quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Agostinho e a Entrega do Coração como Graça e não como Obra do Livre-Arbítrio

    Pelágio prossegue e diz no livro antes citado: "Aquele que faz bom uso da liberdade, entregar-se totalmente a Deus, mortificando sua vontade de modo que pode dizer com o apóstolo: 'Eu vivo, mas já não sou eu que vivo, pois é Cristo que vive em mim' (GL 2,20); e deposita seu coração nas mãos de Deus para que ele 'o incline para qualquer parte que ele quiser' (Pr 21,1)".
   É grande ajuda da graça divina, sem dúvida, que ele incline o nosso coração para onde quiser. Mas essa grande ajuda nós a merecemos, conforme ele disse na sua loucura, quando, sem outra ajuda, que a do livre-arbítrio, corremos para o Senhor, desejamos ser dirigidos por ele, submetemos nossa vontade à dele e, aderindo-lhe constantemente, constituímos com ele um só espírito. E Ester bens tão extraordinários, segundo ele [Pelágio], nós os conseguimos somente pela liberdade do arbítrio. E assim, com estes méritos precedentes, conseguimos que ele incline nosso coração para onde quiser.
   E como pode chamar-se graça, se não é dada de graça? Como pode chamar-se graça, se é pagamento do que é devido? Como dizer que é verdade o que diz o apóstolo: 'E isso não vem de vós, é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se encha de orgulho'? (Ef 2,8-9). E novamente: 'E se é por graça, não é pelas obras ; do contrário, não é mais graça'? (Rm 11,6).

Santo Agostinho. Graça (I). A Graça de Cristo e o Pecado Original. p. 237, 238

A Graça de Cristo

   Desse modo, fica bem clara a afirmação de Pelágio concernente à doação da graça de acordo com os méritos, qualquer que seja o significado que lhe dê, embora não se expresse com clareza. Pois, ao dizer que hão de ser recompensados os que fazem bom uso da liberdade e, por isso, merecem a graça do Senhor, confessa ser ela (a graça) pagamento de dívida.
   Nesse caso, onde fica o dizer do Apóstolo: 'E são justificados gratuitamente por sua graça?' (Rm 3,24). E esta outra sentença: 'Pela graça fostes salvos'? E para não se pensar (ser salvo) pelas obras, acrescentou: 'Por meio da fé'. Evitando que se pense numa atribuição da própria fé sem a graça de Deus, diz: 'E isso não vem de vós, é dom de Deus' (Ef 2,8). Assim, o que marca o início de tudo o que dissemos receber por merecimentos, recebemos (a graça) sem eles, ou seja, recebemos pela fé.
   E se alguém negar que nos é outorgada (ou que nos é dada como direito), o que significa o que foi dito: 'De acordo com a medida da fé que Deus dispensou a cada um'? (Rm 12,3). E se alguém disser que é retribuição pelos merecimentos, então não é dada. O que significa o que diz novamente: 'Pois vos foi concedida, em relação a Cristo, a graça de não só crerdes nele, mas também por ele sofrerdes'? (Fl 1,29). Testemunhou que ambas as coisas foram concedidas: o crer em Cristo e o parecer por Cristo. Os pelagianos, no entanto, atribuem a fé ao livre-arbítrio em tais termos que a fé parece ser uma graça devida, e não um dom gratuito. Assim não é graça, nem gratuita; não é graça.

