quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Ἔχοντες οὖν ἀρχιερέα µέγαν; Ou: 8ª Exposição no Livro de Hebreus (4.14-16): O Sumo Sacerdote que Penetrou nos Céus

Texto grego de Hb 4.14-16
14 Ἔχοντες οὖν ἀρχιερέα µέγαν διεληλυθότα τοὺς οὐρανούς, Ἰησοῦν τὸν υἱὸν τοῦ θεοῦ, κρατῶµεν τῆς ὁµολογίας· 15 οὐ γὰρ ἔχοµεν ἀρχιερέα µὴ δυνάµενον συµπαθῆσαι ταῖς ἀσθενείαις ἡµῶν, επειρασµένον δὲ κατὰ πάντα καθ ὁµοιότητα χωρὶς ἁµαρτίας. 16 προσερχώµεθα οὖν µετὰ παρρησίας τῷ θρόνῳ τῆς χάριτος, ἵνα λάβωµεν ἔλεος καὶ χάριν εὕρωµεν εἰς εὔκαιρον βοήθειαν.

Introdução:

    O escritor da Carta aos Hebreus segue no serviço, digamos, apologético e com a finalidade de convencer os destinatários da carta a perseverarem na fé, ao invés de partirem para o abandono de Cristo em busca de alento diante da perseguição. É possível que não encontremos no Novo Testamento texto mais oportuno para explicar a principal e mais cruel das tentações: a tentação da apostasia. Quando Jesus ensina a orar, nestes termos: "e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal", podemos ver implicado aqui o pedido para o livramento do pior dos males que é o abandono da fé. Os destinatários, ameaçados realmente com o desabar eminente da violência sobre eles, colocam às claras, nesta Carta aos Hebreus, o teor real da tentação da apostasia. É intrigante que haja a necessidade de uma apologia tão elaborada em relação à pessoa e ao ser de Cristo vir em auxílio daqueles que uma vez experimentaram os poderes do mundo futuro (Hb 6.5). Mas entendemos, não obstante, esse serviço como uma das formas do Espírito se comunicar com a Igreja.

Tradução e Comentário:

4.14) Ἔχοντες οὖν ἀρχιερέα µέγαν διεληλυθότα τοὺς οὐρανούς, Ἰησοῦν τὸν υἱὸν τοῦ θεοῦ, κρατῶµεν τῆς ὁµολογίας·: "Tendo (nós), pois, um sumo sacerdote que atravessou os céus, Jesus o Filho de Deus, retenhamos sob o nosso domínio a nossa confissão".
    Aqui vemos novamente uma apologia sobre a grandiosidade singular de Cristo. E até o presente momento o autor já explanou várias qualidades inigualáveis do ser de Cristo, e aqui em específico ele continua a expor a grandeza do ser de Cristo se valendo de várias comparações. O autor até o momento expôs a realidade de Cristo ser maior do que os profetas, tendo em vista a grandeza dos profetas (1.1); dizendo que por meio do Filho o Pai fez todas as coisas (1.2), que ele é a expressão exata do seu Ser (do Pai), sustentando pela sua própria palavra tudo o que há (1.3), sendo ele mesmo maior do que os anjos (1.4), sendo gerado - e não criado - por Deus (1.5), sendo ele adorado por anjos (1.6), assim como é tido como maior do que Moisés (3.3) e Sumo Sacerdote da nossa confissão (3.1). Agora, ao lado da confissão de que Jesus é o fiador da nossa aliança, aquele que nos justifica pela sua própria fidelidade, é acrescido é lembrado que ele atravessou os céus (διεληλυθότα τοὺς οὐρανούς). A qualidade inigualável e absoluta da pessoa, do ser e dos feitos de Cristo são expostos um a um para ficar patente aos olhos de todos que nada há igual a Cristo Jesus e nem tão pouco haverá. Cristo é apresentado como o absolutamente outro em relação ao qual, os nossos feitos, a nossa santidade e capacidade de justificação são como que pífios.

    Cristo é o sumo sacerdote de nossa confissão, e a qualidade daquilo que ele media para nós está à altura da qualidade da Sua pessoa, que é infinitamente maior do que Moisés e do que os anjos, cujas palavras ainda assim permaneceram firmes (2.2). Agora, se para aqueles há firmeza em suas palavras, quanto mais as palavras daquele que, como Filho de Deus, possui palavras sustenta todas as coisas? É esta grandeza que evidencia o teor da qualidade da aliança estabelecida em Cristo, que é aquele que atravessou os céus. Diante de tamanha grandeza qualquer tergiversar passa a evidenciar impiedade, desprezo pela grandeza daquele que por sua própria natureza não pode ser desprezado. Dentro dessa evidenciação, da apresentação eloquente da grandeza, majestade, superioridade transcendente e infinita de Cristo, o que o autor da carta procura é a dissuasão da apostasia e a presentar também as grandes promessas que estão atreladas ao ser de Cristo, que é absoluto; e justamente por isso o autor exorta a que os hebreus possam reter sob o domínio da vontade a confissão diante da ameaça da violência que eminentemente ameaça desabar sobre ele por causa da fé em Cristo. Manter a confissão firmemente é manter o acesso às promessas que só podem ser usufruídas por quem firmemente crê (Hb 11.6).

15) οὐ γὰρ ἔχοµεν ἀρχιερέα µὴ δυνάµενον συµπαθῆσαι ταῖς ἀσθενείαις ἡµῶν, πεπειρασµένον δὲ κατὰ πάντα καθ ὁµοιότητα χωρὶς ἁµαρτίας.:" Pois não temos um sumo sacerdote incapaz de estabelecer uma simpatia com as nossas fraquezas, mas um que, semelhantemente a nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado".

    Aqui estão atrelada duas informações que permanecem um paradoxo: Aquele que penetrou nos céus é o mesmo que é capaz de estabelecer uma simpatia com as nossas fraquezas (συµπαθῆσαι). Não temos um Cristo apático, mas sim um Cristo simpático. E para além da informação um tanto quanto rasa sobre o que seria a simpatia, tal como aquela ideia que habita a cabeça de muitos, o termo simpatia é o resultado da junção de duas palavras gregas, que são συν + παθος, sendo que συν (sin) significa junto com; e παθος (pathós) significa afecção, sentimento, paixão, mudança, sofrimento, seja no bom ou no mau sentido. No caso em questão συµπαθῆσαι (simpathesai) tem o significado de sentir juntamente, ou mesmo de sofrer juntamente no sentido de se compadecer com aquele que sofre - alguma angústia psíquica, alguma dor física ou os dois ao mesmo tempo. O Cristo Todo Poderoso, aquele que penetrou os céus, se manifestando com inigualável poder pela ressurreição dos mortos, aquele que não apenas enfrentou, mas entrou na morte, superando a própria morte pelo poder do seu braço (Is 59.16), e se mostrou como O Cristo Invencível e O Eternamente Vencedor, esse Cristo supremo é o mesmo que tem compaixão para se compadecer por aqueles que padecem e são fracos o bastante para cair em tentação, já que Cristo mesmo, enquanto vivia entre nós, era rodeado de ameaças contra si, mas tinha força o suficiente para opor resistência. Por tanto Cristo, em sua humanidade, em tudo é semelhante (πάντα καθ ὁµοιότητα) a nós, à exceção do pecado, já que ele é sem pecado (χωρὶς ἁµαρτίας).

