segunda-feira, 30 de março de 2015

Tradição, Instituições e um pouco de Winston Churchill



   A guerra, consequentemente, traz uma desorganização integral nos países situados no interior do conflito. Pior é para aquele país que perdeu a guerra, sem que se veja servido de uma tutela para reorganiza-lo de maneira que ele possa gozar, mínimo, de estruturas básicas que torne possível ordem, atividade econômica e vigência jurídica. Foi isso que Churchill reclamou com relação à Alemanha, que depois de sair derrotada da Primeira Guerra, se viu em uma situação onde toda a sua ordem social, econômica e jurídica estavam em frangalhos, o que possibilitou - contanto com uma ajuda econômica vigorosa e irresponsável dos EUA, e o desleixo do papel de vigia da Inglaterra e França sobre a política alemã - a ascensão de um dos mais perversos regimes políticos da história: o nacional-socialismo.

   No entanto, a guerra não é o único meio de desestabilizar um país, havendo também um meio de ação interna por meio do qual a desestabilização se dá de maneira certeira. Neste tipo de "implosão por dentro", entram no meio a ação política, a pseudo-educação, a destruição da ordem jurídica, dos símbolos culturais e de autoridade - que garantem uma relativa unidade da consciência de uma população - e de forças econômicas que garantem a distribuição de poder, viabilizando o estabelecimento de políticas totalitárias.

   Contudo, muito pior quando uma nação é desprovida de alta cultura e de religião, sendo estas as ferramentas que proporcionam a abertura da consciência para a noções de indivíduo e de responsabilidade pessoal - no caso da cultura e religião, livros como "Os Demônios", "Crime e Castigo" e "Irmãos Karámazov" do romancista Dostoiévski nos respondem o porquê da importância da tradição religiosa e da cultura -, assim como desprovida de instituições políticas fortes que garantam, por meio do Império das Leis, as liberdades individuais - como é evidente na tradição jurídica inglesa (como descrito no livro "Império" de Niall Ferguson) que constituiu um dos fundamentos da nação mais próspera onde se gozou mais liberdades - para o bem ou para o mal - na história: os EUA; sendo este país a junção do fator religioso, e de instituições fortes que garantem as liberdades individuais. 

   Bem, mas voltando ao assunto, continuo na afirmação de que um determinado movimento político que busca destruir a ordem jurídica e os símbolos religiosos tradicionais nem sempre vem acompanhado de boas intenções, mesmo quando montado na crista de uma suposta "justiça social" e "justiça a favor dos oprimidos", fazendo destes termos verdadeiros bois de piranha que desviam o nosso foco de algo que particularmente me é caro: a "estrutura das ideias", que à semelhança de muito do que tem sido nomeado de "direitos humanos", engana a opinião pública pela suposta bondade que tais ideias carregam em seus enunciados, mas que são essencialmente destrutivos quando postos em prática, levando a uma concentração de poder político monstruoso na mão de uns poucos, a guerras civis, perseguições etc. - e muito do movimento ecologista moderno tem esse "DNA totalitário".

   Muito disso faz parte da estratégia comunista de Lênin, como nos disse o próprio Churchill se referindo à crise que levou a Espanha à ditadura de Franco, segundo consta no livro "Memórias da Segunda Guerra Mundial".

   Segue o texto:

   "Faz parte da doutrina do manual de treinamento comunista, estabelecidos pelo próprio Lênin, que os comunistas devem ajudar todos os movimentos em direção à esquerda [aqui no Brasil se diria "movimentos sociais" (tipo ecologistas, MST, MTST, abortistas etc.), mas Churchill se refere aos movimentos político-partidários, também] e contribuir para levar ao poder fracos constitucionalistas [Lula e Dilma ...?!?!], radicais e socialistas. Em seguida, devem solapá-los e arrancar de suas mãos decadentes o poder absoluto, fundando o estado marxista." (CHURCHILL, Winston Spencer: Memórias da Segunda Guerra Mundial. p. 117).

   Entenderam esse "conduzir os movimentos à esquerda"? E o que diríamos com relação à educação, religião e as relações pessoais impregnada deste ideologismo? É justamente por isso que o marxismo-leninismo sempre ganhou território e poder em países que possuíam uma ordem jurídica e instituições medíocres - se não miseráveis -, assim como envolvidos em guerras civis, divisões internas (provocando anemia cultural), como ocorreu em países latino-americanos - semelhante àquelas doenças oportunistas que atacam o nosso organismo quando nosso sistema imunológico e a nossa saúde se encontram fracas. Assim também, é por isso que a doutrina da segregação de classes, e do acirramento das contradições entre estas - o que leva o países a divisões internas e conflitos intensos -, é algo importante tanto para anarquistas (a exemplo da doutrina de estados binacionais apoiada por Chomsky, que acabou desaguando em guerras civis onde isso foi levado a sério) como para marxistas. Mas isso torna plenamente compreensível o porquê da ausência de sucesso dos comunistas em países cuja identidade religiosa é profundamente vigorosa - a exemplo dos países islâmicos, onde o marxismo fracassou, sendo absorvido por jihadistas (como no caso do Irã, onde os xiitas ascenderam as custas dos comunistas, mas matou-os quando chegaram ao poder com Khomeini) -, e tendo pouco êxito em países que contaram e contam com instituições democráticas fortes, e uma estrutura jurídica notável, a exemplo dos países da Europa Ocidental Continental, dos EUA e da Inglaterra. 

  Mas diante destes dados, voltando os meus olhos para o Brasil e para a sua cultura altamente personalista (não fundada na legalidade) e autoritária, faço algumas perguntas: Até quando o Brasil irá aquiescer com este desprezo soberano a tudo aquilo que é bom e que deu certo, e terá um apego irracional, orgulhoso e apaixonado a tudo aquilo que deu errado no mundo, fazendo do amargo doce e do doce amargo (Is 5:20), se deixando arrastar, cada vez mais, para um obscurantismo que vê como mal a responsabilidade individual, o talento, a inteligência, o empreendimento, criando inimizades gratuitas por causa de um ideologismo partidário que cega e emburrece aqueles que a ele se aplicam, e que fortalece cada vez esse fetiche que enxerga o indivíduo apenas de acordo com a posição que ele ocupa, enfraquecendo aquilo que deveria nos fortalecer? Até quando ficaremos tristes e ressentidos com o sucesso alheio, assim como nos "solidarizando" com a miséria (o que, no caso da política - nada evangélica - da América Latina, é, literalmente, um eufemismo do se aliançar a bandidos, guerrilheiros, ditadores, traficantes de drogas e demais infratores), tendo a mesma miséria como "fonte de inspiração"? E por último, e o mais importante: até quando desprezaremos a nossa espiritualidade, prostituindo esta com ideologias políticas que fazem de tudo para subverter as nossas referências e a forma como enxergamos o mundo? 

sábado, 28 de março de 2015

O Nazismo e o Testemunho de Winston Churchill



      Winston Churchill foi primeiro ministro britânico no período da Segunda Guerra Mundial, além de ocupar um cargo de alta importância na marinha britânica no período da Primeira Guerra. Foi, segundo o seu próprio testemunho, o único homem na história a ocupar cargos de tanta importância durante a deflagração das duas maiores catástrofes que já se abateram sobre a humanidade, além de ter sido um antagonista irremediável de Hitler. 


