sexta-feira, 10 de junho de 2016

William Godwin: Hipocrisia, Utopia e as Ilusões de um Gnóstico

    O Britânico William Godwin figura entre os ícones do iluminismo britânico. No entanto não seria injusto também colocá-lo como um ícone marcante do hagiógrafo gnóstico-político dos tempos modernos. Seguidor de outro adepto do gnosticismo, Benjamin Franklin, Godwin levou os ensinos do seu "mestre" às últimas consequências; e embora Franklin não tivesse desejado tais consequências, tão pouco poderia ter evitado algumas delas através do seu próprio pensamento.

Mas o que é gnosticismo? O gnosticismo trata-se de uma heresia que remonta aos princípios do cristianismo. Alguns afirmam a sua origem já na época de Paulo, tendo a Epístola aos Colossenses uma certa polêmica contra alguns cristãos que endossaram pensamentos proto-gnósticos dentro da comunidade de Colosso. Mas a matéria substancial desta heresia estava em alguns princípios que poderiam ser derivados de filosofias de natureza neo-platônicas, cujo conteúdo centra-se basicamente na compreensão de que a realidade material é essencialmente má, sendo o universo do espírito essencialmente bom - o que, diziam eles, acabava por configurar a realidade corpórea como uma prisão da qual o espírito teria a necessidade de se libertar.

O grande representante do gnosticismo foi Marcião, o mesmo que afirmava que o Deus Criador do Mundo e da realidade material era um ser maluco o - o mesmo que era responsável por guerras, por derramamento de sangue, pelas privações e sofrimentos físicos -, sendo este o Deus do Antigo Testamento. Já o Deus do Novo Testamento era aquele ser bondoso que enviou o seu Logos (Jesus Cristo) e que ensinou um caminho a um grupo seleto - não os apóstolos, que eram insuficientemente sábios para apreender o seu "verdadeiro discurso" -, cuja finalidade era a libertação desta vida para uma realidade superior. Com isso Marcião não reconhecia a continuidade espiritual do Antigo e do Novo Testamento e nem mesmo concebia como possível que o Deus Pai de Jesus Cristo teria criado o mundo e a realidade material - sendo esta má em si mesma -, mas sim o espírito, de onde a salvação se alcançaria através de uma determinada gnose (que em grego significa ciência ou conhecimento) ou doutrina secreta transmitida por gurus iluminados.

De longe o gnosticismo foi a maior ameaça à Igreja Cristã. Maior do que os arianismo, adocionismo nestorianismo, patripassionismo, pneumatoquismo, modalismo, monofisismo, monotelismo etc. E não estranhamente, ele é a própria plataforma cognitiva e afetiva de vários movimentos políticos seculares, notavelmente aqueles movimentos messiânicos que procuram instaurar os céus na terra. Por mais incrível que possa parecer, Erich Voegelin trata deste assunto de forma incrível no livro "A Nova Ciência Política", onde demonstra traços do gnosticismo inerente em várias correntes de pensamento, notavelmente no movimento Nazista, Comunista e nos milenaristas modernos - que transferem a esperança das religiões tradicionais a ser consumada na eternidade para o terreno da imanência, sendo a política o instrumento de transfiguração do mundo em um paraíso por excelência.

Mas quais os traços da doutrina gnóstica de William Godwin? Godwin, que era ateu, nutria uma esperança profunda na razão humana. Mas não qualquer esperança, pois acreditava que através do aperfeiçoamento infinito da razão o homem poderia alcançar a perfeição de espírito, o que transmutaria a realidade corpórea (sendo tragada pela realidade do espírito) e faria desaparecer o desejo sexual, os apetites, o sono, a fome, tornando o homem aperfeiçoado imune a doenças, ao cansaço e outras paixões humanas (lembre-se de doutrinas que afirmam que a vontade pode transmutar a ordem da realidade e anulá-la, e a consideração da realidade material como má e inútil). Também levou a doutrina da perfeição humana consequentemente para o terreno da política, pois segundo ele, na medida em que a humanidade fosse aperfeiçoada ela não haveria a necessidade de governo, pois não haveria mais desníveis e os homens sábios. Todas as classes seriam abolidas e a propriedade privada seria extinta. Da mesma forma os contratos não seriam necessários e a instituição do casamento ("a instituição odiosa", segundo Godwin) haveria de cessar, pois ela não caberia na mente de homens verdadeiramente livres. Desta liberdade total seguiria o verdadeiro paraíso humano neste mundo agora transfigurado pelos plenos poderes da razão.