Santo Agostinho - A Graça de Cristo e o Pecado Original. Ed. Paulus, p. 246,247

A Condenação, a Razão, o Arrependimento e o Amor

   A operação racional que tem por conteúdo o dogma cristão do inferno não é tarefa para incapazes. Somente uma mente imparcial capaz de refletir sobre a justiça ela mesma, e que é apta a se colocar sob o julgo desse mesmo juízo, é capaz de entender a racionalidade e a necessidade da existência do dogma.
   Não se trata, antes de tudo, de mandar o outro ou quem quer que seja para lá - coisa que nenhum cristão sério faz -, mas se trata, antes, da abertura da consciência daquele que assim reflete, diante da verdade da justiça ela mesma, para a possibilidade de que ele mesmo vá para lá. É o que o cristão individualmente DEVE fazer em TODO ato de análise da consciência, não sendo outro o fundamento próprio de TODO arrependimento verdadeiro.
   Quem nega a justiça eterna, nega também o juízo e a necessidade própria de arrependimento dos pecados, negando a própria existência de uma justiça a castigar os maus e a recompensar os bons - o que Kant mesmo dizia ser um postulado da moralidade. É isso mesmo que os liberais fazem quando, ao mesmo tempo que negam a existência do inferno, justificam toda perversidade e pecado (ainda que a discordância em relação ao pensamento deles seja um pecado imperdoável).
   Enfim, todo amor de fato é fundamentado no juízo (como diz o provérbio, não devemos ser a mula para quem não existe razão), pois tendo em vista este mesmo juízo, aqueles que amam tentam desviar os que erram do caminho da morte certa (que é o salário do pecado). É como diz o adágio: "quem avisa amigo é", e só pode avisar quem possui antevisão da desgraça que se abate sobre aqueles que estão em flagrante oposição à vontade de Deus. Aqui está a essência de TODA profecia cristã e bíblica.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Protestantismo e Democracia

   Uma das obsessões de gente que se acha mais iluminada do que o resto das pessoas está em buscar motivos para controlar a sua vida. Veja a quantidade de intelectuais que detesta a democracia justamente porque acha que em suas cabeças se encontra o melhor dos mundos: Marx, Trotsky, uma parcela de intelectuais católicos radicais, Iluministas, e mesmo alguns filósofos ilustres como Platão.
   Ainda que alguns estivessem certos sobre os diagnósticos que deram sobre a "doença das massas", sobre empobrecimento inevitável em que cai o pensamento quando ele se transforma em clichê público, ou quando jargões substituem a investigação racional da realidade, ou ainda quando a opinião substitui o conhecimento, ou quando dizem que determinadas estruturas sociais dificultam a aquisição do conhecimento verdadeiro, eles erram quando superestimam o próprio conhecimento da realidade, ignorando a sabedoria prática espalhada na população, que em média é infinitamente maior do que a quantidade de informação de que é capaz um só homem ou uma classe de filósofos.
   Foi nessa desconfiança da sabedoria prática espalhada entre a população que surgiram, no período do chamado "iluminismo francês", os planejadores centrais da sociedade, tanto no que diz respeito ao plano econômico, quanto no plano educacional. E dessa miséria padecemos ainda hoje em nossa estrutura de Estado.
   Ainda que todo mal se diga sobre o protestantismo, ele é o responsável pela devolução da liberdade pública, com o critério básico de que houvesse uma fé para tornar consciente a massa de sua responsabilidade moral. Não é por acaso que na era das revoluções, o metodismo de John Wesley criou uma espiritualidade de massa na Inglaterra - com influências na América - que impediu a revolta que engoliu a França com a Revolução levada a cabo por abstrações de intelectuais fanáticos.
   A desconfiança protestante - em especial nas sociedades influenciadas pela teologia calvinista - contra o poder concentrado tem uma razão: a fé no pecado e um ceticismo antropológico que abomina qualquer concentração absoluta de poder no homem que "bebe a iniquidade como a água" (Jó 15.16).
   Não é estranho que a própria constituição dos EUA - um milagre da graça comum - tenha surgido com todas as defesas possíveis contra a concentração absoluta de poder; e não é impossível compreender, apesar dos olavismos da vida, que o ambiente do próprio protestantismo tenha fomentado essa defesa contra a tirania, seja contra a igreja única, seja contra o Estado único, ou contra o empresário único.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Deus entre a Razão e a Vontade

