sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Aristóteles e a Importância da Distinção entre o Substancial e o Acidental no Trabalho de Interpretação

    Na obra "Da Interpretação" de Aristóteles há uma reflexão profundamente interessante sobre sujeito e predicado, envolvendo a questão das derivações impróprias (ou petições de princípio) - algo que deveria ficar gravado na cabeça de todo mundo.

    Aristóteles reflete que nem tudo aquilo que é predicado de um sujeito envolve necessariamente uma outra predicação, assim como nem sempre a realidade de uma substância envolve necessariamente certo predicado. Por exemplo: Constatar que o homem é branco e inteligente não necessariamente envolve a conclusão de que o homem é inteligente porque é homem ou porque é branco.
    Falácias de derivações impróprias são comumente encontradas em reflexões pobres que são usadas de forma desenfreada principalmente em debates pesadamente ideológicos.
    Um exemplo disso é que quando você defende os pobres, quase que por necessidade alguns grupos associam a isso a defesa do aborto e da liberação das drogas. A questão é que, no campo da lógica, a defesa do pobre não pode significar necessariamente a defesa da liberação do aborto, e nem mesmo a liberação das drogas, como se pessoas de alta classe não quisessem e nem fossem extremamente interessadas em aborto e nem em liberação das drogas.
    Preste atenção em algo: ser pobre (predicado) é algo acidental ao homem concreto (substância primeira - ou mesmo ao homem como gênero), e não algo substancial, pois ser homem não é o mesmo do que ser necessariamente pobre e muito menos ser pobre é necessariamente precisar da liberação das drogas e do aborto - o que é um reducionismo grotesco e ofensivo ao próprio homem pobre.
    O que se pode concluir é que se a grande massa de pessoas soubesse classificar a diferença entre o substancial e o acidental, mais da metade dos problemas na área da política já teriam sido sanados, já que essas pessoas estariam livres das falácias que tendem a ser a forma da linguagem própria de grande parte do discurso ideológico e político.

Pápias, a Tradição Oral e a Fraqueza Apologética

    Não é incomum que apologistas católicos se fiem na tradição oral contra o protestantismo. E nem é incomum citar teólogos ou presbíteros antigos para afirmar o alto valor da tradição oral. Entre os teólogos citados está Pápias, que por ter vivido entre o fim do séc. I e a primeira metade do séc. II ( por volta dos anos 70 d.C a 140 d.C), pode ser evocado como testemunha de imenso valor.

    De fato essa é um dito de Pápias preservado na citação de Eusébio de Cesaréia em HE III.XXXIX.4: "Não pensava serem tão úteis os ditos provenientes dos livros quanto o que deriva de uma palavra viva e permanente". E a intenção da apologia católica romana é com isso dizer que há mais valor para a transmissão da informação de viva voz do que a transmissão por palavras registradas em qualquer livro. Mas aqui há certa confusão.

    Não negamos que no caso de Cristo a transmissão oral da doutrina seja infinitamente superior em unção e transmissão da realidade do que o registro escrito. A questão nem é essa. A questão é se a cadeia ininterrupta de transmissão pode se sustentar desse modo. Como diz o adágio: verba volant, scripta manent (palavras faladas voam, a escrita permanece). E justamente o próprio Pápias pode disso ser um testemunho, ao menos contra as pretenções da apologética católica na defesa da tradição oral.

    Mas para explicar a questão, vou recorrer aos fragmentos assinalados comentados por Eusébio.

    Diz Eusébio:

    O mesmo Pápias, contudo, acrescenta outras coisas que lhe teriam sido transmitidas por tradição oral, certas parábolas estranhas atribuídas ao Salvador, determinados ensinamentos esquisitos e outras coisas um tanto fabulosas.
    Afirma, por exemplo, que haverá mil anos após a ressurreição dos mortos e que o reino de Cristo se realizará materialmente aqui na terra. Penso que assim opinou por ter entendido erroneamente as narrações dos apóstolos, e não ter apreendido o que eles disseram figurada e simbolicamente.
    Na verdade ele parece ter tido pouca inteligência, como é possível constatar por seus livros; contudo, foi causa de que grande número de escritores eclesiásticos posteriores tenham adotado a sua opinião, fiados em sua antiguidade. Isso aconteceu a Irineu [de Lyon] e a outros que tiveram idêntico parecer (EUSÉBIO - História Eclesiástica. III.XXXIX.11-13).
    De duas uma: 1) ou Pápias está certo, e a Tradição oral é válida; 2) ou a teologia católica está certa, pois tem a condenação ao milenarismo como coisa de fé.
    Se 1 estiver certo, e a tradição oral for invicta, a teologia católica estará errada; se 2 estiver certo a tradição oral é impotente para transmitir a "verdade de sempre", e a teologia católica que é contra o milenarismo estará também errada por afirmar a realidade invicta de algo francamente falho como a tradição oral.
    Nos dois casos a apologética católica romana ao se valer de Pápias para fortalecer a tese sobre a tradição oral tem o efeito reverso de, na verdade, enfraquecer ou a tradição oral ou a dogmática católica. Mas em todos os casos é a pretensão católica romana que sai enfraquecida.
    Em suma, o que eu pretendi mostrar com o texto é basicamente o seguinte: 1) Pápias é tido como o grande defensor da "tradição oral"; 2) no entanto ele acreditava em milenarismo; 3) A escatologia católica romana considera o milenarismo heresia; 4) Se Pápias estiver certo, a dogmática católica romana está errada; 5) se a condenação ao milenarismo estiver certa, a defesa da tradição oral padece de imensa fraqueza e o catolicismo tem em suspeição doutrinas defendidas à margem da Escritura.

domingo, 29 de novembro de 2020

Agostinho, a Petição de Ortodoxia e a Mãe de Deus

Interpretações anacrônicas são muito comuns em debates de natureza teológica e dogmática; e aqueles que se acham dentro da linha de construção teológica de determinada tradição, não é raro ver a recorrência a certo procedimento que, como uma variante da petição de princípio, podemos nomear de petição de ortodoxia ou falácia do ventríloquo.