16) προσερχώµεθα οὖν µετὰ παρρησίας τῷ θρόνῳ τῆς χάριτος, ἵνα λάβωµεν ἔλεος καὶ χαριν ευρωμεν εἰς εὔκαιρον βοήθειαν".: "Nos aproximemos, pois, com ousadia do trono da graça para que recebamos misericórdia e encontremos graça para no tempo adequado".

    Ao temor da apostasia, ao medo da ameaça não se contrapõe a simples resistência, senão que também a coragem para recorrer a Deus, recorrência sem a qual não é possível qualquer resistência, porque sem recorrência a Deus não é possível nenhuma graça. Portanto, nos aproximemos com ousadia do trono da graça (προσερχώµεθα µετὰ παρρησίας τῷ θρόνῳ τῆς χάριτος). Isso é assim porque a resistência que podemos opor ao pecado e à ameaça, não é coisas que se faça com o nosso próprio poder, senão que também pelo poder da graça de Deus, já que, sendo o que somos, não podemos por nós mesmos resistir se isso a nós não for concedido. Se tivéssemos a nossa natureza intacta, pode ser que poderíamos opor resistência ao mal. Mas a nós isso não é possível sem a concorrência da graça que pode sustentar a nossa natureza, fazendo com que ajamos no sentido da resistência ao pecado e à obediência a Deus. É por isso que necessitamos da misericórdia de Deus, de sua intervenção para que o mal não ganhe sobre nós força insuportável. Sendo assim devemos resistir em oração, recorrendo ao trono da graça, que é um só para todos os que crêem, afim de que recebamos misericórdia (ἵνα λάβωµεν ἔλεος) e encontramos graça (χαριν ευρωμεν) no tempo certo, ou ao seu tempo para socorro (εἰς εὔκαιρον βοήθειαν).

    A última parte deste último versículo nos dá boa ocasião para nos lembrarmos que a graça espera, e espera para se manifestar a nós em um tempo oportuno. Aqui se exclui toda espécie de fanatismo extático que se quer atendido a todo instante, excluindo o tempo da devida espera. Não há vida cristã que possa ser construída sem espera, pois sem espera não há esperança. Aquele que quer a epifania da eterna presença deve entender que ainda não é o tempo estabelecido da parousia (presença). É por isso que aguardamos em fé e em oração para que possamos, no tempo adequado, necessário e estabelecido por Deus, termos de Deus aquilo que ansiamos. Oramos aqui não tanto para mover a Deus em seu Ser, mas para nos adequar a nossa vontade ao estabelecimento providencial de Deus com o qual ele move a história do mundo, Providência que tudo executa conforme a sua vontade, que é imutável. Quando a nossa vontade for a vontade de Deus, aí se cumpre a palavra que diz: Se vós estiverdes em mim, e as minhas palavras estiverem em vós, pedireis tudo o que quiserdes, e vos será feito (Jo 15.7), pois o nosso Sumo Sacerdote, é mais do que perfeito para nos atender adequadamente segundo a sua vontade e segundo aquilo que, nele, pedimos em oração.

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Os מִשְׁלֵי; Ou: Meditações em Provérbios: 1ª Meditação em Pv 1.1-7: A Instrução, a Sabedoria e o Princípio do Saber

Texto hebraico (Pv 1.1-07):                                                                                                                 
                                                                                               מִשְׁלֵי שְׁלֹמֹ֣ה בֶן־דָּוִ֑ד מֶ֗לֶךְ יִשְׂרָאֵֽל׃ 
                                                                                                     לָדַ֣עַת חָכְמָ֣ה וּמוּסָ֑ר לְהָבִ֗ין אִמְרֵ֥י בִינָֽה׃
                                                                                                לָקַחַת מוּסַ֣ר הַשְׂכֵּ֑ל צֶ֥דֶק וּמִשְׁפָּ֗ט וּמֵישָׁרִֽים׃
                                                                                         לָתֵ֣ת לִפְתָאיִ֣ם עָרְמָ֑ה לְנַ֗עַר דַּ֣עַת וּמְזִמָּֽה׃
                                                                                    יִשְׁמַ֣ע חָכָם וְיֹ֣וסֶף לֶ֑קַח וְנָבֹ֗ון תַּחְבֻּלֹ֥ות יִקְנֶֽה׃
                                                                                      לְהָבִ֣ין מָשָׁל וּמְלִיצָ֑ה דִּבְרֵ֥י חֲכָמִ֗ים וְחִידֹתָֽם׃
                                                                           יִרְאַ֣ת יְהוָה רֵאשִׁ֣ית דָּ֑עַת חָכְמָ֥ה וּמוּסָ֗ר אֱוִילִ֥ים בָּֽזוּ׃ פ


Exposição:

1) מִשְׁלֵי שְׁלֹמֹ֣ה בֶן־דָּוִ֑ד מֶ֗לֶךְ יִשְׂרָאֵֽל׃: "Os provérbios de Salomão, filho de Davi, rei de Israel".

    Não é controverso o fato de que o que chamamos de provérbios de Salomão não se trata realmente de uma obra salomônica pura. Mesmo o livro, em suas partes finais, assinala que a obra como um todo não se trata da realização de uma mão só. No cap. 30 de Provérbios nos é indicado que de o que ali vai são palavras de Agur (דִּבְרֵ֤י אָג֥וּר), e no cap. 31 se diz que o que vai escrito são palavras do rei Lemuel (דִּבְרֵי לְמוּאֵ֣ל מֶ֑לֶךְ). Há também, segundo o estudo da crítica das fontes1, quem afirme que os provérbios de 22.17-23.22 se trata de uma cópia de textos de Amenenope2, os quais surgiram na época do próprio Salomão, e é provável que sua forma final, ao menos, possa datar do século VIII ou VII a.C., no reinado do rei Ezequias (Pv 25.1).

    Não obstante a tudo isso, o livro de Provérbios é um patrimônio da cultura hebraica antiga, refletindo o ponto de vista não apenas particular de uma cultura de um pequeno país do Oriente Médio, pois veio a ser um verdadeiro patrimônio humano. Além do mais, há se de prestar atenção a este livro todo aquele que tem sobre si o nome de cristão, já que sendo um livro canônico, é, por isso mesmo, para nós, uma das formas da fala do Espírito. Portanto, meditando nesse livro em espírito de adoração e oração, o que buscamos é extrais das fontes da Escritura sabedoria para a vida, o que certamente encontramos e, e em espírito aberto e coração atento, certamente fruiremos.

