sexta-feira, 27 de julho de 2018

A Pregação e o Desejo pela Realidade Eterna


   Não dêem ouvidos aos medrosos que que em meio a lamentações nos admoestam a que não tornemos séria a situação, que não passemos de repente a utilizar balas, ao invés de só dar tiros com pólvora seca! Esta não é a voz da igreja de Deus, a que ali se faz ouvir! A seriedade da situação entre nós está em que as pessoas querem ouvir a palavra, ou seja: a resposta à pergunta, se é verdade, a qual está movendo, quer saibam, quer não. A situação no domingo pela manhã (no culto) é, no sentido mais literal da palavra, histórico-final, escatológica, também sob a perspectiva das pessoas (...); isto é, quando surge esta situação, a história, a história no mais está no fim, passando ser decisivo um anseio último da pessoa por um evento último. Se não compreendermos esta aspiração última, se não levarmos a sério as pessoas na existência aflitiva que as trouxe até nós (...), nós não devemos nos surpreender que a sua maioria, sem que se transformem em inimigos da igreja, aos poucos vai deixando a igreja de lado, vai nos deixando sozinhos como aqueles bem-intencionados e medrosos.
Karl Barth - A Palavra de Deus como Encargo da Teologia - Dádiva e Louvor. p. 53

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Instituições, Leis, os Votos, o Matrimônio e o Princípio

   O princípio é este: em tudo o que é digno de ter - mesmo nos prazeres todos - há uma porção de prazer e tédio que deve ser preservada afim de que o prazer possa renascer e perdurar. A alegria da batalha vem depois do primeiro medo da morte; a alegria de ler Virgílio vem depois do enfado de tê-lo estudado; o entusiasmo do banhista vem depois do choque inicial em face da gelada água do mar; Todos os votos, leis e contratos humanos são maneiras de sobreviver com sucesso a esse ponto de ruptura, a esse instante de rendição potencial.
   Em tudo o que vale a pena fazer há um estágio em que ninguém o faria exceto por necessidade ou por honra. É então que a instituição sustém o homem e o ajuda a prosseguir sobre um terreno mais firme. Se este sólido fato da natureza humana é suficiente para justificar a dedicação sublime do matrimônio cristão, isso já é outra questão; importa saber que ele é plenamente suficiente para justificar a corrente impressão dos homens de que o matrimônio é algo fixo e sua dissolução é uma falha ou, no mínimo, uma ignomínia.
   O elemento essencial não é tanto a duração quanto a segurança. Duas pessoas devem estar ligadas afim de fazer justiça uma à outra, seja por vinte minutos numa dança ou por vinte anos num casamento. Em ambos os casos é que, se um homem fica entendiado nos primeiros cinco minutos, ele precisa seguir adiante e forçar-se a ser feliz. A coerção é uma espécie de encorajamento, ao passo que a anarquia (e isso alguns chamam de liberdade) é essencialmente sufocante, porque essencialmente desencorajadora.
   Se todos nós flutuássemos no ar como bolhas, livres para vaguear a qualquer lugar a qualquer hora, o resultado prático disso seria que ninguém teria coragem de iniciar uma conversa. Como seria desagradável sussurrar as primeiras palavras de uma frase em tom amigável e então ter de gritar o fim dela porque a pessoa com que se estava conversando afastou-se, flutuando livre no informe éter. Um deve apoiar o outro para fazer justiça um ao outro [...]. Conheci muitos casamentos felizes, mas nunca um compatível. O objetivo do casamento é lutar e sobreviver ao instante em que a compatibilidade mostra-se incontestável. Pois um homem e uma mulher, como tais, são incompatíveis.

