terça-feira, 8 de setembro de 2015

Revolução ou Gratidão


   Todas as vezes que eu ouço alguém proclamar um "novo mundo" eu fico cá a pensar em tantos outros que no passado já pensaram assim. 

   Talvez a história do "novo mundo" não seja tão nova quanto todos pensamos, mas quem fala de "novo mundo" se referindo às próprias ideias, na esmagadora maioria das vezes só deseja infundir um determinado charme a si mesmo, e não raro acaba desprezando toda a boa vontade de um passado do qual é filho.  

   É essa a soberba que acaba caracterizando aqueles que proclamam a própria originalidade, e que enxergam o passado somente como algo a ser superado, o futuro a ser unicamente construído e no presente nada a ser conservado. 

   Tal vez isto tudo reflita um pouco o pensamento de Mikhail Bakunin, que se achava tão corrompido pela sociedade que, não obstante acreditar em um futuro melhor, enxergava tudo o que existia a sua frente como algo a ser destruído, e nada a ser construído, pois não conseguia sentir reverência por nada daquilo que o cercava. 

   Pensando em tudo isso posso chegar a imaginar que a razão do ódio contido em um projeto de revolução permanente reside justamente na incapacidade que as pessoas possuem hoje em dia de sentir um pouco de reverência e gratidão. E se olharmos para qualquer canto não nos faltará motivos para reverenciar e agradecer. 

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Os Problemas e o Mundo


   Existem determinados problemas cuja atitude mais urgente que devemos ter para com eles é não lhes dar tamanha importância. Tal vez seja esta a consolação de não termos o poder de dobrar o mundo com as nossas mãos. 

   Existem preocupações que não passam do reflexo, ou da soberba interior, ou de uma total desordem na percepção das nossas forças com relação ao tamanho dos problemas do mundo. 

   Mal damos conta de arrumar o nosso quarto, ou a nossa dispensa, mas existem pessoas que acreditam ter nas mãos não de poder mudar o mundo, mas - o que é pior - de extingui-lo e de criar um outro melhor. A palavra loucura não da conta de nisso estabelecer uma definição.  


sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Um Pouco de Russell Kirk


"A atitude política e moral chamada conservadorismo não vem de um livo; de fato, algumas das pessoas mais conservadoras que conheci eram distintamente avessas a livros. As fontes da ordem conservadora não são escritos teóricos, mas, em vez disso, o costume, a convenção e a continuidade. Edmund Burke (1729 - 1797) não conseguia imaginar nada mais perverso do que a alma de um "metafísico abstrato" em política - isso é, um tolo ou um velhaco erudito que imagina poder varrer as complexas instituições de uma sociedade civilizada, penosamente desenvolvidas ao longo dos séculos de experiência histórica, para pôr-lhes no lugar algum projeto livresco de um paraíso terrestre de própria autoria. Por tanto, não existe um equivalente conservador do Das Kapital" [O Capital] de Karl Marx (1818-1889); e, se Deus quiser, nunca existirá." (KIRK, Russell. A Política da Prudência. p. 129)

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Valor e Preço


  Existem coisas que possuem valor, mas que não possuem preço. Um exemplo bem claro disso é uma história recente das relações da China com o Sudão, país que à época abrigava uma guerra civil que acabou eliminando mais de 500 mil pessoas.


   Quando um ministro chinês fora indagado sobre a razão pela qual o seu país continuava a ter relações comerciais irrestritas com o Sudão, ainda que estivesse ocorrendo uma guerra civil onde a covardia incidia por parte dos governantes naquele país, o ministro chinês simplesmente respondeu: "negócios são negócios".


   Por isso: eliminar as travas dos valores (o lócus privilegiado das religiões e dos costumes, por exemplo) é dar livre curso à revolução da morte - e isso não tem preço que pague, pois é caro demais. 

O Dogma do Pecado

   

   Algo maravilhoso da fé cristã é a sua mensagem concreta como uma pedra. Muitos podem ver o dogma cristão sobre o pecado como uma "mistificação ultrapassada", no entanto esta visão das coisas não pode se sustentar diante de um exame honesto de consciência.


   Qualquer um teria vergonha de ter os seus pensamentos publicados como um filme, e tal vergonha sinaliza um erro fundamental no homem; este é um erro que em um passado não tão distante foi maquiado com a palavra "limitação". A palavra "limitação" pode ser falsa, pois, por exemplo, podemos afirmar que somos indivíduos limitados por não podermos voar, mas ninguém diria em sã consciência que a incapacidade de voar seja um pecado. 