    Mas comecemos pelo nome do livro que, no caso de vários livros da Bíblia Hebraica, leva o nome da primeira palavra do livro que é מִשְׁלֵי, palavra cuja raiz é משׁל (mxl), ou mais comumente מָשָׁל (maxal), que significa provérbio, sentença, parábola, epigrama, sátira, uma sentença dos sábios etc. Também essa raiz pode ser substantivada em מֹשֵׁל (moxel) tornando-se uma palavra que significa governador, chefe, dono, senhor, soberano, tirano ou déspota. Mas especificamente aqui se trata de provérbios, que para fins de fixação de autoridade são apresentadas como pertencendo a Salomão, filho de Davi, rei de Israel (שְׁלֹמֹ֣ה בֶן־דָּוִ֑ד מֶ֗לֶךְ יִשְׂרָאֵֽל).

    2) לָדַ֣עַת חָכְמָ֣ה וּמוּסָ֑ר לְהָבִ֗ין אִמְרֵ֥י בִינָֽה׃: "Para conhecer a sabedoria e a disciplina; para entender as palavras de conhecimento.".

    Está aqui posta a finalidade dos מִשְׁלֵי, já que eles são para conhecer (לָדַ֣עַת) tanto a sabedoria, ou habilidade, ou a destreza (חָכְמָ֣ה), assim como a disciplina, e instrução (מוּסָר), ou mesmo para tornar possível compreender (הָבִ֗ין) os ditos ou palavras (אִמְרָה) de prudência, discernimento, conselho, sensatez, instrução (בִינָֽה).

    O ritmo do texto nos leva à compreensão de que discernir os mixley (provérbios) são uma porta de entrada para uma gama de coisas. O livro tem, portanto, caráter de iniciação à sabedoria, já  que visa a instrução que possibilita a entrada ao mundo do juízo e da prudência. Evidentemente o  livro expressa todo o seu teor quando, nas primeiras linhas, em Pv 1.8, chama a atenção do filho à escuta (שְׁמַ֣ע בְּנִי) e à disciplina do pai e à instrução da mãe contra os perigos típicos da adolescência ou juventude, que são as más companhias (Pv 1.8-19), os conselhos dos perversos (4.14) e a lascívia (5ss); além disso contamos com ensinamentos contra a dívida (6.1-5), a preguiça (6.6-11) etc. No vs. 5 é expresso explicitamente que os mixley visam dar para o jovem לְנַ֗עַרconhecimento (דַּ֣עַת), assim como visa também conceder aos simplórios, ingênuos ou inexperientes (פְתָאיִ֣ם), cautela, sagacidade ou prudência (עָרְמָ֑ה). 

        Podemos tomar aqui o livro como que dividido nas seguintes partes, segundo a KJA3: 

    I. Prefácio, autor propósito e tema (1.1-7)
    
    II. Dois conjuntos de sete princípios de sabedoria (1.8-9.18)
        A) Primeiro conjunto de princípios do saber: 
        1. O poder da riqueza conquistado por meios imorais e violentos (1.8-33)
        2. A graça e a riqueza da sabedoria e do discernimento que vêm de Deus (2.1-22)
        3. Deus sempre abençoará o esforço daqueles que nele confiam (3.1-10)
        4. Descobrir o valor da disciplina é encontrar valioso tesouro (3.11-35)
        5. Um único caminho é certo, e o amor ao próximo passa por ele (3.21-35)
        6. A sabedoria da palavra é o meio tesouro de uma família (4.1-9)
        7. A sabedoria do Senhor nos ajuda a tomar o caminho certo (4.10-19)

        B) Segundo conjunto de princípios do saber: 
        1. O filho de Deus precisa mostrar justiça e bom senso ao mundo (4.20-27)
        2. O cuidado para não se deixar levar pelos ardis da carne e do maligno (6.1-6)
        3. O amor verdadeiro é absolutamente oposto à concupiscência (5.7-23)
        4. Cuidados com a fiança, a preguiça e os enganos malignos (6.1-19)
        5. A imoralidade e o adultério são loucuras (6.20-35)
        6. Quem busca viver em santidade contará com as bênçãos de Deus (7.1-27)
        7. A personificação da Sabedoria em busca do coração humano (8.1-9.18).

    III. Provérbios escritos por Salomão e as palavras dos sábios (10.1-29.27)
        1. A extraordinária sabedoria divina e inteligência de Salomão (10.1-22.16)
        2. A primeira parte dos ditados dos Sábios (22.17-24.22)
        3. A segunda parte dos ditados dos Sábios (24.23-34)
        4. Os pensamentos de Salomão pelos sábios do rei Ezequias (25.1-29.27)

    IV. Os oráculos do sábio Agur (30.1-33)
        1. A verdade e a mentira - o meio termo ou a difamação (30.1-10)
        2. Caluniadores e enganadores - os desobedientes (30.11-17)
        3. Os quatro caminhos misteriosos, e a queda no adultério (30.18-20)
        4. Os quatro eventos que surpreendem o mundo (30.21-33)

    V. Oráculos do rei Lemuel e da rainha-mãe (31.1-9)

    VI. Acróstico da mulher virtuosa (31.10-31)

  3לָקַחַת מוּסַ֣ר הַשְׂכֵּ֑ל צֶ֥דֶק וּמִשְׁפָּ֗ט וּמֵישָׁרִֽים׃: "Para obter a instrução do agir esclarecido, a justiça, juízo e a retidão".

    O texto continua na explanação dos seu propósitos, ou melhor, na inculcação didática que é comum na literatura bíblica tanto do Novo como do Antigo Testamento. Sendo assim, o livro é composto para fazer aquele que o lê ganhar instrução (לָקַחַת מוּסַ֣ר), pois מוּסַ֣ר (musar) visa justamente uma disciplina cujo objetivo é o ensino formativo, e nesse sentido, um ensino formativo que visa um agir esclarecido (שְׂכֵּ֑ל), diferente daqueles que desprezam o bom a gir. Além do mais o livro tem a intenção de fornecer princípios de discernimento e apreensão da justiça (צֶ֥דֶק), do direito ou juízo (מִשְׁפָּ֗ט), das ações justas (מֵישָׁרִֽים).

    Prestem atenção que a obra tem em alta conta o agir com o saber. Se levarmos em conta a figura de Salomão como o produtor da obra, torna-se translúcida a função paradigmática de Salomão (o sábio de Israel) aqui, cuja posição simbólica no livro ilumina a totalidade do seu conteúdo. Aqui estão aglutinadas várias virtudes que se supõe que a posse irá fazer do homem alguém moldado segundo a forma paradigmática do sábio (חָכָם). O livro dos provérbios, por tanto, é o livro que exige a presença tanto da virtude da mente sagaz quanto a desperta. E a sagacidade aqui é necessariamente a virtude do sábio que ouve a instrução, e que toma a disciplina para agir de forma esclarecida, afim de praticar a justiça, conhecer o direito. É sempre proveitoso lembrar que a tradição sapiencial é a forma das várias outras tradições bíblicas no Antigo Testamento, como a tradição profética. Sempre que se ouve palavras como entendimento, direito, justiça etc., contrapostas à desobediência do estulto que nega a instrução (vs. 7), o eco da voz dos profetas se faz ouvir em Os 6.4: o meu povo pereceu - ou perecerá - por falta de conhecimento4 - Faltou דַּ֣עַת (da'at). Também o Senhor implora para que o povo guarde a justiça e o direito em Isaías 56.1a: Assim diz o Senhor: Guardai o juízo [direito](מִשְׁפָּ֖ט), fazei justiça(מִשְׁפָּ֖ט)i5.