Mas a "má matéria" sempre nos pregam peças, e, como dizia o filósofo Horácio, quando lançamos a natureza para fora da casa pela porta ela volta com o dobro da força pelas janelas. Aos 40 anos de idade - como relata Gertrude Himmelfarb no seu livro "Caminhos Para a Modernidade" lançado em 2011 no Brasil pela editora É -, Godwin conheceu uma mulher de baixa reputação chamada Mary Wollstonecraft (considerada até uma matriarca do movimento feminista pelo teor de suas ideias sobre a mulher desfeminizada e racionalizada - que mais parece o homem fálico de Lacan), por quem se apaixonou e, um ano após conhece-la, casou-se. Wollstonecraft morreu pouco depois em trabalho de parto. Contudo nem por isso ele se viu livre depois que foi picado pela odiosa aranha da concupiscência: casou-se com outra mulher pouco tempo depois, e com as obrigações estabelecidas foi "obrigado" a surfar na ignomínia do livre-mercado para honrar seus compromissos, mas sem êxito. Daí em diante a vida de Godwin tornou-se uma verdadeira sátira: adorava Mary, sua filha, e desesperou-se quando ela fugiu, ao dezesseis, com um homem casado que professava segui-lo - e cujo desleixo com seu casamento não pode ser considerado como algo inconsequente com as ideias de Goldwin. Depois que a mulher deste homem morreu Godwin, traspassado por um patriarcalismo arraigado, instou para que este se casasse com sua filha. Ficou feliz com o casamento realizado, e, em suas palavras, "eu não me importo com a riqueza quanto pelo destino de minha filha", pois o homem era um barão rico, a quem, por ironia do destino, Godwin não se furtava, mesmo antes do casamento de Mary, a pedir dinheiro, tendo êxito considerável nesta empreita - e cá entre nós: nenhum racionalista gnóstico é de ferro, não é mesmo? Contudo, no fim da vida, Godwin, segundo Himmelfarb, fez de maneira relutante algumas concessões à ideia sobre a impossibilidade de materialização do seu pensamento, pois seria difícil imaginar tal futuro concretizado levando em consideração a constituição não puramente racional, mas passional, do homem.

E isso nos leva a considerar um traço característico dos radicais de hoje que insistem em expulsar a natureza pelas portas, pois muito do movimento que eram pela classe operária, em nome de uma libertação absoluta, acabou gerando uma opressão indescritível e escravização dos mesmos trabalhadores (a natureza volta dobrada pelas janelas); aqueles que consideravam uma determinada raça uma ameaça para humanidade tocaram fogo no mundo, colocando a vida de milhares em risco pelo ideal de pureza. Pessoas que lutavam pela "ética na política", gritando de maneira histérica contra os poderosos e contra a presença de ladrões do legislativo conseguiram corromper as instituições de maneira nunca antes vista, criando uma cleptocracia nunca antes existente e empreendendo roubos nunca antes pensados. Mas esta parece ser o fim de toda utopia e de todos aqueles que prometem um mundo de perfectibilidade.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Conservação e Amor


   Há uma sentença que está no meu coração e que molda toda a minha imaginação sobre a forma com a qual busco tratar todos os problemas da minha vida. Essa ideia estava em forma seminal de um sentimento que me perseguiu em um dado momento da minha vida no qual pensei que tudo iria ruir sob os meus pés. Contava eu com 18 anos quando uma experiência muito intensa e dolorosa se abateu sobre a vida deste que vos escreve - e que levou dois anos de uma vida saudável para longe de mim.

   Sem entrar em detalhes, um dos sentimentos que mais poderosamente se apossava de mim era, em meio a todas as crises, uma saudade imensa por uma vida normal. Em meio ao caos (palavra que sempre aparece onde escrevo e que é clara para mim por causa de minhas experiências muito concretas) e confusão quase absolutos, a ânsia pela normalidade e estabilidade tanto emocional quanto mental foi algo perseguido quase como que obsessivamente, fazendo com que eu entrasse em um ciclo vicioso, já que a ansiedade na busca pela normalidade só me fazia ficar ainda mais ansioso.

   No entanto, em meio aos escombros sob os quais eu me apoiava ainda havia um vestígio de ordem - uma pequena luz que restou por causa da minha fé em Cristo (que para mim era e é a razão do bem de todas as coisas). Foi a partir deste ponto que muitas outras coisas se restauraram como que num movimento de ressurreição, onde as trevas e o movimento caótico sob o qual transitava a minha vida passou pouco a pouco para uma plano mais ameno, ensolarado e pleno de bonança - ainda vivo sob estes dias dóceis.
   
   Contudo ganhei uma aversão à desordem e ao caos, e um amor insuperável por amenidade e um desejo resoluto por ordem e pela conservação daquilo que amo - como uma vida digna e amena, e daquelas coisas que para mim muito significam - e que ficou vividamente impresso, como que sacramentado, em meu espírito. E voltando à sentença, ela é a do pensador luso João Pereira Coutinho: "Todo homem é conservador com relação àquilo que ama" - se referindo também a um estado de espírito ao lidar com todas as coisas da vida, e a uma prudência característica daquele que sabe que tudo o que é bom na vida é ganho aos poucos e, por descuido, perdido de uma vez. E nada mais verdadeiro do que isso, pois um mundo de radicalismos, antagonismos e de desagregação normativa, como diria T. S. Eliot, é incompatível com a natureza humana - sei-o bem. É justamente isso que anuncia a existência de algo para o homem como uma ordem que para ele foi criada, sendo o homem criado para esta mesma ordem - como diria Russel Kirk.

