quarta-feira, 21 de outubro de 2015

A Filosofia, a Arte, a Religião e a Essência



   A Filosofia não é criação, mas apreensão, em nossos limites, da própria RAZÃO - ou melhor: a Filosofia está em ser apropriado e eleito pela própria RAZÃO. Também a arte não é criação absoluta se não a habilidade de manejo das possibilidades estabelecidas da natureza, ou a tradução da RAZÃO para uma realidade finita, onde aí mesmo se faz visível o infinito - assim como vemos na revelação de Cristo que nada mais é do que a encarnação do Verbo, ou seja, a união entre o infinito (o divino) com o finito (a natureza carnal humana), o que desemboca no Absoluto.

   Assim também a poesia e a arte são constitutivos da própria natureza, assim como o é a música. Desta forma o universo, o cosmos, os planetas e estrelas são poéticos em si mesmos. Possuem uma Harmonia que é a Ideia original da própria arte, da religião e da Filosofia. Trata-se de algo vivo, sendo ao homem dada a feliz faculdade da tradução desta realidade ou desta RAZÃO das coisas, e mesmo a apreensão das próprias possibilidades desta Grande Realidade, de maneira que a arte é uma forma, também, de busca pela união entre o finito e o infinito. O artista ou mesmo o poeta são sacerdotes, são pessoas que mediam o Absoluto, que transfiguram a natureza através das suas próprias possibilidades - incluindo as possibilidades do artista, do religioso e do filósofo -, que unem as coisas às suas essências e que aproximam o mundo de sua própria Verdade - da qual se encontra alienada pelo afastamento e pela negação de sua Essência -, apontando para aquele princípio de identidade que as coisas possuem com o Eterno. Nesse sentido, Schelling afirma:

   "A filosofia também é poesia, mas não tão inconvenientemente a ponto de ressoar a partir de um único sujeito [o filósofo isolado do Mundo ou do Universo]. Ao contrário, ela é uma poesia interior, implantada no objeto, tal como a música das esferas celestes. Pois, originariamente, é a coisa que é poética, só depois o é a Palavra." (SCHELLING, F. W. J. von. Aforismos à Introdução à Filosofia da Natureza & Aforismos Sobre a Filosofia da Natureza. p. 47,48)

   Assim se estabelece os meios que constroem os caminhos para a obtenção do sentido do próprio homem e da revelação daquela Essência Universal sem a qual o próprio homem nada é, e fora da qual ele não pode ser. No entanto o homem, hoje tão alienado e afastado de sua própria essência, tende a ignorar esta grande dádiva de Deus, que em todos os momentos dá testemunho de Si mesmo - que é a Verdade - através de todas as coisas e em todas as coisas, e que, não obstante, se estabelece como o único meio para a salvação do próprio homem. Assim o homem continua a se afastar, ao abusar da sua liberdade neste constante afastamento, negando o grande dom da Vida e a sua Essência mesma.

OBS: Na foto F. W. J. von Schelling

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Da Imitação de Cristo

   


   Hoje em dia temos um Evangelho boicotado por boas intenções. No entanto não existem boas intenções que se concretizem necessariamente em boas ações. O bem intencionado ou o idealista pode ser alguém profundamente prejudicial, pois confunde sentimento com realidade. O que eu quero dizer é que hoje em dia muitas pessoas se põe a ser integralmente amorosas e tolerantes, sem perceber que o excesso destas coisas pode fazer degenerar o mundo e os bons sentimentos em tirania. É necessário, também, dizer um não à perversidade pois é o NÃO ou a negação absoluta ao erro que conferem ao perdão consistência concreta (sem o erro reprovável o perdão não faz nenhum sentido), pois o NÃO faz parte da bondade e da justiça tanto quanto o SIM - da grande bondade e da grande justiça. 

   É interessante constatar algo muito interessante hoje com relação à espiritualidade cristã: todos ensinam a ser humildes e mansos como Jesus Cristo, no entanto existe uma fraca exigência de se indignar como Jesus Cristo. As pessoas geralmente falam que ser manso ou aceitar como Cristo é parte da espiritualidade, mas se indignar e rejeitar como Jesus não faz parte do cristianismo pois devemos imitar Jesus (?). Não ocorre, porém que se não é possível se indignar e manter uma postura evangelicamente indignada como a de Jesus tão pouco é possível ser manso como ele, pois, em ambos os casos a questão não está nem na indignação e tão pouco na mansidão - tais questões são fenômenos comportamentais, e, por tanto, de importância secundária quando considerados à margem da pessoa integral de Jesus -, mas especificamente nisto: em sua imitação.

