terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Valei-me Deus, Jailson Serafim.

    Esse é um artigo (que pode ser acessado aqui) de um rapaz chamado "Jailson Serafim". Tem tantos e tantos erros nesse artigo que para corrigi-los seria necessário escrever uma teologia sistemática inteira para dar conta das afirmações enviesadas, mal-refletidas e das colocações pobres desse rapaz.

    Entre as enormidades que ele diz está na afirmação de que o título "O Calvinismo Explicado" do querido "Francisco Tourinho" é um problema. O Jailson se apega à afirmação do Spurgeon que diz que "Calvinismo é evangelho", e que seria muita arrogância, por isso, explicar o "próprio evangelho". Eu vou explicar algo sem entrar no mérito da afirmação do Spurgeon de que "O Calvinismo é o Evangelho". Pelo amor de Deus, deixem isso para lá.

    A toada infantil infantil do Jailson segue texto adentro: "Pasmem, (sic) vocês. O nome do livro é "O Calvinismo Explicado". Nos chama a atenção a afirmação de Spurgeon, dizendo que "o calvinismo é o evangelho e nada mais"(Verdades Chamadas Calvinistas), e se tomarmos e levarmos em consideração esta afirmação como absolutamente verdadeira, ortodoxa e reformada, o título do livro se torna inviável, para não dizermos pretencioso, diante de Paulo que falou "do evangelho, as riquezas incompreensíveis de Cristo"(Ef 3:8 ACF), dizendo ainda: "Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!"(Rm 11:33 ACF). Nesse sentido, como podemos explicar aquilo que é 'inexcrutável' (sic),'insondável' e 'incompreensível'? Quanta pretensão do autor, não?"

    Eu vou "explicar" (sem querer ser arrogante) algo para o rapaz. A própria palavra evangelho (ευαγγελιον), além de ser formada pelo termo "ευ", é também formada pelo termo αγγελια que traz em sim o sentido de "anúncio" e "notícia". A palavra "notícia" é interessante para os nossos propósitos, pois guarda o sentido de "notitia", ou seja, informação, conhecimento, nota. Assim é constitutivo ao sentido de evangelho a noção de informação, e uma informação não teria sentido de ser para nós se ela não fosse para ser apreendida pela mente. Portanto, longe de ser uma digressão vazia o que eu faço aqui, nota-se que a questão da relação ao entre o conhecimento e o evangelho é algo fundamental para a compreensão da própria noção de evangelho, sendo isso patente tanto na escritura como respaldado pelo melhor da produção teológica. Devido a isso peço que me acompanhem aqui e me concedam a paciência de vocês para que possa esclarecer essa questão - que não é de pouca importância.

    Geralmente fazemos na teologia a distinção entre duas formas de teologia (que em sentido lato é o que chamamos de "conhecimento de Deus"). Essas duas formas tem a ver com o conhecimento do que Deus é em sua essência e aquilo que Deus é para nós (em sua revelação). O primeiro tipo de teologia é aquele conhecimento que Deus tem de si (e que lhe é exclusivo, pois em sua totalidade só Deus conhece a Deus). Essa teologia nem os anjos a possuem, e, desse modo, em sua essência mesma Deus é incognoscível (Jó 11.7). Contudo, se não temos acesso exaustivo ao conhecimento da essência divina, temos não obstante acesso a uma segunda teologia que é aquela que nos vem ao conhecimento enquanto conhecimento da vontade e dos "atributos" de Deus revelados tanto na natureza (Rm 1.19ss), quanto no evangelho (Jo 1.18). Assim temos uma teologia arquetípica, que é o conhecimento que Deus tem de si, e uma teologia ectípica, que é o conhecimento, a notícia que temos daquilo que Deus é para nós - em suas operações e atributos.

    É nesse sentido que João Calvino mesmo diz: "Entretanto, simplesmente em frívolas especulações se recreiam tantos quantos se propõem insistir nesta pergunta: Que é [Quid sit] Deus, quando nos deve antes interessas que tipo [Quali sit] [de pessoa] e quê à natureza lhe convém" (Inst. I.II.2.). Ao fazer a distinção entre o "quid sit" (o que é) e o "quali sit" (que tipo é - para nós), Calvino faz a distinção que colocamos acima. Nesse sentido, a contragosto do Jailson Serafim, Calvino segue a distinção já usada pelos escolásticos que afirmavam a insondabilidade do que Deus É, cabendo a nós conhecer certos aspectos da essência divina naquilo que ela se manifesta a nós.

    Quanto ao texto bíblico de Ef. 3.8, na tentativa do Jailson provar arrogância de "explicar o evangelho" temos um exemplo de eisegese, pois justamente nos versículos que se seguem (vs. 9, 10) Paulo fala de "manifestar" (φωτισαι = trazer à luz) a dispensação do mistério oculto em Deus, para que, pela igreja a multiforme sabedoria de Deus se torne "conhecida" (γνωριθη = seja dada a conhecer). Ou seja, as riquezas "insondáveis" e "incompreensíveis" de Cristo estavam sendo agora manifestas pela pregação, para que pela igreja esses mistérios fossem tornados conhecidos para os principados e potestades. Nada aqui se prova da "inexplicabilidade" do evangelho, mas é absolutamente o contrário, pois dizer que o evangelho é inexplicável nada mais é do que um oximoro.
    O resto do texto é um show de ilações e uma coleção de erros do mesmo tipo - como na questão a respeito da imperfectibilidade de Adão, que mais parece, com diria Calvino, uma λογομαχια, uma "briga de palavras" -, além da confusão tremenda que ele faz da relação entre a "teologia de Santo Tomás" e a "escolástica", como se ambos fossem sinônimos, não se tratando, antes, de uma relação do tipo que existe o gênero e a espécie, ou seja, nem toda teologia que se vale do método escolástico é "tomasiana". Talvez se o Jailson se preocupasse mais em entender a respeito do que escreve do que buscar detratar um discordante ele faria melhor teologia, e uma teologia para a glória de Deus.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