    4) לָתֵ֣ת לִפְתָאיִ֣ם עָרְמָ֑ה לְנַ֗עַר דַּ֣עַת וּמְזִמָּֽה׃: "Pra dar aos inexperientes sagacidade, e ao jovem poder de reflexão".

    Qual jovem não é também um inexperiente por definição? Aqui a beleza do paralelismo hebraico se revela de forma inconfundível. O texto certamente não se refere a dois grupos distintos, mas sim a um só: aos inexpertos e inexperientes (פְתָאיִ֣ם), e aos jovens (נַעַר). Esse estilo também mostra a beleza e o cuidado poético de um texto que, por ser um texto sapiencial, não descuida do aspecto estético da apresentação da sabedoria, que não é algo meramente útil para a vida, mas também bela para ela. Esse versículo 4 mostra a harmonia sonora das palavras escolhidas, que transliteradas soam também dessa forma: Latat lphtaim 'atamah, lena'ar da'at umezimah. 

    5) יִשְׁמַ֣ע חָכָם וְיֹ֣וסֶף לֶ֑קַח וְנָבֹ֗ון תַּחְבֻּלֹ֥ות יִקְנֶֽה׃: "Que ouça o sábio e cresça em ensino, e o instruído adquira habilidades".

    E aqui uma convocação: Que ouça o sábio! E o tônus do versículo nos faz vislumbrar a noção de que a sabedoria é sempre um círculo crescente, já que aqui o sábio (חָכָם) pode adquirir conhecimento ou crescer em sua doutrina (לֶ֑קַח). Da mesma forma o instruído, ou judicioso (נָבוֺן) pode aqui neste livro adquirir conduções hábeis (תַּחְבֻּלֹ֥ות). Assim o livro dos provérbios afirma o seu proveito universal, tanto para instruídos como para não instruídos, afinal se trata da voz da sabedoria a falar. 

    6) לְהָבִ֣ין מָשָׁל וּמְלִיצָ֑ה דִּבְרֵ֥י חֲכָמִ֗ים וְחִידֹתָֽם׃: "Para compreender provérbios e enigmas, e as palavras e parábolas dos sábios".

    Reafirmando o seu poder de iniciação à sabedoria, o escritor diz que o livro confere ao leitor capacidades de compreensão dos provérbios (מָשָׁל) e enigmas (מְלִיצָ֑), as palavras (דָּבָר) dos sábios (חֲכָמִ֗ים), assim como as parábolas deles (חִידֹתָֽם). 

    A impressão óbvia é que o texto guarda algum poder de destravamento que a instrução confere. Seria muito precipitado julgar esses ditos segundo uma percepção humanista, francamente secularizante, de que a educação liberta por si mesma, até espiritualmente, e liberta a qualquer um. Obviamente não se discute todos os efeitos positivos para aqueles que realmente apreendem o ensino, já que aqui, nesse sentido, há realmente um proveito evidente para aqueles aproveitam o que vai escrito. A questão é que, de caráter sapiencial, o livro eleva enormemente o valor da sabedoria, assim como evidencia fartamente a necessidade da instrução daqueles imaturos. Mas também há um limite para os recusantes, contra os quais nada há o que fazer. Pois: Ainda que pises o insensato com mão de gral entre os grãos pilados de cevada, não se vai dele a sua estultícia (Pv 27.22). O fato de que nem todos estão aptos para a sabedoria é conhecimento de posse comum dos experientes, e por isso essa informação não está ausente em um livro de sabedoria. 

    7) רְאַ֣ת יְהוָה רֵאשִׁ֣ית דָּ֑עַת חָכְמָ֥ה וּמוּסָ֗ר אֱוִילִ֥ים בָּֽזוּ׃ פ: "O temor do Senhor é o princípio do conhecimento; mas a sabedoria e a disciplina os tolos desprezam".

    Assim como no princípio (רֵאשִׁ֣ית) criou Deus o os céus e a terra (Gn 1.1a), assim também como princípio princípio do conhecimento (דָּ֑עַת) está o temor (רְאַ֣ת) do Senhor (יְהוָה). Qualquer apreensão de um conhecimento sensato e puro passa pela antecâmara do temor, pois não falamos em princípios aqui no sentido de axis, ou valor, mas sim de onde o verdadeiro saber começa, que é o campo do devido temor, reverência e mesmo no campo da adoração a Deus. E por tudo o que será explanado adiante, esta disposição de temor reverente é o selo da vida de alguém que entende que a verdadeira sabedoria é escutar e guardar (שׁמע) as palavras de Deus. O sábio é quem se santifica para Deus em atos, se curvando a Deus e indo em direção diametralmente oposta ao mal. Todos os preceitos à frente estão fundados em uma conjunção de inteligência e moral - pois a inteligência de fato é moral e a moral é inteligente; e ambas, inteligência e moral, só subsistem e se estabelecem diante de Deus. Os tolos (אֱוִילִ֥ים), aqueles que desprezam (בָּֽזוּ) a sabedoria, a inteligência (כְמָ֥ה) e a instrução (מוּסָ֗ר), são aqueles que andam por caminhos destrutivos, aqueles cujos pés correm em direção à fossa do inferno (Pv 5.5). Não há o hábito do sábio habitando o tolo. Este se afunda em si mesmo. 

______________________________

1] A Crítica das Fontes é a ciência literária que investiga, no caso das ciências bíblicas, a origem de determinados textos. Um famoso estudo de crítica das fontes é a hipótese documentária de Wellhausen que busca estabelecer certas fontes de origem do AT, que seriam as fontes Javista (J), Eloísta (E), Sacerdotal (P) e Deuteronomista (D). Há na crítica das fontes do Novo Testamento a conhecida hipótese documentária chamada de Fonte Q (quelle), que explicaria a fonte comum de uso das logia de Jesus entre outras, buscando explicar a origem do material comum a Mateus, Lucas em relação ao  o Sermão da Montanha, a certos milagres comuns aos dois evangelhos, discursos de João Batista etc. 
2] SCHWANTES, Milton - Sentenças e Provérbios: Sugestões para a Interpretação da Sabedoria. Ed. Oikos, 2009. p. 13.
3] KJA - King James Atualizada. Ed SBIA & ABBA. 2016. p. 1.176, 1.177.
4] Os 4.6 hb: נִדְמ֥וּ עַמִּ֖י מִבְּלִ֣י הדָּ֑עַת
5] Is 56.1a hb: כֹּה אָמַ֣ר יְהוָ֔ה שִׁמְר֥וּ מִשְׁפָּ֖ט וַעֲשׂ֣וּ צְדָקָ֑ה
7] Pv 27.22 hb: אִ֥ם תִּכְתֹּֽושׁ־אֶת־הָאֱוִ֨יל׀ בַּֽמַּכְתֵּ֡שׁ בְּתֹ֣וךְ הָרִיפוֹת בַּֽעֱלִ֑י לֹא־תָס֥וּר מֵעָלָ֗יו אִוַּלְתֹּֽו׃ פ

sábado, 2 de janeiro de 2021

Ἐνδύσασθε οὖν ὡς ἐκλεκτοὶ τοῦ θεοῦ; Ou: Exposição no Livro de Colossenses: 12ª Exposição: Nos Revestindo das Virtudes do Novo Homem (Cl 3.12-17)