Mas o que seria tal falácia? A petição de ortodoxia ou a falácia do ventríloquo nada mais é a falácia que se serve de um estado atual de doutrina para transpô-la anacronicamente a um pensador que, por ser considerado da mesma religião, afirmou tal e qual coisas em seus escritos, porque ele é de tal religião. Isso não é diferente quando marxistas afirmam que os franciscanos radicais, ou os cristãos de Atos 2 eram comunistas apenas pelo fato de que o primeiro grupo queria abolir por via doutrinária a propriedade privada do papa, e o segundo porque realizou a partilha de todos os bens em comunidade. Aqui há uma transposição anacrônica de uma doutrina do século XIX d.C. para grupos do século XII e I d.C.

Aqui surge a questão de St. Agostinho e a Theótokos, ou a Mãe de Deus. Particularmente - e tenho vários testemunhos que confirmam isso - não tenho problema algum com termo Mãe de Deus, desde que isso seja devidamente disciplinado. Mas também eu entendo que muitos evangélicos não muito ligados à teologia da Reforma tenham uma reserva quanto ao termo, até mesmo em virtude de certas coisas justificadas que não vem ao caso citar aqui. Contudo, a verdade é que Santo Agostinho, que morreu em 430 d.C., não viveu para ver a controvérsia nestoriana e nem mesmo a resolução do Concílio de Éfeso (431 a.C.) que afirmou que a união entre o Verbo e Cristo era uma união substancial, tornando legítimo o título de Maria como Mãe de Deus. Mas mesmo que as afirmações de Agostinho pareçam nestorianas, não faz sentido algum dizer que Agostinho era nestoriano, pois isso seria anacrônico, e anacrônico a ponto de ser algo como uma petição de heresia. Mas quero aqui trazer algumas passagens de Agostinho que mostram afirmações que em sua literalidade não seriam consideradas afirmações efesianas.

Então seguem as passagens:

Porque é que o Filho disse à mãe 'Mulher, que tenho eu e tu com isso? A minha hora ainda não chegou?' Não tem mãe enquanto Deus, mas tem mãe enquanto homem. A mãe é, portanto, a mãe da carne, mãe da humanidade, mãe da fraqueza que assumiu por nós. [...]

A mãe pedia o milagre, mas ele não conhecia entranhas humanas quanto à capacidade de realizar ações divinas. E parece ter dito: Tu não geraste a capacidade que eu tenho de operar o milagre; não geraste a minha divindade: Geraste a minha fraqueza, por isso conhecer-te-ei quando a fraqueza pender na cruz; 'a minha hora ainda não chegou'. [...]

É filho de Maria segundo a carne, e Senhor de Maria segundo a divindade. Maria não era mãe segundo a divindade; o milagre pedido por ela havia de ser operado por meio da divindade; motivo porque respondeu: 'Mulher, que tenho eu e tu com isso?' Não julgue que não te conheço como mãe; 'a minha hora ainda não chegou'. Hei de reconhecer-te como mãe quando começar a pender na cruz a fraqueza [a carne] de que és mãe1.

Essa citação um pouco extensa precisa de certos esclarecimentos. Agostinho obviamente está sendo sistemático com o pensamento que apresenta em toda a sua obra. No De Trinitate II.2 Agostinho afirma a existência de uma regra dupla para a consideração da humanidade e divindade de Cristo. Diz Agostinho:

Há uma regra canônica, disseminada nas Escrituras, e adotada pelos doutos intérpretes católicos das mesmas Escrituras, à qual nós nos atemos com firmeza para compreender como o Filho de Deus é igual a Deus na condição divina que possui; e inferior ao Pai, na natureza humana que assumiu. E como nessa natureza humana, ele é inferior não somente ao Pai e ao Espírito Santo, mas também a si mesmo2.

Dessa regra dupla surge a distinção de naturezas pelas quais, como homem, Cristo é inferior ao Pai e ao Espírito como Servo do Senhor, e inferior a si mesmo enquanto Deus. Agostinho não está jogando fora da regra de Calcedônia, justamente porque sem essa distinção de naturezas se faz impossível compreender passagens como: "O Pai é maior do que eu" (Jo 14.28); ou "E o menino crescia e se fortalecia, tornando-se pleno em sabedoria; e a graça de Deus permanecia sobre ele" (Lc 2.40), pois no primeiro texto, se a humanidade não for computada, a conclusão será de que há gradações em Deus, sendo Jesus um "Deus menor" - o que é metafisicamente absurdo -; e no segundo texto, se a humanidade não fosse computada, teríamos que impor devir em Deus, fazendo com que Deus seja maior em um tempo posterior do que foi em um tempo anterior - o que é metafisicamente absurdo também.

Partindo da percepção dessa regra dupla, ou seja, que enquanto Deus Jesus é igual ao Pai, mas enquanto homem é inferior - incluindo inferior a si mesmo -, Agostinho também interpreta a citação do Salmo 110 (109) contra os doutores da Lei. Ele diz:

Observai também como se lhe chama "Senhor de Davi". São de Davi estas palavras: "Disse o Senhor ao meu Senhor, senta-te à minha direita". Ele mesmo lembrou aos judeus esta passagem, e com ela os refutou: "Se pois Davi lhe chama Senhor, como é seu filho?". É filho de Davi segundo a carne, e senhor de Davi segundo a divindade3.

Notem que Agostinho aqui também segue a regra dupla de forma sistemática.

Essa passagem dos Tratados Sobre o Evangelho de João é antecedida por esta passagem:

Não vos surpreendais de ser ao mesmo tempo filho e Senhor. Assim como se diz que é filho de Maria, também se diz que é filho de Davi; é Filho de Davi, precisamente porque é filho de Maria4.

