quarta-feira, 30 de março de 2016

O Mundo Eterno



   A fé nos permite a suspensão do mundo. A graça a celebração e a santificação nos "desmundaniza", nos permite sublimar nossos temores e paixões e todas as agitações correntes ao nosso redor, elevando-nos acima do sufoco do dia-a-dia, das tristezas desta vida a uma esfera espiritual que permite à nossa alma demorar.

   O Caminho de Jesus Cristo é esta constante vitória das forças concorrentes deste mundo que combatem contra a nossa alma. Ele as venceu unicamente se entregando à graça, aos cuidados e ao consolo do Espírito, pois sabia que sucumbir ao mundo é lhe dar uma atenção que ele não merece.

   Não é por menos que se diz que, desprezando a afronta ele sentou-se à direita de Deus,convidando-nos também a deixar as nossas ansiedades e preocupações nas Suas mãos, tomar o seu julgo e concentrar a nossa alma na graça espiritual, no Mundo Absoluto de Deus, permitindo-nos olhar para além do horizonte limitado desta vida, que pequena é frente à Eternidade que se põe, soberana e invicta, acima de todas as coisas.

Demolição Foucautiana


   Michel Foucaut - o revolucionário francês -, disse o seguinte no livro Microfísica do Poder: "É preciso se perguntar se esses atos de justiça popular podem ou não se coadunar com a forma de um tribunal. A minha hipótese é que o tribunal não é a expressão natural da justiça popular, mas, pelo contrário, tem por função histórica reduzi-la, dominá-la, sufocá-la, reinscrevendo-a no interior de instituições características do aparelho de Estado." (FOUCAUT, Microfísica do Poder. p. 87). 

   É óbvio que são formas - e benignas - de sufocar a "justiça popular", e é impensável que as instituições não sufoquem a justiça popular, fazendo com que haja - para dar voz ao estadista inglês, crítico da revolução "popular" da França, Edmund Burke - expiação abundante, remissões e perdão. 

   Seria ingenuidade e muito desconhecimento do homem deixar a "justiça popular" nas mão de qualquer um e não em quem experimentado nessas questões, expulsando o árbitro de campo. Seria simplesmente ingênuo da nossa parte confiar na natureza humana crua não experimentada, talhada e "cozida" em uma longa reflexão sobre a tradição jurídica que possuímos para dar lugar a uma "justiça proletária". 

   Entendam: por mais más que sejam nossas instituições, é incrivelmente pior a ausência delas. Ao dar eco às vozes revolucionárias que gritam "abaixo ao sistema", "abaixo à toda a classe política" o perigo que daí surge é justamente trocar um sistema difícil por um monstro infinitamente mais destrutivo e incontrolável - e a história humana é pródiga em mostrar o quão deletério é esfumar todo o sistema que temos em nome do "bem". Quem pensa com prudência prefere os demônios que conhece àqueles que ele não conhece.

   Foucaut, como disse em um texto passado, preferiu os demônios desconhecidos. A a conclusão que retirou desta constatação acima é justamente a de que as "instituições burguesas" atrapalhavam o livre curso da justiça e deveriam ser mandas para o ar. A revolução iraniana que ele apoiava o fez, e não muito tempo depois gays - como ele - começaram a aparecer pendurados em guindastes. Ora, mandar tudo para os ares? E colocar o quê em seu lugar? Por assim dizer, melhor um Temer do que um vácuo de incerteza, pois por possuir um CPF, dentro de um Estado reconhecível, ele pode ser criminalizado e deve se fez algo errado. E quem luta para que não haja nada disso, não nos faz crer que o que não temos é melhor do que aquilo que temos? Não nos manda o sentimento natural, que ama, quer proteger e conservar o que ama, aderir à tese contrária?

   Já dizia Platão que no político a maior das virtudes era a prudência. Isso tem um aparo na razão porque não se pode destruir tudo sem saber o que disso virá, já que o desconhecido é o incontrolável, o espaço da perdição um universo de nada a quem necessita, no mínimo, de um horizonte para ver. Mas muitos, nestes atos - já que imprudentemente consideram de maneira entusiasmada a "mudança" como fim em si mesmo -, prenhes de sede de justiça, de sede infinita pelo "bem perfeito", destruindo as bases supostamente malignas nas quais apoiamos nossos pés, pensam, como solução, nos firmar na escuridão do abismo, dizendo quem nos concedem a verdadeira liberdade.

   A revolução francesa pensava em adquirir homens perfeitos mediante a abolição do "sistema" que - diziam - tornava-os imperfeitos, e quando percebeu que não os tinha, cabeças começaram a rolar. Sendo assim, é preciso que façamos, com seriedade de coração, com desejo de mudança, reconciliação e expiação abundantes a seguinte pergunta: o que da destruição das instituições políticas, jurídicas e religiosas, em nome do bem, se seguirá? 

sábado, 26 de março de 2016

Abolição da Liberdade


   Para fazer um pequeno exercício de reflexão nestes tempos sombrios, vamos lembrar de 1968, quando Michel Foucaut instruía jovens maoístas (aqueles apegados à revolução chinesa de Mao Zedong) sobre a verdadeira justiça proletária.

   Na ocasião Foucaut ensinou que para que houvesse justiça de fato, havia a necessidade de abolir as instituições jurídicas da nação para que os vícios burgueses fossem extirpados, já que na visão marxista a justiça também fazia parte da superestrutura - o "véu" cultural - que era sustentada pela infraestrutura, constituída basicamente pelas relações exploratórias de trabalho e pelos modos de produção capitalista baseados na divisão de trabalho.

   Deixar tudo para traz, fazer terra rasada do mundo, abolir as instituições, colocar em curso a marcha revolucionária cujo intuito é se desfazer de todas as estruturas de ordem do mundo, da história e de um patrimônio resultado de séculos de tradição de reflexão e raciocínio que buscou compreender o homem, e que possui as marcas dos tempos que como um espelho nos dá a entender a nossa forma, em nome da libertação escatológica do proletariado. Eis o quadro do futuro comunista, onde reina a liberdade ... na casa dos corações partidos - para fazer uma breve referência ao poeta anglo-americano T. S. Eliot.