   Esta experiência de desagregação e aniquilação interior me instruiu para a compreensão de que não há um bem maior para o homem do que fazer todo o possível para manter, conservar e amar as coisas que nos dão a oportunidade de desfrutar daquela ordem, daquele bem luminoso e saudável para o qual fomos criado. E é justamente este amor pela ordem e pelo SUMMUM BONUM (o mais alto bem) que conserva as nossas vidas, e que pode lançar para fora a aniquilação destrutiva que esmaga o homem em meio àquela confusão aniquiladora e hostil a tudo aquilo que um dia foi chamado à existência.

OBS: A ilustração é da capa do livro "Crime e Castigo", da editora 34, feita por Evandro Carlos Jardim.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Justiça Social e Economia


   A ideia de que o pensamento social-liberal não se preocupa com pobres é uma mentira, ou resultado de má informação, ou, em último caso, de má-fé pura e simples. A questão é a seguinte: como remediar a questão da pobreza? Se for por meio do crescimento vertiginoso do Estado em prejuízo do empreendedor ou da renda familiar, resultado do aumento escandaloso de impostos - sob a desculpa de que é somente assim que se faz "distribuição de renda", ou se ajuda os pobres - então teremos o velho caminho socialista; no entanto se a questão passa pela diminuição de impostos, por se compreender que o melhor programa social possível é um emprego, e que, por tanto, incentivar o empreendedor por meio da diminuição da carga tributária e a diminuição do Estado - carregado da missão de resolver as tarefas essenciais (como policiamento, justiça, legislação etc.) -, então teremos também justiça social ao modo anglo-saxônico (o melhor programa social conhecido na história). Quem estudou um pouquinho de filosofia política e sabe o que foram os governos de Margareth Tatcher (no Reino Unido) e Ronald Reagan (nos EUA) sabe um pouco o que isso significa. Mas se para haver justiça social devemos enveredar pelos caminhos da Venezuela ou de Cuba - por achar que justiça social é o mesmo que igualdade de renda (o que é um absurdo monstro, pois não há nenhuma civilização na história que tenha conseguido isso) -, então é melhor ficar com as "injustiças" da sociedade de mercado marcada pelo liberalismo econômico.
PS: Lembrem-se deste versículo antes de pensarem, pastores vermelhos: "Quando o governo é justo, o país tem segurança; mas, quando o governo cobra impostos demais, a nação acaba na desgraça." (Provérbios 29:4)

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Calculistas Vis e o Milagre




   Quem está vivo está sujeito a cometer crimes. Nesse sentido, um ser humano, dentro do campo das possibilidades, possui tanto um potencial para o bem quando para o mal. Ele pode vir a ser um assaltante, um batedor de carteira, um ladrão, ou pode vir a ser filiado ao PT. É uma questão de possibilidades ... Também pode vir a estuprar. Mas será que para não "corrermos o risco", podemos eliminar o mal pela raiz? Um radical proporá que para evitar crimes seria necessário eliminar o homem da face de Terra. Por isso, na crista das boas intenções até o genocídio pode ser uma boa opção por um mal menor, pois o pragmático e calculista fará as contas: "se o homem continuar a viver por um milhão de anos, segundo os meus cálculos ainda cometerá uma certa quantidade de crimes e assassinatos, e tantos assassinatos cometidos em um mesmo ano, eliminando a humanidade do mundo, não será nem a milésima fração da quantidade de crimes e sofrimentos que ele provavelmente poderá vir a cometer em um milhão de anos - por tanto, para o bem, e para preservarmos o universo de tão hediondo ultraje, eliminemos o mal pela raiz". Esse é o calculo feito também pelo abortista fanático, pois ele se preocupa demais com a ideia de custo-benefício, pois jamais poderá compreender qual é a aventura de estar vivo e como é que um pequeno ato de amor no mundo pode justificar a existência humana inteira assim como a existência de todo o universo, pois isso, por si mesmo, fugindo de toda ideia de cálculo - pois o amor não é quantificável, pois sua origem é eterna -, se põe muito acima de todo o sofrimento e de todo o mal possível.

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   Milagre é, mesmo em meio a um mundo onde tudo aparentemente foi feito para dar errado, em meio a um cosmo aparentemente indiferente e até mesmo hostil à existência do homem, ver a bondade brilhando inexplicavelmente no rosto do homem. A bondade, a generosidade e o amor não são possibilidades inerentes à natureza das coisas, como que produzidas por elas mesmas. São milagres explicáveis e justificáveis somente se há uma eternidade por trás de tudo o que existe. Por tanto a bondade brilhando no rosto do homem só pode ser justificada à luz da existência de um Deus de amor eterno. Com isso, se a mente do homem estivesse em estado de lucidez, vendo claramente as coisas, não seria a existência da maldade no mundo aquilo que deveria chocá-lo. Absurdo não é, em meio a tudo, a existência do mal e do sofrimento, mas sim a existência do bem e da felicidade. E é isso, e não outra coisa, que pode nos conduzir à compreensão de um sentido para a vida, pois sem isso a razão humana entraria em agonia, pois acima de tudo, de todo o sofrimento e de todos os males que se abatem em nossa vida, a possibilidade da vida, do amor e da felicidade é algo sumariamente impossível, incompreensível, mas nem por isso irreal; é um fato que se renova todos os dias diante de nós mesmos e que, por milagre, flutua contra todas as possibilidades da razão em meio ao nada. 