E o texto mais adiante continua em uma passagem já citada neste texto:

É filho de Maria segundo a carne, e Senhor de Maria segundo a divindade. Maria não era mãe segundo a divindade; o milagre pedido por ela havia de ser operado por meio da divindade; motivo porque respondeu: 'Mulher, que tenho eu e tu com isso?' Não julgue que não te conheço como mãe; 'a minha hora ainda não chegou'. Hei de reconhecer-te como mãe quando começar a pender na cruz a fraqueza [a carne] de que és mãe.5

Esse texto está totalmente proporcionado à compreensão de Agostinho apresentado também no De Trinitate I.XIII.28, onde ele afirma a operação de Cristo segundo a sua dupla natureza, como segue:

Afirmamos, porém, com propriedade, que o Senhor da glória foi crucificado, não no poder da divindade, mas na fraqueza da carne (2 Co 13.4). Assim como dissemos que na natureza de Deus ele julga - ou seja, pelo poder divino e não pelo poder humano -, como homem também há de julgar, assim como foi crucificado o Senhor da glória.6

Mas outro texto que pode deixar ainda mais claro o pensamento de Agostinho a respeito da distinção das naturezas de Cristo é aquele apresentado no A Fé e o Símbolo, que foi um sermão pregado diante do Concílio Plenário dos bispos de Hipona em 8 de outubro de 393 d.C. É como segue:

Também não nos force a negar a mãe de Cristo pelo que foi dito por Ele: "Que queres de mim, mulher? Minha hora ainda não chegou". Queria mostrar, acima de tudo, que Deus, que não tem mãe, se preparava para mostrar a pessoa da majestade divina mudando a água em vinho. Contudo, no que diz respeito à sua cruz, foi crucificado enquanto homem [não enquanto Deus]; aquela hora era a hora que ainda não havia chegado quando foi dito: "Que queres de mim, mulher? Minha hora ainda não chegou", ou seja, a hora de reconhecê-la na cruz. Eis, então, que, como homem crucificado, reconheceu sua mãe e, em modo totalmente humano, recomendou-a a seu amado discípulo. E não devemos pensar diversamente pelo fato de que, quando lhe anunciaram a sua mãe e seus irmãos, ele respondeu: "Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?" Mas, acima de tudo, ensina, para o nosso ministério de anúncio do Verbo de Deus aos irmãos, que, se os parentes nos impedem de exercê-lo [como seus irmãos e mãe pareciam querer impedi-lo], não devemos reconhece-los.7

Há várias considerações a serem feitas nesta passagem. Como segue da questão da dupla regra, veja que Agostinho afirma de modo consequente que, enquanto Deus, Jesus não tem mãe; contudo, enquanto homem, tem mãe e ainda recomenta de modo completamente humano a sua mãe ao seu discípulo. Agostinho coloca na intenção de Jesus que ele não recomenda enquanto Deus a sua mãe ao seu discípulo, tal como enquanto Deus opera o milagre da transformação da água em vinho; mas a recomenda enquanto homem, tal como pende a partir da fraqueza da humanidade o seu corpo na cruz. Abstraiam Éfeso; ele não está em questão aqui. Não cabe aqui fazer a interpretação anacrônica de que Agostinho estava dizendo o que disse de modo a conservar a unidade entre o Verbo e o Homem na hipóstase. Essa não é uma questão para Agostinho neste momento. A questão para Agostinho é harmonizar conceitos bíblicos de modo a não perder de vista a divindade de Cristo, assim como a sua humanidade, de modo a guardar, ao mesmo tempo, a distinção e a integridade das duas naturezas que compõem o ser de Cristo, abrindo espaço para uma comunicação idiomática entre a divindade e humanidade no mesmo e único ser de Cristo.

O raciocínio de Santo Agostinho é fácil de ser apreendido com base nestes dados: 1) Agostinho estabelece um duplo grau na totalidade de Cristo, sem com isso fazer uma divisão real; 2) Cristo é, enquanto homem, menor que o Pai e o Espírito Santo, assim como é menor do que a si mesmo; 3) Cristo, enquanto Deus, é igual ao Pai e ao Espírito; 4) Segundo essa gradação, segue-se também as relações de Cristo com os homens: é filho de Maria e de Davi segundo a natureza humana, mas é Senhor de Maria e de Davi segundo a natureza divina; 5) Mas também segundo esse duplo grau em Cristo seguem-se as operações de ambas as naturezas na economia: Cristo é servo e é o Senhor crucificado segundo a natureza humana; é o operador de milagres e o juiz do mundo segundo a natureza divina.

Obviamente que Agostinho ainda não havia chegado à diferenciação da questão aos moldes de Éfeso ou Calcedônia. Mas mesmo assim a sua teologia é legítima enquanto tentativa de explicação da distinção das naturezas. Também não há um escrito agostiniano de autenticidade indubitável que ele afirme que "Maria é mãe de Deus". Agostinho tratou da questão segundo o que apresentamos, e ao que parece essa percepção de coisas o seguiu ao longo de sua produção teológica cristã sem alteração, diferentemente do que ocorreu com a questão da predestinação ou dos corpos ressurretos. Mas tentar interpretá-lo como alguém que abraçou ou deixou de abraçar Éfeso é, aqui, evidentemente, uma petição de ortodoxia ou petição de heresia.

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1] AGOSTINHO - Tratados sobre o Evangelho de João. VIII.9

2] AGOSTINHO - A Trindade. II.2

3] AGOSTINHO - Tratados sobre o Evangelho de João. VIII.9

4] Ibid.

5] Ibid.

6] AGOSTINHO - A Trindade. I.XIII.28

7] AGOSTINHO - A Fé e o Símbolo. IV.9

sábado, 28 de novembro de 2020

Atanásio Contra a Idolatria (Incompleto)

     Citação: Muitas vezes o próprio estatuário, como que esquecido do que fez, dirige a sua oração às suas próprias obras, e o que recentemente ele esculpia e talhava após o ter trabalhado a sua arte, ele a chama deus. Se estas estátuas são dignas de admiração, precisaria reconhecer a habilidade do artista, em lugar de honrar os objetos que ele configurou. Porque não é a matéria que ornou e divinizou a arte, porém a arte à matéria. Seria então muito mais justo adorar o artista de preferência ao que ele fez, uma vez que ele existia antes dos deuses nascidos da sua arte, e que estes nasceram como ele quis. Ao contrário, rejeitando o que seria justo, e desdenhando a arte e a ciência, adoram a obra da ciência e da arte.1.

    Citação: Esta demonstração não pode deixar de convencer os que os gregos chamam filósofos e sábios; eles não podem negar que estes deuses que se vêem são imagens e figuras de homens e animais desprovidos de razão. Mas para se defender, dizem que assim acontece para que por estas imagens a divindade lhes responda e lhes apareça: porque não se pode conhecer o invisível de outro modo senão por estas estátuas e estes ritos. E os que são ainda mais filósofos e pensam dizer coisas mais profundas, afirmam que estes ídolos foram fabricados e formados para servir a invocar e fazer aparecer anjos e potestades divinas, que aparecendo através deles, revelam aos homens o conhecimento de Deus; são como cartas para os homens que lendo-as podem conhecer e compreender Deus pela aparição dos anjos divinos que se manifestam por estes sinais. Eis a sua mitologia, porque não é teologia, queira Deus. E se este raciocínio for examinado com atenção, ver-se-á que a sua opinião não é menos falsa do que as expostas acima2. 

