domingo, 24 de dezembro de 2017

Os Pastores e a Filosofia

   A razão pela qual um pastor DEVE estudar filosofia é que não é possível compreender a cultura atual, ou responder aos questionamentos postos pelos problemas atuais sem recorrer à moldura filosófica na qual estes problemas vem vestidos a nós.
   Um exemplo disso são os problemas postos pelo positivismo e o socialismo, filhos débeis do hegelianismo, os quais são a encarnação apodrecida da escatologia (doutrina sobre as últimas coisas) cristã.
   Se o cristianismo afirma a comunhão com a realidade absoluta para depois da morte, as ideologias do positivismo e socialismo afirmam a unidade com o absoluto, ou com a realidade perfeita, na história, invertendo a promessa escatológica cristã.
   Uma ideologia, o positivismo, crê ser possível apreender a totalidade da realidade por meio da ciência, e o socialismo acredita que com a abolição da sociedade de classes o paraíso terrestre será instaurado. Em ambas as ideologias a questão principal que é posta é a eliminação das ambiguidades da natureza humana por meio da política ou por meio dos poderes da razão humana - como se o homem, que é o ideólogo, não fosse o seu próprio problema.
   Não por outra razão, por essas ideologias acreditarem ter encontrado a razão absoluta da história, surgem fanatismos e um autoritarismo hediondo, pois quem pensa ter achado a razão absoluta, consequentemente pode destruir ou matar quem se opõe à "verdade". A inocência em relação à natureza humana aqui é uma razão para rir e para desesperar.
   O cristianismo, ao contrário, por causa da limitação humana, não sabe ao certo quem são os bodes e os cordeiros, pois a transcendência de Deus não permite ao homem conhecer no todo os Seus caminhos e juízos, já que o Senhor está, em sua totalidade absoluta, para além da nossa razão.
   Mas mesmo que a verdade seja revelada, o cristianismo sabe que poucos são os filhos do Senhor que estão atentos à Sua vontade, e que mesmo esses contam com o flagelo dos seus pecados pessoais, o que demonstra que a humanidade não se encontra, pela corrupção que na história sempre teremos conosco, apta ao paraíso.

Ressurreição e Resistência

   A mensagem cristã da ressurreição é a mensagem da resistência à ação destrutiva das potências das trevas, ou, como está na bíblia, das potestades do ar, dos poderes que escravizam a mente e o espírito humano, afastando-o do liberdade para qual ele foi feito e sem a qual ele jamais pode desenvolver a sua própria humanidade.
   Essa ameaça pode se manifestar através da solidão, da ameaça de "não dar certo", de não ser aceito, ou desde às ameaças com peso psicológico originado pelo medo da não realização até as ameaças mais objetivas de perda de bens, de um lugar no mundo (seja isso uma propriedade ou um lugar no fluxo social) ou a ameaça mais crua de destruição física e morte. Ou seja, a ameaça do "não-ser", ou a ameaça do nada.
   O medo de "não realização", ou o medo da perda daquilo que já foi realizado (ou seja, a ameaça do nada), pode ser usado de forma demoníaca para escravizar o homem; contudo a promessa da ressurreição confere ao homem o poder de resistir a todas essas ameaças quando coloca a unidade total do homem com Deus como o topo da realização do homem, realização essa em relação a qual vale a pena lançar, com coragem, tudo ao nada, ou, de forma mais clara, o sacrifício de todas as outras coisas.

O Sábio e a Potência de Ser

Com isso, concluí tudo o que queria mostrar mostrar quanto à potência da Mente sobre os afetos e quanto à Liberdade da Mente. Donde fica claro o quanto o Sábio prepondera e é mais potente que o ignorante, que é movido pela lascívia. Com efeito, o ignorante além de ser agitado pelas causas externas de muitas maneiras, e de nunca possuir o verdadeiro contentamento do ânimo, vive quase inconsciente de si, de Deus, e das coisas; e logo que deixa de padecer, simultaneamente deixa também de ser. Por outro lado, o sábio, enquanto considerado como tal, dificilmente tem o ânimo comovido; mas cônscio de si, de Deus e das coisas por alguma necessidade eterna, nunca deixa de ser, e sempre possui o verdadeiro contentamento do ânimo. Se agora parece árduo o caminho que eu mostrei conduzir a isso, contudo ele pode ser descoberto. E evidentemente deve ser árduo aquilo que tão raramente é encontrado. Com efeito, se a salvação estivesse à mão e pudesse ser encontrada sem grande labor, como poderia ocorrer que seja negligenciada por quase todos? Mas tudo o que é notável é tão difícil quanto raro.