   A palavra pecado requer uma consideração mais profunda e mais séria, pois ela traz a tona uma ideia que não é confortável, mas nem por isso mentirosa, já que pecado é justamente o que há pior no ser humano. No fundo uma revolta, uma obstinação, uma vergonha, algo que humilha qualquer qualquer auto-imagem enganosa - o que não é, no fim das contas, agradável. 

   No entanto isto não é algo que atinge um ou outro distante, mas é partilhado de maneira, digamos, democrática. O pecado é democrático, mas também é totalitário: iguala todos a uma condição determinada, e não permite que se possa viver sem que ele não esteja à espreita. Mas é mais do que isto: está incrustado na natureza humana. 

   Se há algo pode humilhar a vaidade humana, e derrubar o trono sobre o qual fomos colocados pela nossa vaidade, não se trata das virtudes que nos unem - unem alguns poucos homens, aliás - tanto quanto os defeitos que nos perseguem, e isto é mais concreto do que o pensamento lisonjeio de que a "humanidade nasce boa", mas é corrompida pela "sociedade". O pecado é um defeito ontológico, ou, de maneira mais simples, um defeito no ser do homem.

   Como dizia G. K. Chesterton, falando sobre o dogma do pecado original, alguns poderosos podem ser imprescindíveis para a existência da sociedade como queremos e necessitamos, mas para um cristão isto nunca quis dizer que tais indivíduos poderosos fossem bons em si mesmos. Pelo contrário, o dogma do pecado é o único que pôde nos livrar do poder da tirania, já que uma desconfiança sobre a natureza humana é algo que sempre fez morada em nosso pensamento - o pensamento cristão. 

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Desespiritualização e Teocratização Paralelas: O Conservadorismo como Melhor Resposta


   O irônico é que inúmeros defensores de Teologia Política - que eles ensaiam esvaziando tudo daquilo que existe de sagrado na Teologia, fazendo uma verdadeira politização da teologia, transformando Marx em teólogo, ou mesmo a escola de Frankfurt em legisladores do Juízo Final - detestam quando, ao menos, uma pessoa confessamente religiosa - grosso modo, hoje em dia, aqueles da ala evangelical - entram no campo da política. 

   É interessante que tais indivíduos negam a existência de determinados conteúdos nas camadas mais sutis da própria consciência, ao chamar de fundamentalista o "Outro", porque, neste caso, o "Outro" não pode exercer a Teologia Política que não seja a deles próprios. 

   O problema dos "Teólogos Políticos" não é, desde a ideia da escola alemã de demitologização, nada além do que o esvaziamento teológico, fazendo, com a nova ideia de "teopolítica" que culminou nos movimentos de esperança na década de 1960 na Europa, e na Teologia da Libertação aqui na America Latina, um prosélito ao contrário: ao invés de teologizar a visão excessivamente pobre e extremamente horizontal e política do homem, para que ele possa se dedicar à aquilo que importa e que não lhe será tirado, eles politizam a teologia, transformando Igrejas e ministros religiosos em cabos eleitorais. Por último, para o lixo com a transcendência, salvação, alma, moral - pois, neste âmbito, tais conceitos são formas míticas de representar nuances psicológicas ou de intuições sobre formas sensatas de relacionamento em sociedade (não entrarei aqui no conceito errado de mito que hoje em dia contamina as mentalidades)! No entanto, tais "teólogos políticos" odeiam com ódio visceral qualquer um que procura teologizar a política fora deste tipo de espectro (já que a Teologia da Libertação é a única que possui o monopólio da ação política teologizada aqui no Brasil) - o que, de fato, é uma metástase daquela confusão de pensamento que eles próprios criaram.  