terça-feira, 10 de abril de 2018

A Ira Jacobina


   O preconceito do dia é que é imperativo reduzir a pó toda a classe política, exterminá-la de uma vez por todas. O conselho é antigo, e já foi descrito - não incentivado - por Maquiavel no seu " O Príncipe". No livro Maquiavel lembra que Agatócles, que se tornou rei de Siracusa, antes de se tornar governador plenipotenciário, exterminou os mais ricos e os senadores de Siracusa, podendo a partir de então exercer, sem atritos, o seu poder soberano.
   A revolução francesa, conduzida pelos jacobinos, e que se queria libertária, exterminou a aristocracia antiga e a realeza, reduzindo a pó toda possível oposição, deixando a "justa indignação" seguir livre o seu curso para decepar as cabeças (42 mil em dois anos) dos "inimigos do povo", pavimentando o caminho para nada menos do que o terror ditatorial de Napoleão, que, em poucos anos, faria tremer a Europa e o mundo inteiro, sendo contido apenas pelo rigor do inverno russo.
   A ideia de que o pedágio a ser cobrado pelo esmagamento de Lula seja a prisão e condenação de toda a elite política, é um desses preconceitos bem intencionados que serve para pavimentar o caminho até um futuro sombrio. Muita gente assim, no irrefreável desejo de demonstrar isentismo político, nem mesmo deixa para traz a estrutura legal que pode servir de baliza e fundamento para a proteção dos seus próprios direitos. É o vale-tudo do bem.
   Vale lembrar de que na razia institucional, ao se destruir os próprios fundamentos legais em nome da execução da vingança, os próprios vingadores se verão desprotegidos diante de uma futura ameaça. Robespierre, líder da Revolução Francesa, foi guilhotinado no período do terror que ele conduziu e fomentou. É aí também que a sombra napoleônica se projeta sobre o futuro dos próprios revolucionários. É como diz o ditado que caracterizou a ira jacobina e plebeia da Revolução Francesa: "a revolução devora os seus próprios filhos".

sexta-feira, 6 de abril de 2018

A Transgressão da Ordem do Ser

   Platão dizia que o Estado, ou a Pólis, era constituído por uma hierarquia de virtudes que correspondia a uma hierarquia de ocupações no Estado. Aristóteles fez uma divisão entre o bios teorétikos (filósofo da vida contemplativa) e o estadista, que para Platão deveria ser um só: o Rei Filósofo. Como Aristóteles, separei ambos.
   Essa era a ordem: 1°) A sabedoria que corresponde à existência do filósofo que julga o certo e o errado (bios teorétikos), e que contempla a Lei Natural e por isso ele é o professor natural do homem público; 2°) A fronésis ou a prudência que é a virtude do político e do homem de Estado que faz e julga as leis com isonomia, o que corresponde também à lei positivada; 3°) A andreia ou coragem que é uma virtude da classe guerreira e que se institucionaliza nas forças armadas; 4) A moderação que é natural ao homem de negócios e, de resto, à sociedade civil livre e que se mantém livre pela moderação.
   Nesse sentido, a Lei é sim necessária, não sendo o campo de ação de idealistas, mas sim daqueles que devem se servir da prudência, pois quando esta falta o que ocorre é uma fratura da ordem do ser, trazendo a catástrofe para a sociedade como um todo.
   Agir apenas com paixão, coragem e convicção, deixando de lado a moderação, a prudência e a sabedoria, é o que faz a sociedade descarrilar em direção ao caos. Mas hoje o que há é um enxame barulhento e convicto de si mesmo e que confunde o bem com aquilo que eles pensam sobre o bem.

