Ao ler a obra "Mapas do Significado"1 do Jordan B. Peterson é impossível não fazer a associação entre a dinâmica psíquica proposta por ele com a cosmologia platônica proposta no Timeu1, e uma das razões é esta: Platão faz uma distinção3 entre a forma (eidos), a hylē (matéria) e a fusão dos dois que causa a realidade concreta das coisas. Platão associa o princípio formal como o primeiro princípio do ser das coisas, sendo a matéria o princípio da concreção que recebe a forma mediante a causação do primeiro princípio nesta ordem, originando assim os objetos que vemos no mundo, assim como o próprio mundo, que é a imagem (eikōna)4 de Deus e o Filho de Deus. Também é necessário levar em consideração que a estrutura do cosmos (kosmon), para Platão é um análogo da estrutura da alma, e assim o deus5 (dēmiurgos) estruturou todo o universo visível para que a partir da observação das revoluções invariáveis dos astros (ou as revoluções da inteligência celeste) pudéssemos observar as revoluções variáveis da nossa alma (ou revoluções da inteligência em nossa alma)6.
sábado, 15 de maio de 2021
O Timeu de Platão, o "Mapas do Significado" de Jordan B. Peterson, e o Desespero do Finito e do Infinito em Kierkegaard
segunda-feira, 10 de maio de 2021
A Cruz e a Justificação: Comentário de Lutero a Gálatas 3.13
E este é o nosso supremo consolo de revestir-nos de Cristo e envolvê-lo em meus, em teus e nos pecados de todo o mundo, vendo-o carregar todos os nossos pecados. Se é visto desse modo, ele, facilmente, remove as opiniões fanáticas dos adversários a respeito da justificação por obras. Pois os papistas sonham com uma fé formada pelo amor por cujo intermédio querem remover os pecados e ser justificados. Isso é despir inteiramente a Cristo, desembaraçá-lo dos pecados, fazê-lo inocente e carregar e esmagar-nos a nós mesmos com nossos próprios pecados, encarando-os não em Cristo, mas em nós mesmos. Isso é, verdadeiramente, abolir a Cristo e torná-lo inútil. Pois, se é verdade que abolimos o pecado pelas obras da lei e pelo amor, então, não é Cristo que os tira, mas nós. Mas, se ele é, verdadeiramente, o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo, foi feito maldição em nosso lugar e foi envolvido em nossos pecados, então, necessariamente, conclui-se que não podemos ser justificados e tirar os pecados pelo amor, pois Deus não colocou os pecados sobre nós, mas sobre Cristo, seu Filho. Se eles são tirados por ele, não podem ser tirados por nós. Isso toda a Escritura afirma e nós confessamos e oramos o mesmo no Credo, quando dizemos: "Creio em Jesus Cristo, o Filho de Deus, que padeceu, foi crucificado e morto por nós".
Essa é a mais agradável de todas as doutrinas e a mais plena de consolo, que ensina que temos essa inefável e inestimável misericórdia e esse amor de Deus. Quando o Pai misericordioso viu que estávamos sendo oprimidos pela lei e sujeitos à maldição e nada nos poderia libertar dessa situação, ele enviou, por esse motivo, seu Filho ao mundo, sobre o qual lançou todos os pecados de todos os homens e disse a ele: "Tu és Pedro, que te negou; tu és Paulo, o perseguidor, blasfemador e homem violento; tu és Davi, o adúltero; tu és o pecador que comeu o fruto no paraíso; tu és o ladrão na cruz. Numa palavra, tu és a pessoa de todos os homens que cometeu os pecados de todos os homens. Pensa, pois, como os pagarás e farás satisfação por eles". Nesse momento vem a lei e diz: "Considero esse homem um pecador que assumiu sobre si os pecados de todos os homens e, além disso, não vejo nenhum pecado, a não ser os que estão sobre ele. Que morra, portanto, na cruz!" E, assim, ela o ataca e mata. Por esse feito, todo o mundo é purificado e remido de todos os pecados e, portanto, também Libertado da morte e de todos os males. Uma vez abolidos o pecado e a morte, por esse homem singular, Deus não gostaria de ver nada mais, em todo o mundo, sobretudo se cresse, a não ser mera purificação e justiça. E, se permanecessem alguns restos de pecado, Deus não os consideraria por causa desse sol, que é Cristo.