   No entanto a questão da imitação é inteiramente mais profunda, pois trata-se de uma total conformação a Cristo (de tomar a forma de Jesus Cristo), de uma total integração da personalidade em Cristo onde nem a indignação cristã, tampouco a mansidão devem ser virtudes praticadas em si mesmas desconsideradas do fundo que as sustenta; tal fundo, tal base ou fundamento trata-se da verdade pura e simples, ou da verdade que traz consistência a todas as coisas, pois antes do Cristianismo ser escritura ele é, antes de tudo, uma pessoa, uma realidade humano-divina concreta na história, na nossa única história.

   É justamente aqui que temos um, digamos, princípio místico ou sacramental, que é o fundamento da união da alma com Deus, união esta que integra o ser humano no Sentido universal de Todas as Coisas - e não é por acaso que Jesus, no Evangelho de João, é chamado de Lógos (no original grego), que nada mais é, além de Verbo (João 1:1a), a Razão que fundamenta todas as coisas. Isto descarta, em primeiro plano, o culto de qualquer virtude isolada de Cristo, pois o culto da virtude isolada (que é uma doença do mundo moderno), sem considerar o Absoluto do qual tal virtude faz parte, é, de alto a baixo, negar a RAZÃO que sustenta a virtude. No entanto, é algo mais: idolatria: não podemos escolher qual parte de Cristo cultuar, pois é dever do Cristão cultuar o Cristo como um todo: em sua indignação, em sua paciência, em sua tolerância, em sua misericórdia, em sua disposição em perdoar, em seu desejo ardente por justiça e em sua obediência e fidelidade incondicionais a Deus.

   Com tudo isso, por tanto, não raro, se observarmos bem de perto algumas situações onde cristãos se vêem como que envergonhados de uma ação mais contundente de qualquer um que defenda valores autênticos ou cristãos, invariavelmente veremos um fundo de covardia, ou mesmo aquele envergonhamento de Cristo que reflete no coração não uma espécie de prudência (o que é um bem e deve ser integralmente desejada e praticada), mas uma espécie de idolatria, um medo de dizer um SIM integral à vontade divina que é também amor (o único amor), já que é reconhecido que a condição de Eleito não demanda a consideração do bom-mocismo ou da boa educação evangélica - principalmente a boa educação burguesa protestante - que enxerga apenas os benefícios da eleição, mas também a consideração integral dos deveres, da necessidade de carregar para fora do arraial a vergonha do Cristo crucificado como um bandido maldito aos olhos do Mundo (Hebreus 11:24-26; 13:12,13), não obstante manter a defesa intransigente de que tal Cristo é o imaculado e Santo Deus do mesmo Mundo (Hebreus 1:1,2).

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Notas Sobre Amizade, Verdade e Cristo



   Existem pessoas que não enxergam a crítica como uma forma de amizade, já que acostumados a ver nos laços de fidelidade e nas lisonjas algo verdadeiro em si mesmo. Tal posição é irracional e perversa, pois se somos obrigados a dizer incondicionalmente SIM a tudo o que alguém diz, e não polindo-o com a sinceridade, não temos amizade, mas escravidão da alma e servidão atroz. O maior ouro que um amigo tem a oferecer a outro não é a fidelidade incondicional, mas a verdade, pois isto é a base eterna de um relacionamento eterno; e se não possuímos uma disposição de agir com verdade, mas com hipocrisia ou com lisonjas, não amamos a ninguém, nem a nós mesmos, mas a uma ilusão perversa e doentia que tende a destruir a nós mesmos e ao outro: alguns confundem amizade com um egoísmo viciado.
***
Como mudar integralmente o mundo concreto é algo impossível, aqueles que possuem as ganas de "mudar o mundo", e que o querem a qualquer preço, decidem operar em outro campo: na mente das pessoas. Não conseguindo mudar o mundo, o mais fácil é, por tanto, mudar a ideia de mundo. A guerra operada no campo da mente - ou no campo da cultura - é algo evidente demais nos dias de hoje: as ideias mudam constantemente em uma velocidade alucinante, as fidelidades se desfazem e os laços são rompidos. A rapidez frenética com a qual as pessoas de hoje mudam de opiniões, chegando ao cúmulo do ridículo de achar que a mudança é algo bom em si mesmo, não revelam um traço de criatividade e nem mesmo de evolução ou inteligência: trata-se de um sinal de impotência, de falta de força ou mesmo da impossibilidade de dizer um SIM àquelas coisas permanentes. Isso é idêntico à situação de quando pegamos uma pessoa em uma mentira: ela começa e inventar histórias. Isso nada mais significa que: impotência com relação à fidelidade, à verdade, aos compromissos firmados e à coragem.
***
A própria confusão entre Deus e aquilo que pensamos de Deus é, em si, um pecado, já que podemos, como os fariseus, colocar a nossa própria Teologia em substituição à verdade. Podemos colocar não só a nossa Teologia, mas as nossas experiências pessoais, os nossos sentimentos - que muitas das vezes vemos confundidos com a ação do próprio Espírito -, e a nossa vontade no lugar que só a Deus pertence, e em substituição ao próprio Deus. Alguns, na falsa certeza de que adoram a Deus estão, no fim das contas, adorando a si mesmos, e crucificando para si a verdade. Esta é, no fim, a história do próprio Jesus Cristo: quando Ele se apresentou, de fato, como A VERDADE, a maioria dos fariseus, saduceus e muitos judeus - o que iria suceder (e continua sucedendo) igualmente no Mundo todo - preferiram ficar com os seus próprios pensamentos, crendo de maneira absurda que estavam adorando a Deus. Este é o egoísmo vicioso; um pecado eterno imperdoável contra o próprio Espírito Santo.

