Há uma tentação que circula entre os cristãos cuja consumação resulta na aceitação pública daquilo que Jesus negou no deserto. Quando Satã prometeu a Cristo o domínio sobre todos os reinos deste mundo, sob o preço de prostrado adora-lo, foi por amor a nós que Jesus resistiu e destroçou a tentação com a Espada do Espírito, ou seja, opondo à tentação a declaração do mandamento: "Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a ele darás culto" (Lc 4.8 ).
Satanás pode modificar os meios, diversificar os símbolos, mas o sentido da sua ação é sempre o mesmo. De um modo um tanto quanto distinto, a prostração a Satanás ganha outros contornos, mas exige sempre o mesmo sacrifício: a rendição da alma, dos princípios, da decência; mas a oferta, o 'ganhar o mundo', continua ser ainda a grande recompensa, o que não é meramente circunscrito à satifação de prazeres sexuais, como está cristalizado no imaginário comum de um cristianismo neurótico, pois o fundamento do pecado, e mesmo o principal deles, tem uma forma e um gozo exclusivamente espirituais.
O desejo de exercer potência, gozar de grandeza, ou mesmo a ambição por honra, reconhecimento e prestígio imortais, é a característica da vida meramente performática e exterior que conduziu os farizeus (talvez sexualmente abstêmicos - ou francamente adúlteros - Deus o sabe) ao pecado do espírito. Posso aqui até me permitir uma abstração, dizendo que a relação entre Jesus e os farizeus pode nos servir de símbolo, o símbolo que expressa até onde vai uma corrupção do espírito contra a verdade, humildade e decência, nem que para o livre desenvolvimento da corrupção seja necessário matar o Verbo da Vida, o Logos, a Palavra de Deus viva e encarnada em nossos corações.
Muitos pecados são cometidos em nome de Deus, e o fariseu é a simples concentração do orgulho em sua efetividade mais sombria, a figura sensível do que seria o pecado do espírito. E é difícil - talvez seja uma das operações mais difíceis - discernir o pecado daqueles que, mesmo matando, dizem prestar culto a Deus (Jo 16.12) - e isso porque muitas pessoas querem um fim, e poucas estão dispostas a julgar os meios que qualificam a aquisição desse fim. A tentação, para lembrar os dias de hoje, de matar para libertar um povo para a fé, nem que para isso se transgridam leis, se destrocem a confiabilidade das nações, se viole a leis do próprio país (sim, estou falando dos Estados Unidos), se produza ressentimento, e tudo contando com endosso incondicional de cristãos, é uma desses episódios tristes onde muita destruição é feita, mas pouco escrúpulo é observado. E a cada dia um limite a mais é atravessado, e um consentimento a mais é pedido, e a cada ato a alma vai sendo migrada para um espectro mais tenebroso da realidade.
Há um detalhe importante em tudo isso: existe a real sensação de que os cristãos, como o Franklin Graham deixa bem claro em seu agir no mínimo polêmico, de que eles estão piedosamente avançado sobre a história, e o método consiste em que a cada bombardeio uma oração é elevada aos céus, a cada muçulmano morto um pouco do reinado celeste ganha concreção terreste, que a cada minuto, como dizia Lutero, o grande sacedote assume mais um pouco a função da espada, e o governante assume a função de anunciador do evangelho, onde cada vez mais a cruz assume, na boca desses, a forma de uma espada e a espada ganha os contornos sagrados de uma cruz. A cruz romana que foi cristianizada por Cristo agora é romanizada por cristãos. Com tudo isso, um pouco mais do mundo vai sendo ganho e nem sabemos ao certo quem é o princípio espiritual que põe tudo isso em marcha. Talvez ele esteja apontando para o ganho do mundo e sussurrando aos ouvidos: 'se prostrado me adorares'.
A tentação aqui ganha um pouco mais de complexidade - que é a forma preferida da armadilha contra incautos -, quando o tirano lava sua honra no sangue do tirano. Se o regime iraniano nos causa estranhamento, e mesmo indignação, nem por isso estamos na obrigação de abraçar necessariamente aqueles que dizem atuar, 'per fas et per nefas' (por meio lícitos e ilícitos), para combate-lo - e estejam certos que não fazem isso, em absoluto, por nenhum de nós. Você que espera seu espólio, certamente se verá de mãos abanando.
Ainda não inventaram bombas com juízo moral, que atingem somente criminosos dignos de morte e julgados por Deus. A bomba é um ente desinteligente, não livre como os entes da natureza, e que só muda seu curso natural por aquele que é mais livre do que ela. Se deixa-la parada, atuará com inércia. É por isso que cada ato de violência, que mesmo potencializada pela tecnologia dificilmente pode ser controlada, deveria bater de frente contra nossos escrúpulos e não encontrar em nós um sorriso, aberto ou de canto, cujo significado nos concede alegria e satisfação.
Os cristãos estão muito bem preparados para se opor àqueles que os tentam através de ameaças e violência. Mas estão pouquíssimos preparados para aqueles que os desviam com lisonjas.
Que seja Deus, e não os senhores deste mundo, Aquele que nos conceda o nosso galardão.
Amém!
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