   O pensamento teológico ou filosófico a respeito de Deus ao longo da história da Igreja se debateu entre os polos "razão e vontade", ou "forma e dinâmica". Não foram poucos os que sacrificaram um em nome do outro. Ou a Razão prevaleceu sobre a Vontade (Aquino); Ou a Vontade prevaleceu sobre a Razão (Duns Scotus).
Aqueles que enfatizam a prevalência da razão ou da forma na natureza divina geralmente o fazem por tentarem livrar da nossa ideia de Deus o monstro da arbitrariedade: Deus age de tal forma clara e inequívoca que o faz longe de qualquer possibilidade de contradição consigo mesmo. A compatibilidade de Deus com a razão concede à razão humana a possibilidade de conhecimento da natureza de Deus de forma autônoma... Contudo Deus assim considerado tem a sua vontade sacrificada, ficando ele devedor de uma determinada natureza, possibilitando até a ideia de uma "eternidade do mundo". Aqui Deus é reduzido a uma lei.
Mas aqueles que enfatizam a Vontade em Deus buscam preservar a sua soberania: Deus não é devedor de uma natureza, e por exemplo: Deus não criou o mundo porque em si ele o considerou "o melhor dos mundos", fazendo-o a partir de uma condição lógica pretérita, antes o mundo é bom porque Deus o criou como criou. Essa ênfase da liberdade absoluta de Deus o deixa livre de qualquer natureza, destacando uma realidade dinâmica no fundamento do ser; contudo algo terrível dorme aí: Deus poderia subverter a totalidade da criação, sendo "potestas absoluta" (Autoridade Absoluta - como afirmou Ockam), o que poderia desembocar em arbitrariedade totalitária.
Foi com esse dualismo no interior do pensamento cristão que se esgotou a teologia da Idade Média, estando todos nós, ainda hoje, no interior desse dualismo. E na força da secularização tal dualismo acabou impulsionando outros dualismos , entre os quais e ênfase do "racionalismo iluminista" e do "historicismo irracionalista".
Mas não seria o pensamento cristão a afirmação da unidade entre essas hipóstases polares, ou a possibilidade de transcender esses reducionismos, afirmando tanto a razão quanto a vontade, ou a dinâmica quanto a forma, não sacrificando uma esfera de realidade sobre a outra, mas harmonizando plenamente uma e outra?

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Kierkegaard, o Hábito e a Eternidade

   O hábito é a mais triste das mudanças, e por outro lado com qualquer mudança a gente pode habituar-se; é só o eterno, e por tanto aquilo que se submeteu à transformação da eternidade em se transformando em dever, constitui o imutável, mas o imutável justamente não pode transformar-se em hábito. Por mais firmemente que um hábito se estabeleça, jamais se torna imutável, mesmo se o homem se tornasse incorrigível; pois o hábito é sempre aquilo que 'deveria ser modificado', e o imutável, ao contrário, é aquilo que 'nem pode e nem deve ser modificado'. Mas o eterno jamais envelhece e jamais se torna um hábito rotineiro.