A Origem do Mal




   A questão relacionada ao mal, hoje, está profundamente circundada de equívocos grosseiros, assim como distanciado do melhor pensamento que discorreu de maneira magistral sobre o referido tema; e quando digo isso tenho um nome em mente: Agostinho de Hipona. 

   Agostinho tinha uma forma toda peculiar - que também remonta a Platão e mesmo a Plotino, de quem Agostinho herdou o Neo-Platonismo -, discorrendo sobre o mal não como se ele fosse uma contraposição a peso de igualdade do bem. Bem e mal pertencem a gêneros distintos. É esta a razão de sua vitória sobre o Maniqueísmo, cuja explicação sobre o bem e o mal se dava sobre tudo na ideia de que ambos eram opostos, o que, no fundo, filosoficamente falando, dava a ambos o peso de equivalência. Não, não são opostos e nem mesmo equivalentes. 

   Para Agostinho o mal é dependente do Bem, mas o oposto não é verdadeiro, por exemplo: a liberdade é um bem, mas o mal tem justamente a sua origem na liberdade; é no abuso do livre-arbítrio que temos a origem dos vícios. Assim também o sexo é um bem, mas mal vai para quem abusa do sexo, destituindo-o dos critérios que conferem a ele legitimidade. Assim também a força física e a inteligência são um bem para o homem, mas é por meio disso que vemos a tirania, a violência contra o inocente etc. Por tanto o bem é a raiz absoluta de tudo, assim também é um bem a liberdade que Deus concedeu ao coração dos filhos dos homens para que estes pudessem amara a Ele livremente, já que Deus comporta em si apenas a Verdade e deseja a mesma de maneira livre e consciente dos homens.

   Mas isto comporta um risco para que a liberdade seja verdadeiramente liberdade: a possibilidade da negação do bem e do próprio Deus que é a origem de todo o bem e de toda a liberdade. Sem o risco da conversão do bem em maldade a liberdade não seria, por tanto, liberdade. Mas conversão não seria a melhor palavra para descrever esse processo, mas sim degeneração. A possibilidade da degeneração está na própria inversão da constituição da realidade das coisas, já que liberdade também implica no risco da auto-destruição como possibilidade. Por tanto palavras como traição, mentira, inveja sempre corresponde a uma ideia de que coisas boas estão implícitas e que foram malversadas. Mas o mesmo não se dá com palavras como amor, verdade, justiça, bondade e fidelidade, pois tais coisas são atualizações da essência verdadeira das coisas e que correspondem à própria estrutura da realidade e hierarquia das coisas, assim como no desejo de replicação da vida, ou no desejo de continuidade ou eternidade, que é uma reprodução absoluta, e não uma degeneração da vida, já que essa reprodução é afirmação incondicionada e não a corrupção de algo.  

   Esse pequeno ensaio de filosofia tende a compreender algo que é enigmático: a origem do mal. Por tanto, deixa parcialmente de ser um mistério quando compreendemos que não existe uma equivalência entre o bem e o mal ou entre a verdade e a mentira, mas que o Bem e a Verdade são elementos fundamentais para a existência daquilo que se contrapõe a eles, sem um sentido de equivalência, mas no sentido de dependência, preservando a hierarquia dos valores intacta. Sendo assim, a origem do mal está, por exemplo, no abuso do bem, ou na malversação do bem a partir da própria liberdade humana que tem na degeneração uma possibilidade para que a própria liberdade seja, por tanto, completa. É como compreendêssemos a razão pela qual no próprio Paraíso Deus tivesse colocado próximo da Árvore da Vida, a árvore da perdição: a Árvore do Conhecimento do Bem e do mal.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

A Liberdade como Algo a Construir




   É com lutas que a gente descobre que a liberdade é algo que se conquista a duras penas. Com isso se vê que é mentira que nascemos livres. Liberdade se constrói, e se a recebemos por herança podemos dissipá-la em uma irresponsabilidade que resultará em escravidão. Isso vale para indivíduos e para os povos.