   Existem coisas que só os intelectuais tem a capacidade de acreditar e inventar. E como diz o ditado, o caminho do inferno é pavimentado de boas intenções, sendo a destruição do direito penal - e pasmem, coisa obscena que floresce entre a cabeças inventivas do direito - uma delas. Imaginem só um mundo de liberdade ilimitada, onde cada qual, ao seu modo, buscasse a sua forma de fazer justiça sem um terceiro poder para arbitrar entre as partes? Não seria isso dar curso para a justiça do mais forte? Imagine só como seria também submeter à justiça gente de poder e influência - o mais poderoso, por exemplo? Imagine um mundo onde a vontade do rei é a lei e a lei é a vontade do rei? Mas alguém pode objetar: "Há, mas serão todos iguais!" Mas quem disse isso? Quem garante algo assim? A julgar pela história - e é mais fácil conhecer o ser humano pelo que ele já foi, do que por aquilo que ele será, já que o "será" é o mesmo que nada -, a ideia de igualdade social - queira nós desejemos isso ou não - é totalmente absurda. Não existe este mundo dos joelhos onde "todo es igual, nada es mejor".

   O poder é o componente necessário da vida humana, pois poder é liberdade e capacidade de ação. Mas é óbvio que ele precisa ser contido. O homem necessita de regras e leis e isso não depende e jamais dependerá de uma estrutura econômica, mas é algo que se faz a partir do interior para o exterior do mundo - da mente para a história, por assim dizer. E qualquer um que viva a vida comunitária sabe disso - sabe que de coisas comuns é necessário que alguém consagrado que as cuide - que arbitre no mundo pelo bem de todos. Mas se é o homem a arbitrar é óbvio que ele mesmo deve ser restringido, pois não é a vontade humana só a medida de todas as coisas. É nisso que nascem as instituições, leis, ritos etc. A razão - que especula (se coloca como reflexo da verdade universal) -, sabe que o bem de todos está nas mãos de verdades de validade universal, que sejam válidas para um eu e para um tu com a mesma força, imparcialidade e isenção, e que prescindir disso é dar margem para exageros, desproporções, injustiças e arbitrariedades. Em nome de quê? De poder? De um ódio universal às coisas que aí estão para as quais não prestamos a nossa sujeição em nome da "liberdade". Mas a liberdade mata - e que seja dito! O uso da liberdade não é boa em si - e nos parece que intelectuais de todos os calibres querem que assim creiamos neste delírio. Pois sem leis o que teremos é a mão de todos contra todos - já dizia Moisés e Thomas Hobbes. As prisões e os grilhões são os filhos legítimos da autonomia. Ela não existe como um bem em si mesma, a não ser que seja incondicionada, mas aí ela é metafísica e não somos capazes para tanto, pois a nossa autonomia sofre a resistência daquele que está à minha frente, pois existir é resistir.

   Daqui surge outro importante tema que é o da tradição de pensamento. "Sacudamos os seus grilhões", já dizem os mais afoitos, ansiosos por liberdade. Mas as coisas não são tão simples, como um não de mãe não é tão simples. Já dizia a sabedoria bíblica no quarto mandamento: "honrarás pai e mãe". E não somos órfãos quando recebemos um mundo por herança. E mais: todo o dom do mundo é algo a ser conservado, assim como aperfeiçoado - jamais destruído. Por mais que façamos a grita contra as "estruturas de morte", herança do velho pecado do mundo, não é possível que vejamos o que recebemos de maneira tão macabra e sombria. Há mais motivos para conservar o mundo do que destruí-lo, e o sentimento de gratidão de quem anda por essa vida, acompanha todos aqueles que contemplam o homem e o mundo como uma criação boa. Implodir tudo em nome de um futuro sem traços passados, sem arte, língua ou estátuas é a materialização do ódio. E é impossível que sobre essa base construamos algo melhor. E estrutura da tradição é eterna, pois se rompemos com algo hoje imprimimos nas mentes dos descendentes que eles deverão romper amanhã - e uma tradição de ruptura não pode, por mera questão lógica, ser eficiente na construção do pensamento, já que qualquer construção de pensamento é trabalho para mais de trinta vidas, é é justamente isso que faz da tradição, ao invés do monstro que se prega, uma cadeia de amizades e consensos, assim como de paz. São amizades construídas para além da vida - sinal que aquilo que pensamos foi o certo a ser feito. A tradição é o único vestígio da unidade da razão e da unidade da humanidade. É o elo de comunhão mais poderoso que pode haver. Já a ruptura, sem exceção, é inimizade - seja isso para bem ou para mal -, pois constitui a diferença - diferença que pode ser considerada apenas à luz do juízo divino - é denegar o que quer que seja como inútil.

   Mas voltando para a revolução, é óbvio que quem pouco faz de mais de séculos de reflexão incorre certamente em erro. E qual não seria o empobrecimento da humanidade na abolição de todas as coisas? O depósito da cultura não é para ser desprezado, pois nele sempre há algo da essência divina. Imagine mentes sem referência para o juízo, sem a orientação do passado e sem as instituições que basicamente se constituem dos sinais impressos dos tempos, nos livros, registros e homens. Ao abolir estruturas de juízo damos certamente o livre curso à besta, cuja vontade livre só pode nos fazer afundar na morte. O direito é hostil, em sua essência, à destruição, e a ruptura do direito penal só poderia ser a quebra das barreiras daquilo que impede o avanço do pior daquilo que pode haver no mundo. Pois sem o que nos deter, nos reprimir e nos restringir, o que é que nos deterá, nos reprimirá e nos restringirá?


   Mas, trazendo mais para perto, imaginem só mais uma vez, desfeitas as instituições jurídicas, o poder de ação daqueles que, aqui no Brasil, fazem este agravo do qual se espanta o que ele vê? Por isso aqueles que pedem em excesso por liberdade nada mais vazem do que suprimi-la - e isso parece que em sua ingenuidade e paixão irracional, Foucaut não compreendeu.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Dilma e a Vontade de Pontência

   


   Não é atoa que a evolução da pedagogia em nossa história foi uma escalada decrescente de uma realidade mais ou menos translúcida para um abismo total e indiscernível - a começar por fazer de Nietzsche um pensador da civilização. 

   Mas vamos para os possíveis resultados práticos, sendo a materialização exemplar do engodo realmente esta: quando vemos Dilma Rousseff dizendo de maneira monomaníaca que o impeachment é golpe, ela passa como um rolo compressor sobre a história do país, das leis, do STF, da OAB, e das milhares de consciências que afirmam com uma evidência solar e visível aos olhos de qualquer zé-mané que o impeachment é uma instituição válida - fazendo isso com o intuito de que, livre das amarras "moralistas" das leis que grudam na plebe, ela possa respirar livremente o ar fresco na solidão das montanhas. 