Assim, pois, devemos exaltar o artigo da justiça cristã em oposição à justiça da lei e das obras, ainda que não haja palavra alguma nem eloquência que possa concebê-lo dignamente, muito menos, exprimir sua grandeza. É, por isso, o argumento do qual Paulo trata aqui, o mais poderoso e o mais elevado de todos contra todas as justiças da carne, pois contém essa invencível e irrefutável antítese, a saber: Se os pecados de todo o mundo estão sobre esse único homem, Jesus Cristo, então, não estão sobre o mundo. Mas, se não estão sobre ele, estão, ainda, sobre o mundo. Da mesma forma: Se Cristo mesmo é feito culpado por todos os pecados que nós todos cometemos, então somos absolvidos de todos os pecados, mas não por causa de nós mesmos, ou por causa de nossas obras ou méritos, mas por causa dele. Se, contudo, é inocente e não carrega os nossos pecados, então nós os carregamos e neles morreremos e seremos condenados. "Mas, graças a Deus, que nos dá a vitória por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo". Amém.1
____________________________________________ 1] LUTERO, Martinho. Comentário aos Gálatas. 3.13
Lutero e o Cristo na Cruz; Ou: Desse Conhecimento nos Privam os Sofistas
Desse conhecimento de Cristo e dessa consolação tão agradável de que Cristo foi feito maldição em nosso lugar para nos resgatar da maldição, privam-nos os sofistas, quando separam Cristo dos pecados e dos pecadores e o apresentam apenas como exemplo que deve ser imitado por nós. Desse modo, não apenas tornam Cristo inútil para nós, mas, também, o constituem como juiz e tirano, que se irrita com os pecados e condena os pecadores.
Mas nós devemos envolver Cristo em nossa carne e sangue e reconhecer que, da mesma maneira como ele está envolto na carne e no sangue, também o é nos pecados, na maldição, na morte e em todos os nossos males. Mas, na opinião deles, é um grande absurdo e uma afronta chamar o Filho de Deus de pecador e de maldição. Se queres negar que ele é um pecador e uma maldição, nega também que ele sofreu, foi crucificado e morreu. Pois não é menos absurdo dizer que o Filho de Deus, como nosso Credo confessa e ora, foi crucificado, suportou as penas do pecado e da morte, do que dizer que ele é um pecador e uma maldição. No entanto, se não é um absurdo confessar e crer que Cristo foi crucificado entre ladrões, também não é um absurdo dizer que ele foi uma maldição e um pecador dos pecadores. Certamente, não são inúteis as palavras de Paulo: "Cristo foi feito maldição em nosso lugar" e: "Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus".
Da mesma forma, João Batista o chama de "Cordeiro de Deus", etc. Ele, com efeito, é inocente, porque é o Cordeiro imaculado e incontaminado de Deus. No entanto, como carrega os pecados do mundo, a sua inocência é suprimida com os pecados e a culpa de todo o mundo. Quaisquer pecados que eu, tu e nós todos cometemos e, no futuro, cometeremos, são de tal modo os pecados de Cristo como se ele mesmo os tivesse cometido. Em poucas palavras, importa que o nosso pecado se torne o próprio pecado de Cristo, do contrário, pereceremos eternamente. Esse conhecimento verdadeiro de Cristo, que nos transmitiram Paulo e os profetas, os ímpios sofistas obscureceram.1
sexta-feira, 7 de maio de 2021
João Crisóstomo e a Expiação Substitutiva na Cruz
quinta-feira, 29 de abril de 2021
Gregório Magno (+ 604 d.C.) e a Punição Vicária de Cristo
A Cruz não é Causa do Amor de Deus, Antes o Supõe
Deus não precisou da Cruz para tornar possível o seu amor: o envio de Cristo ao mundo não causa o amor de Deus ao homem, antes o pressupõe. Sendo assim, mesmo exigindo a reparação da ofensa, Deus é quem provê em seu amor expiatório a vítima da reparação, removendo com isso a totalidade dos obstáculos pelos quais o homem era impedido de fruir a totalidade deste amor.