São o Amor e a Justiça Divinas Um Único Atributo? Afirmamos que Sim, mas Fazemos a Devida Distinção

    Uma grande questão se levanta quando nos pomos a discorrer sobre os atributos divinos. E ultimamente tem se levantado a afirmação de que não existe algo que possamos chamar de distinção entre o amor e a justiça divinas, isso porque Deus é simples, não dotado de composição; assim sendo qualquer distinção que possa se estabelecer entre os atributos divinos, como justiça e amor, desembocaria na conclusão de que Deus é composto, o que acabaria por destruir o conceito de Deus. Notem bem: é bem verdade que Deus é simples, e isso afirma a escritura quando diz que Deus não possui variação ou sombra de mudança (Tg 1.17), e que impor qualquer composição em Deus seria coloca-lo nos limites da criatura da qual Deus é radicalmente distinto. Também é verdade que o nome atributo só pode ser aplicado metafórica e impropriamente a Deus, pois são os atributos não qualidades dadas a Deus pelas quais possamos notar um acréscimo em seu Ser. Assim sendo, em um sentido bem próprio é verdade que Deus não possui atributos, mas Deus é seus atributos; Deus não possui justiça, mas Deus é a Sua justiça; também Deus não possui amor, mas ele é amor.

    Foi da lavra dos nominalistas a noção de que as distinções entre os atributos divinos só são distinções que possuem realidade em nossa mente. Assim o conceito de atributos não é fruto de uma predicação real, mas meras logias, palavras pela qual poderíamos organizar o conceito de Deus para nós. Fazendo assim os nominalistas resguardavam o conceito de simplicidade divina, mas como consequência tal noção poderia confundir os diversos fins estabelecidos por Deus para seus atos. Como afirmou de forma assertiva Berkhof, por esse caminho estamos indo em a passos largos em direção ao panteísmo1, como procurarei esclarecer mais tarde.

    Mas o que são os atributos divinos? Turretini define os atributos como: Os atributos divinos são propriedades essenciais pelas quais Deus se faz conhecido a nós, que somos fracos, e aquelas pelas quais ele se distingue das criaturas; ou são as que lhe são atribuídas em consonância com a medida de nossa concepção, a fim de explicar sua natureza2 e: indicam perfeições essenciais à natureza divina concebidas por nós como propriedades3. E como dissemos anteriormente, tais propriedades não são atribuições em sentido próprio, mas sim em sentido impróprio, sendo atribuídos a Deus metaforicamente, pois eles não podem ser distinguidos intrinsecamente da essência divina que é una e perfeitíssima. Contudo, mesmo que tais atributos não possam ser distintos realmente da essência divina, contudo nem por isso eles não podem ser virtual e eminentemente distintos tanto da essência divina como entre si, i. e., extrinsecamente quanto à terminação, ou seja, quanto aos distintos fins e efeitos exteriores propostos na essência divina.

    Partimos da noção de que os atributos não podem ser realmente distintos da essência divina. A razão disso é que tal essência, por ser imutável, é absolutamente simples, repugnando a ela qualquer forma de composição. Entendamos que a unicidade por composição só pode vir por agregação, agregação essa que não pode ter a sua razão de ser, como causa, o próprio sujeito composto. Ora, isso destruiria a independência de Deus, pois a agregação supõe uma perfeição anterior pela qual a unidade do composto pode vir a ser. Também implicaria em impor a Deus potência passiva - raiz da mutabilidade - pois na composição um ente passa de um estado a outro. Ora repugna ao ser simplicíssimo tanto a mutabilidade quanto a composição. Nesse sentido repugna qualquer distinção real intrínseca ao ser simplicíssimo. Não obstante a isso não repugna ao ser simplicíssimo a diversidade quanto à terminação, i.e., quanto à diversidade extrínseca de fins propostos pela essência divina pelas quais é constituída a base para as diversas concepções formais em relação aos atos divinos formuladas por nós. Ora, é justamente por isso que distinguimos em sentido próprio um ato de juízo realizado no ser ao qual o juízo é destinado do ato de misericórdia para quem tal ato é direcionado, pois mesmo que em sentido último tais atos visem unicamente a glória divina, elas não visam a mesma glória da mesma forma, ou segundo os mesmos efeitos.

    A partir desse ponto podemos colocar a questão de forma mais clara: a distinção formal (i. e, intelectual) entre os atos de misericórdia e juízo não é mera distinção entre os nomina, como afirmaram os nominalistas, pois a constituição formal da misericórdia e do juízo são realmente distintas qua efeitos, pois tais efeitos dessas operações divinas são diversos nos termos passivos aos quais tais atos divinos se remetem - aqui mais precisamente os homens que são alvos ou do juízo ou da misericórdia. Ninguém pode dizer que o ato do juízo é idêntico ao ato de misericórdia, pois os fins propostos em tais atos não são o mesmo, embora ambos os atos Deus vise igualmente a Sua glória. Aqui temos a base pela qual a teologia não cai na irracionalidade, pois ao percebermos a diversidade de fins podemos apreender a diversidade de operações em Deus: criar não é o mesmo que ajuizar; castigar não é o mesmo que perdoar; e salvar não é o mesmo que punir, pois mesmo que Deus salve um punindo outro, aquele a quem Deus salva e aquele a quem Deus pune não recebem necessariamente a mesma operação em sentido unívoco, mesmo que ambas as operações procedam da essência una.

