sábado, 14 de maio de 2016

AOS RELATIVISTAS - que assim o são até o dia do pagamento


   Àqueles amigos meus que se dizem relativistas e que não creem em verdades absolutas - que assim o são apenas até o dia do pagamento, quando afirmam que receber por aquilo que se trabalha é algo amparado em uma moral de validade absoluta e universal; uma "verdade-em-si", como diria um inimigo de Nietzsche, ou um bom metafísico -, seguem as palavras de C. S. Lewis:

   "[...] quando você considera as diferenças morais entre um povo e outro, não pensa que a moral de um dos dois é sempre melhor ou pior do que a do outro? Será que as mudanças que se constatam entre eles não foram mudanças para melhor [para aqueles progressistas que acham que qualquer mudança por si só é um "bem-em-si"]. Caso a resposta seja negativa, então está claro que nunca houve um progresso moral. O progresso não significa apenas uma mudança, mas uma mudança para melhor. Se um conjunto de ideias morais não fosse melhor do que outro, não haveria sentido em preferir a moral civilizada à moral bárbara, ou a moral cristã à moral nazista." (C. S. Lewis. Cristianismo Puro e Simples. p. 18)

quarta-feira, 27 de abril de 2016

O Bode Expiatório


   A revelação da verdade divina em Jesus Cristo nunca foi matéria de discussão pacífica neste mundo. De fato, ao abrir-se para a encarnação Jesus decidiu entrar em um espaço de perdição, onde seu destino só poderia ser o aniquilamento. Por isso, a santidade e a pureza divinas jamais foram vistas com bons olhos quer em sua época quer agora.

   A concepção de Jesus como o bode expiatório já não pode ser mais considerada como artigo de provérbios populares e nem de matéria sobre discursos míticos. De fato o mecanismo do bode expiatório é um fato empírico histórico, onde o "homem massa" (o coletivo) se arremete violentamente de maneira unânime sobre uma vítima inocente, transformada em símbolo de todo o mal, dissensão e miséria no mundo. Eleger uma vítima é uma forma comum de camuflar os próprios erros individuais, retirando da esfera pessoal a culpa dos males que nos circundam.

   No entanto, no presente momento confuso de sacralização de determinadas classes, é preciso sublinhar o caráter essencialmente singular no caso de Jesus Cristo como alguém inculpável: ele era a Verdade encarnada. Sua existência como promotor da dissenção está vitalmente ligada à noção de santidade que lhe era próprio, e que lançava uma luz tão intensa sobre o mundo a ponto de colocar as claras a monstruosidade humana dissimulada pelo véu da falsa religiosidade, da hipocrisia e da revolta contra Deus. Jesus era um incômodo e as massas os incomodados. Como disse Raimund Schwager:

   "Todos os Evangelhos [...] mostram que a mensagem de Jesus - pelo amor inconcebível de Deus e por sua pretensão de ser um com Deus - trouxe à luz o rancor subterrâneo e a vontade oculta de matar, mesmo entre os fariseus piedosos e cultos. Na aliança contra ele desvelam-se as forças mais sombrias do coração humano. [...] Todas as forças hostis a Deus se ligam contra ele, e em seu corpo descarregaram seus maus desejos" (SCHWARGER, Raymund. Brauchen Wir eine Sündenbok? - apud. GIRARD. Aquele por Quem o Escândalo Vem. p. 78,79).

   No entanto a existência singular de Jesus não deixou de se repetir na vida dos sábios, de homens santos e dos profetas ao longo dos tempos. De fato, a existência da própria Igreja parece, de quando em vez, encarnar o papel de bode expiatório a contrapelo do bem que ela causou e causa no mundo - ainda que o próprio mundo seja suficientemente ingrato para com o serviço que ela (e só ela) prestou aos homens.
  
   Aqui e ali as criações da Igreja (como as universidades) parece se rebelar contra a sua geratriz, e isso não por um movimento de crítica, mas de substituição, quando a mentalidade que busca a verdade no mundo se converte afim de atender as exigências de ideologias que mal disfarçam o seu ódio irracional contra tudo o que é humano, a pretexto de defender o que é humano. Em substituição de uma verdade transcendental e eterna, imanentizam as esperanças para este mundo, escolhem bodes expiatórios - sejam os judeus, os Kuláks da Rússia, sejam as Elites, os intelectuais chineses da época de Mao Tsé-Tung, Deus mesmo etc. - se opondo à realidade inescapável de que o presente tempo não comportam as esperanças que podem ser satisfeitas apenas no tempo eterno. O dito "ópio do povo" na verdade é a única esperança que agora é substituída no coração do homem pelo ópio da ideologia, que lançando falsas esperanças e falsos inimigos no mundo, encobre do coração do homem que a sua única esperança nunca esta em si mesmo, mas no Deus que a tudo criou.