   Mas o que importa, se no universo nietzscheano o que vale é, para quem nele atua, a contrapelo dos fatos, a vontade de potência que faz validar os valores, criando-os, e não se submetendo a nenhum deles? O que Dilma busca fazer, na verdade, é operar uma verdadeira transmutação de todos os valores afim de validar a sua "soberaníssima" vontade para se safar da perseguição dos fatos gerados em sua própria história .

   Sem o saber, Dilma é a encarnação da "ética" "libertadora" do maluco alemão. E nem precisa saber disso, pois somente alguém dotado de uma cabeça de jerico pode simplificar de maneira tão acachapante as leis e o nosso velho mundo.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Ideologia e Corrupção


   Russell Kirk afirmou que a ideologia era a corrupção do dogma e dos símbolos de transcendência, pois ela propunha soluções eternas para o nosso hoje. No entanto, dizia ele, ela age como que ao contrário disso, pois na sua corrida pela salvação terrena ela abole justamente os valores que protegem a nossa frágil vida:

   "A ideologia é uma religião invertida, negando a doutrina cristã de salvação pela graça, após a morte, e pondo em seu lugar a salvação coletiva, aqui na terra, por meio da revolução e da ação violenta [assim como de crimes também]. A ideologia herda o fanatismo que, algumas vezes, afetou a fé religiosa e aplica essa crença intolerante e preocupações seculares" (KIRK, Política da Prudência. p. 95) - e arrematando com Voegeling: "A ideologia é a existência em rebelião contra Deus e o homem. É a violação do primeiro e do décimo mandamentos [pois afirmam os ideólogos que podemos cobiçar coisas alheias em nome do "bem", ou mesmo ROUBÁ-LAS e DESTRUÍ-LAS para um fim "justo" e desconsiderar valores], se quisermos empregar a linguagem da ordem israelita; é a 'nosos', a doença do espírito, para empregar a linguagem de Ésquio e Platão." (VOEGELING, Ordem e História, Vol. I, p. 32).

  O que a cima vai escrito nada mais é do que aquilo que qualquer um que vá ao mercado consegue compreender, ou seja, que não é possível estabelecer algo justo quando vamos em uma prateleira e vemos um peço, e acabamos pagando outro no caixa, pois ultrapassamos a lei do compromisso – ou a Lei Natural da Razão -, que aponta limites justos nos quais é possível estabelecer uma determinada igualdade em nossas negociações com outras pessoas, impedindo a fraude, ou uma vantagem indevida, ainda que tendo feito isso em nome do “bem”.

   Por isso não é possível que possamos arbitrariamente destruir as regras de convívio, ou mesmo não é possível que subvertamos leis às quais nos encontramos sujeitos como homens e mulheres – mesmo que por um pequeno momento –, pensando que com isso podemos gerar um “bem coletivo”, porque é justamente aqui que isso pode se voltar contra nós, criando o perverso costume onde cada qual, ao seu modo, suspender uma regra comum em nome daquilo que ele supostamente ache bom.

   Não é estranho que na história promessas de redenção cujo método que pavimentava o caminho para o “paraíso terrestre” era justamente composto de ideias de libertação dos costumes, das tradições, dos formalismos, dos tribunais, da noção de bem e mal, dos códigos sociais, da moral, da religião, da “dominação opressora” dos pais e mães, da “família”, dos compromissos firmados criaram justamente uma situação ou regime político infinitamente mais opressores do que aqueles dos quais eles prometiam livrar.
   Isso não é apenas uma questão de palavras ou de raciocínio, mas de história humana, demasiadamente humana.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

G. K. Chesterton - A Demolição da Igreja e a Destruição de Si Mesmo

   Esse é o fato supremo e mais aterrador envolvendo a fé: que seus inimigos usarão qualquer arma contra ela, as espadas que cortam os próprios dedos e as tochas que queimam as próprias casas. Homens que começam a combater a Igreja em benefício da liberdade e da humanidade terminam jogando fora a liberdade e a humanidade só para poderem com isso combater a Igreja. Não é exagero. Eu poderia encher um livro com exemplos disso. 

   O sr. Blaschford iniciou, como um demolidor bíblico comum, querendo provar que Adão não teve culpa em seu pecado contra Deus; manobrando para defender essa ideia, ele admitiu, como mera questão secundária, que todos os tiranos, de Nero ao rei Leopoldo, não tiveram culpa em nenhum de seus pecados contra a humanidade. Conheço um homem que tem tal paixão por provar que ele não terá uma existência pessoal depois da morte que recorre à tese de que ele não tem uma existência pessoal agora. Invoca o budismo e diz que todas as almas desaparecem uma na outra. Para provar que não pode ir para o céu ele prova que não pode ir para a cidade de Hartle-pool.

   Conheci pessoas que protestavam contra a educação religiosa com argumentos contra qualquer tipo de educação, dizendo que a mente da criança deve crescer livre ou que os mais velhos não devem ensinar os jovens [!]. Conheci pessoas que demonstraram que não poderia existir nenhum julgamento divino mostrando que não pode haver nenhum julgamento humano, nem mesmo em prol de objetivos práticos. Eles queimaram o próprio trigo para atear fogo à Igreja;
destruíram as próprias ferramentas para destruí-la; qualquer pedaço de pau era bom para bater nela, mesmo que fosse o último pedaço de sua mobília desmantelada.*

* CHESTERTON, G. K. Ortodoxia. Ed. Mundo Cristão. p. 229

Scruton e o Homem Nascido Livre



   A lei e a disciplina e as instituições disciplinares não são destruidoras da liberdade, mas são as únicas possibilidades da mesma. Mas hoje o culto da "sinceridade" e da "auto-expressão", que não se envergonha de colocar para fora o que há de mais animalesco no homem, não compreende o porquê que um comedimento, moderação e o deixar ser absorvido pelos códigos sociais de conduta são necessários para que um homem venha, de fato, a ser homem, como disse o filósofo cristão inglês Roger Scruton: "é necessário identificar a falácia; esclarecer exatamente porque os seres humanos não são nascidos livres. Instituições [por exemplo a Igreja], leis, limitações e disciplina moral são uma parte da liberdade e não seus inimigos, e a libertação de tais coisas acaba rapidamente com a liberdade." (SCRUTON, Roger. As Vantagens do Pessimismo. p. 44)

Capitalismo

   Pela milésima vez: o Capitalismo não é uma pessoa... É impensável compreendê-lo fora de pessoas, como se ele fosse um indivíduo autônomo. A insanidade é do indivíduo, porque ser são ou não é uma propriedade de pessoas e não de um ser abstrato chamado "Capitalismo". Como diz a Escola Austríaca, na pessoa do Misses: economia é AÇÃO HUMANA, ou seja: se em posse de uma faca que pode cortar um pão, eu em minha liberdade mato uma pessoa, a culpa não está nem na propriedade da liberdade e nem na faca, mas no indivíduo que, em sua liberdade, faz o que faz .