    É nesse sentido que entendemos que a distinção de atributos divinos é algo proposto para a nossa compreensão a respeito daquilo que Deus mostra de Si na criação. Confundir a juízo e misericórdia é por a obra divina sob o sinal da irracionalidade, coisa que não convém às perfeições de Deus. É aqui que entendemos o que Berkhof queria dizer quando disse que a eleminação de qualquer forma de distinção em Deus conduziria ao panteísmo (ou ao panteísmo gnosiológico), pois mesmo que não haja uma distinção real entre essência e atributos divinos, e nem mesmo uma distinção real entre os atributos entre si, contudo a eliminação da distinção lógica entre eles colocaria os efeitos da operação da essência divina sob o sinal da indiferenciação. Assim, criar não seria algo distinto de condenar, e nem mesmo os efeitos da criação criados por Deus difeririam das operações divinas, mesmo que tudo promane de Deus.

    É bem verdade que os atributos divinos podem ser predicados uns dos outros quando visualizados pelo ângulo da unidade; assim dizemos que o amor pode ser predicado da justiça, assim como a intelectualidade pode ser predicada da volutariedade em Deus, pois todas essas coisas, na essência divina, são uma só. Mas isso não é verdade no que diz respeito à distinção formal, i. e. intelectual desses atributos, pois existe uma diversidade tanto em relação à nossa concepção, quanto com relação aos fins e objetos desses atributos divinos. Portanto os atributos estão sob o sinal da unidade quanto ao princípio, i.e., quanto à unidade da essência; contudo são diversos quanto aos objetos aos quais se dirigem e quanto aos diversos efeitos produzidos no ser; são um uno enquanto considerados subjetivamente, absoluta e intrinsecamente em Deus; mas são diversos quando considerados objetivamente, relativa e extrinsecamente quanto aos fins e efeitos no ser.

    A diversidade de efeitos sugere um diversidade de fins, mas não uma diversidade intrínseca em Deus, mas sim uma diversidade formal, i. e, intelectual, em nós quanto aos atributos, pois é assim que alcançamos alguma noção de Deus. Nesse sentido os atributos divinos não possuem uma distinção real, mas meramente lógica, pois Deus é uno e simples sem qualquer espécie de composição.         

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[1] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Ed. Cultura Cristã. São Paulo-SP, 1ª ed., 1990. p. 44, 45

[2] TURRETINI, Francis. Compêndio de Teologia Apologética. Ed. Cultura Cristã. São Paulo-SP, 1ª ed., 2011, p. 257

[3] Idem.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

A Família de Deus

    É muito difícil entendermos muito bem, com base em nossa sensibilidade religiosa atual todo o modo de ser da família de Jacó. Estamos falando de uma estrutura antiga e poligâmica de família com o adicional do o instituto do concubinato, algo inexistente nos nossos dias. Provavelmente você já se perguntou se o modelo de vida dos patriarcas é um modo de vida possível hoje; ou deve ter se perguntado se o Deus é mutável em sua moralidade para permitir antes a poligamia que a igreja hoje rejeita. Mas a resposta é “Não”, Deus não muda em seus propósitos, mas os meios para atingi-los variam em cada época. A questão é que o mundo antigo não era populoso, e contando com taxas evidentemente altas de mortalidade a poligamia se tornava uma forma de sobrevivência. Contudo isso nem é o importante da questão aqui. Ao tratarmos da questão da Família de Deus queremos falar a respeito da graça que vem para retificar um povo falível.

    Não há outro termo: a história da família de Jacó é estarrecedora, pois ela contava: com irmãs esposas lutando por um marido (Gn 30.1); a amada Raquel vendendo seu marido por um punhado de mandrágoras (30.14,15); Rúbem, o primogênito, cometendo incesto com Bila, concubina de seu pai (35.22); Raquel roubando os ídolos de seu pai, inserindo idolatria na família eleita (31.19); Simeão e Levi assassinando uma vila inteira como vingança pela violação de sua irmã Diná (34.25-31); José, o mais novo, vendido por todos os seus 10 irmãos a uma caravana de ismaelitas, o que levou os 10 a mofarem o ocorrido debaixo da mentira da sua José por anos a fio (37); Judá mostrando seu lado perverso, fraudando a lei do levirato e mantendo relações sexuais com prostitutas, além de hipocritamente buscar a morte de sua nora que supostamente havia adulterado, enquanto que ele é quem a havia possuído (38); os bisnetos de Abraão, Onã e Er, sendo mortos por Deus por se rebelarem diante dele (38.9).

    A intenção aqui não se trata de maldizer o conceito de eleição, ou blasfemar dos patriarcas, antes é mostrar a quem Deus chama, e como são aqueles a quem Deus chama. Longe de significar qualquer coisa como premiar a injustiça, a graça e a aliança divina visa tratar o homem tal como ele é em toda a sua imperfeição. Aqui podemos afastar aquela visão torcida que muitas vezes foi sinalizada por um lado demasiadamente ascético e purista que sempre povoou a Igreja que buscou expulsar dela os imperfeitos, botando mais fé em uma suposta retidão que falsamente viam do que acreditando naquela graça, que sustenta o filho de Abraão, que justamente não viam. É por isso que a família de Deus é algo que pode ser decepcionante para quem julga achar nela mais do que tem para dar a ela. É nesse povo imperfeito, e por vezes incrivelmente estarrecedor, que está em vigência aquela graça do Cristo, que a esse pequenino rebanho decidiu entregar o seu Reino.

Esmagando o Meu Servo

    Após o conselho de seus pais, fugindo também da face de Esaú, Jacó vai em direção a Padã-Arã (פַּדַּנ־אֲרָם = paddam-’arām), que significa campo alto, ou Campina da Síria, lugar que é identificado com a região de Damasco (lugar onde Paulo teve o encontro com Jesus Cristo) na Mesopotâmia, lugar onde vivia Labão, filho de Betuel e irmão de Rebeca, mãe de Jacó. Esse conselho foi dado a Jacó em consonância com o desejo de Abraão de que não fossem tomadas para seus filhos mulheres da terra de Canaã, e antes de sua partida, invocando a Deus pelo nome de El Shaday (אֵל שַׁדַּי = el shāddāy), ou Deus Todo-Poderoso, Onipotente – indicando um superlativo, pois tanto “El” como “Shaday” significam cada qual Deus Todo-Poderoso -, o despede confirmando sobre ele as bênçãos de Abraão. Assim se inicia uma jornada de penitência e conversão de Jacó, partindo de Berseba e indo em direção a Arã.