   Com relação à política do bigodudinho invocado, Churchill, ao contrário de muitos liberais e trabalhistas que eram a favor da "paz", deplorando a política armamentista do Reino Unido, quase sozinho insistia que a política de fortalecimento da armada britânica era necessária, diante da violência que se manifestava no governo nacional-socialista. 


   Mas o mais interessante no testemunho de Churchill foi a descrição que ele deu do governo hitlerista, deixando claro que uma espécie de política fundada em um pensamento socialista, anti-liberal -, ou seja, contra a liberdade, seja de opinião ou seja de mercado -, imperava como um modus operandi do NACIONAL-SOCIALISMO (ou Nazismo). 


   Então vamos lá: 


   "Nos batalhões de trabalho, a ênfase recaía sobre a abolição das classes e na acentuação da união social do povo alemão; no exército, ela recaía sobre a disciplina e a unidade territorial da nação" (CHURCHILL, Winston Spencer. Memórias da Segunda Guerra Mundial vol I. ed. Nova Fronteira. p. 92). 


   Para complementar, mostro a citação que Leandro Narloch fez da auto-biografia de Hitler no livro "O Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo", deixando claro que Hitler confessou que haviam muitos confuso com o seu suposto anti-comunismo, sendo que o mesmo copiava as linhas essenciais do próprio comunismo. Segue o texto: "Os espíritos nacionalistas da Alemanha cochichavam a suspeita de que, no fundo, não éramos senão uma espécie de marxistas, tal vez simplesmente marxistas, ou melhor, socialistas" (HITLER, Adolf. Mein Kampf. p. 444; apud NARLOCH, Leandro. O Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo. p. 183). 


   Quando hoje eu li que em um artigo do "Pragmatismo Político", que dizia sobre a ideia de que um conservador sustenta uma admiração oculta por Hitler, o que me deu um aborrecimento profundo, porque, aliás, este blog não sabe fazer outra coisa a não ser explorar a ignorância alheia, ou fornecer bala a mal intencionados - incluindo a galera que se diz "esclarecida". Hummm! Sei. Mas voltando ao assunto, acho que estas citações devem esclarecer muito bem o real peso das coisas. 


   Como ter respeito intelectual por alguém que acha que Churchill é de esquerda porque lutou juntamente com a União Soviética de Stálin (leiam a história da Liga das Nações, por favor!), contra Hitler, e entender Hitler como um "conservador" enquanto a sua posição política era totalitária e revolucionária?      

   Até quando o pessoal vai entender o que é uma direita liberal-conservadora neste país? 


   Com essa Churchill deve ter se virado todo, mais uma vez, em seu túmulo, pois o "esclarecimento" de alguns não deixa nem os mortos dormirem. 


PS: Vejam aqui, ironicozinhos cujos argumentos fulminantes é baseado em um "kkk", o meu amor ao nazismo e como eu cito Reinaldo Azevedo e Olavo de Carvallho.

segunda-feira, 23 de março de 2015

A Marcha da Preguiça

   


   Não tenho como não me tornar aborrecido. É o preço que se paga por acreditar que aquilo que se vê é, simplesmente, aquilo que se vê, sem a mediação de uma "inteligência" que busca nos corrigir desde o submundo. 

   Me prendo a esses assuntos porque acho que questões como estas a baixo são tão ligadas ao espírito humano que revelam, por sua vez, uma tendência, um "espírito do tempo", um elemento cultural que, como todo elemento cultural, não deixa de dar os seus pitacos para o espírito humano. 

   Como pastor, espírito e cultura são meus negócios. 

   Então vamos lá: 

   "O marxismo é a variante da preguiça. Se você acredita que a base material condiciona mudanças na cultura, na forma de pensar e nas relações intersubjetivas, basta fazer como os romanos do poema: 'À espera dos bárbaros', de Káfávis: sentar na calçada e esperar a banda passar. E há os que resolveram acelerar a história para que o inexorável chegasse antes: Lênin, Stálin, Mao, Pol Pot. O resultado se mede em crânios" (AZEVEDO, Reinaldo. O País dos Petralhas. p. 99).  

   Mas por que continuo martelando este prego em crânio alheio? 

   Bem, basta compreender que no nível de nossa vida pessoal, é fato que, no fundo de tudo, a responsabilidade última por nossas culpas e nossos acertos é algo inteiramente nosso e intransferível. Com isso se conclui que a base material não mede caráter ou personalidade. Se assim fosse, bastava fazer uma análise psicológica de um indivíduo com base em seu extrato bancário. Isso é um absurdo monumental. Uma preguiça. Um reacionarismo cavernoso contra pobres também, como expresso na ideia de que o extrato pobre da população é uma existência determinante de onde se origina o "revolucionário primitivo" - em outras palavras: a bandidagem. Se isso não é o tão alardeado preconceito, o que é preconceito? 

   Não tenho simpatia por teorias históricas que, acomodando os pensamentos ao fácil, já nos marcam com um triângulo amarelo porque pertencemos a tal e qual classe, raça etc, e que diz que até o nosso respirar faz parte de uma "marcha inexorável". Isso tende a pulverizar o indivíduo. Mas é claro, "prova" a tese de que "tudo o que é sólido se desmancha no ar". A partir do viés material-histórico-dialético dá para compreender o que é isso: preguiça e bandidagem! Nada mais do que isso!     

   Penso aqui comigo que tais teorias são coisas de quem não sabe amar, pois se tudo o que é sólido se desmancha no ar, o que é que vale apena, quando nos importa, conservar? Conservar a pobreza? Não! Conservar valores que nos tiram da pobreza. E é isso que o materialismo dialético nos leva a destruir. 

   Nestes campos existem pseudo-valores que consideram a pobreza como uma metafísica. Um valor em si. Como um sinal de bom caráter, ou de bandidagem - pois o pobre que rouba e mata é o "revolucionário primitivo", que antes de pedir ou buscar, decidem tacar o pau, revolucionar, "marchar". Por tabela justificam o crime cometido até por ditadores e generais que querem "modificar o sistema" - URSS, FARC, China? Justificam o roubar somas bilionárias em nome do "bem".  Eu não gosto disso. Prefiro, no nível pessoal, superar o que me for percalço! Não nasci para ser massa de manobra de filosofia alguma. Estou com aquelas filosofias que me libertam e que - como já dito por alguém que por hora não me lembro - me ensinam a morrer. 

Não gosto de preguiça.   

terça-feira, 17 de março de 2015

Erits Sicut Deus


   


   Não posso dizer que em si mesmo o poder ou a grandeza sejam coisas más, como comumente afirmam os puristas que, no desejo de ser melhores do que realmente são, buscam o distanciamento do restante dos mortais. 

   E é justamente nestes puristas que enxergo um perigo que se oculta naquele "marketing do bom", o que já traz em si mesmo a hipocrisia, ou aquela imagem falsamente honesta sustentada por chavões. 

   Vejo, hoje, nos dizeres: "amo os pobres", "amo a natureza", "detesto o dinheiro", "sou contra o capitalismo", "direito dos animais", como, na verdade, confissões do vazio, ou um passo para o golpe. 

