência dos bem intencionados tem um quê de um atalho desprezível, de um salto sobre as etapas de um esclarecimento meditativo que, para os impacientes de espírito, soa como um aniquilamento místico a que sucumbe o homem suspenso eternamente diante do horror de suas dúvidas, o que no mais das vezes o condena à inação. É isso, e não outra causa, que faz com que os ativistas sejam tão burros em seus empreendimentos, pois as suas percepções não passam pelo crivo da abstração, mas partindo da imagem percebida, seus sentimentos são transformados em ações tão logo os movam, o que acaba por fazer perecer suas atitudes no abismo da irracionalidade.

   A crueza brutal tem esse aspecto de selvageria bárbara, e é devido a essa convulsão de sentimentos que faz a razão ser eclipsada que um determinado ativismo se torna tão atraente, pois oferece uma espécie de razão transcendental a partir da qual a vida tem algum sentido, mesmo que obscuro. Por mais grotesco que possa parecer, sempre é reconfortante se conceber como estando do lado certo da história. E melhor é quando não precisamos pensar muito sobre isso. São as simplificações terríveis do dia que nos revelam o quão animalesco pode ser o homem quando abandonado ao seu próprio sentimento e pior ainda quando aliado a uma motivação transcendente, se encontra à mão aquela ideologia que concede fundamento à sua vaidade moral. Animalidade e vaidade moral foram os dois ingredientes que constituíram a explosividade do nazismo e do marxismo, ambos matando em nome de uma razão superior: um em nome de uma suposta supremacia racial, o outro em nome dos decretos da história. 

   É impressionante o quão sujeitas se encontram as sociedades modernas ao contágio de apelos messiânicos. O vácuo espiritual que o materialismo ocidental causa cria um espaço insalúbre propício para o nascimento de delírios utópicos, fruto de uma espiritualidade degenerada casada com um desejo materialista não totalmente satisfeito. Os detritos do cristianismo no ocidente pôs em circulação um espírito revolucionário insatisfeito com a não conquista da eternidade, e, à maneira dos Titãs, não podendo assaltar o céu, trouxemos a destruição sobre a terra. Contudo, o caso interessante do ocidente é que a falta de espírito o faz ter também falta de forças para morrer. Não acreditamos em nossas utopias, que são para nós epenas um passatempo articulado no vácuo de nossa vida insatisfeita. Contudo, outros, para a sua própria desgraça, acreditam por nós. O refinamento ocidental não o deixou que ele fosse pego pelas suas piadas sinistras. O caso da China e da Rússia é emblemático porque tratam-se de nações que levaram a sério até à morte uma trapaça que inventamos por não termos nada mais sério a fazer. Como puderam eles crer em uma ideia que exigia muita fé para ser crida e que foi forjada em meio a uma sociedade que já não tinha fé alguma?

   Por outro lado, ao que parece, tal piada não pode ser negligenciada em seus efeitos, já que tende a agregar sentido àqueles que já não tem mais esperança. O avanço de ideias totalitárias deveria nos convidar à consideração sobre a miséria do nosso mundo. Dois mundos infinitamente se afastam tragicamente nessa história toda até o ponto de unidade absoluta: o mundo dos cínicos e o dos desesperados. Os cínicos inventam cosmos inacreditáveis por passatempo; os desesperados, por lhes faltarem esperanças, engolem tudo o que possa desatola-los do meio desta realidade pútrida, miseravelmente fria e cadavérica, o que acaba por atolá-los cada vez mais no lixo da existência. As necessidades de um novo delírio revelam o vazio dos cínicos na medida em que eles necessitam de uma pequena faísca mística de emoção para sobreviver, mas que eles são incapazes de manter acesa até o fim por lhes faltar amor e a fé necessária para acreditar em Deus ou em si mesmos; e por outro lado lançam luz sobre os existencialmente desesperados, que por estarem deformados pela ausência de esperança, afogam-se em um nada violento e desolador, visto que não possuem mais nada a perder. Qual o sentimento em meio a tudo isso se não uma mescla de ira e compaixão, de apelo à espada e à misericórdia diante do escândalo da existência? O ideia de um mundo condenado a um drama sério que nos convida a crer que tudo nasceu para dar errado não é de todo infundada, mesmo que a crença nisso faça aniquilar o nosso próprio espírito em niilismo. 

