Hoje eu escrevi um texto no qual certa palavra ofendeu algumas pessoas. Eu me retrato aqui na intenção de que a comunicação entre eu e essas pessoas não encontre ruídos desnecessários afim de que andemos em um caminho que é maior que todos nós. E esse é o primeiro ponto.
sexta-feira, 10 de setembro de 2021
Retratação
O Golpe e a Parteira do Caos
Passou agora a pouco um carro de som aqui na rua da minha casa chamando as pessoas para um manifestação que literalmente prega golpe de Estado. Ou seja: que prega crime. Tem gente que chama isso de "liberdade de expressão", ou melhor: liberdade que prega golpe contra as instituições que legalmente garantem a liberdade.
Existe um problema da ordem da inteligência no nosso país governado por ordas de whatsapp: vivem de informações fragmentárias achando que possuem o suficiente na cabeça para construir o melhor dos mundos, enquanto, à maneira do feiticeiro, mexem com forças que não entendem, promovendo a liberação de uma onda de destruição que possivelmente os destruirá.
Os iludidos, guiados pelo ódio cego, pela vontade de destruir um suposto inimigo que eles sequer conhecem direito, cuja ideia não passa de uma sombra tosca à altura da sua compreensão, movem seus esforços em um tipo de brincadeira assassina cujas consequências eles não podem medir.
A burrice é a parteira do caos.*
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[*] Texto Escrito em 03/09/2021
Sócrates, a Injustiça de Estado e a Posição Conservadora
Quando Sócrates estava para ser morto por uma morte injusta perpetrada pelo Estado, ele pediu aos seus discípulos que não intervissem ou que fizessem oposição revoltosa contra tudo o que estava acontecendo. Assim ele fez não porque considerasse o Estado de Atenas justo ou seus juízes, que aplicaram a ele uma sentença injusta, o padrão da medida, mas sim porque ele não queria ser razão de revolução alguma, dando pretexto para a matança.
O Marxismo Maoísta e o Problema dos Princípios
Essas frases abaixo mostram que o defeito fundamental do marxismo-leninismo é um problema de princípios. A primeira citação, perturbadora por todas as consequências a que seus princípios levam, evidencia aquilo que chamamos de problemas dos "meios". Os problemas relativos aos meios é que os fins não justificam tudo, nem a busca pelo melhor dos mundos justifica todos os meios possíveis para se chegar lá, incluindo a matança.
A Mística, o Nada e a Justificação
Há algo na linguagem sobre a fé que consta na tradição luterana, e que surge da influência que o misticismo alemão exerceu sobre essa tradição, que é algo maravilhoso. Assim se diz que a "fé é nada", e é por esse processo de nadificação do homem que ele pode receber sobre si a justiça de Deus, que é "iustitia aliena" (justiça de outro), não justiça própria. Assim se nega que o ato da fé seja computado meritoriamente para a salvação, mesmo que seja o maior dos atos morais entre os homens no curso da história - e mesmo nessa esteira Calvino nega algo que certos escolásticos diziam, ou seja, que a fé é uma conjectura moral (suficiente para a salvação). Por isso a fé é o nada no qual Deus faz algo, pois Deus salva o homem, fazendo-o nova criatura tal como Deus fez no ato da criação, criando o mundo ex nihilo (a partir do nada). A fé é o meio da recepção da graça, e sua presença na realização da justificação é uma presença absolutamente passiva como canal pelo qual a graça flui para o pecador. Aqui se compreende bem melhor o que seria a justificação em sua linguagem correta na ortodoxia protestante: a justificação é pela graça, mediante a fé e não apenas "pela fé". Assim nem o ato de crer é computado, pois não é a "fé" que justifica, mas apenas a graça de Deus que nos outorga a justificação, pois ao fim e ao cabo Deus nos salva apenas por amor a Cristo.
Oramos o que Cremos
Oramos somente aquilo que nós cremos; e se oramos, é Deus quem criou essa possibilidade para nós, iniciando em nós o ato da oração quando ele mesmo nos ensinou a orar.