   Para deixar claro, a política está, para a vida cristã, em uma esfera distinta da esfera teológica. A teologia pode oferecer a fundamentação moral de ação do homem político, mas escapa à própria política aquilo a que o próprio cristianismo oferece: a redenção do homem. Política é serviço, no sentido mais pleno do termo, como aquilo que diz respeito aos interesses da pólis - e isto implica (como nos mostra Aristóteles em "Ética a Nicômaco") no mais alto preparo moral do homem político. Por tanto, trata-se de uma vocação de serviço, que ainda que sujeita ao agente político, guarda ela a sua própria natureza de disposição em favor da pólis - e aqui fazemos uma divisa de Weber, que distingue a ética da responsabilidade e a ética da convicção, visto ser a primeira prudente na institucionalização dos conflitos, e na mediação das diferenças sociais ou religiosas, e a segunda compreendida como ética radical, fundada em valores profundos, como valores religiosos, filosóficos etc - tal como nós absorvemos na melhor tradição política ocidental. 

   No entanto, o que deve ficar claro é isto: 1) A retórica de determinados "teólogos políticos", que, não menos radicais que determinados fundamentalistas, busca esvaziar a teologia de seu conteúdo transcendente (ou espiritual), transformando Igrejas e ministros em megafones de partido; 2) A criação de uma determinada teocratização da política, o que guarda uma identidade, em seus métodos, com o primeiro item, gerando fundamentalismos desnecessários; 3) A necessidade de recorrer ao melhor da tradição política do Ocidente que, grosso modo, não exclui a identidade - até mesmo a identidade religiosa - popular, respeitando as tradições sedimentadas ao longo dos séculos, e procura, a partir de um Estado não confessional (ou leigo), mediar conflitos, e atuar a serviço dos interesses da nação, e não de partidos, ou de utopias políticas, voltando o olhar para as necessidades concretas, e primando pelas liberdades individuais a partir de nossas próprias referências históricas e necessidades humanas. 

terça-feira, 7 de julho de 2015

O Ministério da Espada e o Serviço ao Próximo


Tem gente fera em oferecer a face para bater pela segunda vez - não a sua, mas a do outro - quando, por exemplo, se escandaliza com a existência do poder policial.

É fácil pedir paciência, tolerância, "sentimentos humanos" quando não somos nós quem sofre. É fácil pregar a "doutrina" do "oferecer a face", - o que soa como uma saída fácil para se eximir de problemas urgentes que necessitam de respostas também urgentes.

O humanismo às avessas, ao pregar a doutrina do "oferecer a face", corrompe aquilo que Cristo disse - que quando disse isso, estava a censurar a guerrilha dos Zelotes, que queria fazer frente ao poder quase invencível do Império Romano (esclarecendo, por tanto, que a prioridade era conservar a vida sua e dos seus, não praticando um "suicídio heróico" - algo que tem paralelo na exortação de Jeremias aos judeus no caso da invasão do rei da Babilônia, que era o "anti-cristo" do Antigo Testamento).

Por tanto, quando exortam a dar para bater a face pela segunda vez, parece que tais pessoas estão fazendo pouco caso de suas vidas e das vidas daqueles que estão próximos - invertendo, por tanto, o sentido concreto do Segundo Mandamento (pois necessário se faz amar o próximo contra a tirania de terceiros).

É, por tanto, justamente neste contexto do serviço ao próximo que entra a autoridade que traz o juízo ainda em vida (Rm 13.1-7), o poder policial e o poder da punição - o Poder da Espada, ou Ministério da Espada, como dizia Lutero.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Os Direitos do Ovo e o Bater das Palmas


A sabedoria que fez história e que construiu instituições sólidas, invariavelmente se valeu de uma forma de governar onde com uma mão se recompensava o que era bom, e com a outra se punia o que era mal.

No entanto o que nós vemos nos dias de hoje é que - até mesmo no que toca o assunto sobre a redução da maioridade penal - muitos pertencentes à camada pensante, em nome do "bem", deceparam a mão da punição na ilusão de que a satisfação sem a contraparte - até dolorosa - da disciplina, dos limites, pode gerar um estado de bem-estar e de bondade no ser humano.

É aqui que reside o pecado: eles ignoram deliberadamente que a repressão das pulsões sejam elas sexuais ou a repressão da ira (a pulsão da destruição) através da disciplina é o que cria o homem razoável e pronto para a vida, como dizia Edmund Burke: "Está ordenado na eterna constituição das coisas que os homens de espírito intemperante não podem ser livres. As suas paixões forjam os seus grilhões", sendo que acrescentaria, a este final, algo mais: "As suas paixões forjam os seus grilhões e os dos outros".