Registro Sobre Tempos Obscuros

   Eu lembro que no ano passado um punhado de direitistas berrou quando os esquerdistas diziam "Diretas Já", pedindo a antecipação das eleições para colocar Lula no páreo. Onde os direiteens se refugiaram, desesperados? Lógico, na Constituição, a mesma que no que diz respeito à antecipação de eleições da forma que os esquerdistas queriam é impassível de emenda ou reforma, ou seja: trata-se de uma cláusula pétrea. Agora que é para jogar Lula no esgoto esse povo quer que se exploda a Constituição e as cláusulas pétreas, inventando para isso as desculpas mais incríveis como a "lei de Deus", ou que "quem faz as lei são os políticos", ou sobre "a lei que não cumpre a função de justiça" e tudo por causa de um homem... São aqueles que glorificam o Lula pelo caminho inverso... e também aqueles que quando a Constituição lhes agrada eles abraçam ela violentamente, mas quando lhes desagrada eles, com a mesma violência, a mandam para a lata do lixo... No fim, são petistas com sinal invertido, esse espírito do Assolador que nos chega através das asas da Abominação Ilógica e oportunista. São pessoas que não vale um jogo de damas, ou um acordo, que estão lá eles, na hora que convém, mudando as leis em favor de si mesmos.
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   Esse negócio de que a concessão de um HC gerará "mudanças estruturais" no Brasil, soltando pedófilos, traficantes, assassinos etc. é um negócio tão fraudulento e desonesto que tem gente que se esquece (Oh, generosidade!!! Na verdade nem sabem disso) que prisão preventiva de traficantes, pedófilos e notórios assassinos é possível até sem a existência de processos, quanto mais durante os processos. Ora, o Marcelo Odebrecht, que nem condenado foi, ficou mais de UM ANO em prisão preventiva. O Cabral, ex governador do Rio, está PRESO até agora aqui no Paraná sem estar condenado e com processo em andamento. Existem casos e casos, juízes e juízes... Pois então, concessão de HC, que é um instrumento previsto e cabível segundo determinadas condições, não pode alterar a lei - a não ser que você seja um Barroso, o ídolo dos direitistas, que legalizou, contra a lei, o aborto em qualquer circunstância até o terceiro mês - santa e jejuada ironia. Mas como esse julgamento do HC será feito pelo pleno (pelos 11 ministros), então convenhamos que isso seja impossível.
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   Essa questão do HC, se ela vingar como os direitistas querem, será o fato mais explorado pelas esquerdas no futuro. A história costuma trazer boas vinganças. Esse pessoal da esquerda chamará a coisa de perseguição das elites, perseguição contra os pobres, ou seja: a narrativa perfeita e ainda ancorada em lei... Quem criará o mito não serão os petistas ou a esquerda - na verdade eles foram os que destruíram a imagem do Lula -, quem criará o mito será esse povo que confunde justiça com rancor e com vingança descerebrada. Políticamente falando, Lula e as esquerdas não poderiam, nem nos sonhos mais idílicos, ter inimigos tão bons assim, tão generosos em não entendere práticamente nada do que fazem, trazendo ao Lula e às esquerdas vantagens não sonhadas. Esse é o pessoal que é uma mistura do mal com o atraso e pitadas de psicopatia.
   Mas não sou político, sou só um pastor com a consciência do mal que essa gente justiceira e do bem criará para o futuro
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   Um dos crimes segundo o direito nazista era a ofensa ao sentimento do povo germânico. Nada de razão, nada de princípios legais fundamentados. Sem exagerar no ponto, essa é uma das possibilidades do direito criativo que a todo momento foi ventilada por Barroso - sentimento de justiça e nada de constitucionalidade. O direito que cedeu ao apelo das ruas é o direito constitucional da gritaria e o direito penal do linchamento. É isso que esse povo histérico quer para esse país. Como diria um jornalista: "a fúria justiceira dos bons é tão perniciosa quanto a justiça seletiva dos maus'. 
   E tenho dito!!!

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   Existem determinados procedimentos baixos que a insensibilização dos tempos não permite discernir. Um deles é o "argumentum ad baculum", mais conhecido como o argumento da porretada. É o argumento que se serve da ameaça para forçar o "convencimento", ou seja: se não for com a gente, pau! É quase infalível. Se ameaça Ministro com isso, com golpe de Estado, com "intervenção militar" (como se o exército fosse ceder). Trata-se de um procedimento usado por quem não sabe perder e nem ganhar. Aqui morreu a razão, a argumentação - e os favoráveis ao HC do Lula têm excelentes argumentos -, a mediação. Entra-se aqui na fase da ruptura, da ameaça, e todos esses direitistas manifestam o melhor de si ao mundo. São com esses fundamentos que essa ralé deseja construir uma nação melhor... Parafraseando Sun Tzu, par ver o mostro basta contemplar o gérmem.