A Operação das Naturezas de Cristo e a Comunicação Idiomática
Em 1 Co 10.1-5 se diz que todos os israelitas no deserto beberam da mesma pedra espiritual que era Cristo, muito embora nem todos tivessem mesclado a esse ato a fé, daí que foram prostrados no deserto. Pois bem, se a "bebida" e a "comida espiritual" no deserto são predicadas pelo Apóstolo como sendo de Cristo, ou melhor: identificadas como o próprio Cristo, obviamente que ninguém ali bebeu ou comeu a natureza humana de Cristo, posto que nem havia havido à época qualquer encarnação, muito embora o apóstolo possa tomar a liberdade de assim dizer, já que as operações (energias) de ambas as naturezas divina e humana são atribuídas a uma pessoa só. Nesse sentido pode-se dizer que Deus deu a sua carne e seu sangue aos israelitas enquanto deu a eles a operação da salvação em uma época em que nem havia encarnação, pois se a natureza divina é onipresente, o Verbo de Deus se encontra em todos os momentos da criação. Da mesma forma, afirmamos que Deus morreu na cruz, mesmo que a morte seja impossível à natureza divina; no entanto assim falamos porque predicamos as operações da natureza humana, como o morrer, da pessoa de Cristo em quem se encontram unidas as naturezas divina e humana. Podemos, enfim, dizer que onde está a presença do Verbo eterno ali está, concretamente, a pessoa de Cristo, e podemos atribuir à pessoa as operações de ambas as naturezas, e tomar uma operação característica de uma natureza pelos atos da pessoa toda como se fosse realizada pela outra natureza; assim, se há presença espiritual de Cristo e dali fruímos de sua presença salvífica, comemos a carne e bebemos o sangue de Cristo no mesmo sentido de que falamos que "Deus nasceu" ou de que "Deus morreu na Cruz".
Os Bacantes e os Portadores das Insígnias
Me lembro de um dito de Platão que muito me impressionou porque havia nele uma carga de percepção religiosa bem poderosa. O dito era exatamente este: "Muitos são os que portam as insígnias, mas poucos são os bacantes".
Os Costumes dos Povos e a Fonte do Direito
O Livro I, Título II § 9 das Institutas de Justiniano contém um princípio importante do direito que chamamos de "consagração pelo uso" cuja fonte é o "acordo tácito", constituindo as "normas não escritas". O § (parágrafo) diz o seguinte: "O direito não escrito é aquele ao qual o uso conferiu comprovação. Com efeito, os costumes (mores) diuturnos comprovados graças ao consenso dos seus praticantes têm validade igual à da lei".
É profundamente interessante notar que o direito romano possui uma percepção importante sobre aquilo que chamamos de "fonte dos direitos", sendo este constituído tanto da reflexão dos jurisconsultos, da vontade dos magistrados como do costume geral dos povos, e particular das cidades, criando instituições e gerando obrigações.
Logo se vê com isso que o direito não é algo frio e exato como as arestas de um cubo, mas tal como é próprio das coisas humanas, nasce da reflexão exercida no fluxo da história, em meio à tradição dos povos, no turbilhão dos embates políticos e mesmo religiosos.
Tendo isso vista, as leis estão estreitamente ligadas ao costume das gentes, e como disse um filósofo, "a moral (não no sentido moralista, mas no sentido do costume corrente) é a substância da sociedade", e isso significa que é do espírito do povo (folkgeist) que as instituições nascem, logo, se o espírito do povo for degradado, sua constituição política também o será.
O Amor e a Santidade
Hoje de manhã, como às vezes eu faço, tirei uma foto do meu filho e mandei para a minha mãe. E ao ver meu filho tive aquela experiência que nos é comum e que consiste em ser tocado por aquela afecção de amor, afecção que envolve também um certo sentimento de temor, temor quanto à possibilidade de que algum mal toque aquilo que amamos. Isso me conduziu a orar por ele e pedir a Deus que o guardasse.
O que isso quer dizer propriamente? Algo bem óbvio, mas não menos importante e também fundamental: o amor santifica e nos santifica porque nos leva a buscar algo que é maior do que nós mesmos para garantir um bem do qual muitas vezes temos a certeza de que não somos tão capazes, como o de realizar perfeitamente o bem em favor daquele a quem amamos.
E sim, a santidade é também o constitutivo fundamental do amor porque ela toca as cordas mais profundas do nosso coração, sendo, por tanto, a expressão mais profunda e visceral da nossa humanidade, na busca de algo acima de nós em favor do bem de tudo o que está ao redor de nós, envolvendo também a possibilidade do sacrifício. Ou seja: o amor nos eleva direção ao amor a Deus e daquele que nos é próximo*. ___________________________________________________
*Texto escrito em 24/08/2021
Eric Voegelin, os Movimentos de Massa e a Segunda Realidade
Tem uma reflexão interessante de Eric Voegelin (aquele que ocupou a cátedra de Max Weber após a Segunda Guerra) em "Hitler e os Alemães" onde ele se detém justamente sobre a questão da "migração para a segunda realidade" usando o conceito de Pascal de "diversionismo" (divertissement), pegando Dom Quixote para explicar a questão. O argumento é simples e de fácil apreensão, mas muito profundo.