    Citação: 
Poder-se-ia dizer-lhes, apresentando-se ao julgamento da verdade: como Deus responde ou se faz conhecer por estes ídolos? É pela matéria que os constitui ou pela forma que está neles? Se é pela matéria, de que serve a forma, e porque Deus não se manifesta simplesmente por não importa qual matéria, antes que estas imagens sejam formadas? É inutilmente que se constroem templos para aí colocar uma pedra, um pedaço de madeira ou de ouro, enquanto toda a terra está cheia destas substâncias. Mas se a causa destas manifestações divinas é a forma que lhes é dada, para que serve a matéria, o ouro e o resto, e porque Deus não se manifesta de preferência pelos seres naturalmente vivos dos quais as estátuas têm a forma? Porque segundo o seu raciocínio, ter-se-ia melhor opinião de Deus se ele se manifestasse pelos seres vivos e animados, dotados ou não de razão, em lugar de se fazer esperar nas estátuas, inanimadas e imóveis [...]. Talvez também nada seja, nem a forma nem a matéria a causa da presença de Deus, mas a arte unida à ciência basta para evocar o divino, pois ele é uma imitação da natureza. Mas se é graças à ciência que o divino vem habitar nas estátuas, para que, mais uma vez, serve a matéria, já que a ciência reside nos homens? Em uma palavra, se é graças à arte que Deus se manifesta e por isso se veneram como deuses as estátuas, seria necessário adorar e honrar os homens que são os autores desta arte e tanto mais que eles são dotados de razão e possuem eles próprios esta ciência3.

    Citação: 
Na sua segunda resposta, mais profunda sem dúvida, poder-se-ia dizer isto com bastante propriedade como segue: se vós agis assim, gregos, não por causa da manifestação de Deus mesmo, mas por causa da presença dos anjos nos ídolos, por que dar às estátuas pelas quais invocais estes poderes mais valor que aos próprios poderes que invocais? Se, como afirmais, esculpis estas imagens, é com o obejtivo de conhecer Deus, dando às próprias esculturas a honra e o nome de Deus, cometeis sacrilégio. Porque confessais que o poder divino ultrapassa a humilde condição das estátuas, e por isso não ousais invocar Deus através delas, mas os poderes inferiores; e vós mesmos, negligenciando-as dais à pedra e à madeira o nome daquele cuja presença temíeis, os chamais deuses e os adorais, embora sejam pedras e obra de arte humana. E se, como falsamente afirmais, estas imagens são para vós como cartas que vos permitem contemplar Deus, não é justo dar mais honra ao sinal que à realidade significada. Se alguém escrevesse o nome do rei, não é sem perigo que honraria estas missivas mais que o próprio rei; seria punido de morte, porque a carta é obra da ciência do escriba. Assim vós mesmos, se usásseis salutarmente a razão, não transferiríeis para a matéria o caráter da divindade e não honraríeis a estátua mais que o homem que a esculpiu. Porque se estas imagens são como missivas que indicam a presença de Deus, elas são, por este título, como sinais de Deus, dignas de ser divinizadas; mas ainda mais aquele que as esculpiu e modelou, isto é o artista; é ele que precisaria divinizar, como sendo mais poderoso e mais divino que estas imagens, e tanto mais que é por sua vontade que ele as talhou e modelou. Se, portanto, as cartas são dignas de admiração, aquele que as escreveu é ainda mais admirável pela sua arte e pela ciência do seu espírito. Assim, se não há razão para acreditar que estas imagens são deuses, poder-se-á então interrogar o pagão a respeito da loucura dos ídolos para aprender deles porque lhes foi dada esta forma4. 

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1] ATANÁSIO - Contra os Pagãos.13
2] Ibid. 19
3] Ibid. 20
4] Ibid. 21

Atanásio, a Espiritualidade da Contemplação da Realidade Divina Inteligível e o Afogamento do Homem no Meramente Sensível

    Uma das argumentações mais espetaculares de Atanásio em favor da espiritualidade da contemplação das realidades divinas inteligíveis (supra sensíveis) é que nesse mergulho absoluto do homem no infinito, que era característica do Adão pré-lapso (antes da queda), ele realizava a sua finalidade; contudo, ao perder esse contato com Deus por causa do pecado, o primeiro homem começou a se concentrar nas realidades visíveis e corpóreas. Para Atanásio, a vida estética (como diria Kierkegaard), ou seja, a vida fundamentada nos sentidos, e nos prazeres da visão etc., é a característica do homem caído. E por tanto é só por isso, e apenas em função disso, que ao viver uma vida concentrada nos sentidos, o primeiro homem declinou da intelecção e da concentração espiritual e passou a ter consciência de que estava nú.

    Estas são as palavras de Atanásio:

"Também durante muito tempo, efetivamente, em que ele [Adão] conservou o espírito ligado a Deus, ele se desviava da contemplação do corpo; mas quando, pelo conselho da serpente, ele se afastou do pensamento de Deus e se pôs a considerar-se a si próprio, então foram tomados pelos desejos do corpo, 'e conheceram que estavam nús' (Gn 3.7) e esse conhecimento os encheu de vergonha"1.

    É interessante que ele é categórico ao afirmar que o centro da vida do homem é a contemplação divina, mas ao desviar e corromper esta faculdade, o homem agora contempla "as coisas de baixo", ou se fixava agora com preponderância nas coisas terrenas, invertendo a ordem de contemplação que estava voltada a Deus, e apenas a Deus, como ele diz: "Porque ela [a alma] foi feita para ver Deus, são as coisas corruptíveis e as trevas que ela procurou, como diz em alguma parte o Espírito na Escritura: 'Deus criou o homem reto, mas ele procurou muitas perversões'[sic] (Ecl 7.29)"2.
    E em tom polêmico - mesmo para os dias atuais -, ele acusa a origem da idolatria justamente nessa queda da potência contemplativa, agora não mais voltada para o inteligível, mas apenas para o sensível. Atanásio diz: "Assim, repleta de todas as espécies de desejos carnais e perturbada pela falsa opinião que forma para si própria, conclui por imaginar segundo as coisas corporais e sensíveis a Deus de cujo pensamento esqueceu, e dá às aparências o nome de Deus; só aprecia o que quer e tem como agradável"3.
    É profundamente importante como uma teologia, que muitos acusam de ser algo árido e ocupação especulativa sem relação com a vida prática, visa estabelecer uma fundamentação tão profunda com a espiritualidade cristã, pois ao explicar 1) a finalidade humana na contemplação de Deus, Atanásio também explica que 2) A queda é propriamente um desvio dessa contemplação para coisas inferiores, e que 3) por se concentrar nas coisas inferiores o homem adquire feições animalescas e irracionais, cometendo todo o tipo de avareza, violência, afastando para si próprio a visão de Deus e destruindo em si a imagem de Deus.
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1] ATANÁSIO DE ALEXANDRIA (295-373 d.C.) - Contra os Pagãos.3 . Paulus. p. 49
2] Ibid. 7. p. 55
3] Ibid. 8. p. 55, 56

