Um dos primeiros cristãos a realizar uma especulação mais abrangente sobre a comunhão dos Santos e a relação deles com a oração foi Orígenes de Alexandria (Sec. III d.C.). Em certas passagens, como no Contra Celso, Orígenes afirma até uma comunhão de oração com os anjos, excluindo, no entanto, qualquer possibilidade de oração dirigida a eles, mesmo na qualidade de simples intercessores.
"Pois invocar os anjos sem ter recebido a seu respeito uma ciência que ultrapassa o homem não é razoável [e Orígenes não diz aqui que há uma ciência a ser recebida para invocá-los, mas sim que é tolice fazer essa invocação, pois se recebêssemos a ciência celeste, não cometeríamos tal ato ilícito. É essa a razão da explicação que se segue]. Mas suponhamos, por hipótese, que tenhamos recebido esta ciência maravilhosa e misteriosa: esta ciência em si mesma leva ao conhecimento da natureza dos anjos e dos ofícios confiados a cada um deles e não permitirá que ousemos orar a qualquer pessoa a não ser ao próprio Deus supremo, que a tudo pode satisfazer perfeitamente, por meio de nosso salvador, o Filho de Deus, que é logos, sabedoria, verdade e tudo o que dele afirmam as escrituras dos profetas de Deus e dos apóstolos de Jesus" (Contra Celso. Livro V, § 4 e 5)".
Orígenes também trata, em seu Tratado Sobre a Oração, da comunhão de oração que universalmente une a igreja, para ele composta dos vivos, mortos e anjos. Contudo, não se segue que da comunhão universal de oração se conclua que devemos orar uns aos outros - coisa que o Pe. Paulo Ricardo, por exemplo, confunde com o orar uns pelos outros preceituado pela Escritura (Tg 5.16). Orar pelos outros - que é interceder por eles - está a uma eternidade de distância de orar aos outros.
Não é errado dizer que os santos que já se foram oram e adoram, mas seria uma presução de milagre, e um erro de categorias, achar que infalivelmente às almas seja atribuído o ofício de acolher orações a elas destinadas. Ora, aquele que foi prometido estar conosco, o Espírito Santo, para que o santo ouça, já deve ter antes ouvido a nossa oração para remete-la aos santos. Ou seja: para que o santo nos ouça, é necessário Deus já ter atendido a nossa oração antes intervindo milagrosamente (por questão de conceito, uma alma não pode nem ouvir, nem ver, pois lhe falta os sentidos que a liguem ao mundo exterior - e se 'ouve' e 'vê', é como se Deus olhe infundisse espécies diretamente na alma). Para doutrina a católica romana ser consequente, só a repristinação da velha doutrina gnóstica dos níveis de honra para a ascesnão às esferas superiores poderia vir em socorro, além de um tipo de sobrenaturalismo desnecessário que é contrário à Escritura e à plenipotência do sacrifício de Cristo, acrescentando uma camada de complexidade na nossa relação com Deus que antes de auxliar na comunhão com o Senhor, nos repele dela - como se a relação com Deus se fizesse em uma cadeia de nós que liga o inferior terreste, passando por camadas intermediárias, até a Deus.
Aqueles que antepõe a essa objeção a necessidade de comunhão, que seria fortalecida pela doutrina da intercessão dos santos (e esse nome que designa a doutrina diz menos do que ela realmente é), a isso objetamos que existe apelo apostólico na Escritura mais do que o suficiente que nos conduz à comunhão - que é desejo do Espírito Santo -, à comunhão pública e congregação para a oração, adoração, e celebração dos sacramentos. Uma das justificativas de Moisés para a libertação dos filhos de Jacó do Egito foi que eles fossem libertos para sacrificar no deserto (Êx 2.18); também a escritura exorta: não deixem de congregar (Hb 10.25). Existe um sentido para o culto comum, para a congregatio fidelis, pra a união universal para a oração e adoração, que em nada depende desta doutrina que pede para orarmos aos santos falecidos e aos anjos, doutrina que também parece ignorar o sentido da própria oração que, em ato, não pode ser diferenciada de um ato de adoração à qual se presta exclusivamente a Deus e que se faz únicamente em Deus (que só tem efetividade e realidade por participação n'Ele).
"Sem dúvida, não desacreditamos estas imensas criaturas de Deus, nem dizemos com Anexágoras que o sol, a lua e as estrelas são apenas 'massas inflamadas', se professamos nossa doutrina sobre o sol, a lua e as estrelas. É apenas compreender a divindade de Deus que tudo ultrapassa com indizível superioridade, e a do Filho de Deus único que ultrapassa tudo mais. E quando estamos persuadidos de que o sol, a lua e as estrelas oram ao Deus supremo por meio do seu Filho único, julgamos que não devemos orar aos seres que oram: eles mesmos preferem nos remeter ao Deus a quem eles oram, e não nos abaixar até eles ou partilhar de nosso poder de oração entre Deus e eles mesmos" (Contra Celso V, § 11).
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