  O erro está no coração das pessoas. E negar isso é, nada mais e nada menos, uma transferência de culpa da realidade concreta (o homem), para um bode expiatório (o Capitalismo) que nem pode responder pelos seus atos, já que não existe como pessoa que por si mesma possa responder por algo. É devido a isso que uma sociedade de mercado saudável só é possível em meio a uma cultura saudável, fundada em valores e consideração humana permanentes.

   É somente o desonesto e hipócrita que desejando se livrar de suas culpas, como o capitalista que se valendo do seu poder ferra a vida de outras pessoas, transfere a gênese do erro do seu coração para algo que nunca ninguém conseguirá julgar direito, tal como naquela história onde um psiquiatra, que perguntando para um homem o porquê de ele ter assassinado a sua namorada, teve como resposta isso: "doutor, a faca pulou da minha mão.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

A Sabedoria da Tradição


   Existe algo na tradição que enseja justiça, conhecimento e reconhecimento. O reconhecimento é basicamente a compreensão de que nem sempre são os nossos cérebros e o nosso tempo os melhores cérebros e o melhor tempo. Do contrários estaríamos por princípio a amaldiçoar o passado e, consequentemente, destruir o futuro. A humanidade é uma constante: seus medos são os mesmos, seus pecados são os mesmos e as soluções são, em ESSÊNCIA, as mesmas. Tal vez o formato, os acidentes ou as roupagens nos interior da história sejam diferentes, mas a substância é, basicamente, imutável. É preciso olhos profundos para compreender o que seja isso.

   Se, por exemplo, estudarmos obras de Platão e Aristóteles - escritas há, mais ou menos, dois mil e duzentos anos atrás -, veremos que algumas coisas propostas por esses filósofos são perenes e imutáveis - para não falar do nível de abstração que são capazes em suas obras; basta uma lida de algumas páginas do diálogo socrático Teeteto, de Platão, por exemplo, para um analfabeto funcional recém-saído de um curso superior, com diploma na mão, ter uma congestão cerebral instantânea.

   Quando falamos de tradição - o que inclui a possibilidade e o acúmulo de conhecimento -, temos aqui que nos portar com espírito de reverência, de gratidão e reconhecimento. E isso é assim porque nem a bondade e nem as respostas fundamentais para problemas que possuímos não são coisas que pertencem exclusivamente ao nosso tempo. A soberba, por outro lado, limita o conhecimento do mundo ao "eu", ao limitado campo de visão de um "eu" em particular no aqui e no agora e nas "necessidades do momento".

   Enfim, seria desastroso não desfrutarmos do acúmulo de conhecimento, possível na constituição da cultura apenas por causa dos antepassados, pois do contrário deveríamos recriar o conhecimento científico de uma simples roda a cada geração, já que se houvesse a negação de uma geração após a outra como coisa "obsoleta", o seu conhecimento e suas descobertas deveriam ser furiosamente aniquiladas para a construção de algo "novo". A tradição, por tanto, não é algo que mantém o nosso espírito nas cavernas, mas é a única possibilidade de sairmos dela. Ou seja: paradoxalmente, viver com os olhos voltados para o passado é a única forma de contemplarmos e de construirmos um futuro possível.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Nota Sobre a Hipocrisia


   Dias atrás quando disse que o programa Mais Médicos era um sistema moderno de escravidão e de tráfico de gente, teve uma galera que fez uma chiadeira interessante.

   Ouvi até que os cubanos tinham uma disposição muito solidária para com o seu país, e que não se importavam com dinheiro - essa coisa de capitalista -, deixando 70% do salário deles nas mãos do Fidel (que é mais rico do que a rainha da Inglaterra), ajudando assim a ilha.


   Pois bem, o Brasil está em crise e eu faço uma proposta: proponho que os patriotas que apoiam o sistema do Mais Médicos se desfaçam, voluntariamente, de 70% do salário deles para abater a crise.

   Eu tenho certeza absoluta que estes HIPÓCRITAS em sã consciência não farão isso, pois só se faz isso quando se é forçado a fazer tal coisa, quando se está em um regime de semi-escravidão, ou quando se tem uma arma apontada para a sua cabeça e para a cabeça dos seus filhos - lembrando que todo ato abnegado não liga para com os resultados, mas para com o sentido do ato de dar, ou seja: não importa se todos farão isso, pois seu desejo é fazer o que lhe cabe.

   A dura realidade nos impele afirmar que, acima de tudo, a nossa natureza faz com que nos inclinemos para com aqueles que nos são próximos, de nosso sangue. Ajudamos, em primeiro lugar, não o Estado (ninguém ajuda alguém mais poderoso), mas os nossos - só um doido faria o contrário. Com isso esta doação forçada dos cubanos é pura falsificação, além de ser uma das coisas mais hediondas que eu já vi próxima de mim em vida.

   Só uma alma ignóbil poderia aprovar a escravidão do outro enquanto desfruta em berço esplêndido a sua própria liberdade. Isso é uma vergonha, é ridículo, é mesquinharia e fruto de uma moralidade nojenta e abjeta.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Os Lamentos do Bom Selvagem II: Livres na Prisão de Ferro






   As influências da filosofia do "bom selvagem" são maiores e mais graves do que podemos perceber em um primeiro momento. E como disse no texto passado, a frase sobre o bom selvagem e o autor - Rousseau - são os responsáveis por grande parte das tribulações políticas e culturais que temos vivenciado, atingindo também áreas como educação, artes, geopolítica e políticas públicas. Mas a consideração que tentarei tecer aqui reflete sobre aquele tipo de filosofia da educação absurda que vê o mal humano a partir da compreensão de que este é causado pelas estruturas sociais. 