A Oferta do Diabo; Ou: A Magia Hermenêutica e o Direito

   Bem, depois de tudo é só esperar para ver o MST invadir uma propriedade e dessa confusão sair um direitista invocando ou brandindo em punhos a Constituição em defesa fervorosa dos seus "direitos inalienáveis", fundamentando o seu discurso em uma cláusula pétrea.
   Ou pior, espero a hora em que o Supremo se colocará novamente acima da Constituição com uma Súmula, dando direito ao Estado de confiscar propriedades por força de "princípios" ou por uma hermenêutica histórica qualquer dizendo tais e tais motivos de "interesse social" para autorizar a estatização de grandes empresas, desapropriação de casas e terras o quanto o Estado desejar.
   Aliás, a nossa constituição não é lá generosa com a propriedade. Mas quem se arrisca à feitiçaria jurídica, criando o direito penal do inimigo, não pode ser ingênuo o bastante para achar que reduzir o direito do outro, por mais inimigo que esse outro seja, não seja, ao mesmo tempo, reduzir o próprio direito.
   Os bucaneiros jurídicos, os piratas morais, a tribo legislativa, pensa que pode se dar o direito de assaltar o vizinho e, ao mesmo tempo, de ficar escandalizado quando o vizinho lhe devolver o favor o assaltando também. Esses são os falsos conservadores plantados nessa terra roubada e que em nada diferem dos inimigos que atacam.
   Mas Lula é apenas vítima da escola que patrocinou por achar, junto com o PT, que o direito é uma doutrina "deles", algo para favorecer as "elites" e que por isso poderia ser desprezada (desprezada com o punho esquerdo levantado, como bem mostrou José Dirceu e José Genuíno).
   Aliás, é essa redução de tudo à política que gerou esse espetáculo horrendo do qual os esquerdistas são também culpados. Ao exercitar o direito da gritaria, como por exemplo no caso do Impeachment que eles interpretam como "Golpe", cegados e surdos para a lei, os squerdistas fabricaram também o fél que agora bebem, pois enquanto se desconsidera a letra da lei, tudo fica reduzido à política, sendo a verdade apenas a verdade de quem derruba o adversário.
   O vale tudo, a desconsideração das regras, o partidarismo dogmático que cegou as pessoas à verdade, o desejo de vingança e a ausência de abertura para a consideração imparcial das coisas, a manifestação da lei como a lei do mais forte, isso não é o prenúncio do melhor dos mundos. A incapacidade de se elevar acima do dogma político é o que lançou a razão para fora do debate, submetendo tudo a um clima de trincheira.
   O diabo passou diante dos pseudoconservadores e ofereceu Lula, e lá foram eles lançar para o abismo os seus ditos princípios para caírem alegremente em tentação.

A Convenção Batista Brasileira e um Santo para Chamar de Seu

   Ah, não, alguém tem que ensinar para o pr. Roberto Silvado, o presidente da Convenção Batista Brasileira (CBB), o que é uma cláusula pétrea, e que não é jogando a Constituição no lixo que iremos fazer justiça. Prisão imediata após julgamento em segunda instância viola o princípio da presunção de inocência, já que a declaração de culpa se dá apenas após o trânsito em julgado. Senhor, quem é aquele que tem lhe soprado essas coisas nos seus ouvidos?
   Agora que a CBB tem um Dallagnol para chamar de seu - ele é um cristão Batista -, tendo a chance de brilhar de baixo da estrela do seu menudo, parece que ela perdeu um pouco da razoabilidade e do o juízo. Vou dar um livro do Edmund Burke para o pr. Silvado!!! Com Burke aprendemos que da estabilidade legal depende a paz de uma nação.
   Ah, mas quem é que pode contraditar quem está lutando pelo bem, não é mesmo? O Dallagnol tornou-se a divisa entre os bodes e os cordeiros, entre os bons e os maus, entre os justos e os injustos... Cadê o trono branco de isopor? Vamos logo ser julgados pelo apocalipse de Curitiba... Sim, a Lava-Jato tem as suas virtudes, mas ela tem, evidentemente, os seus erros, como o Dallagnol os tem.
   Cometo, agora, um sacrilégio? Não tenho esse santo para chamar de meu. Aliás, que santo caro: quando se propôs a reforma da previdência que iria cortar privilégios do setor público, por exemplo a aposentadoria integral de juízes e procuradores, ele foi contra - porque o seu privilégio estava em jogo. O mesmo se deu com o auxílio-moradia de 4 mil concedido por liminar a mais de 25 mil agentes (grupo que ganha um salário de mais de 20 mil, incluindo ele), e que ele nunca se manifestou contra, o santo ilibado que agora jejua por uma prisão dúbia - o coroamento do seu próprio trabalho.
   Contudo Lula se tornou um troféu, tanto para a irracionalidade de direitistas quanto para a irracionalidade de esquerdistas. Mas quanto se dá esse tipo de triangulação do desejo (leiam a antropologia de René Girard), quando grupos antagônicos se esmurram pelo mesmo troféu, se valendo até dos mesmos meios, no caso em questão a transgressão da lei (e daí o nome "teoria mimética" a esta antropologia), a primeira coisa que se aniquila é a razão, e é o totem bagunceiro (no caso o Lula), que tende a ser santificado no fim das contas, como o coroamento da irracionalidade da massa.
   Estou falando da razão corporificada nas leis não porque a lei é a razão-em-si, mas porque em nosso meio ela cumpre a função sociológica de mediação dos conflitos como a representante e manifestação da própria razão. Não estamos em um contexto de colapso institucional para passar por cima da lei com desprezo, embora o colapso esteja sendo invocado com essa confusão toda.
   Que fique claro: não servirá aos mais fracos ou aos injustiçados o enfraquecimento da lei, e já esse desvanecimento dela é um sinal de torpor do juízo e também do fortalecimento da justiça conduzida pelo arbítrio, algo que tende a privilegiar apenas o mais forte. O mundo não é tão simples como parece e, como dizia a minha avó, nem tudo o que reluz é ouro. Existem camadas de significado mais profundas que não devemos negligenciar sob pena de trazer prejuízos para nós. Mas é isso o que tem ocorrido nessa luta infantil do suposto bem contra o mal, luta essa que tem cegado muita gente, de resto correta e honesta em seu proceder, como o pr. Roberto Silvado.

