quarta-feira, 5 de agosto de 2020

O Evangelho do Reino de Deus

   Nenhuma parte da obra de Cristo deve ser tratada de modo estanque, já que ela só pode ser justamente visualizada como todo no qual Deus executa a sua obra de redenção. Não devemos unilateralizar o Evangelho em "razões centrais" que ofusquem essa visualização do todo; não devemos unilateralizar a verdade do Evangelho no ministério terreno de Jesus (liberais), ou no sacrifício expiatório (evangelicais) e nem mesmo na sua ressurreição (os exorcistas da tradição).

   Se levarmos em consideração a obra de Cristo, da consideração da sua unidade depende a reta percepção do que é, no hoje, ser Igreja. Pois o proceder do daqueles pertencentes ao reino pela fé Cristo, cuja possibilidade é para nós aberta pela encarnação, morte e ressurreição de Cristo, na adoção de Filhos, é a possibilidade também da renovação da face da Terra. Todo ensino cristão que não une a adoção ao discipulado e idso à missão da Igreja está dando voltas e não entendendo o propósito para o qual somos chamados por Deus.

   A boa notícia, portanto, o Evangelho, não é apenas o Evangelho da Salvação, mas é o Evangelho do Reino de Deus, não de um reino abstrato a ser desfrutado após à morte, mas sim o Evangelho de um Reino onde é possível vermos os céus se abrindo sobre a Terra e trazendo para nós razões de esperança, assim como trazendo a manifestação dos filhos de Deus no interior de uma criação que geme ansiosa pela manifestação desses mesmos filhos de Deus.

Restituição pela Culpa

   É elucidativo o fato de que Deus, no sistema sacrificial do Antigo Testamento, exigia, além do arrependimento e confissão dos pecados, a reparação devida para a remoção da culpa. Não se tratava de um "simples perdão" sem a devida satisfação, já que a partir do sistema sacrificial de Israel não havia perdão sem sacrifício expiatório (Levítico 5:15,16).

   Por outro lado não se tratava de um rito de simples "purificação da impureza ritual", levando em consideração que , no que diz respeito à culpa do homem, a "impureza ritual" é mancha do pecado e, em virtude disso, o próprio pecado. É certo, portanto, que não há remoção de culpa por simples arrependimento sem a devida expiação. É como diz o texto de Números:

   "Dize aos filhos de Israel: Quando homem ou mulher fizer algum de todos os pecados humanos, transgredindo contra o Senhor, tal alma culpada é. E confessará o seu pecado que cometeu; pela sua culpa, fará plena restituição, segundo a soma total, e lhe acrescentará a sua quinta parte, e a dará àquele contra quem se fez culpado. Mas, se aquele homem não tiver resgatador, a quem se restitua a culpa, então a culpa a que se restituir ao Senhor será de responsabilidade do sacerdote, além do carneiro da expiação pelo qual por ele se fará expiação" (Números 5:6-8).

   É nesse sentido que Cristo é o resgate, a restituição pelos nossos pecados mediante a satisfação das exigências da lei de Deus para a remoção da culpa. Impossibilitados como somos de fazer a devida satisfação - à semelhança do que que vai no vs. 8 -, Cristo é, como o nosso sacerdote, aquele que nos substituiu na responsabilidade de realizar a satisfação e a restituição da culpa, o que fez plenamente pelo seu sacrifício na Cruz, levando em si mesmo a pena devida aos nossos pecados, após o qual recebemos o pleno perdão.

Creia e Terás Comido1

   Pois ele lhes disse: " Trabalhe não pelo alimento que perece, mas pelo alimento que resta para a vida eterna", disseram-lhe eles: O que faremos para realizar as obras de Deus? O que faremos?, eles perguntaram. Seremos capazes de cumprir esse preceito, observando o que? Jesus respondeu e disse-lhes: Esta é a obra de Deus: que você acredite em quem ele enviou. Isto é, então, comer alimentos que não perecem, mas que permanecem para a vida eterna . Para que você prepara os dentes e a barriga? Creia e terá comido.