   A ideia que lança a culpa da miséria humana nas costas das estruturas sociais e culturais tem, não obstante, a sua justificativa, mas a reflexão unilateral sobre este aspecto pode nos ocultar outros componentes da análise sobre a miséria humana que não dependem apenas de estruturas sociais determinadas, já que compreender as coisas assim seria o mesmo que colocar o homem dentro de um universo no qual ele não desempenharia nenhuma função. Também seria absurdo crer que as estruturas existem por si só, deixando de lado a ação do próprio homem no processo de construção da máquina. Da mesma forma toda a política de destruição da própria estrutura também não faria nenhum sentido, pois o que mais vemos é a tentativa de grupos de estabelecerem políticas para eliminar as estruturas, e é lógico que tal processo teria de ser levado a capo por homens e não pela invocação de uma força impessoal frente a qual os políticos não faria nada.  Por tanto tanto o início quanto o fim do problema é o homem, e não a estrutura em si, que, considerada isoladamente, só é possível como abstração. 

   Por tanto a reflexão unilateral do mal estrutural tem a sua validade, não obstante ela parecer querer eliminar a necessidade que os homens possuem de estruturas para sobreviver, tal como procurei destacar no artigo passado. Assim também a ideia de um pessimismo antropológico puro não ajuda na medida que isso tende a retirar do homem a responsabilidade diante da vida. Mas também não ajuda o otimismo inescrupuloso que afirma que o "homem nasce livre", justificando a derrubada de tudo aquilo que ameaça esta sua "liberdade". Se nos detivermos bem em uma análise da história dos direitos no Ocidente veríamos que a possibilidade da liberdade encontra-se circunscrita dentro de uma ordem jurídica e moral determinados, construída na base de muitos sacrifícios, tornando a ideia do bom selvagem, no mínimo, uma tremenda falácia. 

   Mas esta falácia não ficou contida apenas na reflexão sobre os direitos - em nome dos quais o direito de liberdade nas mãos de determinados políticos e pensadores, se buscou a destruição de toda ordem moral e social estabelecida -, saltando para as políticas educacionais que, contra a educação diretiva, contra a ideia de educação como um sistema bancário de acumulação (nas palavras de Paulo Freire), e contra a ideia de uma hierarquia do saber, se buscou libertar alunos do fardo e da opressão corruptora da tradição e da cultura enfatizando a auto-expressão do aluno.

   Podemos até objetar com a ideia de que a cultura não é um bem perfeito, mas isso não torna verdadeira a falsa afirmação de que a cultura é um mal corruptor e que a própria ideia de alta cultura é um instrumento de dominação que os poderosos utilizam contra os pobres e os necessitados afim de manter a dominação. Também não torna verdadeira outra falsa afirmação, que, amparada na filosofia do bom selvagem, afirma que toda a cultura é boa ao seu modo. 

   Não foram poucos que afirmaram que a cultura era constituída de elementos opressivos e alienantes. Entre estes podemos citar Karl Marx, Michel Foucaut  e R. D. Laing, sendo a afirmação deste último de que os estados psiquiátricos nada mais eram do que aquilo que se constituía da negação da sociedade burguesa daqueles que eram considerados indesejados, sendo enquadrados como tais por não se encaixarem, de alguma forma, às aspirações dos mesmos burgueses. Por tanto, os estados psiquiátricos forma transformados em combustível do arraca-rabo de classes. De lá para cá, toda a crítica à "moral burguesa" serviu também como justificativa de todas os comportamentos subversivos, legitimados pelos intelectuais por, de certa maneira, contestarem a ordem. E não por acaso, todo o comportamento considerado subversivo também foi considerado como criativo, inventivo e original, sendo toda a crítica a esta originalidade considerada reacionária, burguesa e retrógrada. 

   Voltando ao tema da educação nunca a culto à auto-expressão, à originalidade e a novo, ancorados em um desprezo infinito à tradição foi tão destrutivo para as classes mais pobres. A própria ideia de que "toda a cultura é boa ao seu modo" tem a marca do dedo pesado da filosofia do bom-selvagem, aquele ser puro em seu estado pré-contratual, corrompido apenas pelo contato tradições e pela sociedade. De certa maneira, ocorreu aqui o mesmo processo que sempre ocorre quando se destrói, em nome do bem e da liberdade, as instituições que limitam a liberdade humana. O preconceito gerado contra a alta-cultura, contra a norma culta da linguagem, contra a acumulação de informações e contra a ideia de que existem uma organização hierárquica na educação e no saber, estando o professor na posição daquele que ensina e do aluno daquele que é ensinado - resultando na destruição da autoridade dos professores por causa do método sócio sócio-construtivista, que afirma que "ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho, mas todos se educam juntamente mediatizados pelo mundo" -, não trouxe liberdade, mas condenou as camadas mais pobres ao confinamento no gueto cultural que poderia ser rompido com a apresentação a eles de uma cultura superior.  

   Nem é preciso entrar no mérito de o quão conveniente é este método para professores que detestam ensinar, e que não possuem nenhuma capacidade para isso. Mas o que fica evidente hoje é que nunca a cultura vulgar e pobre de espírito teve tanto espaço nas políticas públicas, nas teorias de educação e nos meios de comunicação. Tal cultura tende a endossar a infame consideração de que Shakespeare e Machado de Assis podem ser nivelados ao funk carioca, pois se que todas as culturas e auto-expressões são boas ao seu modo, o que é que as diferencia? Não seria a legitimação burguesa aquela que estabeleceria a odiosa discriminação contra os pobres e oprimidos?

   Não é preciso lembrar a ruína do gosto, das artes e a ruína moral (que desejo tratar no próximo texto) que disso se seguiu, e aqui teríamos dados o suficiente para considerar, no mínimo, criminosas as investidas que o ministério da cultura vem praticando no âmbito da educação pública. A pluralidade é um dado cultural, mas jamais um valor definido, já que mesmo no gênero cultura existem hierarquias sem as quais a palavra cultura não faria nenhum sentido, já que a cultura é a transmissão de juízos, pois sem esta função não haveria razão nenhuma para comunicar a cultura de uma geração para outra. 