   Diante disso, é somente pela fé que ainda podemos assegurar que o mundo foi formado por um Deus bondoso, pois é isso o que a nossa razão pede para que ela não possa morrer e para que o mal não seja justificado diante da história. A necessidade de um novo delírio é fruto do tédio e do desespero, mas é somente a presença de Deus e de um amor crucificado que pode salvar a nossa razão do delírio que a nossa vida pede para não morrer de inanição de sentido; contudo é bem sabido que esse delírio não nos faz viver, apenas acelera tragicamente a nossa própria destruição. 

sábado, 4 de março de 2017

Cristo a Filosofia e a Ciência

Na Bíblia o livro dos Provérbios, no capítulo de número 8, temos os famosos versículos sobre a eternidade da sabedoria, sendo que por ela Deus mesmo criou todo o Universo e fixou nele LIMITES. Ao mesmo tempo temos uma exortação no livro a buscar em nossa vida, sobre tudo, a sabedoria. No Evangelho de João, no capítulo de número 1 temos a informação de que TUDO foi criado por meio do VERBO (que é Cristo), e a palavra VERBO é a tradução do grego da palavra LOGOS, que significa a RAZÃO ESTRUTURANTE, ou o princípio de compreensão de todo o Universo. No livro do apostolo Paulo aos Colossenses (1:13-19) temos a afirmação de que em Jesus tudo foi criado e que tudo subsiste nele, assim como em 2:3 afirma que todos os tesouros da sabedoria e da ciência estão nele, e que isso foi conferido à Igreja.
Os Escolásticos Medievais e os Pais da Igreja (do período nomeado Patrística) levaram isso a sério, elaborando - no caso dos escolásticos - o método de exposição geométrica da teologia, onde dos axiomas da unicidade de Deus toda a teologia era derivada juntamente com a revelação bíblica em um discurso racional coerente e sistemático sobre a fé. A união entre a Filosofia e a Teologia criou o direito e a doutrina dos Estados na Idade Média, assim como formulou todos os princípios da investigação científica. A ideia de que há uma RAZÃO ETERNA no Mundo e nos corpos físicos, ou seja, a ideia de uma ordem pré-estabelecida que é a justificação própria das ciências modernas, foi retirada da teologia cristã e das filosofias platônica e aristotélica, que afirmavam que todas as coisas são guiadas por processos inteligíveis à RAZÃO (algo possível por causa da compreensão de que o homem é capaz de entender por sua razão a RAZÃO DO MUNDO), e que se são verdadeiros são verdadeiro permanentemente, ou melhor, eternamente.
Diante disso, vemos que muito do progresso científico tem um pé calcado em princípios teológicos que mesmo após a secularização da cultura são ainda necessários para a possibilidade das ciências - pois se isso não é verdadeiro, como a ciência pode crer na razão humana se ela não consegue entender, pelos métodos da ciência experimental, o que é a razão? Uma ciência niilista é um absurdo em termos, e é, por assim dizer, a razão de destruição da própria ciência. Mas não é só isso, o ódio anti-intelectual que impera na Igreja é, também, uma das razões da queda da importância da própria Igreja, quando esta decidiu entender que tudo é moral e razão prática (não que isso seja totalmente errado), acabando, no fundo, com os fundamentos da própria razão prática - pois, no fundo, de onde é que retiramos a nossa ideia de bem ou de mal a não ser por meio daquilo que os cristãos escolásticos ou os pais da igreja chamavam de razão natural, ou da capacidade do espírito humano de experimentar diretamente (intuir) no real o Fundamento da Estrutura da Própria Realidade? Se assim não fosse seria um absurdo a Bíblia exigir, no livro dos Provérbios, a buscar sabedoria para a nossa própria vida prática.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Teologia Anti-Teológica