   Essa constatação é contraposta à soberba e arrogância de quem se coloca na ingrata empreita de construção de paraísos que o tempo tende a destruir. E os messianismos presentes sempre ocultam a prepotência de onipotência que sempre tentou o coração do homem, e que em sua própria dinâmica deixou um histórico de morticínios e destruições na tentativa de fazer do mundo não o melhor dos mundos possíveis, mas a perfeição em sua própria essência. E tal como nos ensina revolução francesa, quando materializar o mundo perfeito se torna impossível, cabeças começam a rolar.


   É neste espírito de profecia, nesta tendência de trazer incômodo para todas as gentes, que as palavras de Cristo sobre a condição humana trouxe a si o descarrilamento da violência que acabou por significar o mundo, constituindo um evento de verdadeira revelação divina sobre a condição selvagem do homem distanciado de Deus. Como disse René Girard: "Os Sinópticos [os quatro Evangelhos] fazem dizer que Jesus traz a guerra. João faz ver que, por onde quer que intervenha, Jesus provoca dissensões. A irrupção da verdade destrói a harmonia social fundadas sobre as mentiras da unanimidade violenta" (GIRARD, René. Aquele por Quem o Escândalo Vem. p. 84).

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Insatisfeitos no Paraíso

   


   Como vemos na Bíblia, para Adão e Eva o próprio paraíso era insuficiente. No entanto, com seus respectivos espíritos banhados pelos ares do progresso, decidiram fazer uma melhoria no paraíso em que viviam. O resultado foi que acabaram por pôr tudo abaixo.

   Não que em nosso velho mundo não devamos querer melhoras, mas o que penso sobre o não contentamento humano é que o próprio homem pode ser alguém insatisfeito no paraíso, e que ao sair por aí desejando criar um mundo melhor ele acaba por implodir aquele velho, familiar e monótono mundo, onde tudo é tão do tamanho do coração humano, perdendo-o para todo o sempre. 

   É justamente este o resultado por se fazer do lugar-comum da mudança um adjetivo positivo. Qualificamos, como metafísicos modernos, a mudança como uma coisa "boa-em-si", fazendo do acidente uma substância, não porque o que permanece o mesmo seja ruim, mas porque insatisfeitos conosco mesmos.

   Contudo, na incapacidade de reformarmo-nos a nós mesmos, decidimos, em nome da libertação, revolucionar o mundo transformando-o à nossa imagem e semelhança, mas uma vez despida da sua imagem divina acabamos por tornar o nosso mundo em não-lar e em algo inumano ou mesmo anti-humano. 

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Karl Kraus, a Corrupção da Língua e a Segunda Realidade


  Existe um determinado clima social que permite a ascensão de tiranos. Geralmente tais são destituídos profundamente de senso moral, de realidade e de capacidade de reconhecer erros - podendo ser isso feito no nível verbal, mas não na ação concreta.

   Como deixou claro o jornalista austríaco Karl Kraus, a população alemã do pós Primeira Guerra erra profundamente deformada moral e espiritualmente, sendo isso causado principalmente pelo "clima de opinião" (para utilizar a expressão de Alfred North Whitehead) criado por jornalistas que não economizaram na formação de lugares-comuns que fizeram com que a opinião pública migrasse para uma segunda realidade. Em outras palavras, a ascensão de Hitler ao poder não foi um ponto na curva, mas foi pavimentada pela corrupção da língua levada a cabo pelos intelectuais, transformando a própria língua em um instrumento inviável para a descrição da realidade.

   Aqui temos um problema violento, extremamente presente no Brasil: a corrupção da língua. Esta, tal como vemos nos livros didáticos - que eu já examinei, pelo menos no caso do Paraná -, já que os educadores perderam a sua função de transmitir a realidade, buscando apenas transformá-la, esta patente. Este é um problema dos nossos jornais, das novelas, literatura etc., onde a corrupção ideológica já é tão violenta, que um grupo criminoso como o MST - que teve até aulas de guerrilha com um embaixador Venezuelano em terras Brasileiras (meu Deus!!!) -, é tido como libertador pela maioria esmagadora da nossa classe acadêmica formadora de opinião, que por meio do discurso e da formação de símbolos lançam todos para um mundo paralelo ao mundo real. Isso sem somar os cuspidores da liberdade, aqueles que afirmam que fulana não merece ser estuprada, e mesmo aqueles que não tendo cargos, se põe a vender a República em um quarto de hotel - ou seja: praticando corrupção a céu aberto -, sendo considerado herói, como é o caso do moribundo político chamado Luiz Inácio Lula da Silva.

   Sendo assim, neste estado de alienação moral e de perda da realidade, temos nos contentado com uma ideologia, uma mentira política torpe e grotesca, que prometendo o paraíso na terra, lança através de símbolos confusos a mente da população a um plano que em nada se coaduna com a realidade de fato, pavimentando a oportunidade da ascensão política de indivíduos que, carregados na onda ideológica, oferecem um futuro impossível - mesmo que desejado para indivíduos totalmente desprovidos de realidade e corrompidos moral e espiritualmente. O que teremos de tudo isso senão um mundo totalmente anti-humano, inajustável à natureza das coisas, ou um inferno indescritível?