   Enxergo coisas assim como flagrantes travas à inteligência ou à discussão - como a própria hipocrisia o é -, o que acaba por calcificar nas aparências, e não na concretude da vida, a medida exata do nosso juízo sobre as coisas. 

   Vejo aqui uma espécie de preguiça mental ou maquiavelismo que, colados a chavões, buscam infundir valores no mundo, ou esmagar pessoas. 

   Também vejo aqui "iscas morais", que, de maneira tentadora, pretendem colocar as pessoas em um grau mais elevado da existência diante do tédio da vida, enquanto elas não percebem o azol mortal oculto nesta "moral". 

   O tédio, aliás, é o vazio detestado. Mas, antes de tudo, trata-se da ante-câmara da tentação para a qual o purismo nos leva com a sua "expiação fácil", deixando um caminho aberto para a escravidão da nossa alma. 

   A dinâmica da servidão assim se explica: no vazio somos aniquilados pelo nada do qual fomos feitos. Não gostamos de admitir que temos almas impotentes, sem conteúdo, ou sem histórias virtuosas, muitas vezes. 

   É aí que somos apeados pela esmagadora sensação de que não temos o futuro nas mãos, não controlando-o como queríamos, e não sendo tão bons como esperávamos. 

   Mas também é aqui que nos tenta a Serpente: "erits sicut Deus" (sereis como Deus - Gn 3:5), e saímos atrás de atalhos para preencher o nada para o qual nascemos, caindo no engodo e no poder da anti-Natureza. 

   Vã traição contra a Natureza. 

   "Traição, traição ...", é o coro que ecoa entre os anjos nos céus. 

terça-feira, 3 de março de 2015

Niilismo e a Destruição Universal


   
   Uma das coisas com as quais tenho me debatido de maneira intensa, e que se constitui como uma linha de pensamento que vem se mostrando de maneira expressiva hoje (como foi no século XIX - onde tudo começou de maneira mais clara), é a proposta filosófica que ganhou o nome de niilismo (do latim Nihil que significa "Nada"), e que basicamente aposta na transvaloração, ou seja: na abolição dos valores e da moral tradicional em nome de algo "novo". 


   O filósofo Nietzsche se notabilizou como o seu livro "Assim Falou Zaratustra", que baseado em uma compreensão cerca do "senso histórico" (algo cujas origens remontam a Hegel) e de descobertas científicas, compreendeu que aquilo que se firmava como tradicional era já ultrapassado, e que, por isso, "Deus estava morto" porque nós e a nossa cultura O matamos. 


   A tentativa objetiva de buscar resolver a história das ideias por meio da utilização de uma "psicologia das ideias", vasculhando as "motivações subjacentes" a tudo que era relacionado à moral, religião, e "tradição", na perspectiva de Nietzsche deveria ser lido apenas à luz de uma categoria metafísica chamada "Vontade de Potência", que, no fim, seria a origem de todos os valores. Para ele nenhuma moral nasce pronta, mas é justamente fruto de uma "imposição da vontade", uma imposição dos "povos aristocráticos", sob os quais muitos fracos e perdedores, gemendo, criaram a sua moral (a moral de escravo, como ele chama), que agiria como uma gangrena nas consciências dos "mais fortes". É justamente daí, segundo Nietzsche, que surge a ideia de pecado, de religião, de Deus, de Redenção, e de Cristianismo, que, segundo ele, se constituía em uma doença, uma moral de escravos por excelência, pois estaria aí para satanizar os "espíritos livres" - e aí esta a sua tese de que o Império Romano se esfarelou diante do cristianismo

   De fato, sob algumas perspectivas a filosofia nietzscheana não deixa de conter a sua grandeza por causa de questões pertinentes que ela encerra no campo da "utilização da moral como poder de dominação de determinadas castas religiosas e políticas"Isso é fato - como atestado em diversas teorias psicológicas acerca da neurose, da histeria, assim como evidentes nos mais diversos fanatismos religiosos e políticos que, ao invés de libertarem, causaram (e causam) a "alienação de rebanho" e a destruição da vida. 

   Mas se por um lado o nietzscheanismo pode conter algo de libertador, a sua visão positivista e linear - coisa herdada de Schoppenhauer -, também não deixa de encerrar males como o obscurantismo, unilateralismo, e vários ilogismos. Isso ocorre justamente por causa do seu pessimismo antropológico radical que elimina da esfera da razão a capacidade de captar uma verdade universal - fruto da epistemologia kantiana da qual ele e grande parte dos pensadores alemães da época eram  partidários; e também da tradição luterana e reformada que, a começar por Lutero, chamou a razão de prostituta, compreendendo a legitimidade da verdade apenas pelo viés da autoridade, tal como afirmavam, já na Idade Média, os nominalistas.


   Mas o niilismo também foi um movimento político e filosófico na Rússia do Século XIX, e que apostou nesta ideia da destruição de qualquer autoridade superior, seja da monarquia, seja a autoridade paterna e de tudo aquilo que seria compreendido como "cultura", "religião", "bem ou mal", tendo em mente a libertação de todas as amarras peias que, fundada em uma determinada autoridade, manietavam os homens em uma espécie de julgo escravo.



   Salvo determinadas críticas que se fundam de maneira válida em pontos relevantes da própria cultura russa, a história nos mostra que, sob o pretexto de acabar com a opressão, o movimento niilista russo criou uma besta incomparavelmente pior do que aquilo que se propunha a combater, e isso justamente por causa da eliminação de pressupostos tradicionais que de certa maneira freavam a animalidade sob a qual o ser humano sem princípios se manifesta - e sobre isso já apontava os escritos de Tolstói, Dostoiévski e Turguêniev.  


***

   Mas introduzidos parcialmente nesta compreensão sobre o niilismo através de Nietzsche e um pouco da história russa, é impossível que de suas premissas não se siga algumas coisas um tanto quanto óbvias nesta empreita sobre a destruição dos valores. 



   Um opositor célebre o niilismo foi o romancista russo foi o já citado Dostoiévski, que contra o que ele chamou de ateísmo político, escreveu um livro - evidentemente panfletário - a este respeito chamado "Os Demônios", escrito em 1871, onde, dominado por uma espécie de intuição divinatória, fundada em um fato histórico, ataca algumas bases deste pensamento que viria mais tarde a se degenerar em um fanatismo cruel, e nos totalitarismos do século XX e XXI. 



   Vamos a uma passagem do livro citado onde ele ataca exclusivamente o que pode ser considerado uma antecipação do "Assim Falou Zaratustra", através da contraposição entre o "direito natural" - afirmado timidamente pelo personagem narrador do livro - e a transvaloração - defendida por Kiríllov.