Qualquer um que em nome de uma "vivência direta com Deus", que em nome da "fé viva", nega a teologia, no fundo está também fazendo teologia, pois teologia é discurso sobre a fé ou comentário às Escrituras Sagradas ou às experiências com Deus. O resultado prático é o seguinte: anula-se todo tipo de teologia e, no lugar delas, colocamos a opinião do teólogo que DIZ que a "experiência direta" é a mais importante (que nada mais é do que uma afirmação teológica).
Essa é a mesma dinâmica que inunda a ideia de que a fé é antagônica à religião, pois se anula toda espécie de religião em nome de uma ideia que está cravada na cabeça daquele que diz que fé é antagônica à religião - e ao fazer isso aquele que ouve essa maravilha de ideia cria uma observância fiel e estrita à ideia, ou seja, caindo no processo religioso que (ou pseudo-religioso) que ele dizia negar - haja "çabiência".
Mas é claro, hoje o mundo é movido na base do clichê, do jargão, pois no fundo no fundo ninguém mais sabe o significado real daquilo que diz ou daquilo que diz acreditar. Invalidado está o preceito cristão de "fides quaerens intellectum", ou seja: a fé que busca a compreensão de si mesma.

O Domínio do Espírito: Da Educação Moral ao Amor ao Próximo


Entre os seus maiores doutores e mestres, o cristianismo sempre foi compreendido como o caminho que pretende proporcionar uma vida no Espírito. E isso quer dizer de uma vez por todas: o domínio da mente sobre as paixões e a exaltação dos bem eternos acima de quaisquer bens terrestres. O ascetismo cristão é, por tanto, a busca por uma vida na mente, e por isso vale dizer: uma vida sensata, sábia, fundada na razão e nas leis eternas que uma vez possuídas tornam possível o abrir de olhos para o verdadeiro propósito da vida humana. Do contrário o próprio cristianismo não seria o que ele arroga ser: universal e atemporal.

A reforma e o seu irracionalismo buscou, em parte, destruir essa universalidade ao tentar sobrepor um sobrenaturalismo absoluto à fé, retirando-a dos campos da razão, ciência, das artes etc - proibindo, por assim dizer, de Cristo encarnar na cultura. Este foi o lamento de Erasmo: "onde quer que o luteranismo chegue as letras caem"; este foi resultado da ira de Lutero ao chamar de prostituta a própria Razão. O resultado político do luteranismo foi, por exemplo, a cisão entre a moral e a política - lembrando a doutrina dos dois governos de Lutero -, que deu para a política uma espécie de liberdade absoluta, sendo uma das primeiras vítimas desse pensamento o próprio Lutero, que em seu escrito "Da Autoridade Secular", reclama de um efeito da sua própria doutrina quando os príncipes confiscavam os seus escritos: dar liberdade absoluta aos estados seculares.

Não nos surpreende que o estado prussiano tenha confeccionado uma constituição que se orgulhava de fazer uma separação entre moral e direito - pois dada a atmosfera religiosa e intelectual da Alemanha, o que a razão e a religião poderia dizer ao governo, quando este se tornasse absolutamente autônomo, livre de todas as peias morais? Ou outra: se a própria razão era incapaz de captar as leis eternas, em que a razão do legislador poderia se apoiar para conhecer tanto o bem quanto o mal? Não nego que o puritanismo luterano tenha fundado uma moral rígida entre os nórdicos. A questão foi justamente que Lutero legou uma crítica da razão que se levada a sério, em sérias circunstâncias, torna a defesa contra políticas irracionais algo substancialmente impossível. E um triste capítulo da história da Alemanha - que possui sim uma história gigantesca e venerável - não nos deixa enganados sobre isso.

No livro "A Abolição do Homem" de C. S. Lewis, há uma defesa fundamental da Razão Natural que não é de forma alguma negligenciável, perfazendo as condições para a compreensão e a defesa da fé, ou a preambula fidei, tal como se encontra na própria estrutura do livro "Cristianismo Puro e Simples", onde uma análise da razão natural capaz de compreender o bem e o mal constitui o ponto de partida para provar a mensagem universal do cristianismo. E aqui é importante lembrar que Lewis era um fiel da Igreja Anglicana, um ramo da Reforma que não aceitou o divórcio entre razão e a fé, dando continuidade à grande linhagem da filosofia espiritualista cristã que, grosso modo, dominou soberana em toda a história do cristianismo desde os Padres da Igreja até à Idade Média, assim como na Idade Moderna.