__________
1] AGOSTINHO - Tratados sobre o Evangelho de João. Trat. XXV.XII

Agostinho e a Via Negativa de Ascensão do Espírito a Deus; Ou: Deixe Tudo para Trás e Vá a Deus1

   Ele busca a separação no Pai e no Filho; você não consegue encontrar. Mas, se você subiu ao alto, não pode encontrá-lo; se você tocou algo acima de sua mente, então não pode encontrá-lo, porque, se você alterna entre o que em seu espírito errado é forjado, você fala com suas fantasias, não com a Palavra de Deus; suas fantasias enganam você. Transcenda o corpo e concentre-se no espírito; também transcende o espírito e se concentra em Deus. Você não toca em Deus se você também não transcende o espírito. Quanto menos você tocará se permanecer na carne? Aqueles que, portanto, se concentram na carne, a que distância estão de saborear o que Deus é, porque não estariam lá, mesmo que se concentrassem no espírito! O homem está longe de Deus quando entende carnalmente; e há uma grande diferença entre a carne e a alma; mas há mais diferença entre o espírito e Deus. Se você estiver com disposição, você está no meio: se você olhar para baixo, existe o corpo; se você olhar para cima, há Deus. Eleve-se acima do seu corpo e deixe até você para trás. Veja, com efeito, o que um salmo disse e você aprenderá como Deus é amado: As lágrimas, afirma ele, tornaram-se alimento dia e noite, enquanto diariamente me dizem: "Onde está o seu Deus?". Como se os pagãos dissessem: "Aqui estão nossos deuses; onde está seu deus?". Eles, com efeito, mostram o que é visto; adoramos o que não é visto. E para quem mostrar? O homem que não tem como vê-lo? Porque, se eles certamente vêem seus deuses com os olhos, também temos outros olhos para ver nosso Deus. Nosso Deus tem para purificar aqueles olhos de modo que vemos o nosso Deus, porque Felizes são aqueles com um coração limpo, porque aqueles verão a Deus. Como, então, ele teria dito que fica perturbado quando todos os dias lhe dizem: "Onde está o seu Deus?" E declara: "Lembrei-me disso: me dizem diariamente "Onde está o seu Deus?" e, como se quisesse captar o seu Deus, ele afirma: Lembrei-me disso e derramei a minha alma. Então, para sentir meu Deus, sobre quem me disseram: "Onde está o seu Deus?" Não derramei a minha alma na minha carne, mas em mim; Eu transcendi para tocá-lo, porque acima de mim está quem me fez; ninguém o sente, apenas quem se transcende.

    Pense no corpo: é mortal, é terreno, é frágil, é corruptível: jogue-o fora. Mas talvez a carne seja temporária? Pense em outros corpos, pense nos corpos celestes: eles são maiores, melhores, refulgentes; observe-os também; eles giram de leste para oeste, não são fixos; são vistos com os olhos, não apenas pelo homem, mas também pelo gado; Deixe-os para trás também. Mas como eu deixo os corpos celestes para trás, você pergunta, quando eu ando na terra? Você os deixa para trás não com a carne, mas com a mente. Jogue-os fora também! Embora brilhem, são corpos; embora brilhem do céu, são corpos. Venha, porque talvez você suponha que não tem para onde ir quando contempla tudo isso. Mas para onde vou, você pergunta, além desses corpos celestes, e o que devo deixar para trás através da mente? Você já contemplou tudo isso? Eu contemplei isso, você responde. Com o que você o contemplou? Este contemplativo aparece.