Texto Grego:
12 Ἐνδύσασθε οὖν ὡς ἐκλεκτοὶ τοῦ θεοῦ, ἅγιοι καὶ ἠγαπηµένοι, σπλάγχνα οἰκτιρµοῦ, χρηστότητα, ταπεινοφροσύνην, πραΰτητα, µακροθυµίαν, 13 ἀνεχόµενοι ἀλλήλων καὶ χαριζόµενοι ἑαυτοῖς ἐάν τις πρός τινα ἔχῃ µοµφήν· καθὼς καὶ ὁ κύριος ἐχαρίσατο ὑµῖν οὕτως καὶ ὑµεῖς· 14 ἐπὶ πᾶσιν δὲ τούτοις τὴν ἀγάπην, ὅ ἐστιν σύνδεσµος τῆς τελειότητος. 15 καὶ ἡ εἰρήνη τοῦ Χριστοῦ βραβευέτω ἐν ταῖς καρδίαις ὑµῶν, εἰς ἣν καὶ ἐκλήθητε ἐν ἑνὶ σώµατι· καὶ εὐχάριστοι γίνεσθε. 16 ὁ λόγος τοῦ Χριστοῦ ἐνοικείτω ἐν ὑµῖν πλουσίως, ἐν πάσῃ σοφίᾳ διδάσκοντες καὶ νουθετοῦντες ἑαυτοὺς ψαλµοῖς, ὕµνοις, ᾠδαῖς πνευµατικαῖς ἐν χάριτι ᾄδοντες ἐν ταῖς καρδίαις ὑµῶν τῷ θεῷ· 17 καὶ πᾶν ὅ τι ἐὰν ποιῆτε ἐν λόγῳ ἢ ἐν ἔργῳ, πάντα ἐν ὀνόµατι κυρίου Ἰησοῦ, εὐχαριστοῦντες τῷ θεῷ πατρὶ διí αὐτοῦ.
    Exposição:
12 Ἐνδύσασθε οὖν ὡς ἐκλεκτοὶ τοῦ θεοῦ, ἅγιοι καὶ ἠγαπηµένοι, σπλάγχνα οἰκτιρµοῦ, χρηστότητα, ταπεινοφροσύνην, πραΰτητα, µακροθυµίαν,: "Vesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, com profundo sentimento de misericórdia, bondade, humildade, mansidão, longanimidade".
    O texto começa utilizando a metáfora ενδύσασθε (endúsasthe), segundo o vs. 10 onde se diz: ἐνδυσάµενοι τὸν νέον (endusámenoi ton néon), ou seja, tendo-vos revestido do novo. O que importa aqui é que o ενδύσασθε, que é imperativo, remete a uma ordem: ενδύσασθε τὸν νέον (revesti-vos do novo) (Cl 3.10). Quando falamos τὸν νέον (tón néon) nos remetemos à nova criação, ao absolutamente novo, ao novo homem criado em Cristo, àquilo que é oposto ao velho mundo do vício e da degradação, o velho mundo do qual já nos desvestimos ao termos afogado completamente o velho homem, destruindo-o, no batismo. O que morre no batismo ressuscita para o novo mundo pela fé.
    Aqui temos novamente relação dinâmica entre imperativo e indicativo; pois Εἰ οὖν συνηγέρθητε τῷ Χριστῷ (Se vocês foram ressuscitados com Cristo), logo... Por isso, segue-se a seguinte ideia: se vocês foram ressuscitados com Cristo, revesti-vos!. Já não cabe o espaço para o velho mundo para aquele que ressuscitou com Cristo. O imperativo é nos revestirmos, e, sendo assim, nos revestirmos como eleitos de Deus segundo as virtudes do eleito por excelência, que é Cristo. Portanto, ser revestido é, necessariamente, sermos revestidos como eleitos de Deus (Ἐνδύσασθε οὖν ὡς ἐκλεκτοὶ τοῦ θεοῦ), e por isso como santos e amados (ἅγιοι καὶ ἠγαπηµένοι), não apenas como amantes, mas como aqueles que foram amados (ἠγαπηµένοι). A ideia é que da eleição resulta uma forma de viver, e um viver que parte do novo (νέον). Até agora não entramos na realidade concreta das virtudes, mas apenas na dos indicativos, como a indicação de que por sermos eleitos e amados, logo devemos nos revestir.     E assim se apresentam aqueles que, sendo santos e amados, são também eleitos de Deus, ou seja, com σπλάγχνα οἰκτιρµοῦ. A palavra σπλάγχνα, que vem de σπλάγχον, e que traduzimos por entranhas. Trata-se de um hebraísmo que é basicamente a tradução grega da palavra רֶחֶם (rehem), e significa compaixão, seio, entranhas. Podemos dizer que o no texto o termo se refere a um sentimento profundo, entranhável, vindo do mais íntimo de uma pessoa. Já o termo οἰκτιρµοῦ vem de οἰκτιρµός, que significa misericórdia (trata-se do חֶסֶד, ou o hesed hebraico) Então, como eleitos de Deus devemos ter a característica do homem que possui, do mais íntimo do seu ser, de suas entranhas, um profundo sentimento de misericórdia, o que se opõe à violência do homem bestial. Compaixão é a característica do homem do alto, e não do homem da terra.
    Aqueles que ressuscitaram com Cristo tem χρηστότητα, que vem de χρηστότης (chestótes), ou seja, a bondade e benignidade no sentido da suavidade, suavidade contrária à rudeza e aspereza do homem sem trato. Disso é fácil entender que também é constitutivo do homem novo ter ταπεινοφροσύνη (humildade), ou mais especificamente, segundo o próprio termo grego, a disposição mental que parte do curvar-se, a disposição do espírito que não age pelo levante, mas sim pela devida reverência a Deus, e reverência verificável no χρηστότης, na suavidade do trato. A atitude humilde e curvada parte da consciência exata tanto da nossa fraqueza, tanto quando da nossa insuficiência. Não se trata de emulação de fraqueza ou de falsa humildade, mas sim de uma disposição daquele que tem consciência de si. É uma virtude da mente, não uma virtude irracional que parte de um curva-se sem nenhum critério; antes parte de um reconhecimento da virtude  própria das autoridade, da ausência de um saber absoluto, da consciência de nosso estado fragmentário e do fato de que não somos em nós mesmos, senão que devemos a nossa existência absolutamente de um outro, ou seja, de Deus, de quem recebemos o nosso ser. E nesse sentido não se distancia a característica da virtude do homem novo a πραΰτητα (praúteta), a mansidão, amabilidade, brandura.
    Não seria proveitoso para nós nenhuma dessas virtudes sem um substrato pelo qual tais virtudes pudessem ser vistas perdurando no tempo entre aqueles que são eleitos, santos e amados. O homem novo também tem uma longa disposição de ânimo na perseverança, termo que é traduzido do µακροθυµία (makrothymía), e que também carrega o sentido de ser alguém que suporta com paciência o mal sobre si, assim como a lentidão em tomar vingança, ou ser o indulgente e mesmo clemente.
    Não é raro Paulo amontoar vários termos que carregam em si não pouca semelhança. Seu estilo literário é de alguém que professoralmente deseja incutir algo, uma forma de ver as coisas. Não se trata apenas de paralelismo hebraico, e ainda que possa ser isso, evidencia nessas seções parenéticas de suas cartas aquele que se porta realmente como o mestre de um ensino que se vê na responsabilidade de encucar ensinos em seus pupilos.
13 ἀνεχόµενοι ἀλλήλων καὶ χαριζόµενοι ἑαυτοῖς ἐάν τις πρός τινα ἔχῃ µοµφήν· καθὼς καὶ ὁ κύριος ἐχαρίσατο ὑµῖν οὕτως καὶ ὑµεῖς·: "suportando uns aos outros e perdoando uns aos outros, se alguém tiver motivo de queixa contra o outro, assim como Cristo vos perdoou, assim perdoem vocês também;".
    Se segue que se um grupo há µακροθυµία, ele é convidado a agir suportando uns aos outros (ἀνεχόµενοι ἀλλήλων - anechómenoi allelôn), pois toda boa árvore tem a sua própria bondade cognoscível pelo seu fruto. Aqui a equação é simples: os eleitos de Deus se revestem como eleitos de Deus, e na comunidade daqueles que foram chamados para a glória esses também devem atuar perdondo uns aos outros (χαριζόµενοι ἑαυτοῖς - charitzomenói eautoîs).
    O que o Santo Apóstolo afirma aqui é bem propício em virtude da vida em comunidade que os cristãos são chamados a viver. Como veremos o amor, como vínculo da perfeição, requer o suportar ainda os resquícios da velha natureza na nova comunidade. A comunidade é também o νέον, o novo que, diferentemente da comunidade mundana, conta com o apoio das virtudes do mundo futuro. Há uma contradição evidente nascida da guerra entre a velha e a nova natureza na nova comunidade. Mas junto com o problema a assistência do Espírito traz o suporte para a sustentação da nova realidade. É por isso que se faz necessário suportar uns aos outros, assim como amar uns aos outros. Não é dada na nova comunidade a eliminação de todos os problemas do homem, mas a superação a partir do próprio problema do homem. A vantagem aqui é que os resquícios da velha natureza nos oferecem a ocasião do aperfeiçoamento e da obtenção das virtudes que devemos ter. Cristo não vence o mundo apenas fora de nós, pois as virtudes do novo mundo que nos são conferidas fazem com que Cristo também vença o mundo a partir de nós, da sua nova comunidade, comunidade esta que é o corpo de Cristo.