Mas onde desejo chegar? A minha busca é por colocar em evidência o matrimônio feliz entre a razão e a fé, sendo que a única possibilidade de uma compreensão profunda e relevante do cristianismo se encontra nessa união feliz, assim como a possibilidade de entendimento próprio do cristianismo e a razão de sua mensagem ser o que é, ou seja, universal. Da mesma forma, a possibilidade de uma educação cristã passa totalmente pelo crivo do poder da razão que, submetida à fé, é capaz de captar a sua essência e transmitir em palavras inteligíveis o que é um cristianismo.

Dizia no início do texto que o cristianismo é uma vida na mente, e que a vida na mente é aquele que, compreendendo, por meio da graça, as Leis de Deus, busca se submeter a estas Leis, sendo esta VIDA EM DEUS o bem mais precioso que um homem pode querer em vida, um bem que, ao seu possuído, torna todos os outros bens ou negligenciáveis ou submissos a este bem supremo que é a posse da vida em Deus. Nisso temos em mente também a ordenação da vida em meio ao caos do mundo. Trata-se daquele domínio puritano da alma que não permite ao homem se tornar escravo das coisas desta vida, mas senhor das mesmas. Nesse sentido não é o sexo, o dinheiro, o poder, a glória, o desejo de fama ou o estômago que nos dominam. Na verdade dominamos, por meio do auto controle, todas essas coisas. Pois é o pecado, a desordem na alma, que traz a desordem no mundo até o seu fim, que é a morte.

Por outro lado é a vida sob o domínio da mente ou do espírito que traz ao homem a possibilidade do amor, já que se domino os meus desejos, repartir o que tenho com o meu próximo é um ato de soberania que exercemos sobre nós mesmos. Por isso podemos dizer que só o homem espiritual, que entende a efemeridade do mundo e a eternidade de Deus, pode desfrutar verdadeiramente daquilo que possui, pois dar seus bens ao próximo é a característica de um homem que realmente possui e não é possuído pelo que tem. E somente aquele que possui seus bens pode dar a eles o destino que deseja, pois ao abrir mão do que se possui para ajudar a quem precisa, declaramos a soberania da nossa vontade para livremente, sem dor ou peso no coração, destinar o que é nosso a qualquer necessitado. É justamente aqui que Jesus Cristo se mostra verdadeiro, pois amar - que é a razão do próprio cristianismo - não é uma virtude possível ao avarento, mas sim para aqueles que se desprenderam dos pesos, do egoísmo e da ganância desta vida. Por isso, virar as costas para o mundo é a única possibilidade de amar a Deus e ao próximo, pois com isso conferimos ao mundo o seu devida valor na hierarquia dos valores.

E quem pode, com a sua própria razão, atribuir um valor diferente a tudo o que dizemos? A difusão da fé cria toda uma rede de costumes os quais são a causas de muitas leis e das instituições em nosso mundo ocidental. Na literatura, nas artes, nas ciências e por todos os lados podemos enxergar um vestígio de Cristo, e é causando essa ordem moral no mundo que podemos ver, também, um bem concreto desta fé no mundo. Mas o caos é sempre presente onde faltam a razão e a irradiação dos valores, dos quais participamos e não apenas conhecemos. Nunca é demais enfatizar aquilo que é óbvio: seja a razão prática do cristianismo, seja razão teórica no casamento entre a fé e a filosofia, a ordenação da alma do homem e o conhecimento desta ordem conferiram em muito as razões fundamentais das relações humanas presentes hoje; e é por isso mesmo que ensinando aos homens o domínio do espírito sobre a vida é que podemos espalhar valores que nada mais são do que o amor ao próximo, pois a educação cristã é o próprio amor ao próximo. 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