   Segue o texto:


   "- O homem teme a morte porque ama a vida, eis o meu entendimento - observei -, e assim a natureza ordenou. [Narrador] 

   - Isso é vil e aí esta o engano! - os olhos dele brilhavam. - A vida é dor, a vida é medo, e o homem é um infeliz. Hoje tudo é dor e medo. Hoje o homem ama a vida porque ama a dor e o medo. E foi assim que fizeram. Agora a vida se apresenta como dor e medo, e nisso está todo o engano. Hoje o homem ainda não é aquele homem. Haverá um novo homem. Quem vencer a dor e o medo se tornará Deus. E outro Deus não existirá. [Kiríllov]

   - Então ao ser ver o outro Deus existe mesmo ? [Narrador]

   - Não existe, mas ele existe. Na pedra não existe dor, mas no medo da pedra existe dor. Deus é a dor do medo da morte. Quem vencer a dor e o medo se tornará Deus. Então haverá uma nova vida, então haverá um novo homem, tudo novo... Então a história será dividida e, duas partes: do gorila à destruição de Deus e da destruição de Deus ... [Kiríllov]

   - Ao gorila? [Narrador] 

   - À mudança física da terra e do homem. O homem será Deus e mudará fisicamente. O mundo mudará, e as coisas mudarão, e mudarão os pensamentos e todos os sentimentos. O que você acha, então, o homem mudará fisicamente? [Kiríllov]

   - Se for diferente viver ou não viver, todos matarão uns aos outros e eis, tal vez, em que haverá mudança. [Narrador]

   - Isso é indiferente. Matarão o engano. Aquele que desejar a liberdade essencial deve atrever-se. Aquele que atrever a matar-se terá descoberto o segredo do engano. Além disso  não há liberdade; nisso esta tudo, além disso não há nada. Aquele que atrever-se a matar-se será Deus. Hoje qualquer um pode fazê-lo porque não haverá Deus nem haverá nada. Mas ainda ninguém o fez nenhuma vez." [Kiríllov] (DOSTOIÉVSKI, Fiódor M. Os Demônios. p. 120, 121)

   É interessante lembrar de um pensamento que transformou-se em um lugar comum de reflexão na Europa do século XIX, assim como na Alemanha nazista, e que apregoava o suicídio como o maior ato de liberdade que o ser humano poderia executar. Uma coisa própria de um "espírito livre".

   Mas pensemos sobre a ideia própria de valores que fundamentam a nossa compreensão de mundo, assim como de nós mesmos e do nosso próximo. Lembremos de tudo aquilo que, para nós, possui importância; na hierarquia de valores que fundamentam - mesmo que inconscientemente - as nossas ações no mundo.

   Entre estas coisas que importam para nós esta, como disse o narrador acima, a vida.

   Um termo muito peculiar que encontramos na fala do nosso Narrador é este: "O homem teme a morte porque ama a vida [...] assim a natureza ordenou". Mas que isso quer dizer? Bem, devemos voltar os nossos olhos para uma outra obra sua - já citada neste blog duas vezes -, que é o "Crime e Castigo", onde o jovem Raskólhnikov, derrubando os interditos, ou saltando por cima das travas morais, para ir "além do homem", decide matar uma velha agiota em nome de uma moral superior - a moral dos gênios e fundadores de civilizações, como ele chama. Mas, não obstante a tudo isso, ele é atingido por aquilo que Shakespeare chama no livro "Macbeth" de "implulsos da natureza". Sim, há a alusão da palavra "natureza" - como cria a teologia cristã Ortodoxa, da qual Dostoiévski era um seguidor - no sentido de finalidade e "caminho da consciência", o que pauta o sentido de existência, assim como confere a capacidade do homem reconhecer, sobre tudo, o amor, a preservação da vida e a busca pelo melhor - ou do Supremo Bem. Devido a isto, o "salto" do super homem acabou, por causa da transgressão das regras desta "natureza", por provocar uma culpa mortal em Raskólhnikov, sendo ele esmagado por conta da reação compulsiva da natureza em sua própria consciência.

   Aqui nós esbarramos na concepção de natureza como que concebendo nesta uma determinada finalidade. Algo preordenado e predestinado. Aquilo que pauta tudo o que podemos chamar de "Direito Natural", onde, por meio de diversas reflexões, se reconheceu com esta finalidade o direito humano à vida, à liberdade, à auto-defesa, à propriedade, felicidade (no sentido do makárioi grego) etc.

   Bem, mas se agora concebermos o mundo a partir do pensamento niilista, segundo o qual não existe um fundamento objetivo para nada daquilo que foi sendo consolidado na cultura, onde estão os diretos de existência desses bens culturais? Se a cultura não é o resultado da "tradução da natureza" por via da razão, mas sim o resultado de uma suposta "imposição de narrativas", o que pode impedir a implosão da cultura? Como justificar a existência de um fundamento objetivo da vida humana e, consequentemente, evitar que a mesma não seja considerada como um lixo, um mero acaso, ou uma espécie entre espécies, retirando dela o valor que cremos ser a ela inerente através do que dita os "caminhos da consciência"? E, least but not least, o que impede que não sejamos "Raskólhnikóvs" a saltar, aqui e ali, por cima de travas morais - matando, roubando, caluniando ou destruindo -, em nome de uma "nova moral", quando desconhecemos valores objetivos que fundamentam a própria vida?

   Com estes questionamentos, podemos afirmar que o raciocínio que se embasa em um fundamento objetivo da vida, na questão da "natureza" - e espero que isso tenha ficado claro -, é o único que pode justificar objetivamente o valor da mesma vida, e, consequentemente, impulsionar a consolidação daquilo que nós chamamos de civilização. Se isso não é verdade, então pensemos bem sobre as razões que levou a cultura a ser consolidada de maneira a emitir juízos proibitivos com relação ao assassinato, a antropofagia, infanticídio, o furto etc. Nada mais estranho do que prescindirmos da ideia de que o homem tudo faz para preservar a vida como um bem último, e que tal bem último se constitui em um valor objetivo cuja destruição só pode consequentemente arrastar o homem para um estágio infra-humano de animalidade. A cultura, por assim dizer, retira o homem deste estado de animalidade; mas é impossível que ela faça isso sem premissas que, por sua vez, não esteja fundadas na própria realidade, o que, por consequência lógica, concede um poder e autoridade que impede que o homem seja destruído pela marcha irracional do caos.

   Aliás, em se tratando do caos, a essa luta contra ele que muito da cosmogonia antiga e bíblica faz referência, apelando para um fundamento metafísico, para um princípio absoluto do universo que impede que este não seja tragado ou destruído por falta daquilo que o ordene e o fundamente. É justamente deste lócus que surge toda a matriz de sentido em torno da qual a totalidade das civilizações se constituíram.

***
   
   Com tudo isso, procurei clarear essa "consciência do fundamento" para o qual muito da constituição civilizacional deve. Também é forçoso reconhecermos com isso que se apelarmos para as bases epistemológicas do niilismo, dificilmente poderemos extrair daí - seja por força de um apelo aos costumes, para as tradições para a consciência - uma razão suficiente que crie interditos, e que possibilitem a preservação da vida, evitando que o homem seja demolido por causa da sua animalidade, ou por causa da animalidade de um outro alguém. Nada disso adiantará, pois sem valores objetivos - e isso por mais bem intencionada que sejam as atitudes para que o caos draconiano não triunfe - toda a cultura ruirá. É aí que reside o fim de todas as coisas.  


OBS: Acima vai a foto que mostra o momento em que o câmera Santiago Andrade (morto) foi atingido por um morteiro disparado por um manifestante que, supostamente, lutava contra o mal representado pela mídia. Não estaria aí mais uma história de um Raskólhnikov?    