    Em sua primeira noite, chegando a determinado lugar, Jacó tomou uma pedra que fez travesseiro, e tomado pelo sono teve uma visão onde do lugar que se encontrava até os céus se estendia uma escada, transitando sobre ela anjos com YHWH no topo dizendo sobre a possessão daquela terra por parte dele e de seus descendentes, confirmando as bênçãos de seu pai Isaque, e prometendo a ele proteção. Ao acordar ele levantou um altar e chamou aquele lugar de Betel (בֵּיתְ־אֵל = bêt-’el), que significa Casa de Deus. Depois disso tomou a pedra que recostou a cabeça e fez um altar (a coluna de Betel) entornando sobre ela óleo, e invocando o SENHOR pro meteu dar dízimo de tudo se ELE o levasse e o trouxesse em segurança para a casa de seu pai. Partindo para o Oriente encontrou Rebeca, filha de Labão, irmão de Raquel. Após o encontro Jacó trabalhou para seu tio, Labão, fixando que trabalharia por sete anos por Raquel, sua filha, com o que Labão consentiu.

    Mas a história dá suas voltas, e após os sete anos Labão, ao invés de dar Raquel (רָחֵל = rāhēl = ovelha) em casamento, deu Labão sua filha Lia (לֵאָה = lē’āh = cansada, desfalecida), enganando a Jacó. O enganador foi enganado, e ficou estabelecido que por mais sete anos serviria por Raquel. Para Raquel foi dada Bilah como serva (בִּלְהָה = bilĥāh = cujo significado é casada, velha), e para Lia foi dada Zilpa (זִלְפָּה = zilpāh = cujo significado é gotejante, provavelmente no sentido de “reclamona”). Em Gn 29.31ss começamos a ver a saga familiar de Jacó – tornando-se um joguete da rivalidade das irmãs -, e ao ver o SENHOR que Jacó amava mais a Raquel fez Lia fecunda, ao passo que Raquel era estéril. A história pode ser vista ao longo de todo o cap. 30, mas em resumo Lia teve seis filhos homens e uma mulher; sua serva, Zilpa, lhe deu dois filhos. Raquel lhe deu dois filhos e Bila, sua serva, lhe deu mais dois filhos homens, totalizando um todo de 12 filhos homens e uma mulher, 12 ao longo de 7 anos.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

A Filosofia e a Perda do Objeto Absoluto

"Todo ser necessário por si mesmo é bem puro e perfeição pura; e o bem em geral é o que todas as coisas almejam e pelo qual aperfeiçoam seu ser"*. (Avicena).

Filosofia sem metafísica é o trabalho inútil de uma mente falida - de uma humanidade falida que desmancha na ausência de um objeto absoluto no qual ela pode visar e adquirir para si inúmeras e infinitas perfeições.

Essa é uma das razões pelas quais a filosofia moderna é tão feia, caótica e disforme. Essa é a razão também pela qual a ética moderna é tomada por várias deformações, pois seu fim é nada, suas metas desmancham no ar ao cerrar sua atenção nas ambições do momento que fizeram de um horizonte meramente temporal (que desvanece) seu próprio fim.

O mundo moderno perdeu seu referencial absoluto porque tem fobia da eternidade, lançando-a para fora de suas considerações julgando com isso alcançar a liberdade. E o que ganha com isso? O nada, o nada que para ser atingido deve gangrenar tudo o que existe, desfazendo tudo é. Parece que não se vê disso a consequência: ao abandonar o ser necessário, a única coisa que alcança, em direção ao nada, é a morte.

A ética e a filosofia modernas são, no fim, necrologia, culto à morte e amor pela deformação, pois destituída de um fim último permanente que poderia conceder a ela definição, forma, beleza.

O banimento de elementos metafísicos é o que encurtou a visão da filosofia, o que fez também encurtar a humanidade, tirando dela a sua grandeza; retirou a sua noção de bem pelo qual todas as coisas tem para si sua perfeição e pela qual, unicamente pela qual, podemos fazer um juízo a respeito da maldade do mundo, nos colocando a salvo dele na visualização do supremo e eterno bem.

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*AVICENA (Ibn Sīnā). A Origem e o Retorno. ed. Martins Fontes, São Paulo-SP, 1ª Edição 2005. p. 24

domingo, 13 de fevereiro de 2022

Tua Honra por um Caldo

    A primeira interação que temos entre Esaú e Jacó está logo em Gn 25.27-34, em um dos episódios mais estarrecedores de Gênesis. A perplexidade desse episódio se dá em virtude de uma inversão moral que ao mesmo tempo explica certa hierarquia de valores constitutiva de uma moral divinamente revelada, e nos coloca diante de um exemplo do quão longe pode ir o desprezo humano pelas coisas que dizem respeito a Deus e aos homens. No vs. 29 é dito que Jacó havia feito um cozido (נָזִיד) – termo que não guarda nenhuma correspondência com o termo lentilhas, como é comumente traduzido –, em um dia em que Esaú veio do campo exausto. No vs. 30 Esaú pede a Jacó um pouco do caldo vermelho (אָדֹ֤ם = ’ādōm), daí a origem do seu segundo nome, Edom (אֱדוֺם = edōm), nome que Deus origem à nação dos edomitas ou da idumeia. Dos vs. 31-33 temos a questão da venda da primogenitura, direito que Esaú dispõe, mediante juramento, à venda em troca do cozido preparado por Jacó.