S. A. Kierkegaard - As Obras do Amor; ed. Vozes. p. 55

Fascismo Cult e o Culto da Barbárie

   Antes de falar de fascismo algumas pessoas deveria pegar um livro. Dizer que o fascismo é caracterizado pelo "pensamento retrógrado" é uma asneira mal explicada. A década de 20 e 30 do século passado sofreu um surto fascista depois da desestabilização das potências européias após a Primeira Guerra.
   Mas o fascismo, ao contrário do que se pensa, era um movimento cult celebrado pelo "beautifull people" enfileirado entre artistas, intelectuais e poetas influentes, como no caso de Bernard Shaw. Na vanguarda do movimento fascista estavam a escola futurista e também o movimento da arquitetura moderna brutalista liderada por gente como Le Corbusier (um antissemita fanático que desejava destruir o centro parisiense com sua arquitetura antiga e não funcional e adaptá-la aos novos tempos com auto-estradas gigantes e prédios quadrados e sem personalidade feitos de concreto, ferro e vidro).
   Havia também a tara iluminista pelo planejamento central da economia liderada por intelectuais, o que tinha um apelo enorme entre os ilustrados marxistas e socialistas, os mesmos que desdenhavam de forma cínica da sabedoria prática dispersa entre a população - como faz a massa de jornalistas lotada nas redações de jornais influentes no Brasil.
   Havia também como característica marcante dos movimentos de vanguarda o desprezo pelo senso comum e pela democracia representativa. Bernard Shaw, o poeta britânico badalado na Europa, dizia que tirava sua férias tranquilo na África sabendo que Hitler deixou as coisas bem assentadas na Europa, desdenhando ao mesmo tempo do medo dos ingleses e americanos dos modelos ditatoriais, pois preferiam, nas palavras de Bernard Shaw, a bagunça dos modelos representativos de governo.
Mas não que o modelo fascista não fosse reacionário. Antes ele rejeitou a alta diferenciação conquistada pelo desenvolvimento histórico do mundo Ocidental, voltando a modelos que tendiam a absolutizar determinados aspectos da realidade: o tribalismo no caso do nazismo e a centralização absolutista naquela espécie de "pater familias" romano que foi o Dulce italiano (Musolini).
   Mas quem disse que o cheiro de tribalismo bárbaro não está ao redor da "gente moderna"? Quem não conhece o apelo naturalista da nossa sociedade contemporânea refletido em movimentos que pregam o "equilíbrio com a natureza", o "fim do consumo de carne animal", o "culto às energias", a divinização do sexo como algo a ser praticado indiscriminadamente sem qualquer resquício de culpa, a naturalização do consumo das drogas etc?
   E quem duvida que essa gente, libérrima em seus costumes e ao mesmo tempo autoritária nas suas ideias, não sejam intelectuais descolados e divertidos que de forma inconsequente pregam um mundo que, depois de construído, se recusarão a reconhecer como obra de suas mãos? Esses, por causa de um coração insano, são os adoráveis reacionários da história.

PS: É amplamente conhecido que Mussolini foi o primeiro "sex symbol" do Ocidente. E quando eu vejo a Márcio Tiburi dizendo que qualquer mulher "quer" o Lula, eu vejo algumas similaridades entre uma intoxicação política e outra... E a similaridade mais gritante ainda se dá pelo fato de que a feiúra ali nos dois é um negócio presente demais para se deixar enganar, sendo apenas a força do fanatismo algo suficiente para fazer sentir o contrário disso. Para essa gente até o universo estético passa pelo filtro político.

Tomás de Aquino e a "Autonomia da Razão"

   A pretensa defesa da "razão autônoma", deixada a si mesma para buscar a verdade acessível pela "razão natural", feita por Tomás de Aquino ocultou a verdade de que todo o pensamento humano é guiado por um motivo básico religioso.
   Isso ocultou do Ocidente, por exemplo, os motivos pagãos do moderno naturalismo cientificista e humanismo que se desenvolveram de forma "autônoma", ou melhor: se desenvolveram ao destacar uma esfera da realidade "natural" para seguir o seu caminho independente até extrapolarem o seu raio de influência para outras esferas onde não eram competentes, como a esfera da fé.
   A razão disso está na subdivisão "natureza e graça" advogada por Aquino e na desconsideração da corrupção total a que fica sujeita a natureza humana quando afastada da sua raiz transcendente, e a ausência da percepção de que um motivo básico religioso grego/pagão está acomodado a um motivo religioso cristão em sua teologia, motivos esses que são absolutamente irreconciliáveis.

A Justificação pela Graça, Mediante a Fé, X A Ideia de Natureza e Sobrenatureza

   A Reforma, com a sua ênfase na "justificação pela fé", contestou a ideia escolástica da distinção entre "natureza e sobrenatureza" (ou natureza e graça). Nessa ideia escolástica a "autonomia da razão" desempenhava um papel preparatório para a recepção da graça por meio de determinadas disciplinas (a preambula fidei). Nesse sentido a natureza deveria estar previamente apta para que pudesse receber a iluminação e a graça do Espírito Santo; por tanto a recepção do Espírito deveria, na esfera temporal, ser precedida pelo reto ajuste da alma através das obras. Contudo essa pré-paração contrasta radicalmente com o sentido bíblico da graça que afirma que é Deus quem opera em nós tanto o querer como o efetuar (Fl 2.13). Não há "preparação natural para a recepção da graça", pois a graça ou vem ou não vem, e pode vir em nosso pior estado, como foi o caso do Apóstolo Paulo que recebeu a visitação de Jesus "ainda respirando ares de morte contra a Igreja". E isso nos livra da ideia farisaica dos "aptos", pois a moralidade bíblica é explicita em relação aos agraciados: "as prostitutas e os publicanos vos antecedem no reino de Deus"; e sabemos que ao inclinar os nossos corações para o arrependimento Deus nos conduz, pela graça, a despeito do nosso estado, a uma relação ordenada para com ele. Nesse sentido, na compreensão da Reforma, não é a obra que nos conduz à graça, mas é a graça que nos conduz às obras (Ef 2.10).