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Moral Progressista


   
   Estou a fim de esculhambar aquilo que denominam de "pensamento progressista", que no texto abaixo refere-se a um escritor comunista adepto do "Comunismo Internacional" chamado Trótski. Então vamos lá: 

   "Num texto intitulado 'A moral deles e a nossa', Trótski explica por que [sic] os blocheviques podem, e devem!, cometer crimes, inaceitáveis apenas para os seus inimigos. Ele imagina um moralista e lhe indagar se, na luta contra os capitalistas, todos os meios são admissíveis, inclusive 'a mentira, a conspiração, a traição e o assassinato'.

   E responde:



   Admissíveis e obrigatórios são todos os meios, e só eles, que unam o proletariado revolucionário, que encham o seu coração com uma inegociável hostilidade à opressão, que lhe ensinem a desprezar a moral oficial [que no caso da rússia - e no caso de Marx também - trata-se da moral cristã] e seus democráticos arautos, que lhe deem consciência de sua missão e aumentem sua coragem e sua abnegação. Donde se conclui que nem todos os meios são admissíveis [ou seja: apenas 'eles' podem se valer de tudo. Fazer o Diabo, como admite Dilma].



   O texto é de 1938. Dois anos depois, um agente de Stálin infiltrado em seu séquito meteu-lhe uma picareta no crânio. Sinistra e ironicamente, a exemplo de Robespierre, ele havia escrito a justificativa (a)moral da própria morte." (AZEVEDO, Reinaldo. Objeções de um Rottweiler amoroso. p. 37). 

   É forçoso aceitar que os "feiticeiros da moral", que crêem poder fabricar "visões de mundo" em laboratório, ou que pensam poder manipular a moral como lhes convêm, assim como nivelar o mundo, as consciências e os destinos às suas ideias, possuem apenas um objetivo soberano: poder. No entanto, como a realidade e nem mesmo a cultura estão em poder de nossas mãos - como diria Jung -, e nem mesmo debaixo das mãos deles, o caminho aberto pela destruição de valores - em nome do "progresso", da ciência ou de uma utopia qualquer - é algo fatal por todos os lados. 

  Deveríamos estar cansados de acompanhar esta lei da história, que semelhantemente ao Frankenstein de Mary Shelley, sempre será a destruição fatal de todo aquele que pensa poder dominar e manipular as leis da moral e da natureza, ignorando o perigo de se perder entre os monstros nascidos de suas mãos e alma. Mas também é forçoso estarmos abertos à ideia de que a humanidade nem sempre aprende, estando fadada a repetir eternamente os mesmos erros.   

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Proibições da Cultura



        Este texto a seguir expõe muito bem uma ideia que vem, cada vez mais, ganhando corpo e um significado para mim, pois fala sobre cultura e a sua existência organizadora da vida a nível pessoal e coletivo.

   Salvo a questão completa da teoria freudiana - à qual cabe de maneira irrevogável a nossa crítica -, este esquema há muito foi pensado por outros no âmbito da religião - incluindo, e muito especialmente, a religião cristã -, pois possui um esquema real e concreto como uma pedra. Os leitores da Bíblia irão entender do que falo a baixo.

   Vamos lá:

   "Falamos da hostilidade à cultura gerada pela pressão que esta exerce , pelas renúncias aos impulsos que exige. Caso imaginemos as suas proibições abolidas, alguém pode, então, escolher para objeto sexual qualquer mulher [a qualquer momento] que lhe agrade; pode matar seu rival, ou quem mais estiver em seu caminho; pode, também, tomar [ou seja: roubar] qualquer bem do outro sem lhe pedir permissão [aqui, especificamente, Freud fala da abolição de três mandamentos do Decálogo encontrados no livro do Êxodo cap. 20: não adulterarás, não matarás, não roubarás] - que maravilha, que cadeia de satisfações não seria a vida! Na verdade, logo surge a primeira dificuldade. Qualquer outro tem exatamente os mesmos desejos que eu, e não me tratará com mais consideração do que eu a ele. Dessa forma, apenas um indivíduo, no fundo, poderia se tornar irrestritamente feliz através da abolição das restrições culturais: um tirano, um ditador que tivesse se apossado de todos os meios de poder [e, principalmente, dos meios de matar], e mesmo ele teria todas as razões para desejar que outros respeitassem pelo menos um dos mandamentos da cultura: 'Não matarás". (FREUD, Sigmund. O Futuro de Uma Ilusão. p. 53,54)

   Podemos dizer que o texto acima é de uma lucidez impressionante, justamente porque salta aos olhos a noção de cultura como algo terminantemente organizador da vida humana justamente porque a cultura busca proibir, frear e extinguir a irracionalidade e animalidade latente em todos nós. E aí esta um dos papéis formidáveis que a religião desempenha como a matriz decisiva da produção moral, cultural e, por consequência, civilizacional (papel que Freud não negou, mas que considerou já na época dele algo obsoleto, fruto do seu ateísmo irremediável) - a exemplo do papel fundante da religião e moral judaico cristã, que concentrada na Bíblia, nos fornece um germe civilizacional que fundou a maioria esmagadora das instituições ocidentais.

   É óbvio que aqui não ando nos limites da opinião ortodoxa de Freud sobre o assunto, visto que para ele o homem, mesmo inundado na cultura, é um animal sem salvação - concepção que é fruto de sua visão trágica de mundo, que, em sua teoria, se resume na ideia de que o homem é um ser dotado de pulsões de destruição e de pulsão erótica (no sentido da busca pela união com algum objeto que satisfaça as suas demandas), cuja finalidade última é a destruição do Ego, restando um mal estar generalizado na civilização, que sempre levará a humanidade a crer que ela é algo desajustado para esta vida. O que é visivelmente problemático. Mas deixo o assunto para outra hora.

    Mas cortando de maneira arbitrária e descontextualizada este insight, esta estrutura de pensamento, o que eu desejo afirmar aqui é que as proibições ou os Mandamentos fundados na noção teológica contida na Bíblia, direcionou as pessoas, ou a "Cultura Ocidental", a uma "visão de mundo", assim como elevou ao nível das consciências as razões e os caminhos da destruição universal que se faz através da abolição das proibições da cultura, ou, como se diz na Bíblia, por meio da aniquilação dos preceitos proibitivos ordenados por Deus. Consequentemente e ao mesmo tempo, essa cultura elevou ao nível das consciências não somente os meios e as razões da destruição, mas tornou claros através dos preceitos proibitivos os meios para barrar esta tendência destrutiva latente no homem. Basta olhar para você mesmo e constatar a veracidade destes preceitos ou Mandamentos que se ratifica nas profundezas e e na superfície da nossa vida concreta. 

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Desgraçadamente Educados


   
   O "homem educado" é uma abstração. Uma metafísica inocente e um idealismo para covardes. Sempre penso que com um pouco mais de educação - não aquela educação de berço, mas esta do presente tempo -, a humanidade começará a caminhar sobre quatro patas.
 
   A agenda do mundo moderno nos propõe uma "ética da alteridade" - um tipo de "amor às árvores" -, e, ao mesmo tempo, um esquecimento do "eu". Um budismo moderno malversado que raia à escravidão. Propõe um esquecimento de conceitos e preconceitos essenciais - sim, preconceitos do bem existem, senhoras e senhores! -, e, de troca, alguns degraus abaixo na escala civilizacional. Mas, evidentemente, este último, como a parte oculta do entimema retórico, não é evidente para as massas, como exige uma boa propaganda.