   Também é necessário enfatizar o quão egoísta pode soar a ideia de "originalidade" e da "auto-expressão" quando consideradas bem em si mesmas. Aqui caímos novamente na armadilha do solipsismo que tende a considerar qualquer expressão do "eu" como algo que pode ser colocado acima do "nós", e que constitui o esforço conjunto de homens que, ao longo dos tempos, formaram a civilização humana cujos bens nos são evidentes por si mesmos. O nivelamento do bem universal ao "eu" isolado do mundo, este provincianismo pseudo-filosófico e pseudo-humanista ignorante, tende a fomentar uma cultura de ruptura com a sociedade pretérita, e com as tradições e reflexões da "comunidade de almas" (constituída por aqueles que existem, que existiram, em prol daqueles que ainda existirão), fazendo com que os bens herdados e aquela ordem duradoura sem a qual homem algum é, sejam considerados como frutos do acaso e não bens conquistados na base de imensos sacrifícios. Por tanto o nivelamento do universo ao eu, a cultura de gueto e o culto ao novo e à originalidade não podem fazer, ao contrário do que afirma, o homem avançar, mas regredir a um estado onde o isolamento na limitação das percepções e dos sentidos acabam ganhando um status de cultura universal, de uma cultura reduzida ao mínimo de seu poder, já que desraigada do melhor do pensamento de da cultura que a humanidade já produziu. 

   Se levarmos em conta a afirmação do filósofo britânico Roger Scruton de que a cultura é o hábito de transmitir juízos, então teremos motivos o suficiente para amá-la e para promovê-la, ainda que tal cultura, em sua totalidade, seja um bem não acessível a todos, não obstante devendo ser admirada e venerada por todos. Assim também, teríamos que ter por infame e desprezível a crítica de Paulo Freire contra a concepção "bancária" de educação, já que, por sua própria definição, aluno e professor não podem jamais serem vistos no mesmo nível. 
    

    A existência de uma sociedade saudável, com isso, é totalmente dependente da existência de uma cultura saudável cujo poder é grande o bastante para destruir a prisão de ferro dos guetos culturais legitimados pelos promotores da "liberdade". E tal cultura não pode considerar toda expressão artística ou cultural como que existindo em um mesmo nível, mas se valendo de juízos e de críticas, pode e deve separar aquilo que é daquilo que não é, o superior do inferior, o bom do ruim, o belo do não belo, o eficaz do ineficaz, o completo do incompleto, o que é possível somente através da apropriação de juízos aperfeiçoados ao longo dos tempos. Assim podemos entender que toda a possibilidade de cultura reside no poder exercido pela faculdade do juízo, faculdade esta que vem sendo constantemente deslegitimada e destruída incessantemente pelos defensores da filosofia do "bom selvagem". 

Os Lamentos do Bom Selvagem I: A Miséria em Meio ao Nada



   Logo no início do livro "Do Contrato Social" de Jean Jacques-Rousseau temos a seguinte sentença de inspiração romântica: "O homem nasceu livre, porém, por toda parte, encontra-se sob os grilhões." Temos aqui a frase e o autor das grandes tribulações políticas e culturais que se arrastam desde, pelo menos, o século XVIII. E digo isso pois a frase e o autor se assentam em um erro de compreensão antropológica fundamental, um feitiço, que poderia ser desfeito com um pouco mais de crédito na experiência nossa de cada dia.

   Existe aqui implícita neste pequeno parágrafo uma das razões fundamentais que separam os dois iluminismo que conhecemos, que são o francês e o britânico. Ambos se fundam em interpretações distintas do ser humano, e isso explica, também, as diferenças fundamentais entre as duas culturas e os rumos que estas nações tomaram ao longo da história. Aqui o empreendimento comum de considerar ambas as revoluções sob uma mesma ótica só é possível às custas de um tremendo sacrifício da razão.   

   Podemos afirmar que entre as diferenças se encontram, do lado britânico, um esclarecimento permeado de um ceticismo que descreve de maneira mais empírica a condição humana, levando em consideração suas inclinações, paixões e erros fundamentais - a limitação dos poderes dos reis durante a Revolução Gloriosa em 1688 objetiva bem este espírito cético -, enquanto que, do lado francês, um romantismo mais deslumbrado com a razão e com a possibilidade da libertação do julgo das instituições, levou a um otimismo infinito que,  no fim do dia, resultou em perda de liberdade e em cabeças rolando.

   A intenção de Rousseau em afirmar a natureza intrinsecamente boa do homem primitivo - aquele existente antes da sociedade -, junto com a ideia de que a sociedade a corrompia, estava voltada à afirmação de que o mal da humanidade era resultante das "imposições da sociedade", imposições que vinham nas formas do costume, da Igreja, da monarquia e das instituições criadas ao longo dos séculos, o que acabava por hierarquizar a sociedade e, consequentemente, oprimi-la. É óbvio que as relações entre causa e efeito estabelecidas aqui são forçadas por aquele costume arraigado de julgar as partes pelo todo, já que a França pré-revolução não era propriamente uma França feliz - com aumentos arbitrários de impostos empreendidos pelo rei, um histórico recente de absolutismo monárquico, abrandado sim na segunda metade do século XVIII. No entanto tão pouco oferecia Rousseau um alento à miséria com a sua doutrina; fato é que sob o impulso da doutrina do "bom selvagem" a miséria foi profundamente agravada.   

   O pensamento conservador britânico, na pessoa de Edmund Burke - que chamava Rousseau de "o filósofo da vaidade" - detectou muito bem os pontos falhos da Revolução Francesa através de uma percepção profundamente clara do momento - digamos até que possuída de uma intuição divinatória -, por ver na eliminação brutal dos potos de referência culturais e na abolição das instituições a destruição das barreiras de contenção que impediam a invasão da barbárie. Tais barreiras eram tanto barreiras físicas, como não físicas; visíveis e invisíveis; escritas e não escritas. Entre estas barreiras encontramos a tradição e o "guarda-roupa da imaginação moral", a partir do qual podemos acessar todo um conjunto de experiências obtidas nas gerações anteriores cujas reflexões, costumes e tradições são fundamentais para a própria compreensão do "nós", assim como permeadas de esquemas de ação e até mesmo de fracassos que oferecem um norte para soluções a serem apresentadas diante de problemas presentes. Assim a recorrência ao "guarda-roupa da imaginação moral" seria um depósito de informações e costumes, como a confissão de uma superioridade do poder e sabedoria do "nós" em detrimento de uma atitude solipsista que tenderia a nivelar toda a realidade ao universo limitado do "eu". 