terça-feira, 24 de novembro de 2020

Aos Fiscais do "Nestorianismo" Alheio

    Sim, a palavra "nestorianismo" está entre aspas aqui no título, e isso explica já aquilo que eu comentarei neste texto.

    Recentemente um vídeo do Augusto Nicodemus foi postado por um amigo querido que reclamou por ele, aparentemente, ter se mostrado hesitante ao afirmar que Deus morreu na Cruz, porque a sua natureza humana estava unida à sua natureza divina na hipóstase. Confesso que nem vi problema algum com o vídeo. O problema foram as reações mesmo - também de colegas e amigos -, condenando o homem por ser um "nestoriano".
    Confesso ter uma abjeção séria ao comportamento de quem quer que seja que se apresse em condenar alguém. E isso não seria diferente, se eu visse esse comportamento em amigos ou em não tão amigos assim.
    Mas a verdade é que o problema em si nem está nesse vídeo em específico, mas em um vídeo em que Nicodemus diz que Maria é mãe do Cristo, da natureza humana de Cristo, e diz que Maria é "portadora de Deus" - ainda que afirme com reticências que Maria é mãe de Deus. Já me adianto em dizer que não tenho afeições profundas pelo Nicodemus enquanto teólogo, porque para falar a verdade nem conheço a sua teologia, fora naquilo que vi em um vídeo ou outo. Nem mesmo pelo que vi o considero um gênio sem medida. Ele, para mim, é um assunto adiáforo, para falar bem a verdade.
    Mas a questão é que, em que pese Nicodemus ter dito o que disse, a sua resposta à questão de Maria ser ou não Mãe de Deus é uma reposta evidentemente incompleta em função do desenvolvimento da teologia. Só que um salto gigantesco é partir daí para afirmar ser ele um "nestoriano"; nem considero - e julgo que ninguém deveria - um evangélico médio um nestoriano porque nega a formulação de que "Maria é Mãe de Deus", levando em consideração que por um certo ângulo essa negação está evidentemente correta - quando se diz que a divindade passou a existir a partir da concepção de Cristo. Evidentemente que Teótokos não quer dizer isso, senão que Maria gerou em seu ventre alguém que é totalmente homem e totalmente Deus.
    Mas quero trazer aqui um texto de alguém que evidentemente não seria um nestoriano - e que ensinou, claro, antes da controvérsia nestoriana.
    Segue o texto de Agostinho falando da relação entre Jesus e Maria no tratado VIII.9 do Comentário ao Evangelho de João:
"Porque é que o Filho disse à mãe 'Mulher, que tenho eu e tu com isso? A minha hora ainda não chegou?' Não tem mãe enquanto Deus, mas tem mãe enquanto homem. A mãe é, portanto, a mãe da cerne, mãe da humanidade, mãe da fraqueza que assumiu por nós. [...]
A mãe pedia o milagre, mas ele não conhecia entranhas humanas quanto à capacidade de realizar ações divinas. E parece ter dito: Tu não geraste a capacidade que eu tenho de operar o milagre; não geraste a minha divindade: Geraste a minha fraqueza, por isso conhecer-te-ei quando a fraqueza pender na cruz; 'a minha hora ainda não chegou'. [...]
É filho de Maria segundo a carne, e Senhor de Maria segundo a divindade; o milagre pedido por ela havia de ser operado por meio da divindade; motivo porque respondeu: 'Mulher, que tenho eu e tu com isso?' Não julgue que não te conheço como mãe; 'a minha hora ainda não chegou'. Hei de reconhecer-te como mãe quando começar a pender na cruz a fraqueza [a carne] de que és mãe."*
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*] AGOSTINHO - Tratados Sobre o Evangelho de João. VIII.9

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

O Arrependimento como o Corolário da Fé Salvadora

    Uma das notas fundamentais da noção de fé salvadora em Calvino é que o arrependimento é o corolário da fé - sem a qual não há justificação. Podemos afirmar que há um caminho necessário da iluminação que vai da produção em nós da fé salvadora ao arrependimento compromissado com Deus.

    Calvino afirma: "Não sem fundamento, a suma do evangelho fixa-se no arrependimento e no perdão dos pecadas [Lc 24.47; At 5.31]. Logo, omitidos esses dois tópicos, será fria e mutilada, e até quase inútil, toda e qualquer discussão da fé"1, para complementar: "a graciosa imputação de justiça não é separada, por assim dizer, da real santidade de vida"2.

    Segue-se aqui, como diria Willian Webster, que a real santidade da vida é corolário da fé salvadora. Calvino enxerga que a iluminação da fé produz tais frutos de arrependimento: "Ora, uma vez que pela pregação do evangelho é oferecido perdão e remissão para que o pecador, liberado da tirania de Satanás, do jugo do pecado e da mísera servidão dos vícios, seja transportado ao reino de Deus, por certo que ninguém pode abraçar a graça do evangelho a não ser que se afaste dos erros da vida e tome a via reta, e aplique todo seu esforço à prática do arrependimento"3.

    No entanto, o arrependimento depende de uma iluminação prévia da fé, fruto da regeneração, sob o reflexo da qual o arrependimento brota, por assim dizer. E possivelmente querendo excluir qualquer aceitação da ação desassistida do homem como causa da fé, Calvino acrescenta: "Mas, os que pensam que o arrependimento precede à fé e não é produzida por ela, como o fruto de sua árvore, estes jamais souberam no que consiste sua propriedade e natureza, e, ao pensar assim, se apoiam num fundamento sem consistência"4.