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

A Grandeza da Filosofia Reformacional de H. Dooyeweerd

   A leitura do filósofo reformado H. Dooyeweerd foi a mais profícua que fiz este ano, mais do que a leitura de "A Era Ecumênica" do Eric Voegelin, que nem por isso deixou de ser notória na intuição básica de que as deformações do pensamento teorético e político tem uma raiz no desespero que, consequentemente, desemboca em uma vontade satânica de domínio sobre a própria realidade.
   Contudo a ideia desenvolvida por Dooyeweerd da "soberania das esferas" é uma coisa de gênio, e, ao meu ver, a única compreensão possível da estrutura da realidade para um cristão.
  Basicamente ele afirma que o pensamento apóstata e desligado da sua raiz espiritual transcendente tende a destacar uma aspecto da realidade e divinizá-lo. O motivo básico do pensamento grego, por exemplo, é fundado no dualismo "matéria e forma", sendo a matéria regida pelo princípio da "Anake" (o destino cego e irracional da matéria) e a forma pela razão teorética ou contemplativa (representada pela religião apolínea da cultura e das formas racionais que domam o caos disforme).
   Por causa desse dualismo a religião grega não consegue afirmar uma raiz espiritual transcendente da totalidade da realidade, como o faz o cristianismo, o que por sua vez desemboca em uma base de motivos irreconciliáveis, tal como pode ser visto nas tragédias gregas, onde o heroísmo trágico não é capaz de sobrepujar a necessidade, sendo esmagado nas mãos da Moira (o destino).
   O cristianismo não parte desse dualismo, mas enxerga uma unidade original na totalidade da criação, já que tudo o que veio a ser veio a ser pela vontade de Deus, incluindo a matéria e a forma. Isso de cara não parece implicar muita coisa, mas os motivos básicos da religião grega, por exemplo, não permitiam enxergar todos os seres humanos como seres humanos, já que aqueles que não participassem da forma racional do estado estavam entregue ao destino disforme e cego da necessidade, o que implicava que aqueles que não estavam ligados à pólis não diferiam dos animais.
   A religião grega, ao destacar um aspecto da realidade e absolutizá-lo fazia com que a humanidade fosse descaracterizada, acabando também como consequência por gerar um estado totalitário. Da mesma forma o romantismo alemão, ao enfatizar o aspecto do sentimento e as forças vitais e dinâmicas da história como reação ao racionalismo abstrato do iluminismo, acabou por absolutizar o aspecto irracional, o histórico e o "destino do povo", de maneira que isso também contribuiu indiretamente para a ascensão de um movimento brutal e vitalista que acabou fundamentando o nacional-socialismo.
   Contudo já não é assim com a visão bíblica da raiz transcendente da criação em Cristo, onde todas as esferas que compõem o todo da realidade são afirmadas em suas características próprias de forma soberana. Tanto a esfera da Igreja, como a do Estado, a da Arte, a Família, a Biologia, a Física, a Matemática, a Simbólica, a Legal são afirmadas em si mesmas, existindo em harmonia umas com as outras e encontrado a sua raiz comum e transcendente como Criação em Cristo.
   Uma das consequências diretas desse pensamento é que uma esfera da realidade não é afirmada em prejuízo da outra e nem um aspecto é destacado e divinizado como o foi a razão para o iluminismo, a alma racional para o pensamento grego, nem o sentimento como o foi para o romantismo, a história para o historicismo, nem a realidade material fenomênica como foi para os positivistas e nem as relações econômicas como foi para os marxistas.
   Todas essas escolas se ajoelham diante de uma abstração ou divinizam de forma idólatra um aspecto da realidade. Para o pensamento cristão isso é impossível, já que Cristo é a raiz transcendente da totalidade dos aspectos da realidade. Isso se traduz em vários mecanismos de defesa e implica várias consequências para a liberdade e consciência humanas. Essa é a grandeza da compreensão da realidade da filosofia cristã de H. Dooyeweerd.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