   A liberdade, hoje eu sei, se conquista em meio a tormentos, medos, a lutas por estabelecer uma disciplina pessoal, e com o travar de batalhas titânicas contra si mesmo na mortificação da vontade imediata e na obediência a coisas que são inevitavelmente melhores, mas cuja escolha requer um ato quase que heroico de coragem .

   É frequente a tentação de enveredar pelo caminho mais fácil e reconfortante, mas o destino de tais caminhos - que aparentemente são desejosos - só nos reserva vergonha e infâmia em seu demente fim. Não é por nada menor do que a minha própria liberdade de espírito que eu renunciarei a tudo o que tenho feito, pois já vejo os pequenos mais doces frutos que agora são degustados com grande alegria.

A Desumana Vontade de Potência


   Ler Nietzsche é de fundamental importância para a compreensão de determinados mecanismos psicológicos que, entre outras coisas, tendem a permear o mundo de uma culpa e ressentimentos que não são reais, já que fomentados através de um mecanismo maquiavélico que convertem em mal tudo aquilo que, na verdade, é bom. Este insight de Nietzsche possui, podemos afirmar, uma verdade eterna e funciona mesmo quando analisamos, por exemplo, discursos de viés socialista - Nietzsche tinha uma aversão visceral ao marxismo ou ao socialismo por causa da utilização venenosa desses movimentos da moral na instilação do ódio e desconfiança em meio as pessoas.

   A estrutura do pensamento nietzscheano jamais pode ser dispensada e deve sim ser estudada. No entanto o conceito de liberdade absoluta ou de "vontade de pontência", assim como a ideia de "abolição da moral", ou mesmo a ideia de que é o mais forte quem cria a moral, o Super-Homem - ideia que antes de ser concebia por nietzsche já fora destruída por Dostoiévsky (que escreveu ideias seminais que Nietzcshe veio a desenvolver posteriormente) -, é, se não pernicioso, fundamentalmente perverso e que se levada a cabo poderia fazer emergir o Caos através de uma batalha apocalíptica entre deuses no alto da torre do Mundo, como disse G. K. Chesterton.


   Uma coisa é ler Nietzsche, outra coisa é reter aquilo que é bom, e outra coisa completamente diferente é transforma-lo de maneira imerecidamente em uma pedra angular de reflexão para uma moral cristã ou humana que ele mesmo detestava e que ele mesmo não possuía. A suposta máxima nietzscheana de que a moralidade é imoralidade é uma das coisas mais desumanas que existe, pois, entre outras coisas, ela não leva em conta as limitações humanas, a incapacidade da comunidade humana de viver por meio de saltos, já que lerda demais para refletir sobre o fundamento das convenções, prescindindo delas, pois tal liberdade advinda da abolição dos costumes é - como ele sabia - para quem tem nervos de ferro. Mas o homem é pó e cinza, é uma flor cuja glória não dura um dia, condicionado por todos os lados. A vontade de potência é algo a ser exercido por poderosos e, sempre e sempre, mesmo a contra-gosto dos sensíveis, em detrimento dos mais fracos. É o princípio do afundamento em uma loucura que o próprio Nietzsche experimentou.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

A Degeneração da Crítica da Religião

 