    No contexto a que nos referimos o direito de primogenitura tinha referência direta à benção de Abraão, e como vemos posteriormente à venda da primogenitura se agrega essa benção, fazendo com que Esaú fosse despossuído de vários direitos. Sim, mesmo que com astúcia Jacó tivesse adquirido a benção de Abraão mediante seu pai Isaque (Gn 27.1-40), o gesto profano de Esaú só mostra que ele agia com desprezo em relação aos bens do Espírito, pois além do mais acrescentou a esse desprezo o ter tomado para si mulheres de Canaã, contrariando a vontade de sua mãe e de Abraão, seu avô (Gn 26.34), contrariando todo o projeto da aliança divina que até então havia sido estabelecido para a sua linhagem. Aqui se torna claro que Esaú não estava disposto, ou inclinado em suas virtudes, para a execução dos planos que Deus havia preparado para Abraão, pelo que a sua benção caiu em seu irmão mais novo.

    Esaú é a figura própria do velho homem. Seu nome Edom (אֱדוֺם = edōm) é formado pela mesma raiz que forma o nome de Adão (אָדָם = ’ādām), e além da proximidade fonética (dos sons das palavras), os nomes possuem também proximidade semântica (significado), não apenas no sentido geral de vermelho – pois Adão significa vermelho e humanidade –, mas no sentido teológico, ou seja, ambos se aproximam no seu afastamento deliberado das coisas divinas, o que fez com que ambos trouxessem sobre eles imensa dor. Tal catástrofe não é, portanto, gratuita: um, nosso pai ancestral, em troco da bem-aventurança furtou da árvore aquilo que lhe retirou tudo, trazendo sobre ele morte e tristeza; o outro, o pai de Edom, que em troca do dos seus bens eternos preferiu um caldo comum que lhe trouxe amargor. Ambos pensaram pequeno preferindo um bem ínfimo pela eternidade; ambos são reflexos da nossa humanidade - אָדָם = ’ādām: humanidade –, quando escolhemos levianamente o nosso pecado.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

A Quem Escolheu Deus?

    Um dos livros mais usados por Paulo é literatura de Gênesis, pois ela oferece aportes teológicos importantes para assuntos como a absoluta liberdade de Deu, justificação pela fé, pecado original (ou a Queda de Adão), a natureza da circuncisão, o batismo (tomando a analogia da circuncisão a fim de falar a respeito do batismo), assim como a predestinação. No texto de Rm 9.6-13 Paulo discorre sobre Gn 25.21-23. No texto de Gênesis é dito que Rebeca se angustiava pois seus filhos lutavam já em seu ventre. Consultando o SENHOR Rebeca recebeu a seguinte resposta: Duas nações há no seu ventre, dois povos, nascido de ti, se dividirão: um povo será mais forte do que o outro, e o mais velho servirá ao mais moço. O propósito de Paulo é afirmar a absoluta liberdade de Deus em eleger um e rejeitar a outro, mesmo antes do nascimento, não tendo praticado eles quer bem, quer mal. Uma explicação é necessária, pois desses versículos não raro surgiram acusações a respeito da injustiça de Deus.

Pois bem, sinalizamos aqui a percepção teológica de Paulo a respeito do nascimento de Esaú (עֵשָׂו = ’ēsaû), que significa peludo, e Jacó (יַּעֲקֹב = yă’akōb) que significa pegar no calcanhar, ou mesmo suplantador e defraudar. Lembrem do juízo divino sobre a descendência da serpente que iria ferir o calcanhar de Cristo (Gn 3.15). O nome de Jacó tem um sentido expressivo de perversidade, ou engano como característica do nome que o possuí. E é mais incrível que Deus tenha escolhido Jacó e preterido a Esaú. Não se trata de premiar o mal, antes se trata de assinalar a liberdade em graça de Deus para escolher um povo para si. Paulo anteriormente em Rm 3.23, antes de se deter na eleição de Jacó, afirma que todos estão destituídos da glória de Deus. Em Ef 2.1ss Paulo diz que todos nós estávamos mortos (νεκρος = nékros) quando ele nos deu vida (ζωη = zōē). Ora, assim entendemos que é Deus quem dá o primeiro passo para a salvação por nos conceder graça, pois, Ele nos amou primeiro (Jo 4.19b).

O que é importante aqui é perceber que é necessário entender que para a salvação é Deus a quem pertence o primeiro ato, pois estávamos mortos. Junto a isso devemos unir a revelação bíblica de que nenhum dos Seus planos podem ser frustrados (Jó 42.2b) e que só os desígnios do Senhor permanecem eternamente (Sl 32.11). Aqui podemos voltar a Rm 9.ss, onde Paulo afirmando a soberania divina contesta aqueles que tentam achar in justiça de Deus: Que diremos, pois? Há injustiça da parte de Deus? (Rm 9.14). E em Rm 9.15 ele cita as palavras da revelação de Moisés: Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia. Paulo tem em mente que não há quem mereça a salvação, e que é por isso que não podemos ser justificados pelas obras, mas pela graça mediante a fé (Ef 2.8). Também aqui se torna inteligível o fato de que Deus elegeu Jacó antes mesmo de fazer bem ou mal (supra), pois não tendo possibilidade de salvação só pode ser salvo por uma eleição de Deus, já que somente Ao SENHOR pertence a salvação (Jn 2.9) e não ao homem.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Milagre!

Após a morte de Sara registrada em Gn 23.1ss, Abraão incumbiu o mais antigo servo seu da busca de uma esposa ao seu filho Isaque. Feito o juramento de que seu servo não iria à busca de uma esposa para Isaque dentre as filhas de Canaã (24.2,3,9), partiu o servo com a benção de Abraão à procura de uma esposa dentre os parentes de Abraão, ou seja, a descendência de Naor, seu pai (24.4). A certa altura, o servo orou a Deus e pediu um sinal de que ele havia encontrado a esposa de Isaque: que a moça desse de beber a ele, e aos animais depois dele (Gn 24.14), o que ocorreu quando ele encontrou Rebeca (רִבְקָה = ribeka, que significa algo como cativante, ligação), filha de Betuel, filho de Milca, mulher de Naor (Gn 24.15-27). Após isso o servo foi recebido na casa do pai de Rebeca, Betuel, e expondo o caso, e a promessa que fizera a Abraão, teve o consentimento de Betuel (24.50) para levar Rebeca a Isaque, além do próprio consentimento de Rebeca (24.58).