Religião e Política: Imposturas


Portador de uma das mentes lúcidas do século XX, o filósofo austríaco Erich Voegeling, que criou instituições de pesquisa e estudos na Alemanha na década de 60 do século passado - com a intenção de produzir uma nova consciência política após a catástrofe nazista -, gerando resultados importantes que estão para além da imaginação vulgar, concebia a necessidade de olhar todos os processos humanos à luz da presença divina. 

O que há de interessante nisso é que, para ele, foi a perda da realidade, montada na crista da perda vigor espiritual e dos valores eternos, que, no pós-primeira guerra possibilitou a ascensão do nazismo, o que incluía o perda da realidade por parte das Igrejas, tanto católicas quanto protestantes, sendo a opinião pública deformada por intelectuais, educadores, políticos e jornalistas.

No entanto, quando você vê o seu coleguinha mugir coisas como: "devemos separar política de religião", basta refletir o seguinte: quais são os fundamentos sobre as suas concepções sobre o bem e o mal? Fora da realidade do espírito - que é o assunto da religião - não há como saber o que é bom e o que é mal. Sem isso não há ética, e, por isso, não pode haver política, apenas catástrofe. Filosoficamente não há outro caminho: ou é niilismo (como retratado no livro "Os Demônios" de Dostoiévski) ou é espiritualismo.

De uma longa tradição do pensamento espiritualista que vai dos tempos imemoriais, passado pelos profetas de Israel, Platão, Aristóteles, os estoicos, os filósofos e teólogos cristãos, a Idade Média, o Iluminismo Britânico e Americano, Leibniz, Schelling, Hegel, os impérios teocráticos europeus, até uma corrente conservadora moderna em política, a ideia da interpenetração entre religião e política sempre esteve presente - e, considerando o homem como indivíduo que caminha sob juízos acerca da realidade, não há como ser de outro modo.

Mas os ilumininhos, baseados em um provincianismo intelectual arcaico - que remonta à catástrofe da revolução francesa - querem provar que a interpenetração entre religião e política é o mal do mundo. Valha-me Deus!!!

sexta-feira, 15 de abril de 2016

A Ordem

   O estado de loucura atingiu as massas - o que é perigoso. É quase impossível no Brasil passar por todo esse processo sem um prejuízo dos sentimentos e da razão. O Ambiente presente tornou-se profundamente deletério, e somente uma estrutura mental e espiritual firme pode passar incólume a essa vaga de desinformação, antagonismo, sede por poder e irracionalidade. E o perigoso é que quando a estrutura psíquica se encontra desgastada e estafada, o ser humano acaba por aceitar qualquer coisa em busca de tranquilidade e alívio.

   Em tempos de angústia, as virtudes que possibilitam a resistência só são possíveis em uma personalidade onde reside aquela certeza acerca dos valores espirituais eternos. No entanto, como pode isso ser possível quando as instituições espirituais já se desfizeram das suas barreiras de contenção (a moral, os tabus, as hierarquia de valores), se firmando apenas em valores momentâneos que se desmancham no ar? A Igreja, que deveria se o baluarte da verdade em um mundo de incertezas, a Arca resistente contra o dilúvio da profanação, confusão e perda da realidade, se esfuma dia após dia diante dos reclames da cultura reinante - e, como sabemos, a um reclame deste presente tempo segue outro reclame e outro até à consumação dos séculos. Sendo assim, aquilo que deveria consistir em forças de conservação, se torna em um impulso desnorteante dentro do qual o home só pode se perder. Aqui é do espaço da perdição que falo.

   É imperativo em nossos dias repensarmos a necessidade da ORDEM sem a qual o homem não pode viver. Não são somente os valores e a realidade material importantes para o homem; na verdade valores materiais nada são se não podem ser julgados por uma instância superior e imperecível - a instância eterna do espírito. E a raça dos homens que pensam poder remodelar o mundo segundo as necessidades do momento, segundo o espírito do tempo, invariavelmente ignora a necessidade da ordem. Mas do outro lado se encontram aqueles que sabem que a humanidade não é um momento, que ela possui uma natureza inamovível, não remodelável e que pode descansar apenas nesta ordem que foi feita para o homem, sendo o homem feita para ela.

   Mas enfim, onde iremos parar nesta onda voraz de incertezas, onde mais nos aproximamos da aniquilação do que daquela estabilidade que permite a nossa alma descansar? Como pode ser que nesta voraz relativização de tudo o próprio homem não seja relativizado? A nossa história é pródiga em exemplos, e não nos faltam nos dias de hoje homens como os Peter Singers da vida que pensam no valor do homem como algo medieval, o que nos faz lembrar das macabras sinfonias tocadas no alvorecer da guerra e dos campos de concentração onde, por ser a terra uma moradia impossível, os homens, assim como Cristo na Cruz, só podem contar com Deus como esperança final, pois em tempos assim na Terra já não há nenhuma.