Comentários no Livro de Isaías 2.1-5: (וְלֹא־יִלְמְד֥וּ עֹ֖וד מִלְחָמָֽה) E não mais aprenderão a guerra.
Texto Hebraico de Isaías 1.1-5:
Aqui temos, ao que parece, uma segunda introdução da profecia de Isaías; e se repararmos bem, essa profecia aqui, dos vs.1-4, é idêntica à profecia registrada no livro de Miquéias em Mq 4.1-3. E isso não é incrível, levando em consideração que ambos os profetas exerceram seu ministério no séc. VIII a.C. Isso nos ajuda a termos uma pista sobre o clima da época, nos auxiliando na compreensão da profecia.
No começo temos a afirmação: A Palavra que viu Isaías. É um frase semelhante, mas não igual, a Isaías 1.1, onde temos חֲזוֹן֙ יְשַֽׁעְיָ֣הוּ, e que significa Visão de Isaías, mais אֲשֶׁ֣ר חָזָ֔ה que significa que viu. O segundo conjunto de palavras (אֲשֶׁ֣ר חָזָ֔ה) encontramos em ambos os versículos; assim, a distinção é que em 1.1 se diz que o que via a seguir se tratavam das visões que viu de Isaías, e em 2.1 era a palavra que viu Isaías. A distinção, por tanto, não deve nos impressionar e nem nos levar a maiores especulações. O fato é que tanto a visão que viu quanto a palavra que viu assinalam a origem sobrenatural da profecia, consignando a ela a autoridade devida. Da mesma maneira, a profecia diz respeito a um certo contexto geográfico: Judá (יְהוּדָ֖ה) e Jerusalém (וִירוּשָׁלִָֽם). E como afirmei no comentário a Isaías 1.1-9, ao apontar para o lugar específico para qual a Palavra de Deus se manifesta, isso só pode significar que Deus tem interesse nas realidades particulares como o Deus da história, ou como alguém que se manifesta na história e através da história.
A profecia é escatológica, ou seja, se refere às últimas coisas. Assim, ele se refere ao fim dos dias (בְּאַחֲרִ֣ית הַיָּמִ֗ים), e aponta para uma posição geográfica que, por natureza, também possui certo significado simbólico. O fato de a casa de Yahweh (בֵּית־יְהוָה֙) se estabelecer no cume dos montes (בְּרֹ֣אשׁ הֶהָרִ֔ים) indica tanto a posição de destaque, quanto a sua autoridade que se alteia acima de tudo o mais, tal como a Palavra de Deus se alteia acima de todos os homens e de tudo o que existe. Assim, à Cidade dos Montes afluirão os povos, sendo ela estabelecida como o centro e o fim (τέλος) das nações no sentido de atraí-las todas a si, movendo suas intenções e afetos na busca pela orientação da sua razão para a realização das coisas que às nações mais importam.
מִצִּיּוֹן֙ תֵּצֵ֣א תוֹרָ֔ה וּדְבַר־יְהוָ֖ה מִירוּשָׁלִָֽם׃
Muitos povos ou nações (עַמִּ֣ים) irão ao encontro de Yahweh, apontando para ponto da instrução que se encontra no cume dos montes. Assim ocorrerá para que Yahweh instrua (וְיֹרֵ֨נוּ֙) nos caminhos dele (מִדְּרָכָ֔יו) e andemos (וְנֵלְכָ֖ה) nas veredas d'Ele (בְּאֹרְחֹתָ֑יו). Então o ensino e o caminho atrairão os povos. Mas cada qual é atraído por aquilo que ama e deseja no mesmo sentido de que muitos profetas e justos desejaram ouvir as palavras de Cristo (Mt 13.17). Assim, eles serão atraídos a Sião. E eis a razão: Porque (כִּ֤י) de Sião (מִצִּיּוֹן֙) sairá (תֵּצֵ֣א) a Lei (תוֹרָ֔ה) e a Palavra de Yahweh (וּדְבַר־יְהוָ֖ה) de Jerusalém (מִירוּשָׁלִָֽם). É importante nos concentrarmos nessas palavras, dado tudo o que ainda se seguirá. Assim, Sião, como metáfora do locus de ensino de Yahweh, é, assim, a instrutora dos povos e está nisso a razão de ela ser o local da atração dos povos, pois em Sião eles encontram o seu τέλος, ou seja, o seu fim, a sua razão fundamental do como existir verdadeiramente. É na ciência da Lei e nas Palavras de Yahweh que eles podem achar a razão do seu repouso.