sexta-feira, 23 de março de 2018

O Brasil entre Leviatã e Behemoth

Os símbolos podem esclarecer a história. Isso ocorre porque tanto símbolos como mitos são transcrições da própria natureza, ou, como diria Schelling, o autodesvelamento histórico do Absoluto ao homem. Hoje, Behemoth e Leviatã, os monstros do livro de Jó, estão em guerra e, ao mesmo tempo, estreitados em um abraço insano. É incrível que alguém, a essa altura, ainda lute por meio do exercício da força ou da persuasão rasteira contra as instância cuja finalidade é tornar a vida menos cruel e bárbara, ou seja, a Lei.
No Brasil existe algo sui generis: o direito constitucional da gritaria. Quem levanta a voz mais alto leva o prêmio. E que prêmio? Lula. Os esquerdistas mais fanáticos afirmam: "eleição sem Lula é fraude", ou que "o povo provou a inocência do Lula por meio dos votos", como se urna absolvesse ou condenasse alguém. Os direitistas, por sua vez, salivam querendo caçar Lula de qualquer jeito, entendendo que a finalidade da justiça é encarcerá-lo. Entre uma briga e outra, essa triangulação do desejo desemboca em uma coisa só: a ruína da Lei, a instância da razão a arbitrar os nossos conflitos.
A transformação do desejo de um lugar melhor ou de justiça em ódio e caça é a célebre transmutação a que está sujeita todo bom desejo não dirigido - e no fim das contas nem tão bom desejo assim. O tempo tende a trazer à luz a verdade das coisas e hoje vemos onde pode dar esse embate em que o esclarecimento só está sendo deixado para o fim do processo, para quando o céu já estiver desabado. A Lei, a instância que pode arbitrar conflitos, é vista como um empecilho para a justiça. Contudo, quando não temos por árbitro a Lei, a instância superior passa ser a força, a luta de todos contra todos onde só o mais forte pode se impor.
Mas a situação não foi criada do dia para noite, e para isso temos vários culpados: os esquerdistas capitaneados pelo PT que, na esteira do pensamento da esquerda radical entendem a lei como uma mera formalidade burguesa e que ainda que contenha uma necessidade para a ordem, acaba por produzir outra necessidade que é a da sua superação para a implementação da verdadeira justiça; os direitistas anti-liberais que acabam por enxergar a lei e as instituições como um impeditivo para a justiça, devendo essas irem ao chão (o STF, o Parlamento e o Executivo); o Ministério Público que no afã de fazer justiça vai à caça de políticos cometendo uma penca de ilegalidades, pois para gente como o Dallagnol, a lei dificulta o fazer justiça (é possível ver isso em suas reivindicações absurdas nas 10 Medidas); o juiz que condena com provas fracas (como o Moro) e o STF, que na pessoa de alguns ministros (Barroso - o petista anti-petista -, Fux - que queria beijar os pés da mulher do Sérgio Cabral - e Fachin - o maluco do MST) - estão atendem ao direito constitucional da gritaria e da agenda mais progressista da casa, mas que incrivelmente, estão sendo adorados pelos ditos conservadores - oh, santa e macabra ironia.
O incrível é perceber o quanto todo mundo só quer o "bem", a "justiça" e o "melhor para todos nós". Chegou a hora de paramos de pensar nesse "melhor" para pensarmos naquilo que é certo. E o desejo de caça ao Lula ou do livramento incondicional do mesmo são os extremos de quem não está dando ouvidos à razão. Não devemos ser adeptos do "meio termo" como se ele fosse um absoluto correto, pois isso é um clichê irracional. A questão é que os dois lados, nessa questão, possuem erros, como os já citados. Mas o dogmatismo partidário e surtado desse pessoal que não consegue furar a bolha da opinião e chegar à razão é o que ainda acabará por nos levar para a vala comum.
Minha oração é essa: que Deus nos ajude.
P.S: Os leitores do Olavo de Carvalho saberão exatamente do que estou falando quando uso o símbolo desta figura que retrata Deus, Leviatã e Behemoth.