domingo, 10 de abril de 2016

A Percepção que Salva Segundo Aleksandr Solzhenitsy


   Acima de um tipo de percepção viciada no mundo sensível, aquela que tende a julgar o sucesso da vida apenas a partir do horizonte do sucesso material, sem o sentido espiritual que mostra aquilo que ela realmente é, está aquela que nos confere a possibilidade de ver uma esperança imortal que paira, invencível, sobre todas as coisas. Esta visão é aquela que compreende a instrução divina na história, ou que compreende a ação divina no Mundo, significando cada evento nele. Que Deus está na história - e totalmente nela - é algo que não podem ser negado por aqueles que acreditam que o Verbo se tonou carne (Jo 1). É somente isso que pode significar a nossa vida e lhe dar o significado adequado segundo o qual uma finalidade para o ser humano pode ser discernida. É isso que Solzhenitsy nos encoraja a compreender: Deus no Mundo e Deus em nós - tal como ele diz neste trecho:

   "A nossa visão não consiste na busca do sucesso material, mas na busca de um crescimento espiritual digno. Toda nossa existência terrena é mais do que um estágio transitório do movimento em direção a uma realidade superior, e não podemos tropeçar ou cair, nem ficar presos, inutilmente, em um degrau da escada... As leis da física e da fisiologia nunca revelarão o modo incontestável como o Criador, constantemente, dia após dia, participa da vida de cada um de nós, concedendo-nos, sem falhar, o vigor da existência; quando tal auxílio nos deixa, morremos. Na vida de todo o nosso planeta, o Espírito Divino se movem com a mesma força: é isso que devemos perceber neste nosso terrível momento de escuridão."


   E é somente esta percepção que pode nos salvar daquele limitado horizonte de consciência que tende a reduzir o homem ao campo da animalidade, pois o que é a vida superior se não uma vida na mente e no Espírito, que, por natureza, vai para além do nosso corpo mortal - como já diziam os primeiros cristãos após a era apostólica? Considerar o mundo como um todo fechado em si mesmo é algo que, se acreditado, nos daria todas as razões para definharmos em desespero no segundo seguinte em que déssemos crédito a esta superstição. Mas há uma vida superior, e todos os segundos desta vida neste mundo nada mais são do que momentos que compõem o grande ensaio que nos molda para a vida eterna - e perceber isso hoje é tudo.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

A Guerra Contra a Razão e a Abolição do Homem


   A questão que se impõe em nosso século sobre a objetividade e subjetividade, sobre a capacidade humana de apreensão da realidade ainda faz muito barulho, porque é justamente esta questão que significa a nossa cultura como ela é.

   É comum ouvirmos nos centros mais “esclarecidos” e em cursos de ciências humanas que a verdade é subjetiva, e que as considerações sobre certo e de errado variam de pessoa para pessoa e de cultura para cultura. Um olhar superficial ou um estudo de religião e cultura comparadas poderá até sugerir que a verdade, de fato, é algo relativo e subjetivo – ironicamente tal vez até a única verdade absoluta admitida pelos relativistas. Mas este é apenas um aspecto do olhar sobre a questão, pois o que basicamente une as culturas é muito maior do que aquilo que as separa. Já Freud apontou que o tabu do incesto e estruturas de parentesco eram regras universais e que fora disso as relações humanas seriam impossíveis. O mesmo vale para as regras de não matar, não roubar, cuja compreensão das razões destas estruturas pode ser obtida por uma criança de cinco anos, fora outros fatores ignorados pela nossa camada “bem pensante”.

   Ideias tem consequências, e muito do pluralismo de um lado só servem hoje para motivos políticos bem fundados, sendo acatados para legitimar abortos, casamentos dos mais diversos tipos, liberação das drogas, destruição das religiões tradicionais, avanço contra o código penal etc. A ideia de fazer um nivelamento por baixo de todas as culturas, como se cada qual fosse boa a seu modo, esconde, na verdade, um niilismo autodestrutivo que desemboca na relativização de todos os valores, fazendo guerra à razão.

   Mas contra o quê guerreiam quando se avança contra a razão? Quais as consequências de deslegitimar a capacidade humana de captação da realidade de maneira objetiva? O que perde a humanidade quando se descredencia a ideia de verdade, tornando todos os dados do conhecimento apenas o resultado de uma atividade hermenêutica que fica restrita a confabulações internas sem nenhum valor objetivo?
   Foi pensado justamente nessas questões que o escritor, teólogo, apologista cristão e filósofo C. S. Lewis, o famoso escritor das “Crônicas de Nárnia”, pensou quando escreveu seu livro “Abolição do Homem”. Neste livro que ele analisou algumas consequências de considerar as experiências humanas como que destituídas de valor objetivo. A incapacidade de fazer juízos de valor, dizia ele, a abolição da consciência e a produção de uma cultura hedonista cuja felicidade se daria na conquista de mais prazeres e menos dores, retiraria o componente humano fundamental do ser humano, que era a razão.