A Destruição Nominalista; Ou: A Ruína da Inteligência e a Queda dos Universais

   A tese fundamental do conceito nominalista repousa na ideia de que a percepção dos universais e a capacidade da linguagem expressá-los são impossíveis. Desde a sua afirmação por meio da filosofia de Guilherme de Ockam, o nominalismo nada mais fez do que cindir a inteligência, ou gerar a generalização inconveniente e o especialismo terrível. Uma é percebida nas ciências naturais, e a outra no igualitarismo totalitário. Em ambos os casos a humanidade é desmanchada por ser impossível não compreendemos mais o que significa "humano". A baliza normal da inteligência, que é a percepção do real e a capacidade subjetiva de entender o racional como possível, foi tragada pelo nominalismo.

   A questão hoje é materializada na ideologia de gênero, segundo a qual todos nascem como uma tábula rasa e vão sendo construídos ao longo da existência, até culminar na cristalização de um particular absoluto impassível de generalização e identidade com algo fora dele. O que era, no princípio, uma generalidade indiscernível, ou uma pasta amorfa, agora é um destaque absoluto desta mesma massa. Mas é óbvio que isso é um raciocínio falacioso em termos lógicos, pois não existem absolutos distintos que não sejam Um e o mesmo Absoluto. Mas só se tem a percepção disso se temos em vista os Universais que são como que o laço e o princípio de identidade subjacente a todos os particulares determinados, por estarem imersos e dissolvidos no mesmo Universo, ou Deus, participando, por isso, em seu Ser.

   Mas por mais que analisemos esta questão, por hora, do ponto de vista da filosofia, é necessário compreender também que o ser humano possui uma capacidade de imaginação infinita. E se se concebe de um modo imaginativo, segundo uma montagem mental, um constructo que agrega a si de maneira criativa de todas algumas formas possíveis em uma única personalidade, se tornará evidente também que no nível jurídico, qualquer lei que abarque uma determinada personalidade assim será algo impossível dado o grau de informações específicas, já que não há duas espécies de um gênero humano, mas infinitas. Não é possível que o Estado abarque e satisfaça todas as montagens mentais, já que elas entrarão em conflito umas com as outras – e com o próprio Estado de forma irreconciliável também -, sedo alguns conflitos reconciliáveis e outros conflitos irreconciliáveis, exigindo, por assim dizer, a extinção de um ou de outra personalidade, pois, por exemplo: é impossível a absorção de uma determinada particularização de alguém que concebe e põe em prática um constructo mental de demanda a extinção do Estado e da Humanidade, pois um direito que permite isso acabará com toda a possibilidade de sociedade humana. Não é possível, por tanto, descartado o princípio da identidade, uma particularização radical sem que essa particularização não entre em conflito com todas as outras particularizações radicais - veremos, no fundo, o conflito mais radical de todos contra todos: o temível advento do caos primordial.

   Já é possível perceber a partir daqui que sem um princípio de identidade as relações entre as pessoas são impossíveis. Mas também é impossível a absorção do Todo em um único e abstrato Eu, negando a particularidade de outros eus. As pessoas são particulares determinados que, em sua determinação biológica ou histórica ainda assim guardam um princípio de identidade que as unifica - tal como se encontra em nossa gramática - como "Homens", ou a "Humanidade". E é aqui que ideologia de gênero - que é o resultado extremo da quebra da percepção do real - chega a esses dois radicais: a particularização radical ou a generalização radical. Todas essas coisas destroem a inteligência, e atacam todas as estruturas da manifestação da inteligência nas suas mais diversas frentes: no direito, na teologia, na filosofia e na ciência. Mas tudo isso é o fruto maduro da filosofia nominalista que separando o geral do específico – tal como presente na escolástica medieval contra qual ela se rebelou - acaba por destruir a estrutura da Razão que sustenta ambos e que é o fundamento inteligível do Universo como um todo.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