   Quando o teólogo reformado suíço Karl Barth fez um ataque mortal ao conceito de religião na primeira metade do século XX (e toda crítica da religião moderna parte, basicamente, dele), o que ele pretendia era, como homem de Igreja, recuperar a tradição de fé que havia sido diluída pela teologia liberal. Tal diluição ocorreu desde que Schleiermacher, no início do século XIX, tentou criar um amálgama, uma junção ou uma síntese entre cultura protestante alemã, iluminismo e Evangelho, já que religião para Scheiermacher - assim como para uma filosofia altamente complexa -, trata-se de uma construção humana em sua relação com o divino. Para a teologia liberal que se formou desta tradição de pensamento que remonta a Schleiermacher, influenciada também pela filosofia da cultura de Hegel, a produção do espírito religioso humano culminava na cultura protestante alemã do século XIX. E é aqui neste contexto que surge a máxima de Barth: cristianismo não é religião, mas revelação. É um trabalho de cima para baixo (de Deus ao homem) e não de baixo para cima (do homem a Deus).
No entanto, hoje, a crítica da religião - que é grandemente utilizada pelas Igrejas Neopentecostais em seu apelo conversionista, ou por movimentos cristãos contemporâneos - é justamente o inverso do que pensava Barth: trata-se da destruição sistemática do Evangelho, e da tradição cristã em nome de um apelo ao "novo", do suplantar de muitas das bases teológicas com o intuito de abrir a fé aos novos tempos, numa tentativa de travar um "diálogo" com os "apelos" destes "tempos", o que poderia culminar em uma síntese ou construir uma ponte entre movimentos culturais e Evangelho, já que tais movimentos podem e devem ser absorvidos pelo Evangelho, lançando um passado de interpretações na lata do lixo da história para que seja possível uma resposta adequada às "novas perguntas", o que demanda "novas respostas".
Portanto, apesar de a visão de Barth ser sujeita a sérias críticas - e eu tenho sérias críticas ao pensamento barthiano com relação a religião -, muito do que vemos hoje como "crítica da religião" seria anatematizado por Karl Barth, pois a nova "crítica" trata-se de uma forma que nada tem de muito restaurador, já que Barth construiu as bases de sua Crítica como Teólogo da Palavra em uma recuperação das fontes da fé na teologia bíblica, em teólogos e pregadores patrísticos (os primeiros teólogos cristãos), nos teólogos reformados, e na restauração para a teologia protestante dos conteúdos tradicionais dos Credos e dos dogmas fundamentais da fé, não sendo Barth, por tanto, nenhum modernista, mas sim um destruidor da síntese entre teologia e cultura, lançando fora, em seu tempo, por muitos anos, qualquer diálogo com o "espírito dos tempos", já que isto seria um tanto desnecessário para a Salvação do Homem.

Da Degeneração das Virtudes





Da liberdade ilimitada, cheguei ao despotismo ilimitado. (Fiodór Dostoiévsky, Os Demônios)

E parafraseando Dostoiévsky, podemos dizer: Do amor sem critérios, chegamos ao Inferno.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Hegel e a Ascensão do Homem a Deus



   Corresponde a tal exigência [a exigência de edificar a alma humana em direção ao Eterno] o esforço tenso e impaciente, de um zelo quase em chamas, para retirar os homens do afundamento no sensível [sensualidade], no vulgar e no singular, e dirigir o seu olhar para as estrelas; como se os homens, de todo esquecidos do divino, estivesse a ponto de contentar-se com pó e água, como os vermes. A significação de tudo que existe estava no fio de luz que o unia ao céu; então, em vez de permanecer neste [mundo] presente, o olhar deslisava além, rumo à essência divina: a uma presença no além - se assim se pode dizer. (HEGEL, Friederich W. G. Fenomenologia do Espírito. p. 27)

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Das Pessoas que Enchem o Mundo de Amor

   


    Existe uma mentalidade que é pura "caridade" por aí, uma Semente de "coisas ilustres", um "iluminado do bem" semeado em algum campo de universidade qualquer que prega o "abolicionismo penal" - ao invés de pregar, durante o pequeno curso desta vida que lhe coube neste mundo, como a todos nós que temos que limpar a boca quando comemos -, coisas que realmente importam neste mundo.

Você sabe o que significa isso aí, meu amigo ou minha amiga? Significa o seguinte: Você mora em um bairro onde existem ladrões? Que pena: terá que conviver liberdade impugnável destes indivíduos. Mas mesmo se ele for obrigado a mudar para outro Estado: que pena, uma "lei" não modifica a natureza humana. Alguém soltou uma bomba na casa de alguém, matando uma família por mera vingança - porque a bandidagem terá o direito ilimitado à vingança? Se console se for a família amiga sua ou de filhos seus: terão que se contentar com uma multazinha, ou com servicinhos sociais de reparo, se confirmado que o ente foi pobre - já que eles são injustiçados socialmente pela distribuição desigual de renda.

É! Este robespierre com aroma de quarto de Lupanar depois do uso, aqueles que segundo o provérbio bíblico cavam a cova na qual irão se enterrar, está toda atiçada com a sua "inteligença" - os erros são propositais mesmo - a favor do bem, para depois, para logo depois, como diria Nelson Rodrigues, babar na gravata.

OBS: Não é fofinho este bebezinho, pequenininho, inocentezinho, babão, de gravata? Nossas universidades estão cheios desta "inocência". Desta superabundância de sentimentos "bons". É o amooorr!