   Logo no início do livro Lewis analisa o pressuposto básico de um livro de educação distribuído para as últimas séries, que afirmava que os julgamentos objetivos da realidade nada mais são do que sentimentos individuais sobre a realidade. Mas pensemos bem sobre as implicações desta afirmação tomando como exemplo a segunda Guerra Mundial: por acaso quando reconhecemos como brutais, anti-humanos ou monstruosos os fatos ocorridos e Aschwitz, fazemos isso com base em juízos de valor objetivos, podendo reconhecer aí uma divisa clara sobre o bem e o mal, ou fazemos apenas com base em julgamentos meramente sentimentais e subjetivos, condicionados pela nossa cultura ou visão de mundo e valores que nos foram inculcados pelos nossos pais? É preciso ter uma visão clara de que ideias tem consequências, e consequências tais que muito de nossa cultura pode ser considerada ou um mero acúmulo de material que pode ser jogado na lata do lixo na próxima esquina, por não possuir uma raiz que, atravessando a redoma da subjetividade, finca o pé na mais pura realidade, ou se, como dizia o filósofo alemão Friedrich W. J. von Schelling, contém estruturas que manifestam em si o Absoluto.
   A própria nomeação da aplicação natural da razão é chamada de especulação, que nada mais é do que a consideração de que a mente é apenas um espelho da realidade, pois REFLETE sobre a mesma, não criando verdades sobre o que quer que for. A razão natural age na compreensão sobre a proporcionalidade entre os fatos e os juízos, e uma vez abolido isso o homem não tem base para ação alguma, pois, nisso, toda a ação perde a legitimidade. É próprio do senso-comum considerar ações desproporcionais ou descoladas da realidade de maneira brutal como irracionais. Não se trata apenas de mero critério subjetivo. E há até mesmo um jurista brasileiro por nome de Amilton Bueno, leitor de Nietzsche, que considera o tribunal penal desumano, por conceber o juízo algo impossível ao homem. Como remédio para a situação ele simplesmente pede a abolição do código penal – mas, para ele, apenas esse juízo é correto.
   Não é demais constatar que o século XX foi o século da irracionalidade política. Mas para esse tipo de pensamento, não poderíamos fazer juízos de valor entre a democracia inglesa e a ditadura nazista, ou entre a democracia americana e a ditadura norte-coreana – pois, afinal, todos são bons ao seu modo. É um descalabro que na esteira de todo o pensamento relativista venha não a libertação do homem, mas a sua supressão. O que seria de um homem que sofrendo debaixo das botas de um ditador, faz um juízo de que o que sofre é algo anti-humano, contranatural, sentido que a situação na qual vive não é justa para com a natureza humana? Poderíamos considerar um escravo que sofre debaixo de varadas como alguém que faz juízos de valor cuja jurisdição não ultrapassa a sua subjetividade, tendo o verdugo, na mesma situação, a sua própria verdade, sem um terceiro que faça juízo entre uma coisa e outra? O que seria de um mundo sem a instância da realidade objetiva a mediar as relações humanas? Um terceiro. Uma metafísica, por assim dizer?
   O passo seguinte à abolição de todo o juízo é o estabelecimento final de toda animalidade e brutalidade possíveis, onde nem o poder da argumentação, nem os juízos de valor, nem o eloquente clamor de um oprimido debaixo do sofrimento possuem valor algum. Nos veríamos imersos em uma configuração social bárbara, a mão de todos contra todos, a bestialidade desenfreada, impossível de ser refreada pela instância da razão, já que, desimpedida pela consideração acerca do certo e do errado, nada mais pode ser errado.
   Onde podemos chegar com o culto do relativismo e da irracionalidade? Pelo que se sabe, a guerra contra a razão não é meramente uma guerra contra a razão, e nem mesmo a guerra em favor da libertação do homem e dos costumes que o prendem, mas basicamente uma luta contra o homem; uma busca por poder que esteja livre de todos os constrangimentos e de toda a coerção externa assim como interna. Enfim, veríamos estabelecia e legitimada a luta que, em nome da libertação do homem, só pode chegar à abolição do homem.


quarta-feira, 30 de março de 2016

O Mundo Eterno



   A fé nos permite a suspensão do mundo. A graça a celebração e a santificação nos "desmundaniza", nos permite sublimar nossos temores e paixões e todas as agitações correntes ao nosso redor, elevando-nos acima do sufoco do dia-a-dia, das tristezas desta vida a uma esfera espiritual que permite à nossa alma demorar.

   O Caminho de Jesus Cristo é esta constante vitória das forças concorrentes deste mundo que combatem contra a nossa alma. Ele as venceu unicamente se entregando à graça, aos cuidados e ao consolo do Espírito, pois sabia que sucumbir ao mundo é lhe dar uma atenção que ele não merece.

   Não é por menos que se diz que, desprezando a afronta ele sentou-se à direita de Deus,convidando-nos também a deixar as nossas ansiedades e preocupações nas Suas mãos, tomar o seu julgo e concentrar a nossa alma na graça espiritual, no Mundo Absoluto de Deus, permitindo-nos olhar para além do horizonte limitado desta vida, que pequena é frente à Eternidade que se põe, soberana e invicta, acima de todas as coisas.