Feitiçaria Política

   Esse negócio de manifestação pela prisão do Lula é coisa de gente insana. A droga que alguns discípulos do Olavo de Carvalho estão produzindo com a sua militância é um negócio boçal - e até indo contra algumas coisas que o próprio Olavo disse.
   Eu aprendi com o Olavo que as nações mais prósperas são aquelas que possuem estabilidade constitucional. Só que é o seguinte: ao mesmo tempo, o Olavo, infelizmente, decidiu incitar o inferno com a ideia de que o estamento burocrático tem que cair. Veio até um barrilzinho iluminado, e barbudo, dizendo que o STF deveria ser fechado. Que coisa linda!
   Essa galera está flertando com o capeta - e quando o invocam, ele vem. Não entram na discussão sobre o porquê da liminar e o porquê do habeas corpus - pois não são capazes disso. Essa galera imita os próprios revolucionários que ela tanto condena e vê apenas nos outros. Esse é o extremo-lixo que produz o ódio que se transforma em caça.
   O problema do petismo é que, na esteira do pensamento marxista, ele transgride a lei para fazer aquilo que pensa ser justiça - o Mensalão foi isso. Mas essa galera faz o mesmo: quer afundar a lei e até - santo Deus! - o habeas corpus para jogar o Lula na cadeia.
   Mas eis aqui a ironia para a qual esse pessoal deve atentar: o Lula hoje é vítima de uma escola que ele mesmo patrocinou (a ideia de que se deve transgredir a lei para fazer justiça); e com esses direitistas pode ocorrer o mesmo, pois quando se despreza a lei não se despreza ela apenas contra o desafeto, o outro, mas também contra si mesmo.
Enfim, essa gente não está pensando, está trabalhando com feitiçaria política.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Execução sob a DIalética das Trevas

   A morte da vereadora Marielle Franco do Rio tem todos os traços de execução, de barbarismo e de covardia. Contudo, a insensibilidade de fazer uma ideologia triunfar sobre o seu sangue é o que de mais grotesco pode haver para Marielle, pois o que se tenta neste caso não é resolver e esclarecer o assassinato, mas fabricar às pressas um símbolo artificial para lufar uma ideologia, dando azo à gritaria fanática que confunde a realidade com aquilo que se pensa dela.
   Não se faz justiça a Marielle com a gritaria. Ela pode sim ter morrido justamente por ser mulher, por ser contra a intervenção federal no Rio, por ser negra e militante dos direitos humanos segundo a interpretação do espírito do tempo. Contudo poucos pensaram ser ela, por essas coisas, um alvo ideal do próprio tráfico que poderia ter enxergado na morte dela esse potencial explosivo para fazer tremer a confiabilidade na própria intervenção.
   É horroroso ver alguém se assentar sobre a memória de Marielle de saída para fazer respingar o crime cometido contra ela sobre o exército e sobre a polícia. Isso é, por um lado, amadorismo de pensamento e por outro má fé grotesca - e mesmo se alguns policiais forem os responsáveis, quem diz que a polícia aliada ao tráfico no Rio não pode enxergar nisso um bem para si mesma? A deslegitimação da intervenção é o que pode ter tornado Marielle um alvo preferencial para os traficantes levantarem sobre a morte dela um símbolo de resistência contra a intervenção e a ação policial.


   Mas isso que é uma hipótese, é dialética demais para um cérebro desvitaminado que é, por isso mesmo, instrumento útil para quem quiser levar adiante uma guerra que hoje se trava também na mente das pessoas. Se a intervenção cair em descrédito - ou perder o seu eros -, então o tráfico terá triunfado sobre o corpo de uma militante oferecida em sacrifício ao demônio da desinformação. Precisamos de mais ceticismo em um país de crédulos que gritam ao primeiro estímulo. Mais atrapalha do que ajuda aquele que confunde sua paixão com a justiça ela mesma.