    A comunidade de Cristo segue as pisadas de Cristo. O texto é incisivo em dizer: se alguém tiver motivo de queixa contra o outro, assim como Cristo vos perdoou, assim perdoem vocês também. (ἐάν τις πρός τινα ἔχῃ µοµφήν· καθὼς καὶ ὁ κύριος ἐχαρίσατο ὑµῖν οὕτως καὶ ὑµεῖς·). Na nova comunidade pode ser que alguém tenha queixa (µοµφήν - momphén) contra alguém (τινα - tina). Mas ela é sempre conclamada a, em obediência, suavidade e humildade, a agir como Cristo, pois, segundo a estrutura da relação dinâmica entre o indicativo e o imperativo, o apóstolo afirma: como também Cristo vos perdoou (καθὼς καὶ ὁ κύριος ἐχαρίσατο ὑµῖν - kathos kai hó kúrios echarísato humîn), para também afirmar: assim vós também [perdoai] (οὕτως καὶ ὑµεῖς·- ahutôs kai húmeîs).
14 ἐπὶ πᾶσιν δὲ τούτοις τὴν ἀγάπην, ὅ ἐστιν σύνδεσµος τῆς τελειότητος.: sobre todas as coisas [esteja] o amor, que é [o] vínculo da perfeição.
    O elemento constitutivo da virtude do novo mundo é justamente o amor (τὴν ἀγάπην - tên agápen), que deve estar acima de tudo (ἐπὶ πᾶσιν - epí pâsin), pois é o vínculo da perfeição (ὅ ἐστιν σύνδεσµος τῆς τελειότητος - hó estin síndesmos tês teleiótetos). E sobre isso é bom lembrar que a constatação de Paulo segue o espírito da Oração Sacerdotal de Jesus em Jo 17. Em Jo 17.22b Jesus ora pelos discípulos para que eles sejam um (ἵνα ὦσιν ἓν - hina ôsin hen) como nós [Jesus e o Pai] somos um (καθὼς ἡµεῖς ἕν katho hemeîs hen). No vs 23a Jesus pede: eu neles (ἐγὼ ἐν αὐτοῖς)e tu em mim (καὶ σὺ ἐν ἐµοί) para que sejam aperfeiçoados na unidade (ἵνα ὦσιν τετελειωµένοι εἰς ἕν). A oração de Jesus é decisiva neste ponto, pois o aperfeiçoamento no um (ἕν) evoca a participação nas virtudes de Deus. Assim, Jesus assinala o fim do conhecimento do Nome de Deus, assim como a finalidade da glória que estava conferindo aos discípulos no fim da oração sacerdotal. Eis o desejos de Jesus em Jo 17.26b: afim de que o amor com que me amaste esteja neles, e eu neles esteja (ἵνα ἡ ἀγάπη ἣν ἠγάπησάς µε ἐν αὐτοῖς ᾖ κἀγὼ ἐν αὐτοῖς.). Portanto, acima de tudo esteja o amor, pois sem amor não há a unidade pela qual a nova comunidade irá manifestar e revelar Deus ao mundo.
15 καὶ ἡ εἰρήνη τοῦ Χριστοῦ βραβευέτω ἐν ταῖς καρδίαις ὑµῶν, εἰς ἣν καὶ ἐκλήθητε ἐν ἑνὶ σώµατι· καὶ εὐχάριστοι γίνεσθε.: "E a paz de Cristo, à qual também vocês foram chamados em um corpo, governe os vossos corações, e sejam agradecidos.".
    A paz de Cristo (εἰρήνη τοῦ Χριστοῦ) é evocada aqui para governar (βραβεύω) os corações. Entendamos aqui o governo como ato deliberativo daquele que julga se algo é lícito ou ilícito. Trata-se do papel de um árbitro, e, evidentemente, aqui a paz de Cristo é mais do que um simples sentimento, sendo antes uma virtude do Espírito a realizar o domínio do centro da pessoa. Há de se entender aqui um conhecimento do que seja a paz do Espírito que não é simplesmente aprendido, como algo que independentemente do que for, se possui de uma vez por todas, antes trata da realidade experimentada daquele que está em posse do Espírito, ou melhor, daquele que está possuído pelo Espírito. É necessário ter o Espírito, andar no Espírito, viver uma vida espiritual para que saibamos o que é a paz de Cristo, pois ela é algo que não pertence ao velho mundo, mas ao novo mundo e que, por natureza se contrapõe ao velho mundo. Essa é a paz de Cristo e é a paz à qual vocês foram chamados em um corpo (εἰς ἣν καὶ ἐκλήθητε ἐν ἑνὶ σώµατι), pois é o corpo que tem acima de tudo o amor de Deus, que é o vínculo da perfeição.
    Também nada seria perfeito nesse amor se não soubéssemos que o que há nele é dado em graça. É fundamental que entendamos que os eleitos, que são amados e santos, assim o são porque são amados. Se não fosse o fato de serem amados não haveria razão de entender a inserção na nova comunidade, no corpo que veio a ser chamado para a paz, não tivesse sido convocado e eleito se não em função da graça. Tudo é de Cristo, pois ele é tudo em todos (Cl 3.11b). Por isso, sede agradecidos (εὐχάριστοι γίνεσθε). Ser agradecido é imperativo para aqueles que são eleitos, santos e amados, pois daquilo que os faz serem como Cristo, nada disso possuem de si mesmos.
16 ὁ λόγος τοῦ Χριστοῦ ἐνοικείτω ἐν ὑµῖν πλουσίως, ἐν πάσῃ σοφίᾳ διδάσκοντες καὶ νουθετοῦντες ἑαυτοὺς ψαλµοῖς, ὕµνοις, ᾠδαῖς πνευµατικαῖς ἐν χάριτι ᾄδοντες ἐν ταῖς καρδίαις ὑµῶν τῷ θεῷ·:"A palavra de Cristo habite em vós ricamente, em toda sabedoria ensinando-vos e vos admoestando uns aos outros, com salmos, hinos, e com cânticos espirituais, com gratidão, louvando a Deus em vossos corações.".
    Assim, estar em Cristo, e estar vestido de Cristo, todas essas coisas apontam para um modo de viver, pois é impossível que quem não esteja em Cristo não haja e não exista para Cristo, sendo a ele grato por todos os benefícios, sejam eles conhecidos ou desconhecidos. A questão é que não se trata de uma exortação dirigida a uma pessoa, mas sim a uma comunidade, comunidade que tem em si o modo de viver do novo mundo, e que vive no poder na graça do mundo futuro. Ora, se tal comunidade vive nesse poder e nessa graça, logo isso será cognoscível pelo seus frutos; se tal comunidade é eleita, santa e amada, logo todas a gratidão manifesta é ela um fruto amadurecido que surge da recepção da graça. É só por receber a graça que ela pode agradecer. Então, da boa natureza seguem-se necessariamente os frutos: A palavra de Cristo habite em vós ricamente (ὁ λόγος τοῦ Χριστοῦ ἐνοικείτω ἐν ὑµῖν πλουσίως), e isso não apenas para nós, pois continua o apóstolo: em toda sabedoria ensinando-vos e vos admoestando uns aos outros (ἐν πάσῃ σοφίᾳ διδάσκοντες καὶ νουθετοῦντες ἑαυτοὺς). E à natureza do educação mútua da comunidade do Espírito não cabe apenas a realidade do ensino, mas nela se mescla a celebração e o regozijo com Deus, pois um modo como a Palavra na comunidade deve habitar está: com salmos, hinos, e com cânticos espirituais, com gratidão, louvando a Deus em vossos corações (ψαλµοῖς, ὕµνοις, ᾠδαῖς πνευµατικαῖς ἐν χάριτι ᾄδοντες ἐν ταῖς καρδίαις ὑµῶν τῷ θεῷ·). É assim que a Palavra de Cristo deve habitar plena e ricamente em nós. Seja ensino, seja em cântico espiritual, seja em admoestação mútua, todas as coisas devem conduzir à gratidão a Deus pelos seus inúmeros dons concedidos à Igreja, à edificação na qual cada um de nós somos uma pedra do edifício, para que juntos, consumados no um (na unidade), resplandeçamos a glória de Deus.
17 καὶ πᾶν ὅ τι ἐὰν ποιῆτε ἐν λόγῳ ἢ ἐν ἔργῳ, πάντα ἐν ὀνόµατι κυρίου Ἰησοῦ, εὐχαριστοῦντες τῷ θεῷ πατρὶ διí αὐτοῦ.: "e tudo o que vocês fizerem em palavra ou obra, façam tudo em nome do Senhor Jesus, dando graças a Deus Pai por meio dele.".