    De fato, o próprio contemplativo de tudo isso, aquele que discerne, distingue e de alguma forma o pesa no equilíbrio da sabedoria, é o espírito. Sem dúvida, melhor do que tudo o que você pensou é o espírito com o qual você pensou sobre tudo isso. O espírito, então, é espírito, não corpo; Deixe para trás também! Para que você possa ver para onde ir, compare primeiro o clima; Compare com a carne. Sem mencionar que você não se compara a compará-lo. Compare-o com o brilho do sol, da lua, das estrelas: maior é o brilho da alma. Veja primeiro a velocidade do próprio humor. Veja se a centelha da mente pensante não é mais veemente que o esplendor do sol brilhante. Com o espírito, você vê o sol nascer; seu movimento, quão lento é comparado ao seu humor! Em breve você poderá pensar no que o sol fará. Virá de leste a oeste, amanhã sairá do outro lado. Embora seu pensamento tenha feito isso, ainda é tarde, mas você passou por tudo. Uma grande coisa, então, é o espírito! Mas como eu digo "é"? Deixe-o também para trás, porque também o espírito, embora seja melhor que qualquer corpo, é mutável. Ora sabe, ora não sabe; agora esqueça, agora lembre-se; agora ela quer, agora ela não quer; agora ele peca, agora ele é justo. Portanto, deixe toda mutabilidade para trás; não apenas tudo o que é visto, mas também tudo o que se move. De fato, você deixou a carne para trás, o que vê; você deixou para trás o céu, o sol, a lua e as estrelas que são vistas; Deixe para trás tudo o que se move! De fato, tendo deixado essas coisas para trás, você veio à sua mente; mas também lá você encontrou a mutabilidade do seu espírito. Deus é mutável? Então, deixe sua mente para trás também. Despeje sua alma em você para alcançar Deus. Onde está seu deus?

    Não suponha que você deva fazer algo que o homem não pode. O próprio evangelista João fez isso. Ele transcendeu a carne, transcendeu a terra que pisou, transcendeu os mares que viu, transcendeu o ar onde os pássaros flutuam, transcendeu o sol, transcendeu o sol, transcendeu a lua, transcendeu as estrelas, transcendeu todos os espíritos que não são vistos; Ele transcendeu sua mente com a própria razão de seu encorajamento. Depois de transcender tudo isso, derramando sua alma, onde ele chegou? O que ele viu? No princípio havia a Palavra, e a Palavra existia em Deus. Se, então, na luz que você não vê separação, que separação você procura no trabalho? Olhe para Deus, olhe para a Sua Palavra para aderir àquele que através da Palavra fala, porque ele mesmo, quando fala, não fala com sílabas, mas brilha com o esplendor da sabedoria, isto é, "O que se diz de sua sabedoria?" É o esplendor da luz eterna. Observe o esplendor do sol. Está no céu e espalha esplendor por todas as terras, por todos os mares. E é, sim, luz corporal. Se você separar o esplendor do sol do sol, separe a Palavra do Pai. Eu falo do sol. Uma leve chama fraca de uma lâmpada, que pode ser extinta com um golpe, difunde sua luz sobre tudo o que a subjaz. Você vê a luz gerada pela chama, você vê a emissão, você não vê a separação. Entendam, portanto, queridos irmãos e irmãs, que o Pai, o Filho e o Espírito Santo aderem inseparavelmente um ao outro, que esta Trindade é um Deus, e que todas as obras do Deus único, estas são do Pai, estas são do Filho, estes são do Espírito Santo.

______________________________________________________________

1] AGOSTINHO - Tratados Sobre o Evangelho de João. Trat. XX.XVII,XVIII

A Contemplação do Bem

   Um erro comum que muitas pessoas cometem na caminhada espiritual é atentar demais para a maldade das coisas e, por conseguinte, se impressionar excessivamente com a força do mal.

   E isso não significa que devemos ser insensíveis ao mal ou que não podemos ficar chocados com certos atos de maldade no mundo. Mas a questão é que o mal possui um elemento sutil de sedução que acaba sendo em sua própria natureza algo desviante.

   O que é preciso reafirmar é que devemos ser, antes de mais nada, maravilhados pelo bem e cultores da bondade absoluta. Manter os olhos fixos na luz divina, tendo a nossa mente banhada em seu bem, é obviamente algo mais proveito para todos nós.