   A retórica desta "ideologia do bem", nos tornou escravos de uma moral decrépita que atinge aqueles que vivem apenas na base do reflexo instintivo, pois, convenhamos: quem quer ser alguém "do mal", um "machista", "racista", "homofóbico" e tudo mais daquilo que podemos achar naquele manual contemporâneo da boa humanidade que, em sua própria essência, tornou-se um verdadeiro arsenal que apenas visa destruir desafetos, e cria-los em escala industrial? Ninguém! Por isso mesmo, vários mecanismos de defesa são desenvolvidos pelos mais símplices diante deste "titanismo do bem", que nos coloca sob uma suspeição aguda, ou até nos acusa por todos os lados.

   Não, não podemos ofender! Não podemos sair da linha da "ética contemporânea" onde todos são "inteligentes ao seu modo". Não podemos mais tirar um sarro daquela suposta moralidade que prega a igualdade de "afetividades", onde, se levado até às últimas consequências, nivelaria a existência de um cão à dignidade reverencial que existe no matrimônio entre nossos pais e mães. Essa "ética da alteridade" soa como algo ridículo. Esse "respeito" da modernidade a um suposto "outro".

   "Não!" - dizem eles. "Devemos destruir a escala dos valores para que não hajam desigualdades! Todos são dignos!" - e babam em suas gravatas, como dizia Nelson Rodrigues. São estes os agentes do bem! São os aniquiladores do eu e daquilo que de mais belo há no mundo, e os fomentadores de um falso "outro" - esta categoria metafísica sensibilérrima que se escandaliza com os dados mais concretos da existência: o sofrimento, infelicidade e a morte; dados que nos fornecem provas concretas de que não há um mundo nivelado ou perfeito; que o "mundo perfeito" nos escapa como o vento; que caímos em um abismo incomensurável, destruidor de qualquer espécie de "metafísica do mundo perfeito", da "felicidade plena", mas no qual devemos cair com coragem. Com fé. Dançando!

   A vida não é um dado manipulável no qual impomos as nossas regras. Antes, do mundo, somos levados, humilhados e, por isso, humanizados. A vida, por tanto, não é um presente - tal como o compreendo - para covardes, pois ela deve ser pega pelos cabelos. Deve ser vivida. Deve ser batalhada. Deve ser vencida. Mas não deve, em determinados momentos, ser estimada como um bem último - como demanda a compreensão para uma vida que prima existencialmente pela verdade, entregando-se ao sacrifício consciente de sua causa. À Deus - o sumo bem - a quem tudo deve ser dobrado. 

   Aqui viso primariamente uma existência do tipo aristocrático. Um tipo deseducado para os tempos modernos. Uma existência que se mantém em meio ao tormento, e que acolhe-o como um dado inegável do mundo. Um pensamento que acredita na hierarquia dos valores. No refinamento do espírito que, com agudez, persegue estes valores sem levar em conta as "categorias corretas" e corrosivas do presente século. Na verdade até as despreza, se lançando em um vácuo onde Deus o Diabo só podem ser vistos tal como eles são. Nos lançamos no mundo das profundezas. No mundo dos poucos. No mundo dos eremitas místicos do deserto - que não é, definitivamente, um lugar para este "outro" hipersensível até à efeminação.

   Não, não se deve desejar a fundação de uma ordem para os "não covardes", mas desejar a "plenitude do Espírito. Quero uma "plenitude do Espírito" que esculhambe todo o automatismo e que aniquile todas as espiritualidades infusas por um tipo de sociologia que amordaça, e aliena o ser humano de sua própria humanidade. Que o faz deitar em uma cama de procusto, amputando-o da sua própria transcendência. Que corta aquela transcendência divina que preenche o abismo imenso da alma do homem e que, também, a traspassa. Que a embriaga.

  Nascemos fundamentalmente para sermos humanizados, para sermos centralizado no eixo fundamental da existência que se dá quando atingimos a maturidade das nos almas. Quando atingimos a "plenitude de Cristo". Mas o pensamento moderno se fez atávico, opressor, desenvolvendo em nós uma fidelidade e subserviência caninos à ele, e, com isso, nos tornamos desgraçadamente educados.


OBS: Só escolhi esta pintura – que se chama "O Grito" - porque ela, para mim, traduz a agonia existencial de quem foi educado para acreditar que tudo neste mundo é digno do mesmo respeito.  

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Experiência Estética e o Evangelho Vivo




   No livro "Crime e Castigo", escrito pelo romancista russo Dostoiévski, figura uma tentativa de êxito pela busca da materialização de uma experiência metalinguística (além da capacidade de descrição das palavras) que, em tudo, possui o pleno potencial de desenhar um caminho de conversão através do vislumbre estético. Para o romancista russo, a "beleza salvará o mundo".

   Segundo o seu característico estilo literário de vislumbrar em meio às ruínas da humanidade uma luz redentora de glória, o autor desenha uma personagem por nome de Sônia, que fora levada pelos descaminhos da vida à prostituição, ainda que conservando de maneira profunda a sua fé em Deus e uma esperança de superação daquela situação tão ambígua e contraditória com relação às convicções que consigo carregava.

   Essa situação de contradição mortal entre a convicção de fé de Sônia e o seu estado existencial, assim como a força espiritual que plenificava a sua capacidade de suportar o mundo degradado no qual vivia, preencheu de perplexidade e espanto o principal personagem da trama, o jovem Rodion Románovitch Raskólhnikov, que após cometer um crime fundado em alguns pressupostos niilistas, encontrava-se por isso em uma agonia delirante, uma situação na qual só poderia escapar - acreditava - por meio do suicídio.

   Ao contemplar a força da jovem Sônia, o atormentado Raskolhnikov pergunta a esta o que a impede de cometer um suicídio, e abandonar aquela degradação na qual vivia, ao que ela responde que o amor aos seus irmãos, à sua madrasta, e, principalmente, a Cristo, do qual nutria uma fé excepcional e uma esperança de que, no fim das contas, tudo aquilo daria certo, tal como ocorrera com Lázaro, aquele que foi ressuscitado da morte como consta no Evangelho de João, era o que a impedia deste "salto".

   O corpo magro, as mãos frágeis de Sônia, e a sua vida marcada pela prostituição e degradação humana não deixou de ser um veículo da santidade e da glória que trouxe espanto à vida do jovem assassino, assim como a possibilidade da percepção de uma beleza espiritual que contraditara profundamente as suas convicções fatalistas, potencializando o estado de perplexidade, não no sentido do suicídio, mas em um outro sentido, que era o da experiência mística do reconhecimento de uma realidade espiritual que confere razão e sentido para a vida, e forças para a superação de toda a agonia existencial, descobrindo, assim, por meio desta experiência estética, uma beleza inquebrantável e invencível em meio a um mundo de ruínas e de degradação. Aqui, Sônia figura como um canal vivo da mensagem do Evangelho de Cristo e do próprio Cristo.
  