    Sobre essa questão, Willian Webster explica como foi enfatizada a fé pelos reformadores, fé que podemos chamar de uma fé obediente sob o senhorio de Cristo. Webster diz: "O ensino da fé somente [sola fide] foi enfatizado pelos Reformadores para neutralizar a ênfase católica romana na necessidade [absoluta] dos sacramentos e boas obras para alcançar a justificação. Mas definir o ensino da fé da Reforma apenas como confiança em Cristo sem arrependimento e compromisso com ele é uma distorção tanto do ensino da Reforma quanto da mensagem do evangelho. A fé somente [sola fide] significa fé sem o mérito das obras, e não ausência de arrependimento. A Bíblia sempre apresenta o arrependimento como um corolário da fé em receber Cristo para a salvação"5.

    Entendemos por isso que é uma noção equívoca que o arrependimento não constitua uma parte essencial da fé salvadora, ou da fé justificadora. A sua ausência, podemos afirmar confiantemente, é ausência de fé. Era da compreensão comum dos reformadores que em relação ao arrependimento, a contrição não deveria ser restrita a um momento da vida, se não que estendê-la para todos os momentos da vida.

    A fé no Evangelho, como resposta ao chamado de Cristo, nos ensina claramente: "O tempo está cumprido, o Reino de Deus está próximo, arrependei-vos e crede no Evangelho" (Mc 1.15); e por isso compreendemos claramente que sem a iluminação prévia de Deus, não pode haver arrependimento, já que toda boa dádiva vem de Deus (Tg 1.17).

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1] CALVINO - Institutas da Religião Cristã. Tomo III.3.1
2] Ibid.
3] Ibid.
4] Ibid.

Parágrafos Contra a Idolatria: Citações do livro "Contra Celso" de Orígenes (185-254 d.C.)

    Neste pequeno artigo de citações eu irei proceder da seguinte maneira: Em primeiro lugar destacarei a citação de Orígenes e logo após irei, na medida das minhas forças, comentar a passagem citada. E para esclarecer, como está no título, todas as citações deste texto são tiradas da obra Contra Celso, que tem tradução pela editora Paulus e que é possível encontrar na internet. Também a forma da citação nas notas não indicará as páginas da edição da Paulus, mas sim a estrutura da divisão que podemos achar em edições internacionais, inserida também na própria edição da Paulus.

    Estas são as citações seguidas dos comentários:

    Citação:

    Se ele [Celso] julga certo que eles jamais tiveram valor por sua categoria ou número, pois não se encontra qualquer alusão à história dos judeus entre os gregos, eu responderei: se atentarmos para o seu regime inicial e as disposições de suas leis, veremos que foram homens que apresentavam na terra uma sobra da vida celeste. Entre eles, não havia nenhum outro deus a não ser o Deus supremo; nenhum artífice de imagem que tivesse direito de cidadania. Nenhum pintor, nenhum escultor tinha espaço em seu Estado, pois a lei bania todos os artífices desse gênero para eliminar qualquer ideia de fazer estátuas, prática que atrai os simples e desvia os olhos da alma para longe de Deus na direção da terra. Havia, pois, entre eles esta lei: "Não vos pervertais, fazendo para vós uma imagem esculpida em forma de um ídolo: uma figura de homem ou de mulher, figura de algum animal terrestre, de algum pássaro que voa no céu, de algum réptil que rasteja sobre o solo, ou figura de algum peixe que há nas águas que estão sob a terra" (Dt 4:16-18). A intenção da lei era encarar a realidade de cada ser, impedindo que fossem modeladas fora da verdade imagem que mentiam a respeito da verdade do homem e da realidade da mulher, da natureza, dos pássaros, dos animais, do gênero dos pássaros, dos répteis, dos peixes. E o motivo era venerável e sublime: "Levantando os olhos o céu e vendo o sol, a lua, as estrelas e todo o exército do céu, não te deixes seduzi-los para adorá-los ou servi-los!" (Dt 4:19)1. [...]

    Comentário: Orígenes segue aqui a tendência da escola de Alexandria, cujo representante mais notável é Clemente de Alexandria. A ideia aqui é que sendo Deus invisível, uma imagem seria corruptora do orgão espiritual pelo qual se vê a Deus. Não aleatoriamente ele diz que a intenção da lei de proibição da confecção de imagens era "encarar a realidade de cada ser". Nem é preciso dizer da influência platônica, não só de Orígenes, mas de vários pais ante-nicenos. Contudo,à primeira vista, a retrição de imagens parece seguir de Platão para o cristianismo; mas isso é errado, já que apologistas como Clemente, Justino e mesmo Orígenes seguiam a ideia de que Platão era um plagiário de Moisés - ideia comum nos apologistas. Mas para não ficar apenas nas minhas palavras, vou citar um trexo da República, uma das, senão a obra mais espiritualmente potente de Platão, onde ele explica arazão do banimento dos atesão e escultores da República: "Então concerne esse tipo de imitação [dos escultores e pintores] a algo que é o terceiro a partir da verdade, ou não é?" (602c), ou: "Isso, então, era sobre o que eu queria encontrar um consenso quando afirmei que a pintura e a imitação como um todo produzem obras que estão distantes da verdade [por ser o terceiro em relação à verdade], ou seja, que a imitação realmente se associa a um elemento [inferior] da nossa alma que se distancia da razão [parte superior da alma], e que o resultado desse relacionamento e amizade não é nem saudável, nem verdadeiro" (603a,b)2.

    Citação:

   Cada pessoa pode mostrar como aqueles que seguem tais guias caminham num caminho melhor e têm mais socorro nas dificuldades da vida do que os que, graças ao ensinamento de Jesus Cristo, disseram adeus a todas as imagens e estátuas, e mesmo a toda a superstição judaica, e que pelo Logos de Deus erguem seu olhar para o Deus único Pai do Logos3. [...]

    Comentário: Comentários assim são reiterados no Contra Celso de Orígenes. Alguns poderiam objetar que se trata de uma fala referente apenas ao paganismo, ou de uma condenação as imagens de deuses pagãos. O problema desse tipo de firmação é que Orígenes não oferece em nenhum momento em sua obra um receituário para o uso coreto de imagens físicas para a devoção. Toda a referência ao uso de imagens em sua obra tem um tom depreciativo, como ainda veremos mais abaixo.