   Manter os olhos fixos na luz eterna não é fugir do mundo, antes trata-se do ato que nos possibilita enxergar o mundo, e tudo aquilo que nele há, na totalidade da sua verdade.

Orígenes (185-254 d.C.) o Aniconista

   Se ele [Celso] julga certo que eles jamais tiveram valor por sua categoria ou número, pois não se encontra qualquer alusão à história dos judeus entre os gregos, eu responderei: se atentarmos para o seu regime inicial e as disposições de suas leis, veremos que foram homens que apresentavam na terra uma sobra da vida celeste. Entre eles, não havia nenhum outro deus a não ser o Deus supremo; nenhum artífice de imagem que tivesse direito de cidadania. Nenhum pintor, nenhum escultor tinha espaço em seu Estado, pois a lei bania todos os artífices desse gênero para eliminar qualquer ideia de fazer estátuas, prática que atrai os simples e desvia os olhos da alma para longe de Deus na direção da terra. Havia, pois, entre eles esta lei: "Não vos pervertais, fazendo para vós uma imagem esculpida em forma de um ídolo: uma figura de homem ou de mulher, figura de algum animal terrestre, de algum pássaro que voa no céu, de algum réptil que rasteja sobre o solo, ou figura de algum peixe que há nas águas que estão sob a terra" (Dt 4:16-18). A intenção da lei era encarar a realidade de cada ser, impedindo que fossem modeladas fora da verdade imagem que mentiam a respeito da verdade do homem e da realidade da mulher, da natureza, dos pássaros, dos animais, do gênero dos pássaros, dos répteis, dos peixes. E o motivo era venerável e sublime: "Levantando os olhos o céu e vendo o sol, a lua, as estrelas e todo o exército do céu, não te deixes seduzi-los para adorá-los ou servi-los!" (Dt 4:19)

________________

1] Orígenes - Contra Celso. Paulus, Lib.IV.XXXI. p.307

Obs: A concepção de "Estado Judaico Inicial" - isto é, antes da degradação da nação - de Orígenes quanto aos escultores e pintores está proporcionada à justificação do banimento de escultores, pintores e poetas da República de Platão (601-603b.), já que esses se aplicam àquilo que é o terceiro em relação à verdade. É como Platão diz: "Então concerne esse tipo de imitação a algo que é o terceiro a partir da verdade, ou não é?" (602c), ou: "Isso, então, era sobre o que eu queria encontrar um consenso quando afirmei que a pintura e a imitação como um todo produzem obras que estão distantes da verdade, ou seja, que a imitação realmente se associa a um elemento [inferior] da nossa alma que se distancia da razão [parte superior da alma], e que o resultado desse relacionamento e amizade não é nem saudável, nem verdadeiro." (603a,b) - Platão - A República. Edipro. Lib.X p. 407, 409.

Fé e Descrença

   Todo aquele que faz das obras pessoais elementos necessários da salvação deve, necessariamente, carregar a dúvida quanto à eficácia salvífica da graça de Deus para dentro do seu coração.

   A confiança na graça salvadora está para a fé assim como a incerteza diabólica está para a ausência da fé, já que o fruto da fé e da habitação do Espírito em nós é a confiança, confiança para a qual é prometido um grande galardão.

   À luz do evangelho ausência de confiança é a descrença da graça, é a fraqueza carnal que opõe dúvida à eficácia do poder de Deus que, independente da obra humana, pode nos elevar do estado de perdição ao estado da glorificação.

   Não há compatibilidade possível entre a presença do Espírito e a descrença na eficácia de Deus, já que a dúvida não é parte da fé, mas é algo que ainda que esteja na caminhada de muitos que crêem, deve ser superado pelo poder do Deus que pode até mesmo ressuscitar os mortos.

O Ato Primeiro e a Oração

   Do ponto de vista nosso, a oração é iniciada por uma movimentação pessoal, é um mover-se em direção a Deus. Mas a percepção real que possuímos de Deus é um dado que nos é concedido de fora, tal como a fé que não é tanto um ato psicológico, mas é um dom divino a partir do qual confiamos em algo que já é certo para a fé, mesmo que esse Algo esteja para além da nossa experiência.