O que ao Pobre Importa; Ou: O Registro de um Estranho Esquecimento

Muito mais do que a escassez natural dos recursos no mundo, é a falta de rigidez moral o que realmente prejudica o pobre. Não é por acaso a opção - de resto inteligente - que muitos dos pobres fazem por igrejas pentecostais de estilo clássico ao invés das igrejas protestantes e evangélicas tradicionais de hoje, e também da Igreja Católica - que desde a Alta Idade Média deixou de lado a austeridade e rigidez platônicas que caracterizaram o modo ascético de vida dos Padres da Igreja e dos anacoretas ao abraçar a prudência quase permissiva apregoada pela prudência da ética aristotélica.
No Brasil isso é um fato cujas esquinas das nossas cidades não me deixa mentir - a começar pela assombrosa distância numérica que separa a membresia das igrejas protestantes e evangélicas clássicas e a I. E. Assembleia da Deus, onde não é tanto o pão físico apregoado nos nossos púlpitos, mas o rígido estilo de vida que não permite que se gaste pão atoa. É lógico, por tanto, que a fixidez moral forma como que um cordão sanitário em torno do fiel, impedindo-o de vivenciar as delícias destrutivas do nosso belo mundo, algo que somente uma moral puritana pode produzir. Mas ao contrário disso, o aburguesamento da vida, e o costume ao conforto levam ao turvamento da razão e que acaba por produzir aquele raciocínio estranho de que uma vida moral plena é, antes, o derivado de uma existência rechonchuda, abarcando indivíduos bem agasalhados, e não o fruto de uma disciplina fundada na austeridade - um raciocínio que quase descredita a máxima de que nem só de pão viverá o homem. Esquecida está a evangelização dos pobres, tal como esquecida está a máxima de que aos filhos o que importa é a presença e o ensino e não um iPad vicário.
Como diziam os antigos, é a ideia que confere forma à matéria, e que é o espírito que deve trazer em seu cabresto as paixões que, deixadas aos seus caprichos, constituem a razão da ruína e da deformidade material do homem. Mas é óbvio que um rebaixamento do rigor moral em nome de uma "existência livre" não é algo que venha muito em auxílio dos pobres - e nem dos ricos -, assim como a ética da licenciosidade sexual e da permissão dos dez casamentos em vida não protegem a vida de ninguém, sendo muito mais terrível para a vida daqueles que, não tendo à mão a abundância material, nada de mais valioso dispõem em vida do que uma existência reconciliada de um lar estável e seguro - não é outra a raiz da prosperidade dos evangélicos e protestantes. Alguns liberais parecem deliberadamente se esquecer - por motivos bem claros -, mas é justamente por isso que a militância contra a moral "fundamentalista" dos conservadores cristãos por parte dos liberais é vista com tanta desconfiança por parte dos cristãos pobres, os quais enxergam, com extrema razão, na moral de ferro dos cristãos puritanos uma tábua de salvação pessoal que paira suspensa e invencível acima da superfície de um mundo que se afoga em um mar de iniquidade autodestrutiva.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Aos "Iluminados"


   Há fundamentalismos por outros meios. Por exemplo: se os liberais pensam que por se aterem a uma crítica excessiva aos "apegos fanáticos" daqueles que não arredam seus pés calejados de alguns trejeitos tradicionalistas que esses julgam ser algo "opressor" para outros grupos, nem por isso esses liberais estão longe do tão odiento fanatismo que dizem sempre estar no outro e nunca neles mesmos. 

    A militância intransigente e chulé dos "ilustrados" que vivem metendo o nariz na vida alheia, desejando prescrever-lhes os modos "corretos", "justos" e em "conformidade com a sã doutrina do pensamento racional", afim de que estes abandonem os maus hábitos "opressores" - como só aquela estranha mistura entre um Aiatolá e um surfista ocidental descamisado pode fazer -, lenhando e buscando, noite e dia, reformar a mente do seu próximo com uma nova metafísica, é algo muito mais fundamentalista do que o jeito de ser daqueles tradicionais em que eles acusam o fanatismo.

    Afinal de contas: reformadores sempre os tereis convosco - e principalmente aqueles que tratam seus semelhantes como verdugos, tal como aqueles que, entre nós, estão totalmente convencidos da missão redentora e messiânica de trazer novas luzes em um mundo que, antes deles, estava imerso em densas trevas. - e ai daqueles que não concordarem com eles: o inferno moral é o único destino.