BARUCH DE ESPINOZA - ÉTICA

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Livres para a Escravidão

As pessoas que esperam corromper as leis, os costumes e a moral com a intenção de provocar uma "revolução", ou a "libertação", não se dão conta das potências que movem, podendo vir a ser vítimas do pesadelo social que elas próprias construíram.
Existem pessoas que na ânsia de fazer justiça violam as leis (como certos movimentos sociais e setores do Ministério Público ou do judiciário); que para promover a liberdade corrompem o sentido de família e da religião; que para promover a igualdade destroem a excelência e distinção entre o melhor e o pior; que para não "constranger" eliminam a distinção entre o que é inteligente e o que não é; e que para promover a inclusão apostam na igualação entre o bem feito e o mal feito ou entre o belo e digno do bagunçado e indigno.
No fundo todos os promotores modernos da "justiça", da "igualdade" e da "inclusão" desejam que os homens percam seus olhos e que sejam incapacitados para a realização de juízos de valor; contudo são os juízos que nos fazem distinguir entre o justo e o injusto, o humano do desumano, o certo do errado, coisas que constituem a divisa entre uma vida humana e o terreno da destruição de toda humanidade.
O único ponto de partida para a unidade entre os seres humanos é justamente a humanidade comum que partilhamos, e o pathos, ou o sentimento compassivo no qual nos enxergamos uns aos outros. Contudo não será destruindo ou degradando aquilo que nos constitui como homens que promoveremos a nossa unidade. E os promotores modernos da igualdade desejam a unidade na degradação e insensibilização, uma nação de homens insinceros e por isso corruptos e dados ao fechar dos olhos a tudo aquilo que é corrosivo para a sociedade humana.
Não esperemos disso a libertação, mas sim a corrupção generalizada e conversão da liberdade no comportamento licencioso de pequenos criminosos, algo típico de uma nação de escravos prontos para serem dominados por aquele que age com maior força e astúcia de coração.

A Tensão Existencial na Apreensão da Verdade da Fé

   Todo o cristianismo seria gnosticismo se Jesus, no momento da ascensão aos céus, tivesse dito: "voltarei tal dia e em tal lugar", marcando um momento limite, um fim da história no interior da história.
   Poucos cristãos ou pastores entendem isso, mas se Jesus tivesse dado uma certeza imanente na história, então a fé perderia sentido assim como viveríamos, como hegelianos, com o absoluto na nossa mente e deixaríamos de viver na tensão existencial da relação entre o tempo e a eternidade, perdendo o drama histórico no interior da nossa vida e a substância humana no interior da história.
   Poderíamos, como marxistas, ou como calvinistas radicais, sentar e esperar o bonde da inevitabilidade histórica passar. Contudo a fé se dá na incerteza do horizonte histórico e na imesão do nosso espírito no mistério divino, não sendo a fé uma mera ciência ou uma informação cuja posse nos daria a possibilidade de descansar de uma vez por todas, como deuses invictos ou como perfectis gnósticos. Não existe apocalipse humano na história que exclua a tensão e a ansiedade da tensão entre o tempo e a eternidade.
   Como cristãos, e não como totalitários que possuem o sentido pleno da história em nossas mentes, ouvimos: "levantem-se, pois não será aqui o vosso descanso", o que nos faz andar e viver no mundo, como peregrinos sem lar, inteiramente pela fé e em obediência ao chamado do Espírito Santo que nos conduz ao êxodo do tempo para a eternidade, da visão mundana para a visão eterna.
   Estamos a caminho!