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Notas Sobre o Respeito à Opinião



   Você pode respeitar o direito do outro ter uma opinião que não a sua. Mas dizer que se é obrigado a respeitar as opiniões de maneira incondicional é um truque, um negócio meio louco, e uma exigência estritamente desonesta, no fim das contas - coisa que existe apenas para Deus (que sempre está certo) e em ditaduras, onde a ideia do mais forte (o ditador) deve ser respeitada a todo custo. Essas coisas são calaras também nos seguintes casos: não podemos respeitar a ideia de um genocida; de um trapaceiro ou de um sabotador que, com ares de bondade, busca subverter as coisas por dentro se fingindo de amigo e colaborador; e muito menos devemos respeitar aquelas ideias cuja bondade está exposta apenas no enunciado da ideia, na proposição, mas que são desastrosas quando colocadas em prática. É claro, qualquer indivíduo que busca ter uma opinião - já que ter opinião para tudo é falta de bom senso - deve, para isso, estudar os fundamentos da sua própria opinião, não sendo irresponsável para divulgar a esmo aquilo que não sabe. Mas o que devemos fazer? Devemos medir o grau da coisa, e, entre outras coisas, compreender que uma opinião não é uma pessoa. Uma opinião podemos jogar no lixo; uma pessoa devemos procurar amar - e, se possível, livrar esta pessoas de ideias que irão destruí-las e destruir outros. Penso que é por aí que são consideradas as coisas.

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   Chegamos a um período de inversão louca: antes desrespeitávamos ideias, mas reconhecíamos por traz delas uma pessoa que geralmente era superior às ideias mesmas; hoje se força a respeitar a todo custo uma ideia divergente, mas em troca se desconsidera com isso em sua totalidade as pessoas. Isso ocorre porque o "respeito às ideias", sejam elas quais forem, eleva ao grau de dignidade as concepções de mundo mais loucas, foçando todos a lidarem com elas com ares de respeitabilidade, exigindo, de quebra, que todos se portem com base em um fingimento imposto pela regra do "respeito", o que, como diria C. S. Lewis, acabava por formar homens sem peito. Sou mais adepto do método de discussão ao modo dos monges medievais, os quais entravam em uma espécie de "delirium tremendum" no momento da defesa de suas teses, mas que conseguiram manter unido um continente por um período de mil anos. Foi quando as boas regras de refinamento burguês entraram em jogo que deu-se o início ao império do fingimento. Por tanto o cacoete de bom-mocismo de "respeito à opinião do outro" é puro fingimento burguês. O máximo saudável é respeitar o direito do outro de ter uma opinião, e não o de respeito irrestrito à opinião, pois no caminho dos mais entendidos há a compreensão de que é apenas o tolo que respeita incondicionalmente A opinião em si, seja a sua mesma, seja a de um outro.

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   Nenhuma opinião é desinteressante em si. Elas podem curar ou matar, fazer viver ou deixar perecer. Neste campo não existem trivialidades, pois uma ideia, por mais tola que seja (e justamente por ser tola que deve ser considerada perigosa), pode fazer errar uma vida por toda a vida. No mundo das opiniões não há reclamação de inocência. E neste campo, calar frente à incerteza é amar o próximo. Tão tolo quanto quem não sabe o que fala é quem decide disciplinar com clichês o debate com regras que militam contra a razão, sendo um destes clichês o afamado "respeito à opinião". Bem, se refletirmos bem o que significa isso chegaremos à descoberta que trata-se de uma regra imoral. A ideia de "respeito à opinião" nasce da má compreensão sobre a liberdade de expressão. É um filho bastardo e sem herança de tal ideia. No mundo ocidental, segundo o free speech, a ideia nada mais significa do que o direito garantido pela constituição de alguém não ser morto por causa de proclamar um pensamento divergente. Mas é claro que ainda assim isso não significa que eu possa pregar o genocídio de judeus, por exemplo, pois há limites claros entre o free speech e a apologia ao crime. Por tanto não se trata de "respeito à opinião", mas de resguardar o indivíduo que opina do rancor das massas, do grupo divergente ou daquele que pensa o contrário. Mas notem que o que se quer passar por pensamento livre com a ideia de "respeito à opinião" é o fim de toda a divergência e livre opinião, pois respeito tem-se daquilo sobre o qual concordamos e qualquer concordância é, também, uma discordância do contrário, um desrespeito - por assim dizer - daquilo sobre o qual não concordamos por concordar com outra coisa (é necessário decidir). Por isso é forçoso concluir que a própria ideia de "respeito à opinião" nada mais é do que a manifestação de uma ira contra a realidade, um desejo de eliminação da divergência – sem a qual o raciocínio para o próprio indivíduo, no processo meditativo, é impossível, pois precisa comparar ideias contrárias, confrontando-as - e algo que só pode culminar na própria destruição do pensamento e de todo o raciocínio livre, visto que se eu sou obrigado a respeitar a opinião divergente não é possível discordar, pois discordar (palavra que se relaciona com discórdia) é, no fundo, não respeitar a opinião (ainda que devamos amar os indivíduos e às vezes discordar deles por amá-los). Em fim, a má ideia sobre o "respeito à opinião" é o caminho para a destruição e supressão dos indivíduos pensantes, pois todo o pensamento está ligado inevitavelmente sobre algo que reflete. 