Mas é comum da mentalidade moderna a busca permanente do gozo, de uma vida lisa, sensual e sem atritos nenhum, o que desemboca na -irreconciliável - busca de direitos sem algum dever - uma espécie de prazer sem compromisso, que até a pouco era tido como algo contra o qual se protestava. E esta par vir ainda, se não que já é, o dia em que a irreconciliabilidade das exigências em nome do gozo e do humanismo se manifestará, por exemplo, na busca pelos "direitos do ovo", que sendo quebrado por parte da ave que lhe vem de dentro, teria os seus direitos violados em sua constituição de "ovidade", ou que, decepada uma das mãos que moldam a civilização, ainda haverá quem dela exija o barulho do bater das palmas.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

A Muralha de Jerusalém


Hoje Deus falou comigo algo que há anos vem tomando corpo em minha mente. No entanto eu não tinha uma alegoria ou metáfora a altura deste pensamento para ilustrar a ideia.

Bem, mas a ideia é o seguinte: a Muralha de Jerusalém é fruto da Lei. Peguemos as muralhas pela cultura, e a Lei pela razão que consolida a cultura. A Lei, por tanto, é o Espírito da Cultura, a fundamentação da cultura e dos "muros".

Todos sabemos que é justamente o pecado nas narrativas Bíblicas que ocasionou a destruição de Jerusalém (a cidade de Deus) - que era, grosso modo, o sinal concreto de Deus no mundo. Isto é: o espírito da loucura, da confusão, da anarquia e da transgressão - uma espécie de niilismo, por assim dizer - que promoveu a corrosão do tecido cultural de Judá - ou seja, a tendência para a transgressão da Lei de Deus -, que acabou levando para os ares aquilo que protegia a cidade em última instância: a obediência para a vontade divina.

É interessante notar que o conteúdo Bíblico não trata de coisas acessíveis por mera crença. Não é, por tanto, constituído por coisas que não se encarnam na história, encarnação esta por meio da qual experimentamos a concretude daquilo que chamamos de Palavra de Deus, pois há muito de sabedoria - que, grosso modo, é a intuição dos princípios metafísicos ou primeiros - e de moral na Escritura Sagrada, ou seja: de conteúdo prático.

Qualquer um que tenha passado os seus olhos pelos Dez mandamentos sabe que ali a única coisa que se faz é não se lidar com abstratismos, mas sim com tabus e leis por meio das quais conseguimos intuir a intenção de organização social dos Israelitas - já que a Torá (os cinco primeiros livros da Bíblia) é um verdadeiro código de leis que regulamentam as relações sociais, assim como oferece o princípio metafísico (ou espiritual) necessário para a coesão da cultura israelita, cuja veracidade foi atestada por sinais e milagres realizados em meio ao povo (já que o fundamento da verdade é exclusivamente espiritual).

Por tanto existe um conteúdo noético (ou racional) fundamental em toda a Bíblia, cujo axioma (ou o espírito fundamental) é o primeiro mandamento ("Não terás outros deuses diante de mim" Ex 20:2). E tal conteúdo noético é prontamente atestado na vida prática. Por tanto os Dez mandamentos e o restante da Escritura Sagrada constrói, por assim dizer, toda uma Muralha cultural que protege a vida do povo que aceita o Primeiro Mandamento, e que é toda constituída por tabus e princípios, e que não nos deixa cair em um niilismo (ausência de razão, sentido ou de crença na existência da verdade) que tende a devorar tudo o que existe ao ser redor - que é para onde o nosso mundo caminha, para a ausência total de referências, de sentido e de fundamento. A fé cristã, por assim dizer, fornece um fundamento, uma pedra angular com base na qual toda uma civilização pode se erguer e se manter de pé.

Contudo a secularização radical do nosso Ocidente tem lançado as sementes de um acosmismo (uma realidade destituída de ordens e princípios) cujo fim é a aniquilação - e isto com a ajuda de certos cristão e pensadores (que eu mesmo costumo chamar de "iluminados"). Mas como a natureza abomina o vácuo, sempre terá algo a substituir este vazio. Pois com a destruição destas bases civilizacionais, sempre haverá um estado de anarquia incipiente que depois será substituída por uma "ordem da força", pela empreita do mais forte e por um autoritarismo mordaz, já que a própria natureza do relativismo é, em si, absolutista (tal como ilustra a destruição de Jerusalém e a tomada dela por um ditador da Babilônia - reino este que era o centro da transgressão moral, promiscuidade, arbitrariedade, violência contra crianças, escravidão etc).