A Verdade do Espírito entre o Realismo e o Idealismo

Não temos uma experiência de outros mundos, temos, apenas, a experiência do nosso mundo e da realidade que nos pressiona por todos os lados a partir de onde nos encontramos. A verdade do realismo consiste na constatação que fazemos do impacto exterior da realidade na qual nos encontramos comprimidos. Contudo essa realidade seria demasiadamente pobre e também tirânica se o mundo se resumisse a esse impacto. A desolação geral do mundo e da inteligência, o caos político e também religioso, o fixismo sufocante que reduz todo a uma necessidade inexorável seria, no fim, o mesmo que um não viver se essa realidade não fosse contraposta ao idealismo que nos mostra o mundo não tal como ele é, mas sim tal como deveria ser.
A formidável capacidade que o homem tem de se elevar em seu espírito acima da realidade dada - do ser aí - e configurá-la à imagem do seu pensamento - ou realizar a aproximação entre o mundo e o pensamento - constitui a grandeza do homem. A virtude espiritual do homem consiste em não permanecer simplesmente ao que é dado, mas também em transformá-lo e, ao mesmo tempo, em saber quando é necessário deixá-lo ao seu ser-aí, ou deixá-lo tal como ele se encontra. Dialeticamente podemos afirmar que o transformar algo e o deixá-lo em seu estado fazem parte da própria transformação do algo, são momentos do mesmo e único processo, já que a transformação vai até um ponto em que não se avança, pois continuar avançando em uma transformação é diluir o objeto no nada, já que nunca se chega a uma forma determinada prosseguindo infinitamente. A forma final, ou a Ideia, é o fundamento da ação espiritual do homem no mundo pois permite ao homem mediar a Ideia para o mundo, dando à Ideia a concreticidade absoluta.
A tensão experimentada no homem entre a mudança e a permanência é aquilo que faz a consciência ser o que é e a síntese entre a mudança e a permanência é o que constitui o próprio Espírito e o Absoluto Fundamento de tudo. O homem é, por tanto, essa tensão entre o mundo e a Ideia, é, por tanto, o espírito que é contrário ao fixismo ou o dinamismo excluídos um do outro. Aqui se revela o espírito concreto e também a dinâmica própria da existência humana em todas as suas esferas de interesse, seja a esfera ética, política, artística, cultural ou religiosa. Essa constituição ontológica reclama a sua vigência em todos os domínios ônticos da vida, pois o ontológico, segundo as relações dialéticas entre os dois bastões basilares do espírito que são a forma e dinâmica, liberdade e necessidade, está presente em tudo, pois o ser é tudo, e segundo as medidas dos bastões dialéticos constitui a qualidade das coisas no nível ôntico. Por exemplo: na pedra a forma é mais predominante do que a dinâmica, ainda que ali a dinâmica não deixe de estar presente; na água a dinâmica predomina sobre a forma, ainda que a forma não deixe de estar presente também.
É próprio da consciência humano captar essas constituição das coisas por via da experiência contemplativa e, por isso, agir sobre elas. A consciência humana fica suspensa entre o céu e a terra e é na personalidade que são efetivados os valores e medidas através das quais se age no mundo, o que confere ao mundo uma mutabilidade, ao mesmo tempo que também se vê aqui o mundo como receptáculo e recipiente da Ideia, tendo a natureza a sua própria dignidade e constituição, sendo possível a contemplação do homem. Contemplação e ação dos homens em relação às coisas e em determinadas culturas a ação prevalece sobre a contemplação (como em culturas protestantes) e a contemplação prevalece sobre a ação (como em culturas predominantemente católicas). Mas nem em culturas protestantes a contemplação está ausente e nem mesmo a ação está ausente em culturas católicas. O médium entre contemplação e ação é aquilo que consiste no equilíbrio efetivo do espírito. A ação protestante é satânica se coloca o mundo num mal infinito de mudanças sem fim (e essa é a doença da modernidade), assim como a ação católica é satânica se se prende a um fixismo sufocante que comprime o espírito com blocos de realismo diante das quais o indivíduo desaparece e o espírito se apaga.