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Notas Sobre a dita "Cultura do Estupro"



   Será que é possível perceber que quando se diz "há uma cultura do estupro no país", o que se faz é retirar dos trinta e tantos elementos o peso da responsabilidade pessoal do crime e transferi-la para uma abstração que não pode ser convocada para um tribunal chamada "cultura do estupro", que ninguém sabe onde está, mas que se afirma poder possuir um poder superior ao arbítrio humano? E também a ideia de "cultura do estupro" é por si mesmo absurda, já que é o mesmo que afirmar que existe uma "cultura do assassinato". Cultura temos muitas - e más culturas -, mas nada oficializado como "cultura do estupro" - que é apenas uma pólvora para o canhão do louco movimento feminista -, sendo o estupro odioso até mesmo para delinquentes. 

   A politização de tudo é um sinal de doença. E a politização do crime é algo ainda pior, pois anula o fato de que crimes são praticados por indivíduos, transferindo a culpa para um "movimento histórico" que se supõe superior ao poder de escolha do homem, e que nunca pode ser julgado ou condenado a não ser na pessoa do criminoso. O que aconteceu ali não foi o resultado de uma "cultura", mas de uma disposição criminosa de trinta e tantos homens - e que devem ser condenados.

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   Evidentemente, jogar a culpa do estupro no cristianismo ou em pastores é um das difamações comuns, e um dos mecanismos mais evidentes para atingir desafetos. Vocês perceberam o que é o engodo da "cultura do estupro"? É retirar a culpa dos trinta e tantos homens, transferi-los para um esfera abstrata para depois atacar a fonte de tal "cultura", que seria o "patriarcado cristão, bíblico" e que nada tem com o "Novo Testamento" - há, este último é para provar como são bonzinhos, pois o que é Novo Testamento não é aquilo que é pregado pelo cristianismo tradicional, mas aquilo que a mente da "nova geração" descobriu. Era mais que óbvio que isso, de uma forma ou de outra, iria cair em cima de um bode expiatório, um ser odioso - mas inocente - no qual se coloca a culpa das mais desavergonhadas culpas pessoais. Ninguém neste misero mundo é culpado por suas ações, salvo pastores, padres e o maldito cristianismo tradicional (que não é uma pessoa, mas algo - vale lembrar), fonte de tudo o que é escória neste mundo.

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   Relembremos o que fora uma sociedade realmente patriarcal, como a sociedade israelita antiga, onde um estuprador tinha a sentença de ser esmagado por pedras. Então, por favor, estudem kids!!! - como dizia Chesterton: para intelectuais o cristianismo é o responsável pela mais voraz e viril das impiedades, guerras, mortes e maldades do mundo; mas, estranhamente, também pela piedade misericordiosa mais efeminada e desencorajadora de vinganças, responsável pela indolência com relação ao mal. Da mesma forma, podemos ver as seguintes acusações: a pregação da castidade é algo considerado anti-humano e monstruoso para as lentes filosóficas embaçadas e arranhadas de um filósofo como Nietzsche; também não fica atrás a "desumanidade" da ideia de que o homem como cabeça da mulher, segundo uma hierarquia estabelecida por Deus - tal como compreendem o cristianismo -, leve, segundo a cabeça aguda de alguns que dizem pensar, ao estupro - tal relação de causa e feito infalível é para mim alto demais, como se isso fosse univocamente claro a tal ponto que nenhum mortal pode ver a olhos nus, como é o caso do Sol. Contudo, quem é que entende, quando ninguém deseja entender nada, mas apenas atacar alguém que não contra-ataca e, de quebra, se fazer de bom? De gente "boa" o mundo esta cheio a ponto de vomitá-las da sua boca.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

O Progresso


   A ideia de progresso tem duas escolas especiais, ambas dotadas de esquisitices: uma apela para um fim utópico e que independentemente das ações que se empreenda para se chegar lá, sejam revoluções, assassinatos ou roubos, o nobre fim a todos esses meios justifica; a outra escola afirma que tudo o que é moderno é bom-em-si, e que ir para frente, rumo ao diferente, é o que importa (mesmo que andar para frente seja caminhar para um abismo).