    Citação:

Que homem sensato não riria daquele que, depois de tantas especulações filosóficas sublimes sobre Deus ou os deuses, volta seus olhos para as estátuas e lhes dirige sua prece ou, através destas imagens que ele vê, a oferece na realidade ao ser objeto de seu pensamento para o qual ele imagina que deve subir a partir das coisas visíveis e do símbolo? Mas o cristão mais simples sabe que qualquer lugar do mundo é parte do todo e que o mundo inteiro é o templo de Deus. Orando “em todo lugar”, depois de ter fechado a entrada dos sentidos e aberto os olhos da alma, eleva-se acima de todo o mundo; nem mesmo se detém na abóbada do céu, mas atingindo pelo pensamento o lugar supraceleste, guiado pelo Espírito divino e, por assim dizer, fora do mundo, faz subir até Deus sua oração que não tem como objeto as coisas passageiras. Pois ele aprendeu de Jesus a não procurar nada de pequeno, quer dizer sensível, mas somente as coisas grandes e verdadeiramente divinas que sobrevêm como dons de Deus para guiar à bem-aventurança junto dele, por seu Filho, o Logos que é Deus4. [...]

    Comentário: Essa passagem é de fundamental importância. Orígenes satiriza os filósofos que depois de especulações deve voltar, junto com o populacho, orações às estátuas. É interessante que ele afirma que o filósofo "dirige sua prece ou, através destas imagens que ele vê", pois sabia da argumentação pagã que as estátuas, ou símbolos, não são literalmente os deuses, mas que através das estátuas eles ofereciam preces para os deuses. Orígenes conhece então dois níveis de pensamento em relação ao uso religioso de imagens: 1) Um tipo mais grosseiro, típico da ralé religiosa que confundia Deus ou os deuses com o símbolo, achando que o símbolo era literalmente Deus ou os deuses; 2) O uso mais refinado que entendia ser imagens apenas representações de Deus ou dos deuses, e não a realidade deles.

   Citação:

     Assim como descobrimos nesta atitude a asbtenção do adultério, embora pareça a mesma, uma diversidade proveniente de outras doutrinas e das intenções diversas, o mesmo ocorre com a recusa de honrar a divindade nos altares, nos templos e nas estátuas. Os citas, os nômades da Líbia, os seres, povo sem deus, e os persas fundamentam sua atitude em outras doutrinas diferentes daquelas pelas quais os cristãos e os judeus não toleram este culto que se pretende oferecido à divindadePois nenhum desses povos pode tolerar os altares e as estátuas porque se recusaria a exautorar e aviltar a adoração devida à divindade, dirigindo-a a matéria assim modelada. [...] Por causa deles, não só se afastam dos templos, dos altares, das estátuas, mas também correm para a morte quando necessário, para evitar emporcalhar a noção do Deus do universo com uma infração deste gênero à sua lei5[...]

    Comentário: Celso anteriormente é citado por Orígenes comparando os cristãos aos "nômades da Líbia, citas e os seres, que são os povos sem Deus. Orígenes afirma que a razão pela qual eles não toleram templos, altares e estátuas não é a mesma razão pela qual os cristãos também não os toleram. Nas palavras de Orígenes: "De fato é preciso examinar as doutrinas que levam à intolerância os que não podem tolerar templos e as estátuas, a fim de poder louvar esta intolerância de ela é motivada por sãs doutrinas, e censurá-las se os motivos são errôneos"6. E a razão dele afirmar isso está explicada logo adiante, onde ele elenca várias escolas que levantam razões distintas para a abstenção do adultério - e então entramos no parágrafo citado acima, que é alvo do comentário aqui. Mas o importante é que Orígenes cita com louvor a intolerância dos cristãos em relação às estátuas - e não afirma ser tolerável outro tipo de estátua ou imagem física no lugar das estátuas dos ídolos; isso nos leva ao juízo de que Orígenes possui uma sentença formal contra imagens representativas do ser divino, e isso ficará claro nos comentários a seguir, assim como ficará claro que o costume cristão da época de Orígenes era a abstenção de todo e qualquer tipo de estátuas ou imagens.

    Citação:

    Celso também citou o texto de Heráclito insinuando, em sua interpretação, que é tolice orar para as estátuas quando não se conhece a verdadeira natureza dos deuses e heróis. Devemos responder: é possível conhecer a Deus e seu Filho único, como os seres que são honrados por Deus com o título de deus [anjos - helohim do hebraico, que pode significar tanto anjo como Deus] e participam de sua divindade, e que são diferentes de todos os deuses das nações que por sua verdadeira natureza são demônios; mas na verdade não é possível conhecer a Deus e orar para as estátuas.

    É tolice não só orar para as estátuas, mas também se acomodar às massas e fingir orar para as estátuas, como os filósofos peripatéticos, os sequazes de Epicuro e Demócrito. Não, nada de bastardo deve subsistir na alma do homem verdadeiramente piedoso diante da divindade. Recusamos por este modo honrar as estátuas para evitar, enquanto depender de nós, adotar a opinião de que as estátuas seriam outros deuses7. [...]

    Comentário: No primeiro parágrafo Orígenes fala que não é possível conhecer a Deus e orar para estátuas. Obviamente que ele está acenando para a literalidade da oração à estátua, não a ela como representação de algo. Orígenes opõe aqui o tipo do conhecimento dos filósofos, que sabem que ao orar à estátua não é orar aos deuses, ao conhecimento do populacho, que confundem o símbolo com aquilo que é simbolizado. Lembremos da primeira citação em que Orígenes afirma que Moisés proibiu a confecção de imagens porque estas atraem o olhar dos simples para a terra. Obviamente que se trata de um cuidado pastoral, afim de que "nada de bastardo subsista na alma do homem verdadeiramente piedoso diante da divindade". E lembremos que esse é um cuidado pastoral ausente da teologia católico romana. Mas seria forçado dizer que existe uma licença possível nos escritos de Orígenes para a confecção das imagens de Deus, mesmo a título de uso simbólico. Nada há na obra origenista que indique algo dessa espécie, já que, evidentemente, a confecção de imagens é um risco real para a espiritualidade, já que leva àquilo que chamo de "contração do ser" - não do ser em si, mas sim da nossa mente em relação ao Ser de Deus. Trata-se de um obstáculo à espiritualidade. Lembrem-se também que a razão pela qual iconodulas ou alguns iconistas em geral defendem o uso de imagens é que elas seriam uma bíblia para os ignorantes enquanto que Orígenes considera que as estátuas e imagens são justamente um risco para os ignorantes.