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

A Ordem e a Anarquia



   Quando olho para algumas políticas desastradas que alguns países implementaram em outros países em nome do "progresso", do "novo" contra o "anacrônico" ou o "ultrapassado", como foi a política "progressista" de Obama em nome da "democracia laica" na Líbia - o que, feito de forma mal feita, abriu um vácuo tenebroso naquele país que permitiu ele entrar em estado de anarquia, vindo a força organizada do ISIS e o engolindo com a boca escancarada -, sempre tenho em mente uma frase do Russell Kirk:

"A grande linha demarcatória da política contemporânea, como Eric Voegeling (1901-1985) costumava apontar, não é a divisão entre liberais, de um lado, e totalitários, do outro. De um lado daquela linha, estão todos os homens e mulheres que imaginam que a ordem temporal é a única ordem que, as necessidades materiais são as únicas necessidades e que podem fazer o que quiserem do patrimônio da humanidade. Do outro lado da linha estão todos os que reconhecem a existência de uma ordem moral duradoura no universo, uma natureza humana constante e sublimes deveres para com a ordem espiritual e a ordem temporal" (KIRK. A Política da Prudência. p. 115).

Ou seja: a Ordem é algo incriado, e que é feito para o homem e o homem é feito para ela, como diria também o sábio filósofo. E tenho cá para mim que a Ordem, as regras consolidadas, as instituições, organizações humanas, o senso de hierarquia, a compreensão da necessidade de valores e regras duradouras são coisas fundamentais que garantem a paz que o homem necessita, e que devem perdurar pelos tempos em favor, e não contra, o homem, já que respeita, e muito, a natureza do próprio homem, que não pode ser reinventada a cada dois minutos para se adequar ao "novo". O homem deseja constância, perenidade e, em última instância, uma eternidade que deve ser refletida nas estruturas e ações levadas a cabo no Mundo presente.

A dificuldade com a visão dos libertários - que alimenta o raciocínio tanto dos capitalistas brutais, como dos "progressistas" de esquerda - é que ela não consegue enxergar que a liberdade absoluta - que degenera em anarquia ou niilismo - não é um negócio a favor dos homens, mas algo que cria um campo perfeito para a ação ilimitada dos mais fortes e dos mais poderosos, já que os valores, os tabus, as regras, as convenções consagradas, Igrejas, a moral etc. (e não a revolução permanente), são barreiras que freiam as liberdades que dariam aos malignos o poder absoluto, como diz o apóstolo Paulo na segunda carta aos cristãos de Tessalônica: " Porque já o mistério da injustiça opera; somente há um que agora resiste até que do meio seja tirado; E então será revelado o iníquo, a quem o Senhor desfará pelo assopro da sua boca, e aniquilará pelo esplendor da sua vinda" (II Ts 2:7,8), ou seja: a resistência contra o avanço da iniquidade só pode ser possível por meio do desejo de conservação de valores consagrados como a Ordem.

O caso da Líbia - e o da Primavera Árabe, como um todo -, ainda é algo a ser profundamente estudado e refletido, já que a evidência de que algo deu errado por lá não pode ser sustada em nome da consideração sobre um "simples erro de cálculo", nos levando a concluir que a política, ou as ações humanas em geral que visam uma liberdade sem ordem está fadada a ter como resposta uma ordem sem um mínimo daquela liberdade que está em acordo com a essência humana, já que fomentará é a traição e a supressão total dela.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Uma Pequena Reflexão Sobre os Princípios

   


   O princípio do afeto é semelhante ao princípio da liberdade: não pode ser aplicado de maneira indefinida sem que ele se contradiga. Por exemplo: se concedermos liberdades absolutas a todos, a liberdade do mais forte tende a anular a liberdade do mais fraco. Portanto o reino da liberdade absoluta é o reino da Tirania, pois a liberdade requer uma ORDEM atuando em espaços definidos que protejam a própria liberdade da degeneração em tirania. 

   Assim também é o afeto ou a paixão do amor: o afeto NÃO PODE ser distribuído de maneira liberal sem que ele se contradiga a si mesmo, já que o amor afetivo não prescinde da FIDELIDADE, pois se a FIDELIDADE - que é um elemento discriminador, excludente de outras possibilidades, sendo um FUNDAMENTO do próprio amor - faltar, então TRAÍMOS as expectativas do outro a quem nós direcionamos o nosso afeto, fazendo com que o afeto ou a paixão degenerem em ÓDIO. O amor, no fim das contas, exige posse, segurança e discriminação e LIMITAÇÃO do afeto, e não a sua expansão indefinida. 