O Cristianismo e o Discernimento do Mal

   O discernimento refinado do cristianismo sobre o mal tem a insuperável compreensão de que o mal, em sua malícia enganadora, vem vestido da aparência do bem. O mal pode se apresentar sob o manto humanista, benevolente, amante da humanidade e militando dissimuladamente em favor dos direitos inalienáveis do homem.
   E assim como é invertida a manifestação do mal, também é invertida a recepção da manifestação do bem. Alguns diziam de Jesus: "tem demônio", ou "ele faz isso por Belzebul, o príncipe dos demônios", e assim segue a recepção do mundo às boas-novas de Jesus, a manifestação absoluta do bem no mundo.
   Mas isso explica também qual é a qualidade da substância moral do mundo e a razão pela qual ele não pôde receber a Cristo como o Rei, cujo direito de posse do mundo está estabelecido por toda a eternidade. Ao invés da realidade do bem, segue o mundo acatando aquilo que apenas parece sê-lo e sem poder preencher a alma do homem com o que realmente importa.

Palavra e Desordem

   Se você raciocina na base de doutrinas e chavões, em palavras viciadas com significação negativa já pronta como "elite", "lucro", "capitalismo", tendo aversão à simples menção de alguma delas, você está, na verdade, rodando em círculos, pensando possuir uma autonomia de pensamento que não tem, se assemelhando mais ao Cão de Pavlov, que reagia de forma automática, sem o recurso do raciocínio, a estímulos provocados por meros sinais.
   Um dos remédios para esse mal é a análise do significado real das palavras, analisando, sobre tudo, de onde você adquiriu o seu amor ou aversão na presença de determinadas palavras. Dessa forma você recupera os sentidos das palavras e reestrutura a sua relação com a realidade, pois é função das palavras a mediação da realidade, mediação prejudicada quando elas vem cheias vícios ideológicos, pois nem sempre a "elite", o "lucro" o "capitalismo" são males historicamente evidentes.
   Contudo, quando as palavras sofrem essa perda da função mediadora por causa da ideologia, da paixão política e por causa da degradação social, então elas se tornam instrumentos de desordem pública e espiritual, sendo antes fontes de tormentos do que de reconciliação, o que demanda a recuperação de sua função original mediante a reestruturação da literatura e, em consequência disso, da imaginação moral que é um dos elementos básicos para a nossa orientação no mundo.

A Gasolina, a Economia e os Pobres; Ou: O que é Preciso Entender

   Sobre o preço da gasolina existe algo que até os "consevaminions", os "direiteens" não entenderam. Vamos lá: Qual foi a razão da quebra da Petrobrás, quebra que foi uma das responsáveis pela devastação de desempregos que até agora nos afeta? - vocês se lembram da greve dos caminhoneiros, os mesmos que choravam porque os fretes estavam baixos?
   Pois bem, a razão da quebra foi a política de preços de combustível na gestão Dilma, pois por razões populistas os preços não eram repassados segundo o preço do comércio internacional, o que forçou a Petrobrás a subsidiar os combustíveis. O resultado foi a quebra da empresa, o rebaixamento das notas internacionais para investimento no país e o rebaixamento da economia ao nível especulativo.
   A mesmíssima coisa aconteceu com o setor elétrico. Como a senhora dos palmares, a dna. Dilma, baixou o preço da energia ignorando o mercado e a equação oferta e demanda, os resultados foram os apagões e a elevação do preço da energia a níveis estratosféricos para compensar a perda da empresa por causa dos subsídios, o que também gerou os desempregos de hoje causados pela elevação brutal dos preços depois das eleições de 2014.
   Obedecer as regras de mercado não é questão de preferência pura e simples, mas sim de prudência, economia (que significa: a lei da "oikos", ou lei da casa) e de respeito à natureza das coisas. A desventura nesta área, a imperícia, imprudência e populismo (baixar os preços a todo custo) resultam no pior dos mundos possíveis, o que inclui o desastre principalmente para os pobres, certamente os mais afetados a longo prazo, porque vulneráveis às más oscilações mais sutis da economia.
   Enquanto as pessoas no Brasil não equacionarem regras de economia à sua forma de ver o mundo, assim como nutrirem a falácia de que a economia e o bom funcionamento do mercado é algo que só interessa aos ricos, estaremos sujeitos a decisões erradas que, como é visível e empiricamente provável pelo estado de coisas do Brasil atual, tende a acabar com a vida dos pobres.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Oração de S. A. Kierkegaard