   Contudo a imaginação idílica roussoniana que estava voltada para a abolição dos costumes gerou o vício intelectual que consiste em considerar que um mundo bom é um mundo sem passado, sem experiência, sem algo a ser conservado, dando lugar às falaciosas utopias que buscam destruir o mundo presente em nome de um paraíso futuro. Mas este "pensamento de ruptura" é algo que tende, ao contrário do que afirma, não destruir a tradição, mas apenas substitui-la por uma tradição de rupturas onde o imperativo categórico que se estabelece cria algo como um "segundo homem", alguém cuja mudança e a impermanência tornam-se, antes de tudo, a postura mental que confessa que a única coisa a permanecer é a mudança e a impermanência, levando o revolucionário a saltar de revolução em revolução tal como faria um tradicional heraclitiano convicto. Contudo a dinâmica do processo, que é excitante porque centrada em um solipsismo dinâmico do eu, ignora as bases próprias em que uma sociedade encontra-se assentada; bases estas cuja subtração levaria apenas à criação de um inferno indescritível. E é justamente aqui que entramos nas consideração da natureza humana ignoradas por Rousseau. 

   Chegamos neste ponto ao cume de um processo de reflexão que não pode ser ignorado para quem quer que deseja considerar a dinâmica da história ou mesmo o processo de formação e transformação das sociedades e da civilização. Tal reflexão demanda a compreensão de que a possibilidade da sobrevivência humana jamais pode se dar sobre uma base solipsista, já que, primeiramente, a continuidade da raça humana só é possível mediante associações entre "eus", sendo a primeira delas a associação entre um homem e uma mulher, e, também - o que é de fundamental importância -, na limitação da liberdade demandada por necessidades de sobrevivência. Ou seja: o solipsismo é o contrário de sociedade e humanidade; ainda mais: o solipsismo é a anti-sociedade e anti-humanidade. 

   Todas essas coisas saltam aos olhos ao considerar a complexidade de formação de sociedade, apesar de serem negadas pelos românticos que estabelecem uma relação estritamente sentimental com o mundo. É óbvio que nas bases de qualquer sociedade importante encontraremos leis, costumes, religiões, limitações, hierarquias de comando e de produção, exércitos, produtores, intelectuais, sacerdotes, sistemas de governo, governadores, família etc. A existência dessas coisas que chamamos de instituições eram e são fundamentais para a fundação, manutenção, existência e permanência de uma sociedade, e, consequentemente, dos indivíduos dentro dela, desempenhando cada qual, ao seu modo, o seu sacerdócio em favor dos "eus" em benefício também de si mesmos. 

   A tendência do pensamento contemporâneo na camada dos "bem pensantes", costumeiramente ignora que uma sociedade não se origina como geração espontânea, e que nem se trata de um dado evidente da natureza biológica, e nem mesmo é algo que sempre esteve aí. Não! A sociedade é o resultado de confissões, sacrifícios e de uma lenta  construção fundada em valores, e seus modelos são possíveis por causa de um determinado estado de espírito, ao contrário do surgimento de uma colméia, cujas possibilidades estão incrustadas na natureza das abelhas. Por isso podemos compreender que a sociedade é, antes de tudo, um cultivo do espírito e uma tentativa de supressão de vários dados da natureza, e a harmonização sintética dela às nossas necessidades.  Contudo quando se diz "necessidades" não se evidencia de maneira plena o que queremos dizer ao falar da sociedades, já que por "necessidades" não nos referimos somente às necessidades físicas, mas também à permanência da vida que, entre outras coisas, depende da limitação dos desejos, ainda que os meios de alçar objetivos determinados mudem de um tipo de sociedade para outra. 

   A limitação dos desejos é a base fundamental do convívio humano. O exemplo disso é que não há sociedade humana que não possuam tabus relacionados à sexualidade, principalmente o tabu do incesto - como nos afirma Freud e Lévi-Strauss. Também estendemos a outras áreas a ideia de limitação dos desejos, como nas relações de propriedade, já que as limitações do desejo de posses materiais são fundamentais para o convívio humano, limitação que se destina à proteção integral da propriedade, não dando margens para a legitimação do roubo. As limitações da ira, que possibilitam a estabilidade social e o convívio sem o qual tudo degeneraria perseguições, carnificinas e no estabelecimento do poder indefensável e cruel do mais forte. Também a limitação da preguiça, o que, atuante na cultura como um código moral, traz a tona a compreensão de que todo o trabalho é, mesmo que inconscientemente, a realização de uma saudável cooperação social - principalmente e imediatamente familiar -, sem a qual teríamos o estabelecimento geral da ideia de tirania sobre o trabalho alheio; por isso a ética do trabalho e a limitação do desejo do gozo do descanso correspondem a uma compreensão de justiça e da constatação de que a sobrevivência é um bem obtido através do esforço e do sacrifício. 

   Não é por menos do que a tentativa de limitação dos desejos - o que consequentemente resulta em uma limitação da liberdade - que as várias instituições existem, o que nos leva a outra conclusão, a conclusão de que o que fundamenta a existência das instituições e hierarquias é a sobrevivência da sociedade, cujas possibilidades estão no livre curso das relações justas. Tal consciência está estampada como um memorial na literatura, na história, nas tradições, nas leis, na religião, e que permanecem como bastiões contra a corrosão liderada pelos bárbaros, já que as sociedades, a justiça e as tradições que fomentam a sociedade não existem senão por causa de um exercício constante de reflexão e acão para manter vivos tais valores. E é justamente aqui, onde vemos a complexidade das relações humanas, que a sentença infame de Rousseau - romântica e abstratista por todos os lados - cai como um fruto podre da árvore dos tempos sombrios. 

   Não foi por acaso que movimentos revolucionários - cuja inspiração se encontra na tradição francesa influenciada por Rousseau -, apregoando a liberdade dos homens os fez amargar sob o julgo de ditaduras sangrentas, já que com o ímpeto demolidor dos revolucionário as instituições, a religião, as leis, os governos estabelecidos e todos aqueles limitadores da liberdade acabaram na lata do lixo da história, resultando em uma concentração de poder ilimitado daqueles grupos mais organizados e com maior poder de controle da sociedade, que, invariavelmente, eram formados por aqueles que apregoavam a ideologia infame do "bom-selvagem" - assim é a história da revolução francesa, da revolução blochevique, da revolução nazista, maoísta e da revolução iraniana. Nenhuma destas revoluções se furtaram do otimismo antropológico de Rousseau, e nem mesmo constituem em exceções a esta regra, já que cada um desses grupos acreditavam em forças, grupos e instituições que impediam a chegada de um futuro utópico onde reinaria a paz e a justiça no próprio mundo - e consequentemente nomeavam também os bodes expiatórios contras os quais toda a culpa da não chagada do futuro utópico desaguava, sejam eles os burgueses, os kulács, os judeus, os imperialistas, a classe-média etc. 