   Outro exemplo está no tão discutido princípio da tolerância, que semelhantemente aos outros dois princípios acima não pode ser aplicado de maneira indefinida sem que ele degenere no seu contrário, pois se formos indefinidamente tolerantes com tudo o que é bizarro e baixo na conduta humana daremos vazão, em nome da tolerância, ao mal que dizemos que combatemos, criando um inferno indescritível no mundo ao qual prometemos o paraíso. Sendo assim, a paz para que seja possível requer e exige, paradoxalmente, a existência da intolerância. Na verdade a tolerância requer em sua constituição a própria intolerância para que ela seja possível, já que a própria tolerância se faz em nome de um bem por meio da recusa de um mal, por exemplo: se somos tolerantes com o criminoso de maneira indefinida, nem por isso criaremos uma bondade por nossas atitudes naquele que possui a atitude criminosa. Em nome do bem o criminoso de sofrer de nossa parte uma intolerância a fim de tolher as possibilidades da existência de algo prejudicial a todos nós. 

   São por essas coisas que podemos afirmar que para que um indivíduo possa gozar de plena liberdade ele dever manter a regra em suas condutas, refreando os seus apetites, tal como afirma Edmund Burke: "Está ordenado na constituição eterna das coisas, que homens de espírito intemperante não podem ser livres. Suas paixões forjam seus próprios grilhões”; assim como também afirma Thomas Hobbes: "A lei natural (lex naturalis) é a norma ou regra geral estabelecida que proíbe o ser humano agir de forma a destruir a sua vida, ou privar-se dos meios necessários a sua preservação", e continua: "o homem deve concordar com a renúncia a seus direitos sobre todas as coisas, contentando-se com a mesma liberdade que permite aos demais, na medida em que considerar tal decisão necessária para a manutenção da paz e de sua própria defesa. Se cada qual fizer tudo aquilo a que tem direito, reinará a guerra entre os homens", nos deixando a máxima de que nenhum princípio deve, isoladamente de outros princípios, fornecer um imperativo categórico para nortear as nossas ações. 

      Com isso podemos concluir que viver, e saber viver, é mais uma tarefa de técnica do que a aplicação lógica de um princípio isolado, pois a vida não é constituída de uma só virtude mas de várias que não possuem princípios que sejam comuns entre si, ou seja: ao homem cabe buscar um pouco de liberdade aqui, um pouco de igualdade ali e mais afeto um pouco adiante e um pouco de tolerância em algum lugar, fazendo esta última não se esquecer da justiça que sabe discriminar de maneira intolerante o bem do mal, ou seja: não se pode fazer da vida a aplicação de um desses princípios de maneira isolada sem que a própria vida não seja ela mesma destruída por tal princípio. 

Sobre as Coisas Permanentes




   A questão relacionada à concepção do que viria a ser “natural”, ou não ser “natural”, pode parti de um ponto de vista ou de outro, é lógico. No entanto, a ideia de “natural”, como a defino aqui, não é necessariamente a de natureza biológica, pois esta noção de natureza fundida com a noção de biologia é uma criação recente do empirismo. Não possui, grosso modo, quinhentos anos.

Quando digo “natural” eu recorro a uma tradição antiga que a compreende como ordem, e de uma ordem que, no mínimo, é captada pela razão humana – já ouviu falar de “luz natural da razão”?

A natureza biológica não pode definir aqui o que viria a ser “natural”, ou “racional”, pois algumas noções de ordem não são implícitas no modo de ser de natureza, pois, por exemplo, não poderíamos retirar um modelo de família a partir dos macacos bonobos, já que estes, via de regra, cometem incestos e pedofilia. Não é deste natural que eu digo. Falo, como fala Russell Kirk, da existência de um princípio de ordem, de coisas imorredouras e permanentes, ou de uma ordem moral (no sentido de morus, ou costumes) duradoura, pois, nas palavras dele, “Essa ordem é feita para o homem e o homem é feito para ela: a natureza é uma constante, e as verdades morais são permanentes” (KIRK. Política da Prudência. p. 104).

Sendo assim, tais ordens são transcendentes no curso do tempo, são maiores do que o período de uma vida humana finita, e permanecem para muito além dela. Isso não está relacionado com religião e não depende dela, já que pode ser vista como uma constante em várias culturas. Por exemplo, a ideia de família é majoritariamente imutável em diversas culturas, e pode muito bem resistir ao tempo sem necessidade de ação humana. A ideia de hierarquia de valores, a supervalorização da vida intelectual, as hierarquias de poder, são, necessariamente, coisas indestrutíveis e permanente, e por mais que se façam arranjos isso não pode se prolongar de maneira indefinida no tempo. Uma das coisas que podemos chamar de “anti-naturais”, é, por exemplo, a tentativa de supressão da singularidade, individualidade e variedade humanas por meio da tentativa de forçar uma igualdade – seja intelectual, seja de beleza humana e até econômica – por meio da política. O programa de revolução cultural na China, por exemplo, só prova como a tentativa de estabelecer uma nivelação cultural pode ser opressor e anti-humano. Esse programa se constituiu, basicamente, da tentativa de nivelar culturalmente a população chinesa, e como elevar toda a população ao nível dos gênios se mostrou impossível, logo se tomou a via mais fácil: o governo caçou de maneira sangrenta todos os gênios e opositores da revolução (sobrando apenas aqueles pertencentes ao Partido responsável por manter a igualdade – com exceção deles mesmos) para que todos fossem UNIFORMIZADOS em suas almas, por assim dizer – o que, evidentemente, não deu certo também.