   O livro nos ensina algo de precioso, pois entre todas as mazelas humanas, as visíveis e invisíveis, as contradições internas e as manifestações externas desta contrariedade, algo supranatural, acima da capacidade da racionalização humana, objeto da devoção dos místicos e profetas, redesenha para novos rumos, sempre, em nossa vida, o caminho da fatalidade em direção à destruição total, mesmo que tudo em nós, ou fora de nós, possa dizer o contrário. Esse é o algo espiritual, belo, divino e que, sobre tudo, possui o potencial redentor, que constitui a ideia dostoievskiana de que "a beleza salvará o mundo"; e essa beleza é a beleza da Glória do Deus que ressuscita os mortos.  

sábado, 13 de dezembro de 2014

O Direito ao Assassinato

   
   
   O tipo de mentalidade revolucionária foi profundamente tratado por um dos maiores romancistas da humanidade, que foi o russo Dostoiéviski. Em seu livro "Crime e Castigo", o personagem principal da trama, o jovem Raskólhnikov, dotado de um brilhantismo e inteligência ímpar, teoriza sobre a ideia de que os homem geniais - como Maomé, Napoleão etc. -, criadores de civilizações, uma espécie de Übermensch (Super Homem), sempre, devido ao seu ideal revolucionário, será dotado do direito de assassinar quem quer que seja, passando sobre indivíduos que supostamente impedem a realização deste "ideal" para um "mundo melhor".

   O jovem Raskólhnikov se vendo como um destes personagens capazes de transvaloração, decide colocar a sua teoria em prática, assassinando uma determinada velha agiota (correspondendo àquele ente capitalista), que, segundo pensa, trata-se apenas de um lixo humano no mundo, odiado por muitos e, por isso, sem valor, o que transformaria o seu ato não em um assassinato, mas, na verdade, em um ato digno de um herói, ou de um homem que foi capaz da transvaloração.

   O que particularmente considero interessante em tudo isso é que este pensamento expressamente idealista, ou niilista, que se coloca a destruir as travas morais e tradicionais da cultura, em nome de uma suposta "missão" em favor de um "mundo melhor", é justamente aquilo que iria fatalmente se abater sobre a Rússia no século XX com o advento do Comunismo, que com a sua empreita destruiu a vida de mais de 40 milhões de pessoas. No fundo, o que Dostoiéviski faz é colocar alguns grupos florescentes em sua época, como os anarquistas e comunistas, sob suspeição, ainda que a vida sob a monarquia kzarista, a que estes grupos se contrapunham, não fosse nenhum um paraíso. No fim, ele aponta para o perigo mortal da suspensão dos valores cristãos - o que inclui, no romance, a questão relacionada ao valor sagrado da vida - que haviam formado o seu país, pautando as relações entre as pessoas. 

      Contextualizando para o Brasil dos nossos dias, nunca houve em nosso país uma tentativa tão brutal de desconstrução de valores que pautaram o nosso povo por tempos, e que agora se vêem ameaçados, por exemplo, por causa do idealismo e do desejo de sacralização de fantasias de pessoas que buscam incutir determinados valores, nos querendo convencer de que estes estão acima de qualquer contestação, como se fossem coisas mais sagradas do que a vida, valores estes que buscam instaurar um reino de liberdade destrutiva em prejuízo do mundo real, no qual inúmeras pessoas se sentem em paz com sigo mesmas, pautando o seu viver com base em valores universais construídos ao longo dos séculos. Assim também, vemos o empreendimento sistemático que busca vestir à força uma determinada ideologia política como se ela fosse a tradução fiel da realidade, passando por cima de todos; e para a realização destas coisas não importa se é necessário matar, roubar e mentir, pois estes construtores psicopatas do mundo melhor de antemão já estão imunizados destas culpas por causa deste ideal e deste mundo futuro que os absolvem retroativamente - ainda que este mundo futuro nem exista, vale lembrar.   

   No fim do livro, o jovem Raskólhnikov acaba por ser convencido, por causa de uma sucessão de eventos, sobre a questão metafísica mais importante a ser refletida por nós, hoje: o valor da vida. E, no fim, fica para todos nós uma lição fundamental que transcrevo por meio de uma pergunta: Será que os valores por meio dos quais pautamos a nossa vida no mundo e as nossas relações com o outro não são, no fim das contas, "travas", ou meios que possibilitam a conservação da vida, das pessoas que amamos e que nos impedem de atitudes absolutamente radicais que, no fim, seriam como que o princípio da destruição de todas as coisas?

O Contraponto



   A história do Jair Bolsonaro, como se sabe, vai para além da frase digna de uma mentalidade galinácea e estúpida proferida por ele contra Maria do Rosário do púlpito do Congresso Nacional. Esta condenação tão apaixonada, e travestida de "justiça" a favor das mulheres, encabeçada, também, por Dilma Rouseff, está muito bem relacionada, na verdade, com tudo aquilo que o Jair Bolsonaro representa e tem sido: não há ninguém mais agudo em sua crítica ao passado de Dilma, assim como ácido com relação à agenda gay do petismo e esquerdismo em geral - que tenta impor a "cosmo visão" erótica para crianças recém chegadas ao universo escolar -, assim como tem sido uma pedra no sapado da agenda politicamente correta e sacanamente política do esquerdismo em geral, do que Jair Bolsonaro.

   Para compreender a coisa de uma melhor forma, vamos começar pelo histórico da "Comissão da Verdade" (um dos empreendimentos politicamente ideologizados mais estúpido dos últimos tempos - pois se lembra, apenas, da soma de mortos conquistada pelo regime, que totaliza 434), do qual ele é um crítico agudo, sedo que ao vermos esta "comissão", uma das coisas que nos intriga é a capacidade do atual governo de operar com meios de reescrever a história, e limpar a reputação de terroristas à esquerda do centro, enquanto busca destruir a imagem daqueles que estão à direita. Pois bem, ligar os pontos não é pecado - ainda -, não é? Então, para compreendermos tudo, vamos começar por perguntas: 1) a que se deve esta tentativa de manchar um lado do espectro político? 2) Será que não há nenhuma vantagem no plano da cultura este falseamento integral da história, de maneira a criar um hagiógrafo esquerdista que, para sempre, visa separar de maneira pseudo-científica aquilo que é bom no mundo dos conceitos e da história e aquilo que é inteiramente mau? 3) Mas também: quais são as forças no campo político que impedem este empreendimento de reedição da história, e que atuando também no campo cultural, tenta trazer para a luz as motivações trevosas que regiam grupos terroristas à esquerda do centro no Brasil? 

   A (1ª)primeira pergunta é levemente respondida pela segunda, mas é salutar compreender que esta vantagem também auxilia a conquista da mente de uma geração de estudantes para serem convertidos em novos militantes, o que é bem patente quando vemos vestibulares, e uma gama de materiais didáticos que trazem esta compreensão malversada do período de ditadura, transformando o bicho em um ser mais terrível do que ele foi. 