   Contudo, como diria Lewis e Chesterton, o progresso significa avançar para um campo de repouso, o que implica também regressar, tal vez, a um lugar de onde nunca deveríamos ter saído. No livro Cristianismo Puro e Simples de Lewis vemos uma alternativa a estas duas escolas, como segue:

"Progredir, porém, é nos aproximar onde queremos chegar. Se você tomou o caminho errado, não vai chegar mais perto do objetivo se seguir em frente. Para quem está na estrada errada, progredir é dar meia-volta e retornar á direção correta; nesse caso, a pessoa que der meia volta mais cedo será a pessoa avançada." (LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples. p. 39)

   Com isso se torna evidente o porquê de que aquilo que no cristianismo se constitui como um ponto alto da vida humana seja chamado conversão, que é o caminho inverso daquele que a humanidade tomou no Éden, quando decidiu, em nome da independência pessoal, de uma proposta boa e agradável aos olhos, se apartar de Deus, avançando no fundo em direção ao caos. Na conversão tomamos um rumo diferente, retornando à união original com Deus, aquela que constitui a verdadeira razão de ser homem.

sábado, 14 de maio de 2016

AOS RELATIVISTAS - que assim o são até o dia do pagamento


   Àqueles amigos meus que se dizem relativistas e que não creem em verdades absolutas - que assim o são apenas até o dia do pagamento, quando afirmam que receber por aquilo que se trabalha é algo amparado em uma moral de validade absoluta e universal; uma "verdade-em-si", como diria um inimigo de Nietzsche, ou um bom metafísico -, seguem as palavras de C. S. Lewis:

   "[...] quando você considera as diferenças morais entre um povo e outro, não pensa que a moral de um dos dois é sempre melhor ou pior do que a do outro? Será que as mudanças que se constatam entre eles não foram mudanças para melhor [para aqueles progressistas que acham que qualquer mudança por si só é um "bem-em-si"]. Caso a resposta seja negativa, então está claro que nunca houve um progresso moral. O progresso não significa apenas uma mudança, mas uma mudança para melhor. Se um conjunto de ideias morais não fosse melhor do que outro, não haveria sentido em preferir a moral civilizada à moral bárbara, ou a moral cristã à moral nazista." (C. S. Lewis. Cristianismo Puro e Simples. p. 18)

quarta-feira, 27 de abril de 2016

O Bode Expiatório


   A revelação da verdade divina em Jesus Cristo nunca foi matéria de discussão pacífica neste mundo. De fato, ao abrir-se para a encarnação Jesus decidiu entrar em um espaço de perdição, onde seu destino só poderia ser o aniquilamento. Por isso, a santidade e a pureza divinas jamais foram vistas com bons olhos quer em sua época quer agora.

   A concepção de Jesus como o bode expiatório já não pode ser mais considerada como artigo de provérbios populares e nem de matéria sobre discursos míticos. De fato o mecanismo do bode expiatório é um fato empírico histórico, onde o "homem massa" (o coletivo) se arremete violentamente de maneira unânime sobre uma vítima inocente, transformada em símbolo de todo o mal, dissensão e miséria no mundo. Eleger uma vítima é uma forma comum de camuflar os próprios erros individuais, retirando da esfera pessoal a culpa dos males que nos circundam.

   No entanto, no presente momento confuso de sacralização de determinadas classes, é preciso sublinhar o caráter essencialmente singular no caso de Jesus Cristo como alguém inculpável: ele era a Verdade encarnada. Sua existência como promotor da dissenção está vitalmente ligada à noção de santidade que lhe era próprio, e que lançava uma luz tão intensa sobre o mundo a ponto de colocar as claras a monstruosidade humana dissimulada pelo véu da falsa religiosidade, da hipocrisia e da revolta contra Deus. Jesus era um incômodo e as massas os incomodados. Como disse Raimund Schwager:

   "Todos os Evangelhos [...] mostram que a mensagem de Jesus - pelo amor inconcebível de Deus e por sua pretensão de ser um com Deus - trouxe à luz o rancor subterrâneo e a vontade oculta de matar, mesmo entre os fariseus piedosos e cultos. Na aliança contra ele desvelam-se as forças mais sombrias do coração humano. [...] Todas as forças hostis a Deus se ligam contra ele, e em seu corpo descarregaram seus maus desejos" (SCHWARGER, Raymund. Brauchen Wir eine Sündenbok? - apud. GIRARD. Aquele por Quem o Escândalo Vem. p. 78,79).

   No entanto a existência singular de Jesus não deixou de se repetir na vida dos sábios, de homens santos e dos profetas ao longo dos tempos. De fato, a existência da própria Igreja parece, de quando em vez, encarnar o papel de bode expiatório a contrapelo do bem que ela causou e causa no mundo - ainda que o próprio mundo seja suficientemente ingrato para com o serviço que ela (e só ela) prestou aos homens.
  
   Aqui e ali as criações da Igreja (como as universidades) parece se rebelar contra a sua geratriz, e isso não por um movimento de crítica, mas de substituição, quando a mentalidade que busca a verdade no mundo se converte afim de atender as exigências de ideologias que mal disfarçam o seu ódio irracional contra tudo o que é humano, a pretexto de defender o que é humano. Em substituição de uma verdade transcendental e eterna, imanentizam as esperanças para este mundo, escolhem bodes expiatórios - sejam os judeus, os Kuláks da Rússia, sejam as Elites, os intelectuais chineses da época de Mao Tsé-Tung, Deus mesmo etc. - se opondo à realidade inescapável de que o presente tempo não comportam as esperanças que podem ser satisfeitas apenas no tempo eterno. O dito "ópio do povo" na verdade é a única esperança que agora é substituída no coração do homem pelo ópio da ideologia, que lançando falsas esperanças e falsos inimigos no mundo, encobre do coração do homem que a sua única esperança nunca esta em si mesmo, mas no Deus que a tudo criou.