    Citação:

    Celso diz com justeza que não as considera [as estátuas] como deuses, mas apenas como oferendas consagradas e oferecidas aos deuses, mas não esclarece como estas oferendas são consagradas não aos homens, mas, como ele observa, aos próprios deuses. Pois é claro que são oferendas de pessoas que têm ideias falsas sobre a divindade. Também não pensamos que as estátuas sejam imagens divinas, pois não representamos a imagem de Deus invisível e incorpóreo. Mas quando Celso supõe uma contradição entre nossa afirmação segundo à qual a divindade não tem forma humana, e nossa crença de que Deus fez o homem à sua imagem e a fez à imagem de Deus, devemos responder como ficou dito acima: declaramos que o que é à imagem de Deus é conservado na alma racional que é tal pela virtude. Aqui, porém, Celso, que não vê a diferença entre Imagem de Deus [estátuas] e o que é à imagem de Deus [os homens], nos faz dizer: Deus fez o homem à sua imagem e de forma semelhante à sua8[...]

    Comentário: Orígenes é extremamente explícito aqui, afirmando não meramente uma opinião pessoal, mas dizendo na 1ª pessoa do plural, como que falando em nome de outras pessoas também que "não pensamos que as estátuas sejam imagens divinas, pois não representamos a imagem de Deus invisível e incorpóreo". Ele afirma que "não pensamos", no sentido que de os cristãos entendem que Deus transcende infinitamente a mera representação sensível, e que "não representamos", no sentido de que não havia o costume de confecção de imagens ou estátuas para Deus.

    E um segundo ponto a se destacar é que Orígenes sabia que Celso não afirmava serem imagens ou estátuas literalmente deuses ou a divindade, mas sim representações delas.

    Citação:

    Em seguida ele [Celso o filósofo] declara que evitamos construir altares, estátuas e templos; pois ele acredita que é palavra de ordem combinada de nossa associação secreta e misteriosa. É ignorar que para nós o coração de cada justo forma o altar de onde sobem na verdade e em espírito, incenso agradável odor, as preces de uma consciência pura. Por isso diz João no Apocalipse: "O incenso que são as orações dos santos" (Ap 5,8), e no Salmista: "Suba minha prece como um incenso em tua presença" (Sl 140,2).

    As estátuas, as oferendas agradáveis a Deus não são obras de artesãos vulgares, mas do Logos de Deus que as delineia e forma em nós. São as virtudes, imitações do "Primogênito de Toda Criatura", no qual estão os modelos da justiça, da temperança, da força, da sabedoria, da piedade e das demais virtudes. Por tanto, todos os que, segundo o Divino Logos, edificaram em si mesmos a temperança, a justiça, a força, a sabedoria, a piedade, e as obras-primas das demais virtudes, trazem em si mesmos estátuas. É por meio delas, como sabemos, que convém honrar o protótipo de todas as estátuas, a "Imagem do Deus invisível" (Cl 1,15), o Deus Filho Único. Além disso, os que se despojaram do "homem velho com as suas práticas e se revestiram do novo, que se renova para o conhecimento segundo a imagem do seu Criador" (Cl 3.9,10) recuperando continuamente a imagem do criador, edificam em si mesmos estátuas dele, assim como o Deus supremo deseja9[...]

    Comentário: Orígenes cita diretamente Celso, dizendo que os cristãos "evitam construir templos, altares e estátuas". A explicação para isso é tipicamente uma explicação espiritualizante e alegorizante. Para muitos pais da Igreja, segundo o sentido da Escritura, todos os ritos do Antigo Testamento eram apenas uma prefiguração da realidade espiritual que se concretiza em Cristo e em cada cristão. O templo de Jerusalém é a figura do corpo, assim como o altar; da mesma forma o incenso é a figura da oração, e assim por diante. O cristianismo pode ser visto como a antropologização teológica máxima na teologia dos primeiros pais. Podemos dizer que "o homem é a religião". Os cristãos são o templo, as virtudes são as imagens, o altar é o corpo e o artífice é o Logos que delineia na alma as virtudes pelas quais servimos e sacrificamos a Deus. O ritualismo religioso tomou as proporções do homem; decair para a confecção de estátuas, altares e templos é cair no ser, ou voltar a um estado primitivo tosco já superado; é decair do espírito para a letra. Orígenes reflete o teor entusiasmado de uma fé nova, viva e não envelhecida com entulhos ritualísticos e paramentais, mas plenificada de significado vivificador. Trata-se de uma expressão religiosa exteriormente pobre, segundo Celso - que até lhe parece ateísta -, mas interiormente vulcânica e sublime. É assim que entendemos um típico teólogo norte-africano (origenista?) como Santo Agostinho, quando discorre sobre o retorno interno, ou a volta para o interior, como podemos ver no De Vera Religione. Dessa forma, a pobreza externa da religião cristã é caracterizada por Celso como um culto sem templos, sem estátuas, sem altares.

    Citação:

    Portanto, não é para observar uma palavra de ordem convencionada da nossa associação secreta e misteriosa que evitamos edificar altares, estátuas e templos; mas porque encontramos, graças ao ensinamento de Jesus, a forma da piedade para com a divindade, evitamos atitudes que sob a aparência da piedade tornam ímpios os que se afastam da piedade que tem por mediador Jesus  Cristo: só ele é o caminho da piedade, porque ele diz com toda verdade: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida" (Jo 14.6)10.

    Comentário: Aqui vemos a confirmação de Orígenes das palavras de Celso sobre a austeridade primitiva do culto cristão. Se na citação anterior ele alegoriza e espiritualiza os templos, altares, estátuas e incensos, aqui ele fala claramente sobre a realidade austera do culto. Se antes poderia haver dúvidas, agora já não pode haver mais. 
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1] ORÍGENES - Conta Celso. IV.31
2] PLATÃO - A República. Edipro. Lib.X p. 407, 409.
3] ORÍGENES - Contra Celso. VII.42
4] Ibid. VII.44
5] Ibid. VII.64
6] Ibid. VII.63
7] Ibid. VII.65,66
8] Ibid. VII.66
9] Ibid. VIII.17
10] Ibid. VIII.18