Após tudo voltou o servo a Abraão junto com Rebeca, e de longe ao ver Isaque meditando no campo, tomou seu véu, cobriu o rosto e foi conduzida pelo servo ao encontro de Isaque que a tomou e a levou para a tenda de Sara, sua mãe (24.63-67a). Diz a escritura que Isaque amou-a (וַיֶּאֱהָבֶ֑הָ = vayyěehāvěhā) e foi consolado (וַיִּנָּחֵ֥ם = vayyināhēm) após a morte de Sara. A Escritura aqui mostra uma unidade de sentido muito importante. Na afirmação de Adão em Gn 2.24 se diz que deixa o homem seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher. Aqui vemos em um caso concreto como o casamento, e posse de Rebeca como esposa, preencheu o vazio deixado pela morte de Sara, consolando Isaque. Deixou ele sua mãe e se uniu à sua mulher, Rebeca a quem ficou atado pelo amor. Vemos aqui um paradigma para os filhos de Israel - coextensivo à humanidade toda -, já que após o primeiro casal esse é o primeiro relato de um casamento completo, e no salto de Adão e Eva para Isaque e Rebeca o padrão permanece idêntico.

Padrão também segue a sustentação divina no caso de Abraão, onde a continuidade da linhagem, segundo o desígnio divino, segue sendo possível segundo atos miraculosos. Em Gn 25.21a é dito que Rebeca era estéril, e em 25.21b diz que YHWH, o SENHOR, atendeu ao pedido de Isaque e Rebeca concebeu, dando à luz dois filhos, que eram Esaú e Jacó. Casos de concepção miraculosa são recorrentes na escritura. Lembremos da história do nascimento de Sansão (Jz 13), de Samuel (1Sm 1.9-28), ou mesmo a predição sobre o nascimento de Ezequiel que iria trazer libertação ao povo (Is 7.14-16), além da concepção miraculosa de João Batista (Lc 1.8-25) e de Jesus (Mt 1.18-25; Lc 1.26-45). Todos esses testemunhos encerram a verdade de que a ação de YHWH, o SENHOR, na história, na promoção da salvação, é ação que está encerrada na potência divina e não no conjunto de possibilidades oferecidas pelo mundo ou pelo homem. A razão disso é que ao SENHOR pertence [miraculosamente realizar] a salvação (Jn 2.9).

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Liberdade e Prudência: O Problema da Ilimitação da Liberdade de Expressão

    O argumento da liberdade de expressão ilimitada exposta pelo Monark é semelhante ao planejamento urbano que a pretexto de promover mais senso de higiene entre os cidadãos resolvesse construir vias com esgoto a céu aberto a fim de que a repulsa pelo cheiro levasse a um maior desejo por limpeza.

    Pense em um minuto nessa analogia. A grande questão é que a exposição ao horror e à loucura constantes levaria a uma degradação de certo senso de limite. O grande erro dessa versão extremada de liberalismo que o Monark representa é aquela inocência imoderada que pensa que o bom senso sempre vencerá, e que a sociedade nunca colapsará caso libere forças caóticas e homicidas para circular em pé de igualdade com o "pelotão do bom-senso" (ou do comom-sense no sentido britânico, que é aquele senso natural de alegria pela felicidade alheia, senso de comunidade, comedimento etc.).

    Abrir espaço para a radicalização irrestrita é o primeiro passo para a destruição do senso de amizade, daquele afeto mutuo que constitui o tecido que ampara a convivência civil. E Aristóteles dizia que o fim do legislador é muito mais preservar essa amizade até mesmo do que se preocupar de forma obcecada com a justiça - que o nosso país entenda isso. Nesse sentido a liberação de forças de extrema violência através da liberação da circulação de discursos enlouquecidos já geraria uma gangrena na rala verniz moral que ainda garante certa unidade civil - imagine um vilipêndio irrestrito de sulistas contra nordestinos ou coisa parecida.

    No fim, no fim, por uma previsão de cenário, o grande problema do estabelecimento da liberdade de expressão irrestrita seria garantir a formação de partidos políticos por parte de terroristas e extremistas, de maneira a possibilitar a tomada do poder, gerando ocasião para que o fanatismo ingresse na estrutura de Estado, moldando essa estrutura.

    Muitas teorias de uma ala extremada e anárquica do liberalismo (que ironicamente coincidem com teses defendidas até mesmo por comunistas) são simplesmente deletérias, e devem ser banidas daquele campo das possibilidades reais onde tais ideias poderiam vir a tomar corpo concreto na história, destruindo muitos - incrivelmente a liberação de forças extremas é um problema sério nos Estados Unidos. E contra o extremismo, como diriam os teóricos conservadores, a única oposição radical seria a prudência, sōphrosýnē (σωφροσυνη), prudência que Aristóteles definiu como a virtude política por excelência.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Entrego Meus Poços pela Paz

    O Antigo Testamento está pleno de evangelho. Quando se afirma isso partimos da distinção que ficou famosa – e até determinante – na teologia luterana. A distinção entre lei e evangelho é aquela que parte da teologia paulina (i.e. do apóstolo Paulo) em que a justificação se dá, no evangelho, pela fé em Cristo de forma independente das obras da lei. Mas também se remete às doutrinas da misericórdia que devem ser postas em práticas por todos os cristãos. Nesse sentido, o sermão da montanha em Mt 5-7 mostram uma forma de conduta de Cristo pela qual a justiça da lei – que é santa e justa – é sobrepujada pelos interesses do perdão e da misericórdia. Assim somos ensinados a ir para além da mera Lei do Talião, ou seja, a lei que instrui sobre a natureza da justiça nos famosos dizeres olho por olho e dente por dente (Lv 24.20). Essa lei não é um incentivo à vingança, mas um regramento que delimita a punição retributiva ao tamanho do agravo sofrido, não indo além para além dele.