   Oração, por tanto, é a resposta ao chamado de Deus; oração é o ato pessoal pelo qual e no qual somos conduzidos e reformados pelo poder Espírito que nos eleva à esfera da realidade eterna onde somos transformados em uma nova criatura; a oração é a abertura constante à percepção de que o mundo é envolvido pela eternidade, abertura pela qual nossos olhos são cada vez mais abertos para Aquilo que sempre esteve e sempre estará aí.

   Se começamos entender a oração como ato pessoal, terminaremos por perceber que ela é um ato segundo, uma consequência de um ato primeiro de um Deus que sempre começa movendo todas as coisas, incluindo aí o mover do nosso coração para a oração, e que generosa e soberanamente nos concede a oportunidade de saber e ver a sua imensa glória, poder e bondade pelas quais é sustentado tudo o que existe

   É como disse o apóstolo Paulo se referindo a Cristo, o Senhor: "Porque dele, por ele e para ele são todas as coisas." (Rm 11:36a)

As Imagens, A Imaginação e o Espirito

   Todas as imagens mentais que o nosso espírito produz a respeito de Deus, tanto no que diz respeito à forma como ao conceito, estão abaixo do seu Ser, nascendo para logo após serem superadas ou consumidas na chama viva da Sua glória. 
   Quem para em um momento específico nessa marcha do nosso espírito e toma a Deus pela imagem ou pelo conceito parcial do nosso espírito, negando que Deus transcende isso, acaba criando um ídolo morto e execrável. É justamente por isso que Deus é vida e não se contenta com uma forma, e é infinito pois a determinação do seu conceito está eternamente além daquilo que pensamos sobre Ele. 
   É por isso que Deus é aquilo que olho jamais viu, ouvido jamais ouvir e também jamais subiu ao coração do homem, se relacionando conosco pelos sinais da sua revelação e pela efusão do seu Espírito no nosso coração.

Justificação Declarativa e Concupiscência; Ou: Simul Justus et Peccator

   Existe uma lógica muito interessante sobre a questão da imputação da justiça relacionada à justificação pela fé - a partir da unidade mística com Cristo e da salvação dada.

   O ataque à teologia da Substituição Penal - teologia essa que no luteranismo tem o nome de "Satisfação Vicária" - tem poder para subverter tudo aquilo que se entende por justificação pela fé a partir daquilo que percebemos nos textos dos reformadores, assim como a ideia paulina de que a Abraão foi imputada a justiça justamente porque creu (Rm 4.3) - independentemente de obras. A palavra 'élogístê' significa justamente um "depósito" de algo em uma conta.

   Na teologia dos reformadores a "declaração da justiça" segue a lógica de que mesmo após a justificação, após a extinção da culpa, os sinais do pecado, como a concupiscência, permanecem no homem não apenas como "nódoas", ou como "feridas" do pecado original, como pensa a velha teologia católica romana. Antes a concupiscência é pecado, e não apenas uma "ferida". A teologia protestante, no geral, leva o pecado mais a sério e é mais consequente do que o catolicismo romano nessa área.

   Daí a afirmação da teologia da justiça imputada, ao mesmo tempo que o homem luta contra essas feridas. Não é outra a razão pela qual Lutero afirmou categoricamente que o justificado é "simmul justus et peccator", ou seja: ao mesmo tempo justo e pecador. Justo por causa da declaração em função da incorporação do cristão ao corpo místico de Cristo - passado a compartilhar dos méritos de Cristo; e pecador, justamente por causa da permanência das nódoas da concupiscência.