   Essa constatação é contraposta à soberba e arrogância de quem se coloca na ingrata empreita de construção de paraísos que o tempo tende a destruir. E os messianismos presentes sempre ocultam a prepotência de onipotência que sempre tentou o coração do homem, e que em sua própria dinâmica deixou um histórico de morticínios e destruições na tentativa de fazer do mundo não o melhor dos mundos possíveis, mas a perfeição em sua própria essência. E tal como nos ensina revolução francesa, quando materializar o mundo perfeito se torna impossível, cabeças começam a rolar.


   É neste espírito de profecia, nesta tendência de trazer incômodo para todas as gentes, que as palavras de Cristo sobre a condição humana trouxe a si o descarrilamento da violência que acabou por significar o mundo, constituindo um evento de verdadeira revelação divina sobre a condição selvagem do homem distanciado de Deus. Como disse René Girard: "Os Sinópticos [os quatro Evangelhos] fazem dizer que Jesus traz a guerra. João faz ver que, por onde quer que intervenha, Jesus provoca dissensões. A irrupção da verdade destrói a harmonia social fundadas sobre as mentiras da unanimidade violenta" (GIRARD, René. Aquele por Quem o Escândalo Vem. p. 84).

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Insatisfeitos no Paraíso

   


   Como vemos na Bíblia, para Adão e Eva o próprio paraíso era insuficiente. No entanto, com seus respectivos espíritos banhados pelos ares do progresso, decidiram fazer uma melhoria no paraíso em que viviam. O resultado foi que acabaram por pôr tudo abaixo.

   Não que em nosso velho mundo não devamos querer melhoras, mas o que penso sobre o não contentamento humano é que o próprio homem pode ser alguém insatisfeito no paraíso, e que ao sair por aí desejando criar um mundo melhor ele acaba por implodir aquele velho, familiar e monótono mundo, onde tudo é tão do tamanho do coração humano, perdendo-o para todo o sempre. 

   É justamente este o resultado por se fazer do lugar-comum da mudança um adjetivo positivo. Qualificamos, como metafísicos modernos, a mudança como uma coisa "boa-em-si", fazendo do acidente uma substância, não porque o que permanece o mesmo seja ruim, mas porque insatisfeitos conosco mesmos.

   Contudo, na incapacidade de reformarmo-nos a nós mesmos, decidimos, em nome da libertação, revolucionar o mundo transformando-o à nossa imagem e semelhança, mas uma vez despida da sua imagem divina acabamos por tornar o nosso mundo em não-lar e em algo inumano ou mesmo anti-humano. 

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Karl Kraus, a Corrupção da Língua e a Segunda Realidade


  Existe um determinado clima social que permite a ascensão de tiranos. Geralmente tais são destituídos profundamente de senso moral, de realidade e de capacidade de reconhecer erros - podendo ser isso feito no nível verbal, mas não na ação concreta.

   Como deixou claro o jornalista austríaco Karl Kraus, a população alemã do pós Primeira Guerra erra profundamente deformada moral e espiritualmente, sendo isso causado principalmente pelo "clima de opinião" (para utilizar a expressão de Alfred North Whitehead) criado por jornalistas que não economizaram na formação de lugares-comuns que fizeram com que a opinião pública migrasse para uma segunda realidade. Em outras palavras, a ascensão de Hitler ao poder não foi um ponto na curva, mas foi pavimentada pela corrupção da língua levada a cabo pelos intelectuais, transformando a própria língua em um instrumento inviável para a descrição da realidade.

   Aqui temos um problema violento, extremamente presente no Brasil: a corrupção da língua. Esta, tal como vemos nos livros didáticos - que eu já examinei, pelo menos no caso do Paraná -, já que os educadores perderam a sua função de transmitir a realidade, buscando apenas transformá-la, esta patente. Este é um problema dos nossos jornais, das novelas, literatura etc., onde a corrupção ideológica já é tão violenta, que um grupo criminoso como o MST - que teve até aulas de guerrilha com um embaixador Venezuelano em terras Brasileiras (meu Deus!!!) -, é tido como libertador pela maioria esmagadora da nossa classe acadêmica formadora de opinião, que por meio do discurso e da formação de símbolos lançam todos para um mundo paralelo ao mundo real. Isso sem somar os cuspidores da liberdade, aqueles que afirmam que fulana não merece ser estuprada, e mesmo aqueles que não tendo cargos, se põe a vender a República em um quarto de hotel - ou seja: praticando corrupção a céu aberto -, sendo considerado herói, como é o caso do moribundo político chamado Luiz Inácio Lula da Silva.

   Sendo assim, neste estado de alienação moral e de perda da realidade, temos nos contentado com uma ideologia, uma mentira política torpe e grotesca, que prometendo o paraíso na terra, lança através de símbolos confusos a mente da população a um plano que em nada se coaduna com a realidade de fato, pavimentando a oportunidade da ascensão política de indivíduos que, carregados na onda ideológica, oferecem um futuro impossível - mesmo que desejado para indivíduos totalmente desprovidos de realidade e corrompidos moral e espiritualmente. O que teremos de tudo isso senão um mundo totalmente anti-humano, inajustável à natureza das coisas, ou um inferno indescritível?

