sábado, 21 de fevereiro de 2026

O Paralogismo e a Transubstanciação

    Todos sabemos que, quanto aos entes criados, essência e existência não são idênticos. Ora, o poder aderir à substância por parte dos acidentes não implica estar atualmente nela, e nem sempre precisa estar, bastando o poder estar. Mas isso não basta para uma definição completa de acidente, e resolve um total de zero coisas na posição daqueles que afirmam a transubstanciação. Ora, se basta afirmar a inerência aptudinal, ou o poder aderir à substância, e não o aderir atualmente a ela, poderia ser que um acidente pudesse não estar em outro - mas essa é justamente a definição de substância. A questão é que atualmente é impossível um acidente não estar em um sujeito. O que essa gente quer sacar do juízo a respeito da inerência apitudinal é uma grosseria que violenta barbaramente todas as luzes da razão.

    Além do mais os acidentes do pão e do vinho transubstanciados se dizem que são atuais, e não importa se tem inerência aptudinal - a qual não negamos -, pois são atuais, já que só aquilo que está em ato pode reduzir outro a ato, tais como as formas do pão e do vinho reduzem os nossos sentidos a ato, pois os vemos, tocamos, sentimos etc. Ora, se não há um suposto ali, e se tais formas ali reduzem nosso sentido a ato, segue-se que tais acidentes são formas universais sem um suposto, sendo elas sujeito e não um mero nada, ou ocasiões pelas quais a virtude divina opera em nós, reduzindo os nossos sentidos a ato, o que é um absurdo - pois o que confere operação ao acidente é a substância, já que um acidente não pode por si operar. Se levadas essas premissas ao limite, diríamos que há operação sem operador, o que só um cérebro maravilhoso que consegue ver o impossível, como o de um tomista, é capaz.

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    O fundamento da argumentação tomista a respeito da transubstanciação é simples, ou seja, que é possível, por via da onipotência divina, a permanência dos acidentes independentemente da substância. É, para usar um exemplo de Aristóteles, como defender que a brancura pode subsistir independentemente da reta (como quando o branco aparece quando se faz um risco de giz), ou que uma forma não substancial pode subsistir independentemente de um suposto - o que destrói completamente a definição de acidente. Pois nem a quantidade, nem a qualidade, nem a relação, ação ou paixão etc., podem subsistir sem um suposto; e no caso da quantidade, ela não pode subsistir por si, sendo fundamento ontológico por si de outras qualidades, a não ser que se faça dela uma forma substancial - o que faria a quantidade declinar da sua definição de acidente que é aquilo que subsiste não por si, mas em outro.

    Se alguém dissesse que existe um corte no dedo sem um dedo, ou um correr sem um corredor, todos ficariam estranhados com tais fantasmagorias e achariam afirmações semelhantes um absurdo. Mas a submissão cega conduziu alguns dos maiores filósofos à defesa de um absurdo semelhante, tudo empacotado em uma linguagem filosófica sofisticada sobre a possibilidade, por via da onipotência da primeira causa, da sustentação no ser de acidentes sem um suposto.

Milagre não é paralogismo.

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