Demolição Foucautiana


   Michel Foucaut - o revolucionário francês -, disse o seguinte no livro Microfísica do Poder: "É preciso se perguntar se esses atos de justiça popular podem ou não se coadunar com a forma de um tribunal. A minha hipótese é que o tribunal não é a expressão natural da justiça popular, mas, pelo contrário, tem por função histórica reduzi-la, dominá-la, sufocá-la, reinscrevendo-a no interior de instituições características do aparelho de Estado." (FOUCAUT, Microfísica do Poder. p. 87). 

   É óbvio que são formas - e benignas - de sufocar a "justiça popular", e é impensável que as instituições não sufoquem a justiça popular, fazendo com que haja - para dar voz ao estadista inglês, crítico da revolução "popular" da França, Edmund Burke - expiação abundante, remissões e perdão. 

   Seria ingenuidade e muito desconhecimento do homem deixar a "justiça popular" nas mão de qualquer um e não em quem experimentado nessas questões, expulsando o árbitro de campo. Seria simplesmente ingênuo da nossa parte confiar na natureza humana crua não experimentada, talhada e "cozida" em uma longa reflexão sobre a tradição jurídica que possuímos para dar lugar a uma "justiça proletária". 

   Entendam: por mais más que sejam nossas instituições, é incrivelmente pior a ausência delas. Ao dar eco às vozes revolucionárias que gritam "abaixo ao sistema", "abaixo à toda a classe política" o perigo que daí surge é justamente trocar um sistema difícil por um monstro infinitamente mais destrutivo e incontrolável - e a história humana é pródiga em mostrar o quão deletério é esfumar todo o sistema que temos em nome do "bem". Quem pensa com prudência prefere os demônios que conhece àqueles que ele não conhece.

   Foucaut, como disse em um texto passado, preferiu os demônios desconhecidos. A a conclusão que retirou desta constatação acima é justamente a de que as "instituições burguesas" atrapalhavam o livre curso da justiça e deveriam ser mandas para o ar. A revolução iraniana que ele apoiava o fez, e não muito tempo depois gays - como ele - começaram a aparecer pendurados em guindastes. Ora, mandar tudo para os ares? E colocar o quê em seu lugar? Por assim dizer, melhor um Temer do que um vácuo de incerteza, pois por possuir um CPF, dentro de um Estado reconhecível, ele pode ser criminalizado e deve se fez algo errado. E quem luta para que não haja nada disso, não nos faz crer que o que não temos é melhor do que aquilo que temos? Não nos manda o sentimento natural, que ama, quer proteger e conservar o que ama, aderir à tese contrária?

   Já dizia Platão que no político a maior das virtudes era a prudência. Isso tem um aparo na razão porque não se pode destruir tudo sem saber o que disso virá, já que o desconhecido é o incontrolável, o espaço da perdição um universo de nada a quem necessita, no mínimo, de um horizonte para ver. Mas muitos, nestes atos - já que imprudentemente consideram de maneira entusiasmada a "mudança" como fim em si mesmo -, prenhes de sede de justiça, de sede infinita pelo "bem perfeito", destruindo as bases supostamente malignas nas quais apoiamos nossos pés, pensam, como solução, nos firmar na escuridão do abismo, dizendo quem nos concedem a verdadeira liberdade.

   A revolução francesa pensava em adquirir homens perfeitos mediante a abolição do "sistema" que - diziam - tornava-os imperfeitos, e quando percebeu que não os tinha, cabeças começaram a rolar. Sendo assim, é preciso que façamos, com seriedade de coração, com desejo de mudança, reconciliação e expiação abundantes a seguinte pergunta: o que da destruição das instituições políticas, jurídicas e religiosas, em nome do bem, se seguirá? 

sábado, 26 de março de 2016

Abolição da Liberdade


   Para fazer um pequeno exercício de reflexão nestes tempos sombrios, vamos lembrar de 1968, quando Michel Foucaut instruía jovens maoístas (aqueles apegados à revolução chinesa de Mao Zedong) sobre a verdadeira justiça proletária.

   Na ocasião Foucaut ensinou que para que houvesse justiça de fato, havia a necessidade de abolir as instituições jurídicas da nação para que os vícios burgueses fossem extirpados, já que na visão marxista a justiça também fazia parte da superestrutura - o "véu" cultural - que era sustentada pela infraestrutura, constituída basicamente pelas relações exploratórias de trabalho e pelos modos de produção capitalista baseados na divisão de trabalho.

   Deixar tudo para traz, fazer terra rasada do mundo, abolir as instituições, colocar em curso a marcha revolucionária cujo intuito é se desfazer de todas as estruturas de ordem do mundo, da história e de um patrimônio resultado de séculos de tradição de reflexão e raciocínio que buscou compreender o homem, e que possui as marcas dos tempos que como um espelho nos dá a entender a nossa forma, em nome da libertação escatológica do proletariado. Eis o quadro do futuro comunista, onde reina a liberdade ... na casa dos corações partidos - para fazer uma breve referência ao poeta anglo-americano T. S. Eliot.