Religião e Política: Imposturas


Portador de uma das mentes lúcidas do século XX, o filósofo austríaco Erich Voegeling, que criou instituições de pesquisa e estudos na Alemanha na década de 60 do século passado - com a intenção de produzir uma nova consciência política após a catástrofe nazista -, gerando resultados importantes que estão para além da imaginação vulgar, concebia a necessidade de olhar todos os processos humanos à luz da presença divina. 

O que há de interessante nisso é que, para ele, foi a perda da realidade, montada na crista da perda vigor espiritual e dos valores eternos, que, no pós-primeira guerra possibilitou a ascensão do nazismo, o que incluía o perda da realidade por parte das Igrejas, tanto católicas quanto protestantes, sendo a opinião pública deformada por intelectuais, educadores, políticos e jornalistas.

No entanto, quando você vê o seu coleguinha mugir coisas como: "devemos separar política de religião", basta refletir o seguinte: quais são os fundamentos sobre as suas concepções sobre o bem e o mal? Fora da realidade do espírito - que é o assunto da religião - não há como saber o que é bom e o que é mal. Sem isso não há ética, e, por isso, não pode haver política, apenas catástrofe. Filosoficamente não há outro caminho: ou é niilismo (como retratado no livro "Os Demônios" de Dostoiévski) ou é espiritualismo.

De uma longa tradição do pensamento espiritualista que vai dos tempos imemoriais, passado pelos profetas de Israel, Platão, Aristóteles, os estoicos, os filósofos e teólogos cristãos, a Idade Média, o Iluminismo Britânico e Americano, Leibniz, Schelling, Hegel, os impérios teocráticos europeus, até uma corrente conservadora moderna em política, a ideia da interpenetração entre religião e política sempre esteve presente - e, considerando o homem como indivíduo que caminha sob juízos acerca da realidade, não há como ser de outro modo.

Mas os ilumininhos, baseados em um provincianismo intelectual arcaico - que remonta à catástrofe da revolução francesa - querem provar que a interpenetração entre religião e política é o mal do mundo. Valha-me Deus!!!

sexta-feira, 15 de abril de 2016

A Ordem

   O estado de loucura atingiu as massas - o que é perigoso. É quase impossível no Brasil passar por todo esse processo sem um prejuízo dos sentimentos e da razão. O Ambiente presente tornou-se profundamente deletério, e somente uma estrutura mental e espiritual firme pode passar incólume a essa vaga de desinformação, antagonismo, sede por poder e irracionalidade. E o perigoso é que quando a estrutura psíquica se encontra desgastada e estafada, o ser humano acaba por aceitar qualquer coisa em busca de tranquilidade e alívio.

   Em tempos de angústia, as virtudes que possibilitam a resistência só são possíveis em uma personalidade onde reside aquela certeza acerca dos valores espirituais eternos. No entanto, como pode isso ser possível quando as instituições espirituais já se desfizeram das suas barreiras de contenção (a moral, os tabus, as hierarquia de valores), se firmando apenas em valores momentâneos que se desmancham no ar? A Igreja, que deveria se o baluarte da verdade em um mundo de incertezas, a Arca resistente contra o dilúvio da profanação, confusão e perda da realidade, se esfuma dia após dia diante dos reclames da cultura reinante - e, como sabemos, a um reclame deste presente tempo segue outro reclame e outro até à consumação dos séculos. Sendo assim, aquilo que deveria consistir em forças de conservação, se torna em um impulso desnorteante dentro do qual o home só pode se perder. Aqui é do espaço da perdição que falo.

   É imperativo em nossos dias repensarmos a necessidade da ORDEM sem a qual o homem não pode viver. Não são somente os valores e a realidade material importantes para o homem; na verdade valores materiais nada são se não podem ser julgados por uma instância superior e imperecível - a instância eterna do espírito. E a raça dos homens que pensam poder remodelar o mundo segundo as necessidades do momento, segundo o espírito do tempo, invariavelmente ignora a necessidade da ordem. Mas do outro lado se encontram aqueles que sabem que a humanidade não é um momento, que ela possui uma natureza inamovível, não remodelável e que pode descansar apenas nesta ordem que foi feita para o homem, sendo o homem feita para ela.

   Mas enfim, onde iremos parar nesta onda voraz de incertezas, onde mais nos aproximamos da aniquilação do que daquela estabilidade que permite a nossa alma descansar? Como pode ser que nesta voraz relativização de tudo o próprio homem não seja relativizado? A nossa história é pródiga em exemplos, e não nos faltam nos dias de hoje homens como os Peter Singers da vida que pensam no valor do homem como algo medieval, o que nos faz lembrar das macabras sinfonias tocadas no alvorecer da guerra e dos campos de concentração onde, por ser a terra uma moradia impossível, os homens, assim como Cristo na Cruz, só podem contar com Deus como esperança final, pois em tempos assim na Terra já não há nenhuma.