    Mas é possível que se vá para além da justiça retributiva, e já no Antigo Testamento, especificamente em Gn 26, há uma interessante história que ilustra como esse espírito evangélico já era constitutivo da moral cultivada por Deus nos corações dos homens. Gn 26.15-25 nos fala da história das peregrinações de Isaque nas terras de Gerar, e como prosperou imensamente nos campos de Abimeleque, por inveja lhe entulharam os poços que haviam sido cavados desde os tempos de Abraão. Após isso ainda cavou mais três poços, dois dos quais lhes foram tomados em reivindicação pelos donos das terras, mas na terceira vez ninguém contendeu com ele e seus pastores pela sua posse, e assim chamou aquele poço de Reobote (רְחֹבֹ֔ות = rehōbôt), nome que significa amplo, campo aberto, espaçoso, extenso, largueza, denotando possivelmente a capacidade de Isaque crescer em paz.

    Note que antes de findar a campanha de entulhamento dos poços, Isaque não buscou reivindicar qualquer direito, e mesmo sendo poderoso, mais até do que Abimeleque (cf. vs. 16), não usou do seu poder para entrar em guerra em nome da justiça, antes cedeu espaço – e até mesmo direito - para aqueles que o atacavam. É impossível com essa história não vir à mente os vs. de Mt 5.39,40, onde diz: Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra; e ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa. Esses versículos nos ensinam a abrir mão da reivindicação do que é nosso em nome de um benefício maior, a sacrificar pela paz, em última instância. Isso não significa recompensar o mal, mas recusar cai na provocação, pois o mal tem vingador, se já desprezo da misericórdia, como diz Paulo: Amados não se vinguem, mas dêem lugar à ira, como está escrito: Minha é a vingança e eu retribuirei (Rm 12.19).


O Sacrifício de Isaque

    A espiritualidade cristã está indissoluvelmente ligada ao sacrifício. É dito que o sacrifício está vinculado de forma vitalícia ao amor, pois o amor estabelece uma ordem de prioridades pela qual colocamos no topo da nossa hierarquia de valores aquilo pelo qual tudo o mais deve ser sacrificado, incluindo a nossa própria vida – ora, só sacrificamos tudo o que é nosso àquilo que mais amamos e sem o qual a nossa vida não teria qualquer sentido. E não é verdade que a mentalidade moderna dispensou de uma vez por todas a noção de sacrifício, ela só substituiu o seu objeto, pois ao destituir a Deus como a medida de todas as coisas o homem moderno fez de si essa medida, e como resultado tudo o mais serve para ser sacrificado no altar da sua vontade pessoal, dos seus desejos e apetites. A lógica do sacrifício é impossível de ser rompida uma vez que todos nós temos fins e prioridades; enfim, todos nós amamos algo pelo qual tudo o mais, ao nosso ver, deve se dobrar, pois o amor ordena todos os fins em ordem a si mesmo, pois, como diziam os escolásticos: o fim é o primeiro na ordem do causar.

    O sacrifício de Isaque ilustra de forma exata o lugar do homem diante de Deus. Em Gn 22.1ss somos informados de que Deus testou (נִסָּ֖ה = nissāh) a Abraão, pedindo a ele Isaque em sacrifício. A história pode causar certo estranhamento em nós, mas devemos lê-la em seu contexto próprio a fim de extrair dela todo o seu sentido. É importante ter em mente que sacrifícios humanos não eram coisas raras no contexto do antigo oriente próximo, como nos atesta a escritura (2Rs 3.27), onde o Rei de Moabe sacrificou seu filho, causando indignação geral contra Israel que pressionava Moabe. A despeito dos detalhes dessa história, a lei mosaica já trazia um veto rigoroso contra o sacrifício humano. Em Lv 18.21, e em Dt 18.10 o sacrifício humano é expressamente proibido. Tais vetos não teriam razão de ser se o contexto não criasse uma ocasião a esse tipo de oposição. É nesse contexto que o sacrifício de Isaque ganha seu total sentido.

    Como quero argumentar aqui, a história do sacrifício de Isaque serve a dois propósitos distintos: 1) salientar o lugar de Deus para a fé; 2) e destruir a mentalidade pagã do oriente antigo a respeito do sacrifício humano. O primeiro propósito ilustra a obediência de Abraão, de tal maneira que Isaque, seu filho da velhice, aquele que foi prometido por Deus, é requisitado exigindo que Abraão coloque a vontade divina acima do filho do seu amor. O segundo propósito se realiza quando providenciando um cordeiro, Deus extingue refuta qualquer necessidade de sacrifício humano, excluindo-o permanentemente do culto de Israel. Em um caso e em outro, o cordeiro substituto, providenciado por Deus, é sacrificado vicariamente cumprindo os propósitos divinos, realizando um bem em proveito humano. O cordeiro substituto surge aqui como a imagem de Cristo, o qual realiza em si mesmo, na preservação do homem, o resgate que nos concede a paz.

Milagre!