   Como se poderia falar corretamente do amor, se Tu fosses esquecido, ó Deus do Amor, de quem provém todo amor no céu e na terra; Tu, que nada poupaste, mas tudo entregaste por amor; Tú que és amor, de modo que o que ama só é aquilo que é por permanecer em Ti!
   Como se poderia falar corretamente do amor, se Tu fosses esquecido, Tu que revelaste o que é o amor; Tu, nosso salvador e reconciliador, que deste a Ti mesmo para libertar todos!
Como se poderia falar corretamente do amor, se Tu fosses esquecido, Espírito do Amor, que não reclamas nada do que é próprio Teu, mas recordas aquele sacrifício do Amor, recordas ao crente que deve amar como ele é amado, e amar o próximo como a si mesmo.
   Ó, Amor Eterno, Tú que estás presente em toda parte e nunca deixas sem testemunho quando Te invocam, não deixam sem testemunho aquilo que aqui deve ser dito sobre o amor, ou sobre as obras do amor.
   Pois decerto há poucas obras que a linguagem humana, específica e mesquinhamente, denomina obras de amor; sincera na abnegação, uma necessidade do amor, e justamente por isso sem a pretensão de ser meritória.

A Filosofia da História de Eric Voegelin

   A filosofia da história de Eric Voegelin nos cinco volumes da obra "Ordem e História" e a sua concepção do "salto no ser" ocorrido em Israel por meio da revelação e na Grécia por meio da filosofia, seguido da síntese cristã entre revelação e filosofia (no advento de Cristo e na formulação teológica através dos seus maiores teólogos - Agostinho, Tomás de Aquino, Hooker etc.), é simplesmente maravilhosa.
   Ele restaura em sua obra a percepção de que a cultura, a política e a civilização possuem um cerne espiritual, que é, ao mesmo tempo, o centro vital através do qual a ordem de uma civilização vem a ser. Qualquer cultura que perdeu o seu centro espiritual através do qual o Ser é revelado ao indivíduo e à sociedade na verdade está a beira do fracasso total.
   Essa é a compreensão que falta a um mundo corroído por um materialismo bronco e por revoltas ideológicas que fecham a alma para a presença de Deus revelada à mente (filosofia) e que fundamenta a consciência histórica da humanidade sob Deus.
   Ao se fechar para a realidade espiritual transcendente, o fundamento para a compreensão dos valores e a substância da sociedade caem em ruína, fazendo com que os homens optem por valores vulgares ou pelas paixões que se elevadas ao nível dos valores fundamentais, conduzirão a sociedade para o Xeol (mundo dos mortos). A ruína social é a perda da substância da sociedade que a mantém unida, substância manifesta nas artes, na cultura, na moralidade, no amor mútuo e no amor intelectual.
   Platão, consciente da desintegração social da Heléade por meio da invasão dos sofistas na assembleia (o que acabou por corromper a política grega), assim como por causa da inadequação perniciosa da teologia homérica, e a consciência aguda de Santo Agostinho de que os cultos aos deuses corrompiam as pessoas, levando-as à cauterização de suas consciência e à nutrição do seus desejos egoístas e frívolos com a consequente desintegração pessoal causada pela nutrição nessas paixões frívolas, estão no cerne de uma séria filosofia da história.
   A resposta de Platão para a desintegração política em sua filosofia mística baseada na contemplação amorosa do Ágaton (o Bem), e a resposta agostiniana para a desintegração do império na revelação da graça vivida através da fé, são pontos fundamentais da filosofia da história de Eric Voegelin. A isso Voegelin contrapõe o fechamento da alma no imanentismo das ideologias modernas, seja o positivismo comteano, a dialética materialista de Marx ou o nacionalismo racista do iluminismo. Para ele todas essas ideologias são formas de imanentização do Eschaton (da realidade última) e tentativas de criação do paraíso terrestre em contraposição à reconciliação transcendental do homem com o seu fundamento divino para além da história na filosofia grega e na teologia cristã.