   Existem coisas que só os intelectuais tem a capacidade de acreditar e inventar. E como diz o ditado, o caminho do inferno é pavimentado de boas intenções, sendo a destruição do direito penal - e pasmem, coisa obscena que floresce entre a cabeças inventivas do direito - uma delas. Imaginem só um mundo de liberdade ilimitada, onde cada qual, ao seu modo, buscasse a sua forma de fazer justiça sem um terceiro poder para arbitrar entre as partes? Não seria isso dar curso para a justiça do mais forte? Imagine só como seria também submeter à justiça gente de poder e influência - o mais poderoso, por exemplo? Imagine um mundo onde a vontade do rei é a lei e a lei é a vontade do rei? Mas alguém pode objetar: "Há, mas serão todos iguais!" Mas quem disse isso? Quem garante algo assim? A julgar pela história - e é mais fácil conhecer o ser humano pelo que ele já foi, do que por aquilo que ele será, já que o "será" é o mesmo que nada -, a ideia de igualdade social - queira nós desejemos isso ou não - é totalmente absurda. Não existe este mundo dos joelhos onde "todo es igual, nada es mejor".

   O poder é o componente necessário da vida humana, pois poder é liberdade e capacidade de ação. Mas é óbvio que ele precisa ser contido. O homem necessita de regras e leis e isso não depende e jamais dependerá de uma estrutura econômica, mas é algo que se faz a partir do interior para o exterior do mundo - da mente para a história, por assim dizer. E qualquer um que viva a vida comunitária sabe disso - sabe que de coisas comuns é necessário que alguém consagrado que as cuide - que arbitre no mundo pelo bem de todos. Mas se é o homem a arbitrar é óbvio que ele mesmo deve ser restringido, pois não é a vontade humana só a medida de todas as coisas. É nisso que nascem as instituições, leis, ritos etc. A razão - que especula (se coloca como reflexo da verdade universal) -, sabe que o bem de todos está nas mãos de verdades de validade universal, que sejam válidas para um eu e para um tu com a mesma força, imparcialidade e isenção, e que prescindir disso é dar margem para exageros, desproporções, injustiças e arbitrariedades. Em nome de quê? De poder? De um ódio universal às coisas que aí estão para as quais não prestamos a nossa sujeição em nome da "liberdade". Mas a liberdade mata - e que seja dito! O uso da liberdade não é boa em si - e nos parece que intelectuais de todos os calibres querem que assim creiamos neste delírio. Pois sem leis o que teremos é a mão de todos contra todos - já dizia Moisés e Thomas Hobbes. As prisões e os grilhões são os filhos legítimos da autonomia. Ela não existe como um bem em si mesma, a não ser que seja incondicionada, mas aí ela é metafísica e não somos capazes para tanto, pois a nossa autonomia sofre a resistência daquele que está à minha frente, pois existir é resistir.

   Daqui surge outro importante tema que é o da tradição de pensamento. "Sacudamos os seus grilhões", já dizem os mais afoitos, ansiosos por liberdade. Mas as coisas não são tão simples, como um não de mãe não é tão simples. Já dizia a sabedoria bíblica no quarto mandamento: "honrarás pai e mãe". E não somos órfãos quando recebemos um mundo por herança. E mais: todo o dom do mundo é algo a ser conservado, assim como aperfeiçoado - jamais destruído. Por mais que façamos a grita contra as "estruturas de morte", herança do velho pecado do mundo, não é possível que vejamos o que recebemos de maneira tão macabra e sombria. Há mais motivos para conservar o mundo do que destruí-lo, e o sentimento de gratidão de quem anda por essa vida, acompanha todos aqueles que contemplam o homem e o mundo como uma criação boa. Implodir tudo em nome de um futuro sem traços passados, sem arte, língua ou estátuas é a materialização do ódio. E é impossível que sobre essa base construamos algo melhor. E estrutura da tradição é eterna, pois se rompemos com algo hoje imprimimos nas mentes dos descendentes que eles deverão romper amanhã - e uma tradição de ruptura não pode, por mera questão lógica, ser eficiente na construção do pensamento, já que qualquer construção de pensamento é trabalho para mais de trinta vidas, é é justamente isso que faz da tradição, ao invés do monstro que se prega, uma cadeia de amizades e consensos, assim como de paz. São amizades construídas para além da vida - sinal que aquilo que pensamos foi o certo a ser feito. A tradição é o único vestígio da unidade da razão e da unidade da humanidade. É o elo de comunhão mais poderoso que pode haver. Já a ruptura, sem exceção, é inimizade - seja isso para bem ou para mal -, pois constitui a diferença - diferença que pode ser considerada apenas à luz do juízo divino - é denegar o que quer que seja como inútil.

   Mas voltando para a revolução, é óbvio que quem pouco faz de mais de séculos de reflexão incorre certamente em erro. E qual não seria o empobrecimento da humanidade na abolição de todas as coisas? O depósito da cultura não é para ser desprezado, pois nele sempre há algo da essência divina. Imagine mentes sem referência para o juízo, sem a orientação do passado e sem as instituições que basicamente se constituem dos sinais impressos dos tempos, nos livros, registros e homens. Ao abolir estruturas de juízo damos certamente o livre curso à besta, cuja vontade livre só pode nos fazer afundar na morte. O direito é hostil, em sua essência, à destruição, e a ruptura do direito penal só poderia ser a quebra das barreiras daquilo que impede o avanço do pior daquilo que pode haver no mundo. Pois sem o que nos deter, nos reprimir e nos restringir, o que é que nos deterá, nos reprimirá e nos restringirá?