quarta-feira, 14 de abril de 2021
Aristóteles e a Determinação Divina sobre a Alma
_________________________________________________
1] ARISTÓTELES - Ética a Eudemo. 1248a1, 24, 25
2] Ibidem - 1248b1 4, 5
Aristóteles e a Medida Divina como o Fundamento da moralidade
No último tomo da obra "Ética a Eudemo" (E.E.), Aristóteles tem também como tema a noção de "sorte" (tykhe) na produção da felicidade do homem. Contudo, a fundamentação intelectualista da doutrina aristotélica não nos deixa confundir a "sorte" com o mero "acaso", já que é possível ver em sua filosofia a causação fundamental do Primeiro Motor (Deus) sobre todo o Universo, tal como se dá na alma, pois tanto do Universo como da alma Aristóteles afirma: "como no universo, aí [na alma] Deus tudo move"1. Assim, Aristóteles afirma que há um princípio superior à razão (que não nega a razão), sendo este princípio Deus (hó Théos), e que tal princípio agindo no homem o faz escolher o bem, ainda que este possa, em muitos casos, não possuir o aparelho racional desenvolvido. Poderíamos localizar esses homens na classe dos místicos, inspirados ou profetas, já que Aristóteles afirma que estes realizam boa deliberação "sob inspiração", pois "de fato, apesar de irracionais, conseguem até aquilo que tem a ver com o prudente e o sábio"2. Sendo Deus (o primeiro motor) o princípio acima da razão, governando não só o Universo como também a alma do homem e a sua razão, dando à alma do homem a medida da sua felicidade, logo, tal como o servo que segue o princípio regulador do senhor, a vida maximamente feliz segue o seguinte preceito: "a escolha e a posse de coisas naturalmente boas [...] que maximamente a vierem a produzir a especulação de Deus são as melhores, constituindo também a mais nobre das normas"3, e sendo a especulação de Deus a norma suprema, a medida divina é o fundamento de toda a moralidade. __________________________________________________________ 1] ARISTÓTELES - Ética a Eudemo. 1248a25, 26 2] Ibidem - 1428a35, 36 3] Ibidem - 1249b17-19
A Substituição Penal
As perguntas são estas:
Agostinho, a Ceia e o Sinal
A questão relacionada à eucaristia em Agostinho é profundamente disputada. O que podemos dizer é que Agostinho defendeu uma manducação espiritual, algo que podemos julgar como distinto daquilo que nomeamos transubstanciação. A razão disso é que um defensor assim jamais diria que "uma coisa é o sacramento; outra coisa é a virtude do sacramento", pois não há distinção possível feita assim para quem realmente defende a teoria da transubstanciação, já que aquele que defende chama o sinal literalmente de "Jesus Eucarístico", por exemplo, não pode assim proceder. Agostinho defendeu uma manducação espiritual, como podemos ver no trecho abaixo: “Moisés, Arão, Finéas e muitos outros que comeram o maná agradaram a Deus. Por quê? Porque entendiam o alimento visível espiritualmente, apeteciam espiritualmente, degustavam espiritualmente, de sorte que fossem saciados espiritualmente. Ora, também nós hoje temos recebido o alimento visível, mas uma coisa é o sacramento, outra a virtude do sacramento" (Tratados sobre o Evangelho de João, XXVI, 11). E sobre a diferença entre o sinal (signa) e a coisa (res) significada, isso é bem claro no "A Doutrina Cristã", onde Agostinho faz uma simples divisão. Para Agostinho o sacramento pertence à categoria dos "sinais" - assim como a Escritura Sagrada -, e não das "coisas" - como é o caso da encarnação de Cristo, a ressurreição, a substância divina (Deus) e da caridade, as quais pertencem ao universo das coisas, e não dos sinais (AGOSTINHO - A Doutrina Cristã. I.). Agostinho diz: "Toda doutrina se reduz ao ensino das coisas (rerum) e ao dos sinais (signa). Mas as coisas (rerum) são conhecidas por meio dos sinais (signa). Portanto, acabo de denominar coisas a tudo o que está empregado para significar algum outro objeto como, por exemplo, uma vara, uma pedra, um animal ou outro objeto análogo [...] Daí se deduz que denomino sinais a tudo o que se emprega para significar alguma coisa além de si mesmo". (AGOSTINHO - A Doutrina Cristã. I.2). Sobre os Sacramentos, no mesmo livro, Agostinho diz: “Pois o mesmo Senhor e os ensinamentos dos apóstolos transmitiram-nos não mais uma multidão de sinais, mas um número bem reduzido. São muito fáceis de serem celebrados, de excepcional sublimidade a serem compreendidos, e a serem realizados com grande simplicidade. Tais são: o sacramento do batismo e a celebração do corpo e sangue do Senhor” (Ibid. IX.13). Ou seja: a Ceia do Senhor está enquadrada, segundo Santo Agostinho, no grupo sinais que significam as coisas, e não no grupo das coisas que a que se remetem os sinais.