   Sendo uma das partes mais instigantes e frutíferas da filosofia da história de Voegelin, a ideia do imanentismo ideológico, segundo ele, é algo que deita raízes profundas na história do ocidente. Nascida de heresias medievais, o imanentismo escatológico é filho do quiliasmo, doutrina herética que afirma um reinado paradisíaco de Cristo no mundo por mil anos. Franciscanos, joaquimitas, puritanos e mesmo especulações frívolas sobre a o símbolo eucarístico estão no cerne daquilo que ele chama de "imanentização do eschaton" e da ideia de "transfiguração da história". Ao secularizarem os símbolos cristãos os heréticos abriram as portas para a ideologia da transfiguração comunista da sociedade sem classes (já presente em franciscanos radicais) ou a transfiguração levada a cabo pela ciência. A ideia de transcendência, ao ser alocada para o mundo, deixa de sê-la para dar lugar a um imanentismo filosófico presente em filosofias de tipo hegeliano - a filosofia que manifestou o absoluto na mente de Hegel - que apontam o "fim da história" imanente (interior) ao mundo.
   Dessa imanentização, e da perda de vista da medida divina invisível característica de filosofias como a de Platão e Aristóteles, o homem é empurrado para uma história achatada sob as leis biológicas ou materialistas. Daí a medida da verdade é ou a régua do positivista (que coloca sob sua régua o crânio longo do criminoso, como o fez Lombroso), ou as "leis inevitáveis" da história, diante das quais só cabe sentar e ver a banda comunista passar. Ao se deixar medir por essas réguas ou leis o homem perde o cerne espiritual da sua liberdade, tornando-se um joguete nas mãos de burocratas que de agora em diante planejarão a sociedade. De quebra, a perca da transcendência nunca vem vazia, mas sempre se manifesta na substituição da fé na medida invisível pela fé na ciência ou na política.
   Essa redução antropológica e a perda do presente sob Deus, ao propor a libertação do homem, acaba por encerrá-lo sob um controle autoritário de um burocrata achatado. Se Deus é substituído pela medida ideológica então o Partido é o novo deus, deixando de ser Deus a medida invisível e transcendente cuja compreensão opaca por parte do homem é o que, ao mesmo tempo, faz com que a liberdade também seja possível, retirando a autoridade última das mãos do homem. O reino dos símbolos e da concepção não exata do ser de Deus, assim como a impossibilidade de reter a Deus em um código é uma razão fundamental para que o homem usurpe Sua autoridade na história. É essa relação no lusco-fusco com Deus que constituiu o elemento revelatório que fez com que Israel demolisse, em Moisés, as bases dos impérios cosmológicos antigos que funcionavam à base do movimento dos astros. Essa medida invisível é a crítica radical ao homem e à sociedade humana e ao mesmo tempo é a razão da liberdade no presente sob Deus.
   Mas distinto disso é o silogismo assassino da divindade chamada "Partido". E isso nos faz entender a razão pela qual se Deus é expulso da história o autoritarismo demoníaco de uma oligarquia de iluminados toma o seu lugar. Eric Voegelin nos faz entender a razão pela qual a compreensão da medida invisível é um salto no ser, e o porque de o imanentismo dos "perfecti" gnósticos, os coveiros do espírito, que acreditam ter a medida do homem em suas cabeças, é o simbolo da ordem e a razão da desordem moderna.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

O Desespero Humano e a Cisão entre os Elementos Polares do Ser; Ou: Kierkegaard e a Doença do Espírito