   A (2ª)segunda, como consequência, traz, por via do estelionato, um apoio de uma neo-militância conquistada por via da propaganda ideológica que não tem o pé na verdade, mas que conquista os corações por causa da inexistência de contraposição entre os fatos e esta ideologia macabra, e é isto que tem produzido um efeito devastador no campo da cultura, de maneira que se plasma o "bem" a um determinado grupo político, e o "mal" ao grupo concorrente e minoritário. Para se ter uma ideia, ser contra o pensamento esquerdista, hoje, é quase que uma "blasfêmia" dirigida a um ente sagrado (ou aos entes do "hagiógrafo"), o que te faz, automaticamente, uma pessoa deplorável e condenável pelos séculos dos séculos. Sei muito bem na pele o que é ser tido como um desses indivíduos execráveis em meio à uma plêiade de "iluminados" que se julgam portadores do "bem", que amam toda espécie de ideal bom acerca do homem, mas que são capazes de jogar na lata do lixo o homem real e existente no mundo - tal vez achando que isso é apenas uma brincadeira daquelas que quando dói, falam: foi sem querer. 

   A (3ª)terceira é respondida pelo fato de que, bem ou mal, querendo ou não, felizmente e infelizmente, Jair Bolsonaro, ainda que com esta frase estúpida e digna de toda a reprovação, tem representado este contraponto à esta avassaladora lavagem cerebral empreendida com dinheiro público. E isso nos leva a compreender que para além da ação, há a tentativa de, no fundo, desmoralizar não tanto o indivíduo Bolsonaro, mas, para além dele, toda aquela ideia que ele tem representado no campo político e que atua primeiramente no campo cultural - claro - impedindo a formação daquele "rebanho" agregado em torno de um grupo de ideias "para um mundo melhor", que querem nada mais e nada menos do que o poder total sobre a vida dos indivíduos através da máquina do Estado. Jair Bolsonaro é, por tanto, um risco e um grande incômodo para a concretização destes planos - tal como é claro no ponto da cartilha do PT lançada em novembro, onde é pregado a "hegemonia cultural" ao estilo maoísta, o que torna óbvio o objetivo de tal "Comissão da Verdade", por exemplo. 

   Exagero? Não, não é exagero, pois basta olhar para o duplo padrão de julgamento desta esquerda nefasta onde a história real de que uma jovem sequestrada com o namorado, tendo sido estuprada por dias em uma caserna no meio do mato onde fora mantida em cárcere privado, nada ofende a honra deste pessoal, o que é totalmente o oposto no caso da fala do Bolsonaro. Parece incrível, mas o jovem estuprador (ou os jovens), foi defendido pela Maria do Rosário, aquela mesma responsável pela pasta dos Direitos Humanos no Governo Federal. 

   A dupla moralidade, aquela que prega "aos amigos tudo, e aos inimigos a Lei", é aquela que tem brutalizado a sensibilidade nossa acerca do que é certo e daquilo que é errado, fazendo com que creiamos que o bem e o mal está distribuído entre partidos, e não no mundo concreto. Esta usurpação é aquilo que nenhum partido político pode arrogar para si, pois nenhum possui o monopólio da virtude, e por isso é preciso ver a política, antes de tudo, não como o campo onde se opera por intermédio dos valores, mas sim dos resultados. Uma lida no livro "O Príncipe" de Maquiavel faria todo o bem do mundo para aqueles que querem opinar sobre política e, antes de tudo, compreende-la.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

O Fundamento da Obra Autêntica

   


   O início da vida humana se dá por meio do espírito humano, e isso já é o suficiente para fazer crer naquela razão libertadora que nos diz que apesar da estrutura absurda, cruel e trevosa do mundo, há um local da vida que permanece inteiramente intacto, onde podemos exercer de maneira invencível a nossa liberdade, e que se constitui como o ponto de partida de toda a nossa liberdade humana possível: o espírito.

   No entanto, mesmo o espírito humano necessita de iluminação, afim de que ele não fique a deriva ou entregue para si mesmo. O ser humano está fadado a ser dependente de uma base sólida, e isso independentemente onde esta base esteja, ou independentemente do momento em que a vida de cada um de nós se encontra. Não é por simples acaso que se esquecendo de Deus, o ser humano se entregou para as mais diversas crenças redentoras: a crença na ciência, na política, no trabalho, no dinheiro, na nação, no conhecimento, ou até no desespero e no desejo integral de destruição, para que através do "caos criativo" emergisse um mundo e sociedade puros - tal como se deu nos macabros sistemas gnósticos que guiaram o pensamento político do século passado, como por exemplo o Nazismo e o Comunismo.

   Mas em fim, para guia integral do espírito humano, Deus nos deixou uma "luz no mundo", uma esperança encarnada eterna que confessadamente diz em Jo 18:36 que o seu reino não pertence a este aeón (era), e que todo este mundo presente sobrevive como criação divina, ainda que dominada pelo absurdo, e que dele não devemos esperar aquela perfeição pertencente apenas ao século futuro, o que nos coloca dever de, por isso mesmo, nos entregar absolutamente à obra do ao amor em Deus e à caridade para com o próximo. (Jo 15:12), como nos ensina Lutero:   

   "A Paz tem somente uma origem: quando se ensina que nenhuma obra, nenhum modo externo nos torna retos, justos e bem-aventurados, mas somente a fé, isso é, a boa confiança na visível graça de Deus que nos é permitida. [...] E onde não existe esta fé, tem que haver muitas obras que têm por consequência  a discórdia e a desunião, de sorte que ali não há mais lugar para Deus. [...]

Quando é preservado esse espírito possuidor de toda a herança [o espírito que por fé crê na possessão no bem divino], então também o corpo e a alma podem ficar livres do engano e obras más." (LUTERO, Martinho - O Magnificat - Ou: a Exegese do Cântico de Maria. p. 29)

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Uma Outra Forma de Legalismo



   Muito do dito "espírito cristão" está fundado, infelizmente, em um moralismo e legalismo nada cristãos, cuja prática, antes de fazer bem ao que pratica, traz, na verdade, a destruição.

      Tudo isso ocorre porque as pessoas acreditam que a autenticidade dos atos de amor relatados na Bíblia devem ser compreendidos à luz dos simples esquemas formais como lá estão relatados, ou a forma que costumeiramente são interpretados, desconsiderando as funções que tais atos representavam na vida dos atores; por exemplo: Jesus disse que "bem aventurado são os mansos". Esse mandamento não é algo a ser considerado como uma espécie de atitude de submissão invariavelmente definida em todos os momentos da vida e para todas as vontades, pois, se isso se desse, se pregaria o cultivo de um espírito estritamente submisso que, no fim das contas, mais faria mal do que bem, mas cativaria do que libertaria.

   Eliminamos o mandamento? Não, mas, pelo contrário, colocamo-lo em seu próprio lugar, e isso por que a bíblia não traz um catálogo de regras que devam ser compreendidas por si só como trejeitos e formas, mas sim assimilados à luz do significado que clareia a experiência, conferindo unidade à consciência que, com maturidade, vai discernindo a realidade nos mais diversos contextos da vida.


   Há muitos cristãos que sofrem por causa de seu comportamento legalista que se manifesta como uma moralidade indefinidamente submissa diante do imoral, pois esse último, com vileza, abusa da sensibilidade moral alheia, manipulando ao seu bel prazer as pessoas por meio de suas consciências, enquanto nada cobra de si mesmo. Contra esse, a forma de caridade pode vir como tolerância ou retaliação. Tudo dependerá do discernimento que, aos poucos, a graça que nos conduz à liberdade vai nos conferindo.