   Com isso, quanto mais liberdades, quanto mais instituições destruídas, quanto mais a moral era substituída pela ideologia, quanto mais as religiões iam perdendo a sua influência e quanto mais as instâncias que limitavam as liberdade desapareciam, mais o povo ia se aproximando de um futuro tenebroso, onde o voluntarismo, a arbitrariedade, a seleção de bodes expiatórios se estabeleciam desenfreadamente, provando a capacidade de felicidade que um bom selvagem poderia adquirir na medida em que ia se livrando de suas opressões mediadas por essas mesmíssimas instituições.

OBS: Na imagem o famoso quadro símbolo da revolução francesa onde a liberdade guia o povo - para onde, a história já nos mostrou. 

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Cavalheiros de Cavalaria Ausentes


   Em meio a essa onda de jihadismo, é interessante notar que hoje em dia alguns cristãos não possuem a mínima capacidade de serem cavalheiros, de proteger as suas amadas, filhos, amigos etc. Por que isso? Porque eles confundiram a possibilidade de entregar a sua vida como um sacrifício pessoal a Cristo, com o entregar a vida de seus irmãos, suas mulheres e seus filhos ao sacrifício. Ao invés de ele dar a sua face para bater como um direito a um culto, ele oferece a dos outros - o que é insensatez. Entregar a sua própria vida à causa de Cristo é um direito. No entanto defender a vida do seu irmão, de sua esposa e filhos é um dever que deve ser seriamente considerado até à morte.

   Mas com relação a um suposto pacifismo que - reitero - não tem nada de cristão, eu imagino uma cena muito possível: um assaltante entra em uma casa, rende o marido, a mulher e os filhos. Logo depois ele começa a dar bofetadas na mulher, molestá-la e abusar dos filhos. De certo o marido rendido tem a possibilidade de render o assaltante utilizando a força para apagá-lo de algum modo. No entanto ele não age, pois sua alma cristianíssima não que pecar, com medo de dar uns bons chutes no traseiro do indivíduo. No fim das contas temos mulheres e filhos espancados, e ou mortos, mas uma alma em potencial e um homem "realizado" em sua "fé".

   Isso que está aí em cima é tudo, menos cristão, pois no Novo Testamento, mais especificamente no Sermão da Montanha, a ideia de dar a outra face quando a primeira foi ferida está fundamentalmente ligada à proteção pessoal da vida que os discípulos deveriam colocar em primeiro lugar, pois ninguém seria louco o suficiente para enfrentar o poderio invencível do Império Romano. O Império Romano é o contexto do texto de Mateus 5:38-41, e ele serve, na verdade, para que possamos considerar as prioridades em detrimento de tentarmos lutar em uma luta já perdida. Estar vivo para prover a família e a comunidade é mais útil do que teimar com o Império Romano, da mesma forma que Jeremias exortava os judeus a todos os reinos a se submeterem a Nabucodonosor, rei da Babilônia, e deixarem de lado os seus apelos nacionalistas para que disso escapassem com vida (Jeremias 27:1-8).

   Hoje o que vemos é o contrário, pois na capacidade de servirmos ao nosso próximo, tal como era o ideal da cavalaria na Idade Média, à nossa comunidade, aos filhos e filhas, existe uma espécie de letargia geral gerada pela má interpretação do Sermão da Montanha. Pensemos bem: se o Novo Testamento condenasse tanto assim o serviço da Espada (Romanos 13), será que ele não teria condenado os exércitos, ao invés de aconselhar aos soldados o contento com o soldo? (Lucas 13), reconhecendo que amar o próximo é também protegê-lo de terceiros? No entanto a interpretação amadora do Novo Testamento - que é assim porque como protestantes não damos valor à tradição interpretativa - fez com que esquecêssemos que proteger o irmão, a esposa e a família está justamente relacionada amar o nosso próximo como a nós mesmos - o que Lutero afirmou categoricamente em suas reflexões sobre o governo. Mas amar é amá-lo de verdade, nem que, para isso, como disse anteriormente, devamos dar umas boas bofetadas em um assaltante!

   Existe, também - e a Bíblia confirma isso -, uma diferença imensa entre matar e assassinar (e a ética da Lei no Antigo Testamento nos confirma isso - e negá-la seria afirmar a heresia do gnosticismo, que não reconhece nenhum ato de justiça por parte do homem neste mundo). A segunda destrói totalmente a ordem, mas a possibilidade da primeira e a sua efetivação como juízo é aquilo que a mantém. Lançar a ordem às favas em nome do pacifismo é dar a possibilidade para a criação de um inferno indescritível. Isso jamais foi cristianismo, e a história nos mostra muito bem isso, já que a grande massa de convertidos no período do império Romano era de soldados, o que não foi condenado pela Igreja, que reconhecia no exército um elemento essencial para a manutenção da ordem sem a qual a vida é impossível - o que é sabido com a existência das Cruzadas. Todo ato de sacrifício está relacionado a um bem maior, no entanto o pacifismo tende a deformar as comunidades e as sociedades, corrompendo o juízo desde o foro íntimo até às instâncias públicas, não sendo, por tanto, nenhum bem.

   E lembremos bem: mesmo na teologia do sacrifício de Cristo, em sua entrega total, está um elemento de destruição muito mais radical do que um simples ferimento: está a condenação eterna do Diabo para que fosse possível justamente a destruição do seu poder corruptor e destrutivo, pois - e Jesus já sabia -, pecado e pecador são uma coisa só, não sendo possível a separação. Pecado não é um universal, como o é a verdade, mas é o estado de corrupção da natureza, e esta é inseparável de indivíduos. Proteger as pessoas do investimento do maligno é necessário, e existem várias formas de fazer isso: uma delas é convencendo o pecador antes do seu próprio desastre; a outra é estar do lado dos inocentes, demonstrando amor através da proteção. Mas hoje somos um povo com cavalheiros de cavalaria ausentes.