Assim procederá Yahweh no fim dos dias: E julgará (וְשָׁפַט֙) entre (em meio) (בֵּ֣ין) as nações (הַגּוֹיִ֔ם) e repreenderá (וְהוֹכִ֖יחַ) muitos (רַבִּ֑ים) povos (לְעַמִּ֣ים). O Senhor no uso de sua plenipotência fará como se procede o juiz em sua própria corte: julga, repreende, retifica. No caso do Todo-Poderoso, ele próprio é a sua Justiça, já que ele é a instrução (תוֹרָ֔ה) e o julgamento (שׁפט).
Podemos a partir de agora expor elementos para uma síntese importante, síntese que expressará o tom de muito da mensagem característica da profecia de Isaías em relação à política teológica das nações, se assim podemos nos expressar. Sim, e como a profecia de Isaías não tem razão de ser se não há implicações morais, e como a mensagem se dirige ao povo de Deus constituído em uma comunidade política, todos os assuntos morais importam à profecia, o que não exclui a política. Nesse sentido podemos caracterizar um fim no sentido pleno de um ideal inspirador e poderoso que se constitui na condição plena e última dos povos ensinados pelo Senhor, assim como ideal desejado pelo Senhor às nações. Portanto, nas ações do Senhor Ele ensinará e os povos transformarão (וְכִתְּת֨וּ) as espadas deles (חַרְבוֹתָ֜ם) em enxadas (לְאִתִּ֗ים) e as suas lanças (וַחֲנִיתֹֽותֵיהֶם֙) em podadeiras (לְמַזְמֵרֹ֔ות). A palavra hebraica que traduzimos por e transformarão (וְכִתְּת֨וּ) pode ser traduzida mais especificamente por e triturarão. Assim, a ideia é de que as armas de guerra seriam destruídas, e de seus restos seriam feitos instrumentos de plantio. A metáfora é maravilhosa, e faz lembrar, a título de exemplo, que o gás mostarda usado como uma das armas mais letais na Primeira Guerra, sendo posteriormente seu uso proibido nos campos de batalha, serviu como um poderoso fertilizante, aumentando drasticamente o rendimento das lavouras - assim, a ciência quer produz a arma é neutra, importando para o seu bom ou mau uso a disposição dos corações, ali onde o Senhor pode atuar e transformar.
De tudo o que foi dito, ainda resta a complementação do versículo que deixará a síntese ainda mais evidente: e não levantará (לֹא־יִשָּׂ֨א) a espada (חֶ֔רֶב) nação (גֹ֤וי) contra nação (אֶל־גּוֹי֙) e nem aprenderão (וְלֹא־יִלְמְד֥וּ) mais (עֹ֖וד) a guerra (מִלְחָמָֽה). À guisa do que foi dito, aqui temos também um exemplo da profecia pacifista de Isaías. Resta óbvio que a cidade, modelo último como guia dos povos e estabelecida no cimo dos montes, está fundada em uma proposta avessa à guerra. Assim, tal paz foi conquistada mediante a repreensão, o juízo e o ensino do Senhor, em cuja sombra nenhuma nação irá mais levantar a espada uma contra a outra. É importante perceber nessa visão de Isaías o fundamento da sua profecia, cuja mensagem irá reverberar em toda sua atuação e intervenção como profeta. E se no capítulo anterior fomos defrontados com uma Jerusalém que traiu a sua vocação torcendo o direito, aqui estamos diante do cume da realização do propósito da cidade sobre os montes que foi absorvida absolutamente pela plenitude da perfeição no cumprimento total da sua vocação.
Assim como no Apocalipse de João, aqui quem ouve diz: "Vem!" (Ap 22.17b). E o povo persuadido pela altitude absoluta do ensino proferido na Cidade sobre os Montes, chama outro povo para lhe ouvir a voz e andar na luz (בְּאֹ֥ור) do Senhor (יְהוָֽה) o qual guiará a razão e a vontade dos povos na direção da sua paz e do verdadeiro repouso. Como pastor, o Senhor há de guiar a razão e o desejo dos povos para o seu fim último, e a guiará para a sua perfeição, à visão eterna de Deus, pois na comunhão entre aqueles que deram fim à guerra entre a mente e da vontade com a realidade, guerra gerada pelo pecado que conduz o homem para a discórdia interna (em sua alma) e externa (entre os homens), não há mais razão ou possibilidade para o conflito entre aqueles que são concordes entre si e Deus. Assim, livre dos pecados, agora repousam, sem conflito, em Deus. Assim, aqui é realizada a concreção absoluta da paz dos povos que desfrutarão da bem-aventurança eterna, pois estes alcançaram a comunhão plena com o seu fim último na visão eterna do Senhor.
Amém!
terça-feira, 7 de setembro de 2021
Declaração Teológica de Barmen
A Declaração Teológica de Barmen