    A promessa divina sobre Abraão tem início logo na sua vocação em Gn 12. Lá é prometido ao patriarca que dele seria feita uma grande nação. Somente em Gn 13.14, 15 é que é feita explicitamente a promessa de uma terra. Deus ordena todas essas promessas segundo uma finalidade específica, que é demonstrada em Gn 18.19: Porque eu o escolhi para que ordene a seus filhos e a sua casa depois dele, a fim de que guarde o caminho do SENHOR e pratique justiça e juízo; para que faça vir a Abraão o que dele tem dito. Em sentido estrito, Deus escolheu Abraão a fim de criar uma raça piedosa, de maneira que partindo de Abraão um povo fosse constituído em observância estrita à Palavra do Senhor. Deus prometeu duas coisas: um povo e uma terra para o povo, e em sentido mais profundo, Deus estabeleceu a partir de Abraão a nação que acolheria em seu seio o Seu Filho, a Palavra feita carne, pelo qual a humanidade alcançaria a remissão dos seus pecados.

É significativo que em uma condição natural quase impossível Deus fez surgir a nação de Israel. Abraão, quando do nascimento de Isaque, já contava com 100 anos e Sara com 91 anos. E não só isso, Sara era estéril, incapacitada de dar à luz filhos a Abraão. Nesse estado de coisas o nascimento do projeto divino começa à luz de um milagre, como o projeto divino de redenção deve ser: um milagre. Assim, a história de Israel não deve ser visto apenas como uma coleção de fatos históricos que se deu no fluxo dos tempos, mas também como uma coleção de milagres pelos quais Deus, o Senhor, sinaliza a sua presença na história da redenção humana. Aqui Deus sinaliza diversos motivos que confluem para o estabelecimento da mensagem de que Deus, o Senhor, rompe com a mera configuração natural do mundo, movendo os olhos dos homens para além do mundo, lá onde se localiza a sua verdadeira redenção e esperança.

    Israel nasce do milagre, e Isaque (יִצְחָק), aquele é motivo de sorriso, indica a alegria gratuita daqueles que nada podendo esperar de si e de suas capacidades naturais, são alçados pela graça do Senhor, graça que confirma o amor livre de Deus que não sabemos de onde vem e nem menos para onde vai, já que não podemos detectar a sua origem precisamente e nem mesmo o seu fim, fim que nenhum olho viu e nenhum ouvido ouviu. Assim é a graça de Deus e diante dela a única coisa que podemos expressar são nossas ações de graça, nosso agradecimento sincero que surge pela irrupção imerecida de Deus na história, que intervindo na ordem natural das coisas, sem destruí-la, ao mesmo tempo que a elevando, nos fornece bens superiores em manifesto cuidado amoroso pela criatura que somos. Assim a história de Abraão é a história de todos nós que cremos na bondade de Deus contra toda esperança.  

domingo, 6 de fevereiro de 2022

O Justo do Senhor

  A história da justificação de Abraão em Gn 15.6 foi colhida por Paulo como a história paradigmática, ou modelar da justificação pela fé sem a concorrência das obras da lei. O uso que Paulo faz de Gn 15.6 está em Rm 4 e em Gl 3.6-22. Compreender o uso que Paulo faz dessa passagem de Gênesis é fundamental para a compreensão cristã a respeito da justificação. Os texto hebraico para se referir ao ato de Abraão crer em Deus é וְהֶאֱמִ֖ן בַּֽיהוָ֑ה (vehe'emin bayhwāh) ou: “e deu seu amém ao Senhor”; e o ato da imputação da justiça é צְדָקָֽה לֹּ֖ו וַיַּחְשְׁבֶ֥הָ (vayyahexevehā lô tsedākā), ou algo como: e considerou (o ato de fé de Abraão) para a justiça. Na LXX o termo para considerar ou estimar é ελογισθη αυτω εις δικαιοσυνην (elogisthē autō eis dikaiosynēn), algo como computado, considerado ou contabilizado como justiça. Tanto o termo וַיַּחְשְׁבֶ֥הָ como o termo ελογισθη comportam a noção de considerar, estimar e mesmo reputar, e foi a fé o meio pela qual Abraão alcançou a graça de ser tido como justo, não por obras ou pela lei.

É importante nos reportarmos às palavras de Paulo em Rm 7 e 8.1-11. Segundo Paulo a lei foi tornada impotente (αδυνατος) em virtude carne (σαρξ), pois nos membros do homem caído há uma outra lei (ετερον νομος) que guerreia contra a lei de Deus (νομω του θεου) com a qual o homem interior concorda. Assim, é impossível que a lei de Deus se estabeleça como o meio de salvação porque a natureza humana que nos compõe é corrupta. Assim, independentemente da lei somos em Cristo justificados pela fé, pois Deus enviou seu Filho em carne condenou o pecado na carne santa do seu Filho, de modo que o pecado (αμαρτια) perdeu seu poder para nós que andamos segundo o Espírito (περιπατουσιν κατα πνευμα). Mas atenção, o homem que anda segundo o Espírito é alguém cujo homem exterior pode se corromper, mesmo que o exterior ainda se renove dia a dia (2Co 4.16); também o andar no Espírito não parece ser a libertação das defecções em sentido absoluto, pois é imperativo continuar a mortificação constante dos membros que estão sobre a terra (Cl 3.5ss).

Ao longo da história da igreja a compreensão a respeito da justificação sempre foi alvo de disputa. Mas o que está claro é que a nossa justificação vem de Deus pela fé (Gl 5.5), e também que na justificação ainda há pontos de defecção com os quais devemos lutar; e sendo amparados pelo poder do Espírito, por sermos considerados no indicativo como estando em Cristo, se torna imperativa a luta contra o pecado que habita em nós ao modo de defecção da natureza, ou da fraqueza da carne. Continua para os justos a tarefa de se humilhar debaixo da potente mão de Deus (1Pe 5.6), lamentar as misérias e chorar (Tg 4.9), e andar pelo Espírito na fé que atua pelo amor (πιστις δι αγαπης ενεργουμενη, cf. Gl 5.5,6), mesmo sabendo que se atuamos bem, como Abraão, temos do que nos gloriar, mas não diante de Deus, já que dele tudo provém, até mesmo a nossa justificação que nada mais é do que a justiça de Cristo em nós que nos dá a vida (Rm 5.12-21).