O Cristianismo Primitivo, o Aborto e o Testemunho de Atenágoras de Atenas


   De fato, os que sabem que não suportamos ver uma execução com justiça, como vão nos acusar de matar e comer homens [e aqui está a acusação antiga de que os cristãos eram antropófagos por causa da Ceia]? Quem de vós não se entusiasma em ver os espetáculos de gladiadores ou de feras, principalmente os que são organizados por vós? Nós, porém, que consideramos que ver matar está próximo de matar, nos abastemos de tais espetáculos. Por tanto, como podemos matar os que não queremos sequer ver para não contrair mancha ou impureza em nós? AFIRMAMOS QUE AS MULHERES QUE TENTAM O ABORTO COMETEM HOMICÍDIO E TERÃO QUE DAR CONTAS A DEUS POR ELE; então, porque iríamos matar alguém? Não se pode pensar que aquele que a mulher leva no ventre é vivente e objeto, consequentemente, da providência de Deus e em seguida matar aquele que já tem anos de vida; não expor o nascido, crendo que expor os filhos equivale a matá-los, e tirar a vida ao que já foi criado. Não! Nós somos em tudo e sempre iguais e concordes com nós mesmos, pois servimos à razão e não a violentamos.*

*Atenágoras de Atenas - Padres Apologistas - Coleção Patrísticas, Paulus. p. 163

terça-feira, 21 de agosto de 2018

A Solidariedade, o Marxismo e os Loucos da Cabeça

   A solidariedade só existe a partir de um princípio espiritual ou metafísico que ilumina, eternamente acima de nós, o nosso juízo para distinguirmos, por um lado, a nobreza de uma ação ou, por outro lado, a vileza ou fealdade dela. Nem o costume e nem a matéria explicam em si o que é o bem ou o mal.
   É justamente neste ponto em que a solidariedade se torna um valor impossível na teoria marxista, já que essa é materialista e compreende os valores apenas como epifenômenos da organização material.
   Sem exageros, a visão de Marx é biótica e é isso que faz com que a revolução não seja um ato de justiça, mas um contra movimento que visa, literalmente, a homeostase, tal como os movimentos revoltos da água visam, ao fim da sua desestabilidade, o repouso.
   É aqui que está focada a noção desse igualitarismo que acaba com todo o conceito de justiça ou solidariedade, que são possibilidades do espírito e de um agente livre, mas não do reino da necessidade que impera de forma despótica sobre a natureza..
   Por tanto, quem aplica o conceito de solidariedade e justiça à teoria de Marx só pode estar louco da cabeça. E é justamente isso que ele afirma quando diz que um dos intuitos do movimento comunista é destruir as verdades eternas.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Hookmaker e a Fé como Realidade Totalizante do Homem

   Quando uma pessoa se arrepende, se volta para o Deus vivo e nasce de novo, isso não pode nem deve ser um acontecimento abstrato cujo significado restringe-se apenas à sua vida emocional e devocional. Não, a nova pessoa, nascida de novo, permanece neste mundo. Torna-se agora um ramo da oliveira (Rm 11.7), um membro do corpo do qual Cristo é o cabeça (I Co 12.12 ss), e este ramo deve dar fruto (Jo 15.15). Deus toma posse da pessoa no cerne da sua existência, da sua personalidade. Não é meramente uma parte da humanidade da pessoa que se converte, não é só uma alma e a função pística [função da fé] considerada à parte do restante, mas a pessoa inteira, de carne e osso, que crê, que sente, que ama, que pensa, que fala e julga as coisas belas ou feias. A pessoa nascida de novo torna-se serva, escrava do Senhor em todas as áreas da vida, com todos os talentos e com todo potencial que o Senhor lhe deu.
HANS R. HOOKMAAKER - Filosofia e Estética. p. 19