   Mas, trazendo mais para perto, imaginem só mais uma vez, desfeitas as instituições jurídicas, o poder de ação daqueles que, aqui no Brasil, fazem este agravo do qual se espanta o que ele vê? Por isso aqueles que pedem em excesso por liberdade nada mais vazem do que suprimi-la - e isso parece que em sua ingenuidade e paixão irracional, Foucaut não compreendeu.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Dilma e a Vontade de Pontência

   


   Não é atoa que a evolução da pedagogia em nossa história foi uma escalada decrescente de uma realidade mais ou menos translúcida para um abismo total e indiscernível - a começar por fazer de Nietzsche um pensador da civilização. 

   Mas vamos para os possíveis resultados práticos, sendo a materialização exemplar do engodo realmente esta: quando vemos Dilma Rousseff dizendo de maneira monomaníaca que o impeachment é golpe, ela passa como um rolo compressor sobre a história do país, das leis, do STF, da OAB, e das milhares de consciências que afirmam com uma evidência solar e visível aos olhos de qualquer zé-mané que o impeachment é uma instituição válida - fazendo isso com o intuito de que, livre das amarras "moralistas" das leis que grudam na plebe, ela possa respirar livremente o ar fresco na solidão das montanhas. 

   Mas o que importa, se no universo nietzscheano o que vale é, para quem nele atua, a contrapelo dos fatos, a vontade de potência que faz validar os valores, criando-os, e não se submetendo a nenhum deles? O que Dilma busca fazer, na verdade, é operar uma verdadeira transmutação de todos os valores afim de validar a sua "soberaníssima" vontade para se safar da perseguição dos fatos gerados em sua própria história .

   Sem o saber, Dilma é a encarnação da "ética" "libertadora" do maluco alemão. E nem precisa saber disso, pois somente alguém dotado de uma cabeça de jerico pode simplificar de maneira tão acachapante as leis e o nosso velho mundo.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Ideologia e Corrupção


   Russell Kirk afirmou que a ideologia era a corrupção do dogma e dos símbolos de transcendência, pois ela propunha soluções eternas para o nosso hoje. No entanto, dizia ele, ela age como que ao contrário disso, pois na sua corrida pela salvação terrena ela abole justamente os valores que protegem a nossa frágil vida:

   "A ideologia é uma religião invertida, negando a doutrina cristã de salvação pela graça, após a morte, e pondo em seu lugar a salvação coletiva, aqui na terra, por meio da revolução e da ação violenta [assim como de crimes também]. A ideologia herda o fanatismo que, algumas vezes, afetou a fé religiosa e aplica essa crença intolerante e preocupações seculares" (KIRK, Política da Prudência. p. 95) - e arrematando com Voegeling: "A ideologia é a existência em rebelião contra Deus e o homem. É a violação do primeiro e do décimo mandamentos [pois afirmam os ideólogos que podemos cobiçar coisas alheias em nome do "bem", ou mesmo ROUBÁ-LAS e DESTRUÍ-LAS para um fim "justo" e desconsiderar valores], se quisermos empregar a linguagem da ordem israelita; é a 'nosos', a doença do espírito, para empregar a linguagem de Ésquio e Platão." (VOEGELING, Ordem e História, Vol. I, p. 32).

  O que a cima vai escrito nada mais é do que aquilo que qualquer um que vá ao mercado consegue compreender, ou seja, que não é possível estabelecer algo justo quando vamos em uma prateleira e vemos um peço, e acabamos pagando outro no caixa, pois ultrapassamos a lei do compromisso – ou a Lei Natural da Razão -, que aponta limites justos nos quais é possível estabelecer uma determinada igualdade em nossas negociações com outras pessoas, impedindo a fraude, ou uma vantagem indevida, ainda que tendo feito isso em nome do “bem”.

   Por isso não é possível que possamos arbitrariamente destruir as regras de convívio, ou mesmo não é possível que subvertamos leis às quais nos encontramos sujeitos como homens e mulheres – mesmo que por um pequeno momento –, pensando que com isso podemos gerar um “bem coletivo”, porque é justamente aqui que isso pode se voltar contra nós, criando o perverso costume onde cada qual, ao seu modo, suspender uma regra comum em nome daquilo que ele supostamente ache bom.

   Não é estranho que na história promessas de redenção cujo método que pavimentava o caminho para o “paraíso terrestre” era justamente composto de ideias de libertação dos costumes, das tradições, dos formalismos, dos tribunais, da noção de bem e mal, dos códigos sociais, da moral, da religião, da “dominação opressora” dos pais e mães, da “família”, dos compromissos firmados criaram justamente uma situação ou regime político infinitamente mais opressores do que aqueles dos quais eles prometiam livrar.
   Isso não é apenas uma questão de palavras ou de raciocínio, mas de história humana, demasiadamente humana.