É aqui que encontramos a dignidade de uma filosofia conservadora, pois ela é a única que pode tolerar a diferença concreta no mundo, já que sabe que, historicamente, a uniformidade humana é algo materialmente e absolutamente impossível. Nesse sentido podemos afirmar que a hierarquia social e a variedade é algo INTRÍNSECO e constitutivo da própria sociedade e de grupos sociais. Todas as tentativas de suprimir isto na história em nome da paz acabou em uma violência inimaginável, sendo esta violência infinitamente superior àquela que eles diziam estar combatendo. Desta forma – e pego o historiador Niall Fergusson como referência -, existem coisas que são como leis na história, e é com base neste tipo de lei (que esta acima de toda a ideologia) que podemos, tal vez, estabelecer uma ciência – e boa ciência, aliás – do homem, ou dos homens. São coisas pequenas e cotidianas que NÃO SÃO CONSTRUÍDAS. São, aliás, CONSTANTES. Por exemplo: tenho certeza que não seria possível considerar os seis últimos mandamentos do decálogo como “socialmente construídos”, pois, do contrário, tenho absoluta certeza que se levado a execução da abolição dos seis últimos mandamentos ao nível global, é óbvio que o mundo seria imergido absolutamente no Caos informe.

Afirmo de novo, isso não é religião – ainda que estejam em muitas religiões -, mas faz parte de uma ORDEM IMORREDOURA, que transcende o limite dos séculos e dos milênios, ordenando a vida e definindo espaços de liberdade para o homem – já que a própria liberdade não é um princípio em si, pois se a liberdade fosse aplicada de maneira indefinida, ela tenderia a anular-se a si mesma, já que é óbvio que a absoluta liberdade do mais forte tenderia a anular a liberdade dos mais fracos. São estas ORDENS que são captadas pela LUZ NATURAL DA RAZÃO, e aplicadas de maneira constante na HISTÓRIA HUMANA. Não existe civilização possível sem coisas assim – Freud e Claude Lévi-Straus já afirmaram que culturas sem tabus são absolutamente inexistentes e materialmente impossíveis, e com isso é possível perceber que, sim, EXISTEM LEIS que não podem ser quebradas sem o preço vermos desmoronada a base da civilização. É isso que algumas pessoas não entendem.

Existem determinados grupos ou associações humanas que desejam ser chamado de “famílias”. No entanto a única que é uma família com dignidade acima de todos os outros arranjos, e que é feito para o homem e o homem é feito para ela, é aquela onde temos pai, mãe e filhos, já que esta constituição de família só não é possível – convenhamos – na eminência de uma tragédia, tragédia esta que DEVE ser evitada. Equalizar em dignidade este tipo de família com outros arranjos é um absurdo em si mesmo, e vai contra a razão. É, também, desumano!

Por tanto eu não estou aqui falando de leis positivas, e nem de religião, mas de conjunto de elementos intrínsecos de uma ordem natural. Não é religião, já que Platão, Aristóteles, Tomás de Aquino, Thomas Hobbes, Richard Hooker, Schelling, Kant, Edmund Russerl, Erich Voegeling, Russell Kirk etc. afirmaram a existência de “coisas permanentes” se valendo da FILOSOFIA. Para mim o conhecimento destas LEIS é a única razão, por exemplo, para se estudar história, pois é a única coisa que pode justificar a seguinte frase: “Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la” – e aqui obviamente no sentido dos erros, já que repetir os acertos não é mal, não é? -, pois a História busca CONSTANTES, PRINCÍPIOS, LEIS, se não não seria possível nos valer de alguma edificação pessoal ao investigar ela, e não haveria razão para tanto, já que não retiraríamos daí nenhum bem. Sendo assim, por último, esta ORDEM é a única coisa que pode salvar e justificar a RAZÃO HUMANA, pois possibilita vermos aquilo que é e aquilo que não é, discriminando uma coisa e outra.