Estamos vendo tudo isto diante dos nossos olhos. E se o Ocidente é a fortaleza de Deus (a Jerusalém, por assim dizer), a sua apostasia diante de filosofias autoritárias, homicidas, escravocratas, promíscuas e libertinas é o sinal da destruição dos Santos dos Santos - de onde se espera o perdão e a misericórdia, já maltratados, por exemplo, diante da ausência de justiça no afago crescente que se faz a criminosos e a tudo o que não presta neste mundo.

Na medida em que vamos corroendo as bases daquilo que pode manter entre nós a ordem, na medida em que rompemos os nossos muros noéticos, na medida em que, mais e mais, o que é digno de respeito vai sendo nivelado ao valor daquilo que não merece dignidade, e na medida em que o Homem se coloca como medida de todas as coisas do Universo - tornando, por tanto, o próprio Universo insustentável, e oferecendo a ele uma eternidade podre (já que o fim do homem é o apodrecimento) -, vamos, mais e mais, caminhando para um doloroso e amargo fim.

O que vemos é a destruição das nossas Muralhas Culturais, com base na corrupção da nossa espiritualidade cristã que unificou o Ocidente. E como diz as pessoas normais, simples e que sacam de início as coisas: é tudo falta de Deus.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Traíram Marx

   
   Vejamos uma passagem célebre de Karl Marx sobre uma ideia permanente no movimento revolucionário com relação à família, e que hoje não pode reclamar - por um aspecto - ser uma herança legítima de todo aqueles que cobram um igualitarismo marxista em sentido estrito.

   Segue o texto:

   "Abolição da família! Até os mais radicais ficam indignados com essa infame intenção dos comunistas. 

   Sobre que fundamento repousa a família atual, a família burguesa? Sobre o capital, sobre o lucro privado. A família plenamente desenvolvida existe apenas para a burguesia; mas encontra o seu complemento na ausência forçada de família entre os proletários e na prostituição pública" (MARX, Karl. Manifesto do Partido Comunista; Ed. Martin Claret. p. 63).

   Se o argumento "traíram Marx" pode ser utilizado de maneira honesta - porque somente se utiliza este argumento para negar o Monstro criado pela filosofia comunista - hoje vemos uma real traição - no sentido pleno da palavra - aos pressupostos marxistas quando a maioria esmagadora da ala esquerdista defende a união civil de pessoas do mesmo sexo.

   Mas uma coisa é certa: o fetiche dos comunistas por tudo aquilo que é burguês permanece intacto como uma constante. Com isto podemos afirmar: nada mais burguês do que um desejo por família.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Nota Sobre a Hipocrisia


   Tem uma galera que se escandalizou porque teve um deputado que estava vendo material pornográfico durante a plenária de votação da R.P. - o que, disseram, tornava uma infâmia a própria votação e a decisão de mais de 400 deputados, assim como, de quebra, o conteúdo aprovado pela reforma. Sei, sei.

   Mas - lembro - que durante uma campanha em 2013 por parte da ala LGBT, muitos disseram - até um pastor presbiteriano do RJ chamado Marcos Amaral -, que "não se poderia aliar agenda moral e agenda política" na confecção das leis. Bem, não entrando no mérito da questão (nem mesmo a questão LGBT), vemos que não é bem assim que funciona o princípio que que rege a ação política, já que, dependendo das conveniências de cada caso, a moral entra ou não entra no jogo.

   Isto só demonstra como vivemos em um país curioso, onde alguns partidos de esquerda promovem, por exemplo, a ideia de que crianças entrem em contato com material pornográfico (didático, para pacificar o assunto) distribuído pelo próprio governo, ou a ideia sinistra que apoia que a criança possa fazer a mudança de sexo sem o consentimento dos pais - e tudo na crista de uma falaciosa filosofia de identidade de gênero -, e que, dependendo das conveniências, deita os cabelos quando alguém assiste material pornográfico em plena sessão da Câmara.

   Essa é a política abjeta que, ao longo dos anos, foi gestada no Brasil e que e contaminou as mentalidades. E é por coisas assim que vemos que, no fundo, a validade de um princípio em política não está em sua veracidade, mas sim no potencial de aproximar alguém do poder apenas pelo poder - e, por isso, aqui, a mentira ou a contradição não são meros acidentes de percurso, mas sim um método, um caminho.