    O texto traz o que deve ser feito, mas há também aqui um critério pelo qual podemos definir a nossa ação tendo Cristo como o governante sobre os nossos corações (Cl 3.15a). É importante que façamos todas as coisas tendo Cristo como o árbitro em nossos corações. O que podemos fazer no Espírito é aquilo que fazemos sendo conduzidos pela paz de Cristo. Obviamente se tudo o que fizermos, seja em palavra ou obra, devemos fazer em nome de Cristo, certamente nada daquilo que for feito no nome de Cristo pode lhe trazer qualquer infâmia. Logo, aqui se exclui uma miríade de possíveis ações a serem feitas em nome de Cristo, pois não são compatíveis com o amor e a santidade de Cristo, o eleito. Por isso, tudo o que vocês fizerem (καὶ πᾶν ὅ τι ἐὰν ποιῆτε), em todas as coisas, em palavra e em obra (ἐν λόγῳ ἢ ἐν ἔργῳ), façam tudo em nome do Senhor Jesus (πάντα ἐν ὀνόµατι κυρίου Ἰησοῦ), ou seja, só façamos aquilo do qual o Senhor Jesus possa ser o árbitro da paz no nosso coração, ou daquilo que é compatível segundo o que Cristo é, em sua santidade, amor, piedade etc. para nós -  Que nos vistamos de Cristo! -. Assim também, por sermos destinatários de tão grande e imerecido dom, devemos fazer tudo o que fazemos dando graças a Deus Pai por meio dele [Jesus Cristo]. Ao agraciado nada mais cabe do que o agradecimento.
***
    Vejam que Paulo fala de dentro de uma prisão, e, segundo o seu fervor zeloso (Cl 2.1), seu combate diuturno estava focado em ver a perfeição da Igreja, o que deve incluir a sua luta pelas comunidades particulares. Após fazer a lista dos vícios, daquilo que a comunidade estava proibida de ser, Paulo segue para a listas das virtudes segundo as quais os Colossenses deveriam compreender o seu verdadeiro modo de ser. Portanto, se antes deveríamos nos desvestir da impureza sexual, da imoralidade má intencionada, das paixões, do desejo mau, da cobiça extremada, da ira, das blasfêmias, da linguagem obscena e das mentiras, agora devemos nos vestir de profundos afetos humanos que são contrários às paixões lascivas, de bondade que é contrária ao desejo mau e à avareza, da humildade e mansidão que são opostos ao destempero do homem violento, assim como são opostos à longanimidade. Da mesma forma, exortar uns aos outros com a boa Palavra de Cristo se opõe ao mentir uns aos outros e a blasfemar ou caluniar a moral alheia, assim como cantar cânticos espirituais e salmos se opõe às palavras obscenas do nosso falar.
    Em todas essas coisas a nova vida daqueles que ressuscitaram juntamente com Cristo (Cl 3.1) se opõe às obras a serem mortificadas nos membros que pesam sobre a terra (Cl 3.5). E assim, para aqueles que são convocados à graça e à paz de Cristo (Cl 3.15), cabe a manifestação do novo (Cl 3.10) do qual devemos nos vestir para a manifestação da nova comunidade do Espírito, pois ao sermos circuncidados em Cristo, fomos sepultados juntamente com ele (Cl 2.11,12a), e assim ressurgimos pela fé na ressurreição (Cl 2.12b), ressurgindo juntos como a nova comunidade que se reveste do novo para que por ela seja manifesta plenamente a glória de Deus, pois fomos renovados para o conhecimento, segundo a imagem daquele que nos criou, a qual é Cristo, aquele que, por sua vez, é a expressão exata do ser de Deus (Cl 1.15). Amém!