sábado, 10 de março de 2018

Herbert Marcuse, Sexualidade e Desordem

   Herbert Marcuse é uma espécie de Balaão redivivus, um charlatão sofisticado e poderoso que com o seu sofisma elegante atrai pessoas que se satisfazem com uma aparência de profundidade e complexidade, mas que desprezam aquilo que poderia orientá-las no mundo. Para essas o diletantismo corruptor de Marcuse é um baquete farto e pernicioso, como os doces bocados que penetram no mais profundo do ventre.
   A teoria "filosófica" de Marcuse era de que a continência sexual dos países altamente industrializados (e ele tem em mente, principalmente os EUA) influenciados pela moral puritana dos protestantes, os tornavam violentos. Então, conclui ele, a continência sexual leva a um comportamento rigoroso que recalca as energias psíquicas e por isso, tal como na teoria hidráulica, essa energia recalcada provoca irrupções e rupturas em outros pontos, no caso em questão em guerras, no desejo de domínio e na destruição industrial dos países avançados.
   Diante desse mal conclui Marcuse que a cura é a liberação das energias eróticas contidas. Se essa contenção era necessária no estágio mais primitivo da sociedade, onde a energia psíquica era canalizada para a força de trabalho, já nas sociedades avançadas a liberação das energias sexuais é uma questão de sobrevivência. A sacanagem geral proposta por Marcuse é a pedra de tropeço ou a trapaça para fazer o burguês que ama ser iludido pela moda do dia virar pó diante de gente mais esperta do que ele.
   Marcuse é o pai ideológico de várias anomalias que vem nos corroendo desde a década de 60. Foi dele o respaldo ao movimento Hippie, que tinha como seu mote durante a Guerra do Vietnã o "faça amor, não faça guerra". Também é nele que encontramos o fundamento das ideias que compreendem a teoria "Queer", a liberação sexual, a liberação das drogas e o apoio de qualquer excentricidade como uma tábua de salvação contra a "moral burguesa" ou contra a "moral cristã", de onde - dizem eles - vem todo mal do mundo moderno que substitui o princípio do prazer pelo princípio da realidade - como se ninguém no contexto do sexo livre tivesse matado por ciúme e como se a liberação sexual ou das drogas não fosse um fator de desordens e desintegração da personalidade e das relações humanas.
   Vale lembrar que Herbert Marcuse, que residia nos EUA, era aliado do Partido Comunista em plena Guerra Fria. Isso me faz lembrar da história bíblica de Balaão, o profeta que deu conselhos para que o rei Balaque enviasse prostitutas para o arraial dos israelitas para corrompe-los, já que não podia lidar com o seu poderio militar - o que quase causou a ruína dos israelitas. Por isso, para quem quer se orientar no mundo, Marcuse não passa de uma trapassa ou de um lançador de armadilhas aos inimigos.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Deus e a Ciência

 
A fundamentação da ciência moderna - como já afirmada por muita gente - tem a sua pedra angular no monoteísmo - ou o seu repouso necessário - e, em especial, em sua afirmação da onisciência divina. Afirmamos o conhecimento de tudo por parte de Deus e, consequentemente, como que em um refluxo dialético, que tudo pode ser conhecido, o que implica a existência de uma razão estrutural em todas as coisas a partir da qual, e somente a partir da qual, o conhecimento é possível.
   A fé da ciência moderna na possibilidade do conhecimento se aplica apenas a uma parcela mínima da realidade, ao aspecto fenomênico da natureza, ao que se revela a nós pelos sentidos, enquanto expulsa a realidade do espírito, entre outras realidades, do seu universo de compreensão.
   Contudo a própria razão humana não pode ser compreendida como uma derivação de arranjos químicos e muito menos se pode compreender como é que antes do desenvolvimento da ciência o homem tinha fé na sua concreção, antecipando a realidade da ciência em sua própria mente.
   Teríamos que chegar ao absurdo escandaloso para um cientista de imaginar uma pedra vidente, ou um conjunto de átomos entrando em conselho sobre o futuro da humanidade e do universo, ou um escândalo para a razão de imaginar um caos amorfo inicial tomando por acaso a forma de uma complexa estrutura de DNA sem uma razão estrutural anterior a tudo a ser obedecida - do caos não pode vir a ordem.
   Nada é ao acaso e tudo o que é possível, tanto para o homem como para a natureza, já era conhecido no próprio interior de Deus eternamente, ou ainda antes da fundação do mundo, ou em sua razão, o seu Logos e Verbo (nome que é dado pelo apóstolo João a Jesus no início do Quarto Evangelho e que em grego significa razão estrutural ou estrutura da realidade). Aqui está o verdadeiro e único fundamento de qualquer ciência que se nomeie no presente e que se pode nomear no futuro.