Operação da Inversão



   O erro do pensamento de classes, no caso daquele que distingue o rico do pobre, é tomar tais classes como princípios morais a determinar a essência própria da pessoa pertencente a uma classe ou à outra: por exemplo: uma classe (a rica ou a pobre) é composta por indivíduos essencialmente maus e a outra é composta por indivíduos essencialmente bons.

   Tal pensamento dualista e reducionista anula o indivíduo e sua história, diluindo o mesmo em meio a generalizações fáceis e perversas. É estranho tal pensamento, já que o mesmo não difere em nada do pensamento nazista: o judeu é essencialmente mau. Aqui temos a operação da inversão, sendo o acidente (o fato de alguém ser mal ou bom - o que é uma qualidade moral adquirida derivada de escolhas históricas) colocado antes da substância (o fator humanidade do ser humano, pois subtraindo a humanidade não existem classes - e ser humano é escolher, e ele continua fazendo escolhas morais, boas ou más, independente da classe a que pertença como o judeu, rico ou o pobre).

   A partir deste ponto de vista, independente do que alguém faça ou pense, o indivíduo - pertencendo a um classe ou outra - já está, de ante mão, condenado pelo "tribunal da história" - e este "tribunal da história" é a anulação da própria História, que é a História onde seres humanos fazem escolhas boas ou más.


   É aqui que o pensamento marxista e progressista - cujos modos estão implacavelmente colados majoritariamente à imaginação do establishment universitário (e mesmo em grande parte dos acadêmicos de Teologia) - peca ferozmente.

sábado, 23 de maio de 2015

Senso Comum e Pensamento



   Confesso: chego no espaço democrático (Facebook, por exemplo) para ficar deprimido. Tenho certeza imensa de que aquele que cunhou a frase "vox populi vox Dei" (voz do povo, voz de Deus) deveria estar com uma imensa vontade de pecar, jogando o nome e a sua memória na lata do lixo da história, ou com vontade de lançar afagos para a grosseria afim de conquistar um determinado "prestígio". Penso que a transformação da vontade do "povo" - e isso não quer dizer que não se deva levar a sério o senso comum - em substância canônica só serve para duas coisas, no mínimo: 1) para diluir a inteligência, criando o reino da mediocridade; 2) para a manipulação. Isto é um fato que o bom senso me obriga a aceitar. Não tenho desejo de ser político, e isto me confere a liberdade da sinceridade - mesmo entendendo que a ocultação da verdade por parte destes seja, em um regime cujo fundamento está no "povo", não seja ausência de virtude, mas obrigatório. 

   Existem algumas coisas que devemos entender de maneira definitiva: a permanência de uma aristocracia do pensamento, no terreno da história, sempre foi a condição fundamental para a subsistência e formação da civilização, e a proteção dessa contra o barbarismo. Não é por acaso que subsiste na memória nacional dos países que deram certo - para o orgulho de seu povo - nomes ligados a grandes feitos, cujo esquecimento está profundamente relacionado à decadência dos mesmos. Entre estes nomes estão clérigos, generais e sábios. E para quem pensa que toda forma de poder é absolutamente má - fruto de uma inveja que não deixa dormir -, é estranho constatar que a maior gana destes "populistas" seja justamente o poder, do qual abusam até ao clamor dos céus. Regimes fundados em um discurso populista, ralé e anti-poder não me deixam mentir: Hitler, Stálin, Mao Tsé-Tung são as grandes testemunhas deste fato no grande tribunal da história, já que esta - como já afirmou Thomas Paine - convence mais do que a razão.

   Lendo hoje o livro de Theodore Dalrymple - uma destas luzes que a providência nos lança em meio a este mundo confuso - (com qual o meu amor - a Gabriela​ - me presenteou), vejo o quanto algumas sutilezas - que são tão fundamentais quanto o ar que respiramos - escapam ao gosto e à percepção das massas. Não as demonizo, mas penso - e por uma questão de humanidade - que por sua própria natureza o pensamento não seja o lócus permanente de sua existência, e isto por uma razão simples: a vida complexa da sociedade não deu a todos o mesmo tempo para uma tarefa mais voltada ao intelecto, já que a vida a cada um deu um papel distinto (e nem por isso menos pleno de honra). A analogia sempre atual de Paulo sobre a Igreja como um corpo, cuja saúde demanda a reta execução das funções de todos os seus membros, se aplique, também, à sociedade. A camada pensante é uma determinada parte deste corpo, mas não o seu todo. E antes de um pedante vir com a ideia de que isto é "elitismo" ou "reacionarismo" - principalmente daquela ala mais "progressista" e que com uma afetação pensa que se preocupar mais com o "povo" - é importante lembrar que grande parte de uma galera mais "aberta" aqui no Brasil tem o pensamento fincado em pressupostos cuja genealogia remonta a umas quatro ou cinco pessoas. Mais "elitismo" do que isto não me cabe na mente.