S.D.G.

Considerações Sobre Cristologia

    A questão da encarnação pode suscitar dúvidas e erros ao considerarmos a humanidade e a divindade de Cristo. Muitos erros podem ser cometidos ao tentarmos considerar o fato de que Jesus é completamente homem, mas que também é completamente Deus.

    Seguem a cerca disso certas considerações:
    1) Jesus não perde nenhuma perfeição enquanto Deus ao assumir a humanidade na encarnação;
    2) A humanidade de Jesus não é "divinizada" no sentido de que a carne deixa de ser humana, local, e reconhecível por todos os acidentes notáveis na matéria corpórea (extensão, cor, altura, localidade etc.), como pensam erroneamente os miafisitas (ou monofisitas);
    3) O que se diz da encarnação é que Jesus deixou de aplicar seus atributos divinos constantemente à sua humanidade;
    4) As notas da humanidade de Jesus são evidentes pelo fato de que Jesus enquanto homem cresceu, se fortaleceu, aprendeu, se aperfeiçoou, se deixou circuncidar etc.;
    5) Isso não significa que enquanto logos divino Jesus deixou de governar o universo, ser onipotente, onipresente e onisciente, ou abandonou a sua imutabilidade, passando de um estado a outro, como crêem os kenoticistas.
    6) O mistério da encarnação afirma a unidade entre o Logos divino e a humanidade, sendo que ela não altera nenhuma das naturezas assumidas na hipóstase: o que é da natureza humana permanece sendo da natureza humana; o que é da natureza divina permanece sendo da natureza divina;
    7) Esse mistério se torna luminoso no evento da Cruz: é certo falar que "Deus morreu na cruz", contudo a defecção do passar da vida para a morte é algo que ocorre apenas na humanidade, e a impassibilidade divina de Cristo é algo que se dá apenas na sua divindade, embora digamos que na hipóstase (pessoa) de Jesus Deus morre, ao mesmo tempo que Deus vive.

As Razões Pelas Quais Se Estabelece que Os Negadores da Divindade de Cristo não São Protestantes

    Os negadores da divindade de Cristo não são protestantes, e as razões pelas quais isso se dá são as seguintes:

    Os cinco princípios da Reforma (Sola Gratia, Sola Fide, Soli Dio Gloria, Solus Christus e Sola Scriptura) não são meros esquemas sem nenhuma determinação de conteúdo. Há de se levar a intenção dos reformadores na consideração de tais princípios que, na verdade, são sistematicamente interligados, o que torna tais princípios um conjunto irredutível de afirmações.
    Pois bem, vamos às considerações:
    1) Você não pode afirmar o Solus Christus sem considerar toda a cristologia por trás desse princípio e como tal princípio foi considerado no contexto da Reforma pelos reformadores. Se Cristo é o nosso Salvador, possuindo a posse da salvação absoluta e a posse absoluta do Espírito através do qual a economia da salvação é efetuada, é impossível não considera-lo Deus.
    2) Ademais, a própria Escritura (Sola Scriptura) afirma que Jesus é Deus (Jo 1:1), e por outro lado, os negadores da divindade de Cristo invariavelmente negaram o poder salvífico divino, o que nega também o Sola Gratia (Socinianos e Testemunhas de Jeová) e, consequentemente, o Sola Fide - já que pressupõe a salvação com base em obras. Então é impossível que isso seja protestantismo.
    3) Por razões já explicitadas não há possibilidade da consideração da Reforma sem o princípio do Sola Gratia. E não deixa de ser elucidativo que a própria teologia da expiação dos socinianos como das testemunhas de Jeová sejam exemplaristas, no sentido de que Jesus ao assumir a Cruz tornou-se causa de salvação por mostrar por meio de seus exemplos qual era o caminho da salvação. Isso é negação frontal do Sola Gratia.
    4) Tal consideração nega, consequentemente, o Sola Fide, que no contexto da Reforma trata-se da afirmação da fé como causa instrumental da salvação, no sentido que a fé é o meio pelo qual alcançamos a graça da justificação. Mas mesmo esse princípio pressupõe: 1) Que a fé é a fé no Cristo como causa de salvação, e se Cristo fosse mero homem, tal fé seria idolatria, já que no Cristianismo fé é a fé na pessoa de Cristo e não meramente em suas palavras - diga-se de passagem que se Cristo não fosse Deus o Soli Dio Glória não faria sentido; 2) Que a fé é dom de Deus (Ef 2:8-10) e não simples disposição da vontade ou mero assentimento racional desassistido da graça iluminadora do intelecto e fortificadora da vontade.
    5) No cômputo final, aqueles que negam a divindade de Cristo negarão o Soli Dio Gloria, já que pressupõe a salvação mediante méritos pessoais, o que é algo que aparta a glória divina da glória humana, tornando a salvação recompensa e não graça. Além do mais, se Cristo não é Deus e salva, logo a salvação também é realizada por um ente puramente humano como causa de salvação, e não pela pessoa divina e humana de Cristo. Obviamente Jesus é mediador enquanto homem também, mas não realiza a salvação enquanto homem apenas, já que a sua divindade está pressuposta como causa meritória de Salvação na expiação dos pecados. Não há salvação independente de Deus, pois na economia presente só Deus pode Salvar, e Jesus é chamado de Salvador, não como mero nome, mas como título divino (Jn 2:9).
    Essas são as razões pelas quais os negadores da divindade de Cristo não são protestantes.