   No livro "O Desespero Humano" S. A. Kierkegaard analisa duas doenças do espírito humano. Uma dessas doenças é o "desespero do finito" e a outra muito recorrente na nossa modernidade trata-se do "desespero do infinito".
   Mas o que é o "desespero do infinito"? Essa doença do espírito é caracterizada pela perda do eu, perda gerada pela ação desenfreada da imaginação humana. É na imaginação onde se encontram todas as possibilidades da revolução, pois uma vez que ocorre a vaporização do eu na ação imaginativa, há uma diluição das bases materiais da existência, de todas as formas sociais, religiosas e políticas, deixando o homem sem critério algum em meio ao mundo, o que o deixa sujeito à barbárie.
   A princípio as potências da mente tendem a criar fantasias que tanto são benéficas quanto maléficas. Dialeticamente o eu é uma síntese entre necessidade e liberdade, entre forma e dinâmica ou entre finito e infinito. Por isso uma mente trancafiada na necessidade ou no finito é esmagada pelo peso do "ser-aí", ou das coisas tal como são, e isso faz o homem ser precipitado no desespero do conformismo rígido ou conservador - e aqui temos o desespero do finito. Já um eu extremamente criativo pode perder-se no abismo  da imaginação, destruindo o contato com as bases que firmam o homem na realidade, fazendo o indivíduo migrar para a segunda realidade da fantasia - e esse é o desespero do infinito.
   Em uma sociedade mais estável, onde a estratificação social é mais visível e a mobilidade é rara, o desespero do finito é mais notável. Como exemplo poderíamos pegar a sociedade indiana, onde organização em castas tende a se manter estável de forma rígida e sem a possibilidade de migração de um grupo de uma casta para outra. Sociedades industrialmente e comercialmente menos desenvolvidas, assim como as sociedades orientais antigas (tipo a sociedade bizantina) e algumas modernas tendem a apresentar essa imobilidade.
   Uma sociedade móvel, como a sociedade ocidental, onde o senso de hierarquia é menos sentido, e onde reina a pluralidade móvel característica de uma sociedade comercial e industrial, os laços são mais facilmente dissolvidos, o que pode conferir - para bem ou para mal - uma sensação de liberdade, ao mesmo tempo que também sujeita o homem à insegurança natural de uma realidade móvel, o que nos faz sentir constantemente ameaçados em um mundo que se dissolve sob os nossos pés. Não a toa, a sociedade ocidental é a mãe das revoluções modernas, ao mesmo tempo em que também apresenta uma síntese entre dinâmica e forma ou a síntese entre conservação legal e mobilidade social (tipo a sociedade americana e os países constitucionais).
   A questão aqui é que dinâmica e forma são constitutivas da realidade como tal. Nas filosofias de tipo ontológico, essas são as duas estruturas do ser. Contudo, como reconheceram as filosofias da existência, as condições do ser-aí do homem apresenta uma ruptura, e a comunhão entre ser a devir é cindida, o que traz consequências históricas destrutivas. Se a doença característica da sociedade ocidental é o excesso de dinâmica e a consequente destruição das formas fixas, isso se dá por causa de uma ruptura das categorias ontológica. As constantes mudanças, tão louvadas por determinados grupos, podem desembocar no niilismo e na perda dos critérios objetivos de juízo sobre o bem e o mal. Daí decorre a destruição das leis e a consequente anarquização brutal e violenta da sociedade que lançou para longe todo critério de autoridade.
   Mas também poderia ser diferente e a sociedade cair em um fixismo asfixiante para a criatividade do espírito. O problema de uma sociedade imóvel está em cristalizar o erro de maneira dogmática e autoritária, não permitindo nenhuma espécie de mudança. Ainda que haja uma segurança, o fixismo formal, fruto de uma doença do espírito, impede que o erro seja corrigido, assim como aniquila as possibilidades do desenvolvimento de qualquer espécie de ciência.
   Em ambos os casos em que ocorre a destruição do espírito e da inteligência, é o homem que está sujeito a uma séria ameaça. No caso do relativismo causado pela queda em uma dinâmica alucinante, o homem pode ser relativizado (e essa é a nossa maior ameaça hoje); no caso do fixismo o que ocorre é brutalização do homem que não concebe nenhuma mudança. Em ambos os casos o homem fica sujeito à violência causada pela cisão entre dinâmica e forma, liberdade e necessidade, finito e infinito.
A cisão ontológica entre forma e dinâmica, necessidade e liberdade, finito e infinita, junto com a descrença em um padrão eterno e ao mesmo tempo a incapacidade de reformar o mundo segundo esse padrão é a grande questão filosófica e religiosa - incluindo da Reforma -, sendo tema de mitos, da reflexão dos profetas, filósofos e sábios, sendo a base desta reflexão o fundamento eterno da realidade ou Deus. É por isso que a perda da presença de Deus, em quem esses elementos ontológicos polares do ser se encontram reconciliados, é a causa da ruína que parece ser a característica marcante presente na história do nosso mundo.
   É importante ter a perda da presença de cura de Deus em Cristo, e a consequente cisão da unidade entre liberdade e forma, Lei e Graça - cuja unidade foi tão importante na teologia reformada -, como a razão da violência do mundo, pois sem Deus é impossível pensar ou mesmo conceber uma ruína no mundo, pois toda ruína para ser o que é requer um paraíso contra o qual tal ruína também se diz ser.