   Mas voltando a Dalrymple, lendo um ensaio seu que se encontra no livro "Nossa Cultura... Ou o que Fizemos Dela" chamado "O Criminoso Faminto", não tenho como não perceber que o juízo sobre determinados fatos não podem ser feitos sem uma rica experiência de vida acumulada por longos anos, junto a uma refinada intuição de princípios e de poder de abstração, caso contrário, como poderíamos imaginar de saída a relação existente entre a criminalidade, subnutrição e a ausência de almoço em família?    

   No ensaio Dalrymple opina sobre o fato de que a subnutrição de grande parte dos presos na Grã-Bretanha esteja associado não a ausência de alimentos, mas ao desregramento que tem início na diluição da família cuja unidade leva consigo alguns hábitos tais como o almoçar ou jantar juntos. Dalrymple afirma que em suas entrevistas com presidiários subnutridos - já que ele é um médico que atua, também, em presídios -, as confissões dos maus hábitos alimentares - eles comem bolachas e chocolates - sempre vem acompanhado de uma ausência de hábitos como o preparo do almoço ou da janta, assim como a ausência de horas específicas para comer, o que também se relaciona com a pobreza afetivas destas famílias, já que tais famílias dificilmente passam horas juntos. Esta pobreza afetiva - que se constitui como a razão fundamental da desordem - é o mal definitivo da família moderna, e penso que não é difícil perceber que a destruição da própria concepção de família esteja entre um dos males fundamentais que geram o aumento da criminalidade e da violência, já que a pobreza afetiva cria a apatia frente ao outro ser humano, relações sexuais sem compromisso, filhos sem pais, aumento da miséria e sofrimento indescritível.   
     
   Relacionando o fato de que determinadas percepções são dadas a indivíduos cujo trabalho e posição permitem ter uma visão melhor das coisas com o que eu disse sobre a aristocracia do pensamento, ou elite intelectual, é certo que isto não anula o fato de que para o mais simples dos seres humanos a experiência de que a ausência de afeto seja má é algo mais do que óbvio. O senso comum sempre capta a verdade porque esta está intimamente ligada à natureza que todos partilhamos. Há um sentimento geral de estranheza e desconfiança que não passa desapercebido pelo povo, no entanto a tarefa de dar corpo a este sentimento, transformando-o em voz ou discurso já é algo mais complicado, uma tarefa que pertence aos homens de ciência e da abstração. No entanto penso que uma das razões da existência desta elite do pensamento seja proteger a massa de uma afetada e usurpadora "elite do pensamento" mafiosa que, mais do que nunca hoje, tantos males perpetram a um povo despreparado - incluindo o brasileiro, cujo gosto, por falta de opções (incluindo a mídia e algumas novelas) ainda é fundamentalmente grosseiro. Não há como passar pelo vagalhão cultural brasileiro, cujo sentimento baixo reina soberano, ileso. Todos fomos, de um modo ou outro, lesados pela criação de símbolos culturais obtusos, frívolos e mesquinhos. E como todo evento cultural de peso, as chances de concretização no reino da história daquilo que é simbolizado é alta, já que estes símbolos fornecem os padrões de ação das pessoas que desses se alimentam, e que estão presentes nas novelas (a mola mestra do raciocínio no Brasil), músicas, livros, noticiários, rádios etc.  


   Neste sentido tudo o que precisamos não são heróis (já que os verdadeiros heróis não se pensam como tais), mas de - ainda que poucas - pessoas aplicadas, regidas pelo desejo de fazer o que é certo, não traindo os seus pares e tão pouco a si mesmos, e que busquem em seus pequenos mundos a luz que ilumina suas almas. Com isto, o compartilhar da luz e a realização da boa obra serão apenas consequências.

OBS: Na foto o símbolo do Caos