   Diante disso, também opomos como falsa a alegação de que não há no protestantismo a "infusão da justiça". Em especial, a teologia reformada afirma uma progressividade da santidade do cristão na medida em que as nódoas do pecado vão sendo saradas em um progresso de santificação a partir do qual não só somos declarados justos, mas que vamos realmente nos tornando justos efetivamente (no sentido ontológico mesmo) mediante o arrependimento contínuo e a apropriação dos remédios da graça. E isso casa com a noção de uma graça que vai sendo colocada em alguém independentemente dos seus méritos reais. O paradoxo da justificação não pode ser deposto sem que com isso não se destrua a coluna do pensamento protestante.

Responde às Nossas Orações1

   Ó Eterno, eu te darei graças entre todos os povos, e entre as nações entoarei louvores.

   Pois teu amor leal é maior do que os céus e tua fidelidade vai até às nuvens.

   Sê exaltado, ó Eterno, acima dos céus; estenda-se a tua glória sobre toda a terra!

   Salva-nos com teu braço forte e responde às nossas orações, para que sejam libertos aqueles a quem amas!

_________

1] Salmo 108:3-6

À Mesa com Abraão, Isaque e Jacó

   Em Mt 8:5-13, a passagem do centurião, temos uma das mais contundentes afirmações dos Evangelhos, que é: os herdeiros do reino serão lançados fora, enquanto que aquele que creu será comensal de Abraão, Isaque e Jacó.

   Cristo contesta aqui todo o sentimento de pertença morto e não preenchido por uma vida ativa de fé. Sendo assim, o sentimento de pertença à aliança dos contemporâneos de Jesus não acompanhado pela fé e pelo amor ativo é falsa confiança. No entanto, os desprezados que se encontram para além da pertença à família física de Abraão, mas que crêem, esses são de fato os filhos de Abraão.

   Em Jesus é óbvia a diferenciação do conceito de pertença a Deus, pois nele a herança física, a pertença ao Israel histórico é nada em comparação com a fé que funda e sustenta o próprio Israel. Nesse sentido a pertença passa a ser a pertença no Espírito, elevando o conceito de aliança à sua diferenciação, porque não mais estabelecida na carne, mas na realidade superior do Espírito.

   É nesse sentido que interpretamos essa passagem, já que a comensalidade, a participação à mesa com Abraão, Isaque e Jacó, não é meramente a participação de alimentos, mas é a comum participação, pela fé, na graça absoluta ou nos alimentos eternos e espirituais por meio dos quais temos acesso à unidade com Deus, enquanto que os negligentes e mortos no espírito, mesmo que convencidos de sua pertença a Deus, estarão fora do Reino no qual se participa pela fé.

A Oração, o Estudo e a Espiritualidade

   Em minhas leituras volta e meia me acho orando a Deus. A razão disso é que procuro a assimilação decente do conteúdo lido, de modo a evitar tomar pistas falsas, tomando o que seja proveitosos, alcançando a verdade do que foi lido e aprimorando a minha fé.

   Refletindo sobre isso hoje acabei lembrando das aulas do curso de teologia - curso que foi encerrado já há sete anos. Havia um costume comum dos professores de iniciar a aula com uma oração ou de encerra-la assim, e em alguns casos de iniciar e encerrar com oração.

   A lembrança realmente afetuosa que tenho dessa época se deve ao fato de que orar era algo que realmente funcionava. Era impossível em meio à oração você não experimentar seus pensamentos serem organizados, ou de suas ansiedades não serem suavizadas, ou de suas forças não serem restabelecidas, ou de seu intelecto não ser aberto, nos habilitando de fato para a apreensão do conteúdo. Às vezes a experiência era realmente transfiguradora, e eu não estou exagerando quando afirmo isso aqui.

   A consciência da relação profunda entre o estudo e a prática espiritual - já que o estudo é e deve ser prática espiritual - é uma das coisas que foram perdidas com a crescente secularização e apostasia da sociedade.

   Certamente poucas pessoas tem ciência dessa relação, desconhecendo que o estudo, para quem crê, é uma forma de buscar a glória de Deus e, como implicação do ensino do N. S. Jesus Cristo, de ama-lo com todo o entendimento (Lc 10:27), pois não existe distinção possível entre Deus e a Verdade.