Ideologia de Gênero e a Ameaça ao Direito

   As consequências políticas da ideologia de gênero são monstruosas. Por exemplo: o direito das mulheres é o primeiro a virar fumaça.
   Estranho? Pois bem! Se o que existe é gênero, então a violência contra a mulher pode ser avaliada a partir de um ponto de vista puramente subjetivo. Imaginem só um machão barbudo que depois de dar uma surra em uma mulher afirmar que ele se sente mais moça que a Beyoncé.
   O que as pessoas não percebem é que se o sexo não tem uma base objetiva na natureza, então reina o que o indivíduo pensa de si. Mas como a imaginação do ser humano é ilimitada, então o que o homem pode maginar a respeito de si é também ilimitado.
   Nessa onda toda é a própria estrutura legal que será destruída. Alguém pode se achar um animal silvestre, invocando sobre si os direitos dos animais, assim como um homem pode se achar uma mulher e reivindicar o direito ao uso do banheiro feminino.
   Ficando tudo sujeito ao arbítrio, são as mulheres que perderão seus direitos por darem livre curso ao delírio imaginativo. E o direito das mulheres só pode ser possível porque requer uma base objetiva para ser o que é. Da mesma forma, a perdição da imaginação infinita irá destruir a estrutura legal do casamento, acabando com a própria proteção legal à monogamia e à fidelidade conjugal.
   É incrível a tendência suicida do movimento feminista que ainda não percebeu que a ideologia de gênero é a sentença do seu próprio fim.

sábado, 28 de outubro de 2017

A Verdade e a Educação

   Um ventre aberto e sangrando também é realidade. No entanto ninguém acharia agradável enxergar um todo o dia no instante que saísse em da frente de casa, tal como Nero, que, em sua ânsia por conhecimento, abriu o ventre de sua mãe para saber de onde saíra.
   Nem tudo deve ser conhecido, e a ideologia do experiencialismo, que é um absurdo em si, não leva em conta a verdade que nem sempre saber de tudo é algo edificante para as nossas vida.
   A conclusão de Platão de que o bem está acima da verdade tem aqui a sua verdade manifesta e deveria ser o norte de qualquer pedagogia que se preze. Nem sempre conhecer tudo é algo bom em si mesmo, assim como nem toda experiência é edificante em si.
   Assim também o conhecimento da verdade deve ser reservado a quem seja digno dele e manifesto no momento adequado para não causar uma destruição da consciência. Isso é concepção de condução amorosa ao conhecimento.
   Se a educação de hoje perdeu essa verdade de vista isso significa que já não temos educação, mas um bando de selvagens que querem a todo custo causar a divisão nos corações e não reconciliar os homens com o seu mundo.